O
Jornalismo entre a dúvida e a incerteza:
reflexões sobre a natureza da atividade
Rogério
Christofoletti *
RESUMEN: El periodismo es
una actividad que, aunque ha consolidado sus
bases, siempre necesita revisar sus
procedimientos para reafirmarse y
fortalecerse como campo social y como
práctica colectiva. Conceptualmente, el
periodismo debe apelar a la filosofía y al
arsenal teórico que esta área le
proporciona. La remisión a Descartes es
estratégica porque incorpora la duda como modus
operandi. Por otra parte, la remisión a
Heisenberg confiere al periodismo
incertidumbres fundamentales. Palabras-clave:
Periodismo Teorias del Periodismo
Filosofía. ABSTRACT: Journalism
is an activity that, although it has
consolidated its bases, always need to
revise procedures in a way
to reafirm and fortify itself as a
social field and a practice of collective
relevance. For this purpose, conceptually,
journalism must appeal to philosophy. The
remission to Descartes is strategical because
it incorporates doubt as a modus operandi
on a daily activity basis. On the other hand,
the recurrence to Heinsenberg is important in
helping to achieve a clearer dimension of
journalism itself. Keywords:
Journalism Journalism´s Theory -
Philosophy. RESUMO: O jornalismo é
uma atividade que, embora tenha consolidado
suas bases, precisa sempre revisar seus
procedimentos de forma a reafirmar-se como
campo de atuação social e a fortalecer-se
como prática de relevância coletiva. Para
isso, ao menos no plano conceitual, o
jornalismo deve recorrer à filosofia e ao
arsenal teórico que esta área lhe
proporciona. A remissão a Descartes é
estratégica porque incorpora a dúvida como modus
operandi no cotidiano da atividade. Por
outro lado, a recorrência a Heisenberg
permite que o jornalismo não se prevaleça
como centro imutável das certezas humanas.
Palavras-Chave: Jornalismo Teorias
do Jornalismo - Filosofia.
Um
das histórias mais conhecidas sobre o tema da
dúvida envolve o Tomé bíblico. Quando
lhe dizem que seu mestre ressuscitara, o
apóstolo rechaça a hipótese, admitindo-a
apenas se constatada pela visão e pelo tato,
sentidos auxiliares da sua razão. Só tocando e
vendo o corpo à sua frente, o homem simples que
vivia como pescador confiaria no retorno de Jesus
à vida. O traço humano mais evidente da
passagem de Tomé pelos quatro evangelhos
a dúvida cristaliza-se em um estigma, e o
discípulo passa a ser conhecido como o
incrédulo, o santo do ver para
crer1.
Similar ao
episódio é a suspeita dos guardas frente
à aparição de um vulto nas cercanias do
castelo de Elsinor, em Hamlet, de William
Shakespeare. Estupefatos, os soldados não crêem
no que se mostra a eles mais de uma vez. O
príncipe da Dinamarca também duvida, até que o
fantasma de seu pai aparece e lhe conta sobre a
própria morte.
Nas duas
histórias, aquilo que é difícil de
aceitar como verdadeiro aparece de forma
sobrenatural: é um anjo ou uma visão,
espírito ou fantasma. Entidades que burlam as
regras da natureza e que se colocam no mundo dos
vivos e das aparências para trazer revelações,
denúncias. Nos dois casos - e em muitos outros
-, a dúvida é a chancela da verdade; a
condição de legitimação de uma suspeita; o
elemento que vai sustentar a assertiva, já que a
coloca em prova: num primeiro momento, a dúvida
reforça a desconfiança, mas depois, serve de
etapa probatória da verdade. Se a afirmação
sobrevive ao teste da dúvida, do questionamento,
ela ganha contornos de verossimilhança,
passaporte para um perfil de veracidade2.
A dúvida é capital para quem busca certezas. A
instabilidade do questionamento e a angústia da
incerteza parecem funcionar como estágios de um
ritual, de um processo de encontro das verdades.
É preciso passar por eles até se alcançar o
conforto, a calmaria da certeza.
