Uma
introdução à dinâmica da oferta de
informação jornalística
(abordagem baseada na Lei de Say)
jornalismo e seus mercados
Hélio
Ademar Schuch *
1)
Resumo
O
objetivo deste artigo é analisar a oferta da
informação jornalística grátis
através de sites, aceitando-se o pressuposto de
que a criação de seu mercado de audiência não
é a demanda, mas sim seu oferecimento, baseado
no pagamento via tempo do usuário, na utilidade
e facilitado pelas condições tecnológicas e
econômicas atuais criação de aparato
com suficiência técnica, barateamento no uso de
tecnologia e, em conseqüência, ampliação no
seu acesso para produção e consumo de produtos
e serviços jornalísticos. Para isto,
aplica-se a Lei de Say.
2)
Introdução
Na Economia
Política duas explicações foram formuladas
para responder a seguinte pergunta sobre a
construção dos mercados: é a demanda que
provoca a oferta de produtos e serviços ou o
inverso? Para Marx (1982) e Keynes (1983) é a
demanda que determina a oferta; para Say (1983)
é a oferta que determina a demanda.
Em resumo, a Lei
de Say estipula que é a oferta que gera
demanda. Ou, como diz Say (1983: 137),
O
homem cuja indústria se aplica em
conferir valor às coisas criando-lhes um uso
qualquer só pode esperar que esse valor
seja apreciado e pago onde outros homens têm
os meios para adquiri-los. Em que consistem
tais meios? Em outros valores, outros
produtos, frutos de sua indústria, de seus
capitais e de suas terras: daí resulta,
embora à primeira vista pareça um paradoxo,
que é a produção que propicia mercados
aos produtos. (grifos
nosso).
A referência de
mercado para os três autores é a
concepção clássica: espaço físico onde se
encontram a oferta e a procura por algum
produto/serviço. Produto é algo físico,
material, que pode ser estocado para consumo
posterior a sua produção; logo, o consumo do
produto não é simultâneo a sua geração.
Serviço é o contrário: não é algo material,
não pode ser estocado e por isso sua geração
é simultâneo ao seu consumo. Portanto, no ramo
jornalístico, serviço existe
somente no momento em que a geração e difusão
da notícia é ao vivo, porque mesmo no virtual
é possível a estocagem de informação
divulgada.
Mercado
é o mercado de informação jornalística, que
é de dois tipos: a) físico, e, portanto de
sentido clássico, formado por bancas de
revistas/jornais e jornaleiros; b) virtual, e,
portanto de sentido moderno, constituído por
computadores conectados a internet, e é este que
nos interessa aqui para fins de pesquisa.
Nestes dois
tipos de mercados a informação é produzida e
oferecida por um número cada vez mais amplo de
veículos para conjuntos de indivíduos, uma
diversidade de audiências consumidores,
usuários, que consomem produtos e serviços
jornalísticos conforme atribuições pessoais de
valor/significado. Aqui é centrado nosso
interesse: é a ampliação da quantidade de
veículos, principalmente via internet, tanto
nacionais quanto estrangeiros, que vai determinar
a oferta de informação e, em conseqüência, o
seu consumo através da utilidade. Ou seja,
quanto maior for o número de veículos, maior
será a oferta de informação jornalística,
logo, maior o mercado de audiência e, por
extensão, maior o consumo desta informação.
É o que ocorre
com a internet que possibilitou a existência do
jornalismo online. Pelo surgimento e
multiplicação de sites de notícias, que nada
mais é do que ampliação da oferta de um novo e
determinado tipo de veículo em relação a
veículos tradicionais, como impressos e
emissoras de rádio e televisão, aumentou,
assim, a oferta de informação jornalística.
Esta realidade mostra um erro de análise diante
da quantidade de informação nas
sociedades. Como diz Taufic (1976:20),
No
seio de uma sociedade
determinada, a quantidade
de informação requerida é
proporcional ao grau de organização que ali
prevalece. Esta é a razão do pandemônio
informativo próprio da sociedade
capitalista em crise de nossos dias
(imagine-se a situação nos Estados Unidos)
diante do sistema informativo dos países
socialistas, cuja ordem é reflexo de uma
economia planificada e um sistema social
racional. (grifo do autor, tradução
nossa).1
Com o
pressuposto de que é a
desorganização, ou seja, o grau de
entropia, de uma economia que gera informação,
este autor conclui que o contrário, uma economia
organizada, teria quantidades
mínimas de informação, proporcional ao seu
grau de ordem. Seu equívoco ocorre
porque sua análise de uma economia de mercado,
ou capitalista, sob o ponto de vista estritamente
ideológico, não científica, portanto, não
contempla a sua dinâmica, baseada, entre outros,
no conceito de demanda e oferta de bens e
serviços, um resultado da competição entre
agentes econômicos.