Para cientistas,
filósofos ou mesmo jornalistas, certas certezas
são fundamentais. Neste sentido, a dúvida tem
papel importante em suas buscas cotidianas. Para
observar como isso se dá, é preciso, no
entanto, percorrer alguns caminhos ancestrais, a
começar pelo trilhado por Descartes nos séculos
XVI e XVII.
A
dúvida e o método
Os historiadores
da filosofia demarcam que a escola do
racionalismo nasce com Descartes. Isto é, o
estabelecimento de uma conduta humana e de sua
estruturação em pensamento apoiadas na razão
surge a partir das idéias deste francês nascido
no final do Século XV. Mas, para além do que
possamos imaginar hoje, este é um tempo não só
de euforia econômica e de descobertas
marítimas, mas de forte opressão da
Inquisição. E embora a razão constitua
cada homem, a Igreja é quem sempre tem
razão...
Sociável e
inteligente, Descartes freqüenta as cortes e as
rodas intelectuais onde se discutem as idéias de
Galileu e Pascal, que estremecerão as cúpulas
de igrejas e governos. Com nítido talento
matemático, Descartes se dedica a estudos da
área, mas aventura-se (com êxito) na Óptica e
Biologia, contribuindo com seus insights e
modelos explicativos. Alguns que se mantêm até
hoje, conforme se pode ver nas neurociências. O
filósofo será o primeiro a defender o conceito
dual de corpo e mente, propondo um lugar para
ela. As bases cartesianas vão nos permitir
quatro séculos depois discutir noções como
consciência, emoções e ações voluntárias
(cf. DAMÁSIO, 1998)
Em 1619,
Descartes passa um inverno aquartelado em Ulm,
Neuburgo, onde acaba se relacionando com o
matemático Johannes Faulhaber, que já havia
publicado obras relacionadas à aritmética e à
Ordem Rosa-Cruz. Para Stephen Gaukroger, que
escreveu o que chamou de biografia intelectual de
Descartes, este encontro marcou o início
de sua teoria geral do método
(1999:145).
É a partir daí
que o filósofo francês passa a trabalhar nas Regulae
ad directionum ingenii (Regras para a
direção do espírito), que só seriam mesmo
publicadas após a sua morte. Na verdade, elas
não foram redigidas para que fossem editadas,
embora o tivessem sido apenas em 1684, em
holandês. Entretanto, mesmo que o público não
tivesse tido acesso às regras, seu autor já
estruturava seu pensamento num corpo coerente de
pensamentos: as regras primavam pela unidade do
conhecimento, alertavam para a necessidade de um
método para dirigir as ações humanas, e
explicitavam as etapas desse método. Segundo
elas, assuntos complexos deveriam ser decompostos
em outros mais simples, e depois separados em
absolutos e relativos, comparando-os3.
É interessante
perceber como a questão do método envolve
Descartes, a tal ponto de colocar estudos e
pesquisas que deveriam ser figuras de proa em sua
produção em segundo plano, principalmente na
década de 30 do século XVII. Na primavera de
1635, o autor passa a trabalhar no Discours de
la Méthode, que deveria ser um prefácio a
outros dois ensaios: Dioptrique, um
tratado prático para construção de
instrumentos ópticos, e Météors, obra
composta por discursos acerca dos fenômenos
meteorológicos. O prefácio ganhou corpo e
acabou absorvendo os trabalhos precedentes, que
se tornaram acessórios. O Discurso do Método
se transformou na obra mais importante de
Descartes e na pedra de fundação da filosofia
da consciência.
A importância
da incursão de um método precisa ser
dimensionada no seu contexto histórico. O
século XVII ainda respira as névoas do
obscurantismo europeu, a Igreja domina a
civilização ocidental, dando a ela sua
conformação e base. Em termos paradigmáticos,
a grande influência metodológica ainda era
Aristóteles, passados já dois mil anos4.
É neste cenário que se deve considerar o peso
da pedra que Descartes atira sobre o lago do
pensamento humano.