Em resumo, Marx
e Keynes indicam o fator salário
para determinar a oferta; desta maneira, a
demanda somente existe se é estimulada via poder
de compra. Para os dois autores o capitalismo
estaria fadado a crises exatamente por isso, já
que estruturalmente esta economia gera
automaticamente desemprego, no enfoque de Keynes,
e miserabilidade dos trabalhadores (desemprego e
salários meramente de subsistência, resultando
em pauperização da força de trabalho) no
enfoque de Marx.
Como solução,
Keynes aponta a intervenção do Estado na
economia no sentido de sua regulação; Marx
prevê seu fim, pelas suas contradições. De
fato, o capitalismo é uma economia imperfeita,
restando por isso a necessidade de intervenções
do Estado para regulá-la.
Mas a análise
desta economia deve ter fundamentos sociológicos
(de onde se desprende a economia, a política e
outras esferas da sociedade) e não da física,
e, assim, um conceito do tipo
entropia, derivando para a
cibernética, não cabe para seu entendimento.
Fazendo-se isto, é descartado o que, de fato,
determina algum tipo de produção em uma
economia de mercado: o surgimento e movimento de
agentes econômicos que competem entre si para a
sobrevivência e expansão. Estes agentes podem
também ter intenções políticas, uns mais e
outros menos, e alguns podem se movimentar
somente por interesses mercantis. O que se
enfatiza neste artigo é o econômico como
determinante: a coerção para produção de
informação jornalística é econômica e não o
resultado de uma suposta desorganização social.
Muito menos é ideológica, resultando em
políticas de ação de preferências
políticas, via difusão. Esta concepção,
no entanto, é a que se desenvolve quando não se
tem o mercado de audiência como referência.
Como diz Lins da Silva (2005:48), referindo-se à
imprensa,
O
sentimento anticapitalista encontra todo tipo
de estímulo na atividade jornalística. A
base empresarial da imprensa tem de ser
dissimulada para que ela possa apresentar-se
como campeã de uma totalidade, a opinião
pública. A associação inevitável desse
ramo de negócios com a política e a
cultura, a sua natureza quase que
exclusivamente ideológica, faz surgir uma
contabilidade de prestígio, influência e
poder que projeta sombra sobre a
contabilidade da moeda corrente. Mais
recentemente, a industrialização da
imprensa tornou possível, ao mercado,
regular o que era antes regulado apenas pela
ideologia
Dentro de um
ambiente econômico competitivo, como começou a
se formar no Brasil durante a década de 1990, é
o mercado de audiência que regula a atividade
jornalística através das necessidades
individuais de informação. Isto significa que o
que determina o acesso e compra de
produtos/serviços é alguma atribuição de
utilidade, por isso, a oferta, para ser eficiente
e conseguir seus objetivos, deve se adequar às
exigências deste mercado. É neste sentido que
cabe o termo industrialização,
mencionado pelo autor. Indústria é
a capacidade estrutural de se produzir algo, de
forma contínua e controlável, mas, para que
haja escoamento desta produção, é preciso que
essa tenha enfoque de mercado ou seja, que
seja ajustada à demanda.
Neste sentido,
entendemos que a Lei de Say, com ajustes e
restrições, já que é um texto escrito há
mais de 200 anos, embora clássico, pode ser
aplicada em uma pesquisa que aborde a oferta de
serviços, como se constitui a informação
jornalística virtual, criando mercados de
audiência.
3)
O valor utilidade
É a utilidade
que incentiva e movimenta a demanda. Logo, a
oferta busca esta adequação para satisfazer seu
mercado, proporcionando o que se procura e
criando o que se supõe como necessidade latente,
ainda não manifestada. Segundo Say (1983: 142),
Para
estimular a indústria, não basta o consumo
puro e simples: é preciso favorecer o
desenvolvimento dos gostos e das necessidades
que fazem crescer nas populações a vontade
de consumir, assim como, para favorecer a
venda, é preciso ajudar os consumidores a
obter ganhos que os capacitem a
comprar.
São as
inovações tecnológicas que cadenciam uma
economia de mercado, quanto mais, mais ritmo esta
terá; da mesma forma que é a
especialização do trabalho que define, em
graus, o desenvolvimento de um país, quanto mais
especializado o trabalho, maior o seu
desenvolvimento. Obviamente, uma inovação ou
mesmo criação de ciência e tecnologia tem como
foco o atendimento de uma necessidade, e junto
com ela surge funções especializadas de
trabalho.
A internet não
foi uma inovação, mas uma criação, pois não
se trata meramente de um melhoramento de um
produto ou serviço, o que caracterizaria algo
inovador, mas de uma mudança radical nos modelos
de comunicação até então existentes. São
inúmeras e variadas as funções que a internet
desempenha, mas no jornalismo ela criou o que o
sistema tradicional de impressos nunca conseguiu
e dificilmente conseguiria a possibilidade
de massificação, de fato, de seus conteúdos.
Definindo:
público é um grupo de pessoas que tendem a
homogeneidade segundo critérios como renda,
escolaridade, funções exercidas no mundo do
trabalho, aspirações sociais e econômicas;
massa é um grupo de pessoas que tendem a
heterogeneidade conforme os critérios referidos.
Quantitativamente, por evidência, em uma
sociedade de classes sociais, público é sempre
menor do que massa. Por isso, os mercados de
audiência dos impressos, por suas tiragens, são
constituídos por públicos; já veículos
eletrônicos, como televisão de sinal aberto,
por exemplo, em sua programação jornalística,
têm massa como audiência. A internet, por
definição, é um processo eletrônico de
comunicação de massa no seu acesso
estão misturadas classes sociais e, por
extensão, pessoas que apresentam dispersão nos
critérios citados.
Ao mesmo tempo,
todos podem ter acesso ao mesmo conteúdo de um
site jornalístico, da mesma maneira como ocorre
com algum telejornal tradicional. Claro que um
site pode ter enfoque de mercado de audiência,
como ocorre com alguns canais de televisão a
cabo, e assim ajustando seu conteúdo para um
público-alvo conhecido, ou seja, com gostos,
expectativas e preferências conhecidos e
homogêneos, e com isto conseguir o máximo de
eficiência em satisfação e fidelidade de seu
público. Mas, e no caso de massificação, como
amalgamar conteúdo de informação para
satisfazer uma audiência diversificada? Pode-se
sugerir que é o próprio jornalismo, na forma de
notícias, que traz consigo a capacidade de
produzir interesse e assim utilidade para
qualquer pessoa exposta a ele.
O jornalismo
pode ser dividido em dois níveis: um primeiro,
que os jornalistas não têm controle, que são
as notícias eventos aleatórios da
dinâmica social cujo pressuposto é interesse
para o maior número de pessoas; um segundo, que
são as pautas não-fatuais, escolhidas e
selecionadas segundo critérios jornalísticos,
sim, mas sempre dependendo de controle dos
profissionais, do tipo iniciativa, criatividade,
percepção, inspiração, capacidade de conexão
com outros fatos. Assim, a pauta
não-fatual é criada e administrada, e tem como
pressuposto um determinado público-alvo, ou
seja, ela é gerada para atender o interesse de
informação de determinados grupos de pessoas
(vide apêndice). Mas as notícias, não,
restando apenas o trabalho de garimpagem da maior
quantidade de informações conectadas entre si
para possibilitar o máximo de conteúdo ao
relato. A utilidade da notícia e, em
conseqüência, a satisfação da audiência,
está, desta forma, em sua própria natureza:
atender e satisfazer a curiosidade em torno de um
fato de impacto.
4)
O valor tempo
É certo que
inúmeras vezes os consumidores em potencial de
algum produto serviço são consultados, através
de pesquisas, sobre o lançamento ou inovação
da mercadoria. Mas estas consultas são minoria
em relação ao oferecimento sem consulta
prévia. E Isto ocorre não apenas no caso de
produtos físicos, ou algum serviço, mas também
quando se trata de produção artística.
Certamente os Rolling Stones, ou Beatles, por
exemplo, não fizeram nenhuma pesquisa para saber
se determinada música seria bem recebida pelos
seus públicos. Ou, ainda, produtores de filmes,
teatro, shows e mesmo escritores e outros autores
de arte. Embora todos percebam um público-alvo,
mesmo que seja de forma intuitiva.
O objetivo de
uma pesquisa de opinião é proporcionar
segurança ao produtor (tomador de decisões),
uma certeza matemática. E, de fato,
informações precisas e objetivas são a base
para qualquer tomada de decisão racional. O
efeito esperado de uma consulta é minimizar ao
máximo o risco de erro e, por extensão,
eliminar prejuízos possíveis. Mas o processo de
criação ou inovação de algum produto ou
serviço tem um componente decisivo para o seu
sucesso, quando ofertado no mercado: a empatia.