Dentro
do universo cartesiano, nenhuma crença resiste
ao processo de dúvida. O questionamento é o
motor, o primeiro toque. Descartes vê no ato de
duvidar uma outra ação: pensar. Para ele, a
consciência está no ato do pensamento. Para
ele, não é possível separar a prática de um
ato de consciência de ter consciência
propriamente. Aí, sim, chega-se a algo
indubitável. E como toda ação pressupõe um
agente, temos aí o nascimento do sujeito da
consciência. Para Raul Landin Filho (1996), a
descoberta da indubitabilidade do enunciado
Eu penso e, por extensão, o
reconhecimento da prioridade dos atos mentais
sobre os atos que envolvem o corpo ou os objetos
externos à mente é um dos mais importantes
legados da filosofia cartesiana.
É
a partir da dúvida que os objetos e as
realidades vão se configurar no prisma
cartesiano. Quando se pensa e se pensa que se
está pensando algo, temos ali uma consciência
pensante, uma unidade chamada sujeito. Tudo o que
está exterior a ela é extensão do mundo. Para
investigar cada objeto, é preciso duvidar,
pôr-se a questionar. O apego a este método dá
a segurança que os racionalistas precisam. Se o
método não dá solução de tudo, ele pelo
menos ajuda a encontrá-la.
Jornalismo
e cartesianismo
O Jornalismo
busca certezas. O relato dos acontecimentos mais
importantes de uma comunidade precisa ter uma
correspondência clara com o que se pode
considerar como a real ocorrência dos fatos.
Não se admite um descolamento entre o informe e
a situação relatada. O Jornalismo existe para
dar conta do real, conter o que de mais
importante aconteceu, mostrar o que é relevante,
denunciar o que está encoberto, organizar
de certo modo o caos sígnico onde homens
e mulheres estão mergulhados. Jornalismo se
apóia em narrativas cotidianas, que se
diferenciam das encontradas na literatura pelo
seu estatuto de veracidade. Isto é, as
histórias que nos chegam pelos jornalistas devem
estar lastreadas a verdades. Ou por porções bem
generosas delas.
Este apego
à verdade tem evidente inspiração nos
campos da ciência e dos saberes totalizantes. A
preocupação de cientistas de verificar a
confiabilidade de certas teorias, de tentar
explicar fenômenos com modelos, de testar
hipóteses até chegar a formular regras físicas
de funcionamento do universo é reeditada no
Jornalismo. Numa escala menor, é claro, e com
outros estatutos de rigor metodológico.
Jornalistas se preocupam em verificar a
autenticidade de certas versões dadas por suas
fontes de informação; tentam explicar
acontecimentos, muitas vezes, apoiados em
diagnósticos de especialistas; retornam a alguns
assuntos e instigam os envolvidos para se
certificar que tais relatos foram os mais fiéis
à realidade.
Tal como
historiadores, arqueólogos e geólogos,
jornalistas preocupam-se com a reconstituição
de certos cenários e episódios acontecidos no
passado. Voltam às fontes, recorrem a
documentos, perseguem vestígios, confrontam
versões, observam discrepâncias. Cercam-se de
certezas para refazer a situação enquanto
relato. Como quem monta um quebra-cabeças,
jornalistas se ocupam de encontrar peças que
possam se encaixar e que permitam uma visão mais
abrangente do todo (ou da parte que mais
interessa). O problema é que nem sempre temos
acesso a todas as peças ou até mesmo às
mais importantes. Outro impasse é que não é
sempre que o montador encontra condições
(profissionais, operacionais, de competência, de
interesse) para se debruçar sobre aquele jogo.
Sobram peças embaralhadas e um desenho
incompleto...
O vínculo
umbilical com a busca da verdade é um
traço do Jornalismo na sua definição
hegemônica atual. Mas subjaz nesta procura uma
outra semente: a dúvida. O questionamento
permeia a atividade cotidiana dos profissionais,
seja sob a forma das perguntas em uma entrevista,
seja sob a mais banal abordagem de um repórter.
Jornalistas são pessoas que perguntam, que
tentam saber coisas, que buscam dados para
transmiti-los adiante. A dúvida está entranhada
na rotina das redações, impressa nas paredes
dos estúdios, tatuada no bloco de anotação que
repousa no bolso do repórter.