De forma intuitiva, é possível compreender
muito bem a sua aceitação e o seu consumo.
Claro que intuição implica em riscos, mas que
podem ser minimizados conforme a capacidade do
produtor em imaginar seu mercado de acordo com os
valores (econômicos, políticos, culturais,
sociais) de sua época, ou em outras palavras,
compreender satisfatoriamente o espírito
do tempo e não apenas se colocar no
lugar de alguém. Neste exercício mental o
produtor se assume como tal, como ofertante de
algo, mas também como demanda, ou consumidor,
baseado na idéia-chave da necessidade, latente
ou manifestada.
Entre a oferta e
a procura existe o elo do dinheiro; para o
dispêndio de algo físico é preciso comprá-lo
e por isso a discussão na Economia Política
clássica sobre a relação renda e estímulo da
produção. Mas, e quando há o oferecimento
grátis de produtos e serviços, como acontece
atualmente via internet?2
Onde estaria o
valor buscado pela oferta e concedido
pela demanda? No tempo das pessoas acopladas a
computadores, ou seja, frações de tempo
disponibilizadas para o consumo de informações,
solidificando-se audiências, quantidades de
consumidores e usuários que, se diretamente nada
pagam para os acessos, indiretamente são
compradores potenciais de produtos e serviços
oferecidos pelos banners de propaganda, mas,
principalmente, tornam-se segmentos cativos dos
sites, através dos conteúdos expostos, pagando
com a moeda decisiva na economia virtual
tempo. Porque neste mundo a condição essencial
para a criação de valor e atendimento de
objetivos é o convívio íntimo, e com o máximo
de interação, entre usuário e máquina:
disponibilização de tempo que vai se
transformar em acessos3 e estes no
componente decisivo para a valorização de
ativos econômicos, os próprios sites.
Vejamos o
seguinte: o tempo é determinante para a
produção de valor econômico, já que é a sua
substância. Como diz Marx (1982: 47), em nota de
pé de página,
Conhecemos,
agora, a substância do
valor. É o trabalho. Conhecemos a medida
de sua magnitude. É o tempo de
trabalho. Resta analisar sua forma,
o sinete que se imprime sobre o valor, o
valor-de-troca. (itálicos do autor,
aqui sublinhados).
Este
sinete é mercadoria. Em resumo: a
substância do valor econômico é o trabalho, a
sua magnitude é o tempo de trabalho e a sua
forma é mercadoria. E como diz Say (1983: 139),
Nos
lugares que produzem muito, cria-se a única
substância com a qual se compra: refiro-me
ao valor. O dinheiro desempenha
somente um ofício passageiro nessa troca
dupla; e, terminadas as trocas, verifica-se
sempre: produtos foram pagos com
produtos. (itálico do autor, aqui
sublinhado).
Adaptando o
entendimento de Say pode-se dizer que o
produto do usuário de sites é o seu
tempo disponibilizado no acesso. É uma troca: o
site oferece o produto grátis e o
usuário o consome, pagando com seu tempo. Mas
como este tempo se transforma em valor econômico
para o site? Pelo estoque obtido e que vai se
transformar em seu principal indicador de
sucesso. Afinal, número de acessos e o tempo
dedicado ao site, ou seja, audiência, não é o
que define o êxito ou fracasso do
empreendimento, o que vai rebater no seu valor
econômico, de fato?
O tempo
é a magnitude do valor econômico porque
pode ser mensurado, já que é finito.
Por esta limitação torna-se um patrimônio para
quem o detém e para quem o obtém. Cada acesso
de um usuário significa alguma fração de seu
tempo de vida. Logo, quando um site é acessado,
frações de tempo de vida são transferidas e,
somadas, resultam em um estoque de tempos
de vida que vai definir o valor econômico
do negócio. Em uma economia virtual, o
mecanismo de criação de valor
econômico, portanto, é o tempo, mas não um
tempo materializado, cristalizado, em produtos,
como ensina a economia política clássica, mas o
tempo transferido, do usuário a um site, ou, em
outras palavras, um recurso que a demanda detém
e que cede para a oferta. Estimulada pela
existência deste elemento, a oferta se movimenta
no sentido de criação e disponibilização de
produtos e serviços.
A internet
possibilitou esta transformação do valor
econômico. Aqui não se trata de geração de
produtos físicos, mas de oferta e consumo de
informações, ou seja, utilidades, que são
assimiladas na forma de conhecimento, captadas
para uso mental, e não para outras formas de
dispêndios. Segue análise: primeiro com um site
de busca, e após com sites de notícias, pois
existem componentes que devem ser comparados
nestes dois processos virtuais.
5)
As trocas na internet
Um site de busca
de conteúdo escrito é apenas um esquema
computacional programado para se conectar em
provedores em busca de informações para
oferecimento ao usuário que o acessou e fez a
consulta. Mas estas informações não foram
produzidas pelo buscador, ele é apenas um
intermediário, um repassador. Logo, seu lucro é
a diferença entre o que oferece (informações
de terceiros) e o que recebe (tempo concedido
pelo usuário). Esta troca, no seu sentido
econômico, é desigual: o usuário recebe menos
do que oferece, sim, porque ele pagou com seu
tempo um serviço que apenas foi repassado pelo
site. 4
Repasse
é diferente de produção, deve-se notar.
É certo que a atividade de
repassar exige tempo de trabalho e
logo tem valor, mas também é certo que este
tempo sempre será bem menor, quantitativamente,
do que o exigido na produção. Repassar é mera
transferência; produção é construir algo.
Este pagamento
de tempo acumulado será o que vai sustentar a
posição do site em seu mercado de atuação,
rebatendo não apenas em sua viabilidade, mas
principalmente na sua valorização econômica.
Em sites cujos conteúdos são imagens, tipo
Youtube, o valor econômico do empreendimento é
resultado do tempo dispendido de seus usuários,
que não apenas acessam, mas produzem todo o seu
conteúdo. Vejamos o que diz Keen (2009:124-125),
Os
camaradas do Youtube estão ficando
particularmente ricos. Na segunda-feira, 11
de outubro de 2006 (...) os fundadores do
Youtube, almoçaram com o co-fundador do
Google (...). No fim da refeição, os quatro
homens concordaram que o não-lucrativo
Youtube, com seu staff de 60 engenheiros,
seria adquirido pelo Google por 1,65 bilhão
muito dinheiro para uma companhia em
que amadores criam todo o conteúdo de
graça. Como o Youtube não precisa de
jornalistas, editores, produtores, agentes de
publicidade, pessoal para atendimento ao
cliente ou pessoal de apoio, esse 1,65
bilhão de dólares é virtualmente puro
lucro.
O usuário não
percebe este pagamento, afinal, ele foi atendido
na sua necessidade e adequação de sua
utilidade. E a percepção de que tempo é
valor é apreendida somente quando se
tem em conta a relação custo/benefício e sua
utilidade. Ainda: não existe algo mais certo de
que o recurso mais escasso de uma pessoa é o
tempo, simplesmente porque todos nós sabemos seu
limite. Mas este raciocínio difere entre as
pessoas dependendo do seu tempo de vida e a sua
disponibilidade e graus de racionalidade. Aqui se
deve ter em conta a utilidade: a troca é justa
se, e somente se, para o usuário o custo de seu
tempo for igual ao benefício ou utilidade
(valor-de-uso) da informação obtida.
É senso comum o
entendimento de que a importância da internet é
devido a sua possibilidade de disponibilizar
informações de forma massiva. Mas o que se pode
questionar é o valor, de fato, destas
informações. Que valor estaria aí
constituído? Entretenimento?, correto; de cunho
informativo?, também correto; formativo?, para
trabalhos (pesquisas) de estudantes
este acesso, com efeito, tem grande valor. No
entanto, como informação e conhecimento
adquirem qualidade e veracidade, e daí,
capacidade para alavancar outras ações dos
usuários, somente com custos, a importância
relativa do conteúdo vai depender de seu
dispêndio para gerá-lo.
Um site de
informações jornalísticas é um veículo
virtual que segue a rotina de trabalho e
formação de equipes dos veículos convencionais
tipo impressos e eletrônicos. Pode se constituir
de forma própria e autônoma, ou seja, não se
atrelando ou mesmo não sendo apenas um endereço
de oferecimento do conteúdo do impresso. Pode
até cobrar acesso, mas este custo é
relativamente barato se comparado a produtos
jornalísticos físicos, e ainda pode apresentar
banners de propaganda.
Estas são as
formas de pagamentos, mas no geral, o que impera
é a gratuidade. Pode também, conforme sua
posição, ser isca para a compra do
produto jornalístico que está relacionado a
ele, neste caso, o site configura-se como uma
propaganda. Mercadologicamente os sites repetem
normas e procedimentos dos veículos
convencionais para sua viabilização econômica.