Esta assertiva
mais parece uma banalidade para quem acompanha o
fazer jornalístico, mas é fundamental que
se a compreenda como uma questão de método. No
Jornalismo, a dúvida orienta os demais
procedimentos metodológicos. Neste sentido, não
é exagero admitir que o Jornalismo serve-se de
fontes cartesianas para se constituir enquanto
campo autônomo de fazer, ser e compreender a
realidade.
Mas o método no
Jornalismo é algo recente. O Jornalismo
só surge como técnica na virada do
século XIX para o XX. A expansão capitalista
permite que se desenvolva nos Estados Unidos e em
alguns países da Europa uma indústria dos
jornais, coletivo que vai precisar se estruturar
para atender à crescente demanda por
informações na sociedade industrial
contemporânea.
Tais
modificações vão se dar tanto nos aspectos
fabris com o desenvolvimento de novas
máquinas e equipamentos e uma reengenharia nas
plantas dos parques gráficos quanto nos
relativos à participação humana no processo
produtivo. Assim, implanta-se nas redações um
sistema fordista-taylorista5,
padroniza-se uma série de procedimentos na
confecção das notícias e na logística de sua
distribuição6, estabelece-se uma
rotina operacional (com horários de fechamento
em conformidade com a capacidade de produção da
gráfica), definem-se linhas editoriais e
estruturas para o texto jornalístico.
As linhas
editoriais tornam-se guias internos das empresas
e, mais tarde, vão redundar em manuais de
redação e estilo, que sinalizam como se pratica
Jornalismo naqueles veículos. O lead é
desenvolvido e se impõe como padrão de
organização das informações num relato
escrito. Alguns padrões de conduta vão se
cristalizando entre os jornalistas e isso ajuda
na definição de um ethos profissional,
no desenho de um perfil mínimo deste
trabalhador. Os valores morais e éticos vão
emergindo: o apego à verdade, a defesa da
liberdade de expressão, a preocupação com a
correção da informação, uma atitude perene de
desconfiança, um senso crítico frente ao mundo
e às pessoas, o compromisso com a fiscalização
dos poderes, a independência editorial, um
contínuo questionamento sobre as versões e
sobre os fatos...
Esses valores
morais vão desdobrar certos procedimentos, como
a checagem muitas vezes exaustiva - das
informações, a confrontação de versões e a
investigação jornalística. Em todos eles,
está difusa a dúvida, a indagação sobre
a veracidade e a sustentação real de falas e
acontecimentos.
São muitas as
correspondências entre as leis cartesianas para
bem conduzir um espírito (ou uma mente) e as
regras para se exercer bem o Jornalismo (ou de
uma forma próxima da ideal). No Discurso do
Método, Descartes aponta que assim como um
Estado se governa bem com poucas leis, ele se
impunha a observância de quatro preceitos em seu
percurso filosófico (cf.: 1977:35):
- Não
receber como verdadeira qualquer coisa
que ele não conhecesse evidentemente
como tal;
- Dividir
cada dificuldade que examinasse em tantas
parcelas mais fáceis a fim de
resolvê-las;
- Conduzir o
pensamento por uma ordem crescente de
dificuldade, partindo dos elementos mais
simples até os mais complexos;
- Fazer
revisões gerais e retornar a certos
pontos diversas vezes para se certificar
de que nada ficou para trás.
As
gramáticas jornalísticas têm forte acento
cartesiano na medida em que orientam os
profissionais a:
- Não
aceitarem versões sem as checar
devidamente, sempre duvidando do óbvio e
cercando-se de provas ou indícios que as
sustentem;
- Sistematizar
as informações coletadas, agrupando
campos de dados relativos a certos
assuntos, formando assim retrancas de
textos ou blocos de interesse;
- Hierarquizar
as informações, trazendo de imediato os
dados mais essenciais, mais importantes e
desdobrando os detalhes acessórios e
mais aprofundados depois, na autêntica
estrutura de pirâmide invertida;
- Cuidar para
que nada de relevante no assunto deixe de
ser tratado na matéria.
O que se
percebe, além da clara correspondência
entre as diretrizes de um lado e outro, é a
condução do processo de busca da verdade em
nome da clareza, da nitidez e da distinção de
cada parte do todo a ser apreensível.
Tanto no método
cartesiano quanto no dos jornalistas,
decomposição e de síntese estão a serviço da
melhor compreensão de uma idéia ou uma
história. Em ambos, o encadeamento das
informações (simples e complexas) se organiza
para melhor transmitir um conteúdo, e
repassá-lo sem uma veracidade suspeita. A
dúvida é o princípio do trabalho, mas não
pode ser um dos dividendos da busca.
Tanto no
Jornalismo como nas Regulae ad directionum
ingenii (Regras para a direção do
espírito) de Descartes, a intuição tem o seu
papel, mas sempre a sua atuação se dá a
serviço do trabalho racional de encontro da
verdade, da informação fidedigna, da melhor
maneira de se contar como algo aconteceu.
Jornalistas e filósofos têm feeling,
têm faro, intuem sobre determinados casos ou
questões. Mas intuir é cismar, é operar sobre
o imaginável, é indagar e, portanto, agir numa
sucessão de pensamentos e organizações
racionais desses objetos. Na Regra 10 das Regulae,
o pensador francês critica a tentativa de se
descobrir verdades por meio de silogismos, o que
seria exercer mais a dedução do que testar
hipóteses e chegar à essência do que se busca.
No Jornalismo, deduzir, muitas vezes, significa
pré-julgar, definir razões sem ao menos
verificá-las, o que também é uma prática
condenável, sendo rechaçada pela categoria.
Diante disso,
não é demais considerar o Jornalismo
como um signatário do cartesianismo. O
Jornalismo nasceu e se desenvolveu no rastro do
capitalismo, cresceu alimentado pela forma de
vida das sociedades industriais, fortaleceu-se
com a organização positivista dos saberes e
amadureceu com a implementação de uma
racionalidade moderna. A raiz cartesiana,
portanto, não lhe é um fardo, é um traço
constitutivo da sua natureza.
Heisenberg
e a incerteza
Se a dúvida era
uma noção cara a Descartes no século XVII,
trezentos anos mais tarde, ela vai permanecer no
centro do debate intelectual. Mas com uma nova
roupagem, sob um sinônimo mais elegante e num
campo mais definido: a Física. Em 1926, Werner
Heisenberg arrepia os cabelos das mentes mais
brilhantes da ciência mundial com o seu
Princípio da Incerteza. Na tentativa de cobrir
lacunas na Teoria Quântica, a explicação
pretendia dar conta da velocidade e da
localização de um elétron num átomo.
Segundo o
princípio, quando se observa um átomo,
não é possível determinar onde
está e a quanto viaja um elétron em sua
órbita. Sabe-se que ele está lá, que se move
ao redor de um núcleo formado por outras
partículas, mas, em escala subatômica, é
incerto assinalar tais valores. O fato de
existirem limitações dessa ordem, impostas pela
própria teoria à medida de, por exemplo,
posições e momentos de partículas perturbou
profundamente Einstein, afirma Jeremy
Bernstein (1991:158). Curioso é que o próprio
Heisenberg relatou ter tido inspiração para
formular o Princípio da Incerteza a partir de
uma conversa que teve com Albert Einstein na
metade dos anos 20.
Heisenberg
ainda achava que Einstein sustentava as
concepções positivistas preconizadas por
Mach a idéia de que todas as
quantidades que integram uma teoria física
devem ter definições
operacionais, em termos de instrumentos
de medida que caracterizaram a
análise conducente à teoria especial.
Não se dera conta de que Einstein havia
abandonado essa posição muitos anos antes,
quando procurava formulação final para a
teoria da gravitação. Assim, grande foi o
espanto de Heisenberg, quando Einstein
indagou: Mas você acredita seriamente
que só magnitudes observáveis devem
integrar uma teoria física?