No entanto, a idéia da gratuidade parece ser e
certamente vai se fixar neste mundo virtual.
Mas então, como
se viabiliza economicamente este tipo de
negócio? Pode-se sugerir que a lógica está no
fator de captação de tempo, em um ambiente de
audiência potencial, onde, pelo menos
intuitivamente, se percebe que a demanda se
dispõe, exatamente por ser grátis, da forma
tradicional, ou seja, a consumir o que é
ofertado conforme preferências individuais.
Explica-se: em uma economia de mercado, onde as
relações mercantis são mediadas por pagamento,
a gratuidade não é apenas uma novidade, mas uma
novidade bem-vinda. A internet pode ser
considerada uma destruidora de valor econômico
se for entendida na forma costumeira de se pensar
e medir negócios tradicionais. Mas ocorre que o
que interessa, e o que faz valer um site de
sucesso, não é o retorno financeiro no sentido
até agora conhecido, mas o retorno no sentido de
que a sua estruturação e, por extensão, o
valor do negócio, é o acúmulo de tempo
absorvido de seus usuários. Este é o dado a ser
exibido e que é, de fato, o maior agregador de
valor econômico.
Ao contrário de
um site de busca, onde as trocas são desiguais
entre usuário e a empresa, em um site de
informação jornalística, que se posiciona como
veículo jornalístico de forma autônoma, pode
se considerar o contrário. Isto porque é um
serviço com produção própria de conteúdo e
que é disponibilizado na forma de livre acesso
ao usuário, com as restrições já mencionadas.
É o jornalismo praticamente grátis,
cobrando apenas o tempo de acesso
pelo fornecimento de informações. Mas deve-se
observar: trata-se de um site com natureza
jornalística, ou seja, uma indústria cuja
dinâmica é estimulada pela ocorrência de fatos
noticiáveis e por isso mesmo capaz de suscitar
interesse permanente. Aqui não se trata de
informação armazenada em bancos de
dados, com veracidade discutível, mas de
informações do presente, do passado
imediatamente recente, atualizadas e com autoria
expressa.
6)
Conclusões
Se em uma
economia baseada em bens físicos o que estimula
a oferta é a condição financeira da demanda,
ou seja, renda, conforme Keynes e Marx, no mundo
virtual se percebe, e é o que está sendo
sugerido, que o limitante seria a escassez de
tempo, porque tempo na forma de acessos é o que
pode determinar a criação de valor econômico.
Tempo, no entanto, é o recurso natural de
qualquer pessoa. E, quando conectada a internet,
torna-se uma usuária não apenas potencial, mas
real, com condições de trocar este seu recurso
por informações consideradas úteis.
Assim, não é difícil entender a oferta de
sites de informação jornalística. Aqui, o
mercado de demanda não é de renda,
mas de vidas, cujo substrato é o tempo. Fatores
que ainda apresentam barreiras para o aumento
deste mercado poderiam ser número de
computadores conectados a banda larga, mas isto
está em expansão. Barateamento das máquinas e
acessórios para mobilidade é uma tendência
constante. Ainda, como no setor produtivo o
computador é o centro de qualquer atividade, o
uso do aparelho possibilita, mesmo em poros da
jornada de trabalho, acesso a internet.
Neste ambiente,
o mercado da oferta induz a criação e expansão
de sua própria demanda, conforme a Lei de Say.
Em primeiro lugar, pela gratuidade aparente dos
produtos e serviços jornalísticos, com
utilidade crescente em um ambiente competitivo,
não apenas econômica, mas pessoalmente; em
segundo, também por informações jornalísticas
sobre informática, o que determina estímulo,
aprendizagem constante e dependência do usuário
neste aprendizado; em terceiro, pelo incentivo
para aquisição de computadores via propaganda
(com preços cada vez mais reduzidos e
facilidades de compra) e, sociologicamente, pelo
movimento de mimetismo entre grupos e classes
sociais. E por último, mas não menos importante
(last but not least), pela
elasticidade do mercado desta demanda, porque
todos os usuários são iguais na
capacidade de pagamento, pois possuem
igualmente o mesmo recurso tempo, ao
contrário das restrições, e assim,
inelástico, do mercado pensado por Keynes e
Marx.
É certo que,
como próprio de uma economia de mercado, a
concorrência decide a sobrevivência e a
estruturação dos negócios. Por certo os sites
são enquadrados neste regime de competição e
como qualquer outro empreendimento haverá sempre
o desaparecimento de alguns, o surgimento de
outros e a solidificação de poucos. Neste
sentido, esta economia ainda faz valer suas leis.
Mas o que se enfatiza é que a base de expansão
da demanda para este tipo de oferta se constitui
no recurso tempo das pessoas e não
no recurso dinheiro.
_____
Notas:
[1] O texto do
autor é escrito em espanhol, mas ele usa a
palavra pandemônio em inglês e em grifo para
enfatizar seu ponto de vista. Segundo o
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa,
acessado no site www.uol.com.br, a etimologia da
palavra é a seguinte: ing. pandemonium, palavra
criada por Milton, no Paraíso Perdido(1667) para
designar o palácio de Satã.
[2] A gratuidade
na internet não ocorre somente em sites de
notícias, mas mostra a tendência de ocorrer
também no caso de programas que até agora
sempre foram vendidos, como o Office. Como
anunciou o site Veja.com em 15/7/2009, a
Microsoft a anunciou nessa segunda-feira que vai
oferecer na internet uma versão gratuita do
pacote de aplicativos Office 2010. Tanto a
versão on line quanto a tradicional, que
continuará sendo vendida, devem chegar ao
mercado na metade do próximo ano. O pacote via
internet só poderá ser baixado, porém, por
usuários que já tenham alguma versão do
Office. A medida é parte da estratégia da
empresa para competir com o sistema operacional
do Google, que será lançado a partir do
navegador Chrome.
[3] Uma pesquisa
recente do Ibope divulgada no dia 15/7/2009 e
anunciada pela FolhaOnline mostra que o
crescimento do usuário da internet cresce
significativamente no Brasil. Diz o texto:
O internauta brasileiro navegou uma média
de 44 horas e 59 minutos durante o mês de junho,
o que representa um aumento de 10,6 % em
relação ao mês anterior. O número se refere
tanto à navegação doméstica quanto àquela
feita no trabalho. (...). Em ao menos um desses
ambientes, 33,2 milhões de pessoas estiveram
conectadas. O número, entretanto, é 3,9 % menor
do que o mês passado, quando 34,5 milhões
acessaram a internet. O número total de
usuários com acesso à internet em casa ou no
trabalho é de 44,5 milhões (...). Somente no
âmbito da internet residencial, o tempo de
navegação aumentou 8,1 % e atingiu a marca
inédita de 27 horas e 48 minutos por pessoa,
superando o pico de 26 horas e 15 minutos que
havia sido registrado em março de 2009. O
número de internautas ativos em residências
manteve estabilidade em relação ao mês
anterior e permaneceu em cerca de 25,6 milhões.
A quantidade de pessoas que moram em domicílios
em que há a presença de computador com internet
é de 40,2 milhões. O Ibope informa que projeta
a existência de 62,3 milhões de pessoas com
acesso à internet em qualquer ambiente
como residências, trabalho, escolas, LAN houses,
bibliotecas e telecentros. Entre as dez
subcategorias com maior tempo de navegação por
pessoa, portais registrou o maior
aumento com crescimento de 22 % em relação ao
mês de maio. A categoria foi seguida por
ferramentas de internet, que cresceu
20%. Os e-mails aparecem em terceiro lugar, com
16%. De acordo com o Ibope, entre os dez países
em que é realizada a pesquisa, o Brasil continua
com o maior tempo por usuário, tanto na
navegação em páginas quanto no tempo total,
incluindo programas on-line.
[4] Agradeço
este insight ao professor Rui Seara do
Laboratório de Processamento Eletrônico de
Sinais (Linse) do Departamento de Engenharia
Elétrica da UFSC. Caro amigo e parceiro em
muitas discussões, foi com ele que, explicando o
que eu pensava sobre o tema, surgiu esta idéia.
Referências
bibliográficas
[1] LINS DA SILVA, Carlos Eduardo (2005)
Mil Dias; Seis mil dias depois.
São Paulo, Publifolha.
[2] KEYNES, John Maynard ([1936] 1983)
A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da
Moeda. São Paulo, Abril Cultural.
[3] MARX, Karl ([1867] 1982) O
Capital; (Crítica da Economia Política).
Livro 1: O Processo de Produção do Capital,
Vol. 2, São Paulo, Difusão Editorial.
[4] KEEN, Andrew (2009) O Culto
do Amador. Rio de Janeiro, Jorge Zahar
Editor.
[5] KOTLER, Philip (2000) Administração
de Marketing. São Paulo, Prentice
Hall.
[6] TAUFIC, Camilo, 1976 Periodismo
y lucha de clases. Madrid, Akal Editor.
[7] SAY, Jean-Baptiste ([1803] 1983)
Tratado de Economia Política. São
Paulo, Abril Cultural.
Sites
http://veja.abril.com.br, acessado no dia
15/7/2009.
http://www1.folha.uol.com.br, acessado no dia
15/7/2009.
Apêndice
A
construção de mercados através de pautas
não-fatuais e da opinião
Tomando-se a
atividade jornalística mercadologicamente é
certo dizer que a diferenciação entre veículos
está na oferta de informação e de opinião
criada e administrada, ou seja, em matérias
próprias de cada empresa. Fatos que são
notícias se constituem em propriedade de todos
que fazem parte deste ramo, não havendo aí
possibilidade de algum agente se diferenciar (a
não ser em capacidade econômica e profissional
que se reflita em cobertura; o que se enfatiza é
que o fato noticiável pertence igualmente a
todos os veículos). Mas com informação
produzida através de pautas não-fatuais, isto
é possível, como também com outro tipo de
conteúdo, a opinião através de
articulistas/colunistas/comentaristas. Estes dois
produtos são os que podem ser gerados de forma
exclusiva pelas empresas e por isso são capazes
de afirmá-las, como marcas, no mercado de
audiência.
O conceito capaz
de capturar e manter audiência é a utilidade.
No jornalismo esta idéia raramente é analisada,
e isto tem motivos. Embora base da economia
política clássica, utilidade no seu
sentido contemporâneo está ligada ao marketing,
área de negócios não atraente nos
estudos e pesquisas acadêmicos sobre
jornalismo. No entanto, é o fundamento
para qualquer relação de produção e
negócios, como se constitui a atividade
jornalística. Marketing não é nada mais do que
atuação no mercado. A sua definição, para
Kotler (2000: 30), é,
Marketing
é um processo social por meio do qual
pessoas e grupos de pessoas obtêm aquilo de
que necessitam e o que desejam com a
criação, oferta e livre negociação de
produtos e serviços de valor com
outros.
Como se nota, a
idéia de utilidade está embutida no conceito:
aquilo de que necessitam e o que
desejam. Algo útil ou uma preferência é
uma atribuição de valor que pode ser individual
ou de grupos funcionais ou mesmo de classe
social. De qualquer maneira, sempre será um
produto cuja origem é uma especialidade, ou
mesmo especificidade, para atender determinados
interesses de consumo. É por isso que a
estratégia que melhor pode resultar em
atendimento adequado a estes interesses é o
enfoque de mercado, no caso do jornalismo,
enfoque de audiência, ou, em outras palavras,
adequação estrita ao desejo da audiência.
No jornalismo
impresso não é difícil esta
constatação, basta ir a uma banca de
revistas/jornais e observar os produtos
existentes, principalmente no caso de revistas.
São todas especializadas e mesmo as quatro
revistas semanais de informação hoje existentes
são focadas a mercados determinados. É a
utilidade da informação que norteia os temas
das edições e como um valor agregado, acoplado
ou não aos assuntos editados, a opinião.
Pelas pautas
não-fatuais conjuntos de informação que
procuram esgotar um tema proposto o
jornalismo mostra sua dinâmica própria, pois
aqui independe de fatos noticiáveis, de valor
jornalístico por si só, mas fora de seu
controle para que existam, e sem necessidade de
apelar para fait-divers, tão comuns em sites
noticiosos. É a forma de produzir, em seu
sentido lato, sua própria mercadoria, decidindo
desde sua geração até a formatação para
divulgação, construindo mercados de audiência
próprios para o veículo.
Os veículos
impressos têm maior propensão para este tipo de
produto. A característica de informação
abrangente e com maior complexidade parece ser
melhor ofertada através de uma base física,
como o papel. Mas o jornalismo on-line, embora
relativamente recente, pode e deve oferecer meios
para a reportagem e para a opinião, o que já
ocorre, mas que apresenta condições de maior
intensidade. É a maneira que um veículo tem de
se diferenciar e, por extensão, criar seu
mercado de audiência. Um mercado, como visto,
que tem o tempo como custo de
dispêndio e não dinheiro, e portanto, elástico
por definição.
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Hélio Ademar Schuch es profesor del Departamento de
Periodismo de la Universidade Federal de Santa Catarina, en Brasil y colaborador de SdP.
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