(Bernstein, idem)
Heisenberg
respondeu que o próprio Einstein havia
raciocinado daquela forma a respeito da
relatividade anos antes. Mais especificamente
sobre a natureza do tempo e a impossibilidade de
existir um tempo absoluto, já que ele seria
inobservável. Em sua autobiografia, Heisenberg
reproduz a resposta que teria provocado um
clarão em seu cérebro, abrindo caminho para a
solução do Princípio da Incerteza:
É possível
que eu tenha usado esse tipo de raciocínio
admitiu Einstein -, mas ele é
absurdo, de qualquer maneira. Talvez eu possa
expressá-lo de maneira mais diplomática,
dizendo que é heuristicamente útil ter em
mente o que de fato se observou. Mas, em
princípio, é um grande erro tentar
fundamentar uma teoria apenas nas grandezas
observáveis. Na realidade, dá-se exatamente
o inverso. É a teoria que decide o que
podemos observar. (1996:78)
Numa certa
madrugada de 1926, Heisenberg tornou a se lembrar
da frase que invertia os pólos de seu pensamento
até então. Para ele, um cientista que
investigava os movimentos da natureza, as medidas
é que davam as certezas. As medidas é que
ajudavam a explicar os fenômenos com
convicção. Em outras palavras, o método
produzia a certeza, a verdade, solucionava
problemas. Tal como Descartes, trezentos anos
antes! Mas se para o filósofo francês a dúvida
deu sustentação ao método, para o físico
alemão, o método mostrava-se insuficiente para
dar a certeza.
Cientista com
disposição atlética, Heisenberg quis caminhar
naquela madrugada pelo Parque Faelled, em
Copenhague. Precisava pensar sobre tudo aquilo.
Mentalmente, passou a revisar cada um dos passos
dos testes que fazia no laboratório, onde
tentava observar a trajetória de elétrons numa
câmara de nuvem. Num dado momento, fez-se a
pergunta: A mecânica quântica pode representar
o fato de um elétron estar aproximadamente num
lugar e a uma certa velocidade? (É importante
perceber que Heisenberg disse
aproximadamente. Isto é, com certa
imprecisão, sem valores absolutos, com algum
grau de certeza, mas não toda. Eis a incerteza!)
Horas depois, de volta ao laboratório,
Heisenberg debruçou-se sobre cálculos que logo
atestaram que era possível se chegar a uma
proposição que lhe servisse7.
A fórmula era a
ponte necessária entre as observações da
câmara de nuvem e a linguagem matemática da
física quântica. É claro que ainda
faltava provar que qualquer experimento estaria
de acordo com o Princípio da Incerteza, mas isso
era uma segunda etapa. Afinal, Einstein não
disse que a teoria é quem decide o que se deve
observar?
Para a física
quântica, as partículas subatômicas não
obedecem às leis da física clássica.
Elétrons, por exemplo, podem existir como duas
coisas diferentes: tendo aspecto de matéria e de
energia. Nesta nova Física, a luz é partícula
e é onda, já que tem freqüência e se propaga
em ondas e é formada por ondas-partículas, isto
é, quanta. Essa ambigüidade da Teoria
Quântica perturba a lógica linear e monolítica
da Física clássica, o que ainda provoca atritos
entre os pesquisadores.
No caso
específico de Heisenberg, sua proposição deixa
evidente que nem mesmo as medidas podiam
assegurar certeza total em níveis subatômicos.
Por exemplo, elétrons são partículas tão
minúsculas que
independentemente
de como se tentava aferir seu comportamento,
a forma de efetuar a medição afetava esse
comportamento. Caso se lançasse luz sobre um
elétron, de modo a se poder
vê-lo, isso inevitavelmente o
colocava fora de curso, afetando sua
velocidade ou sua posição. (cf. Strathern,
1999, p.74)
A instabilidade
provocada pelos avanços da Teoria Quântica
incomodou até mesmo Einstein, o mais
notório dos cientistas numa época de
revoluções na área. Deus não joga
dados!, repetia a quem teimasse atestar a
validade do Princípio da Incerteza. Não poderia
ser diferente. Ele passara a vida investigando o
mundo objetivo com coordenadas de tempo e
espaço, segundo leis exatas que ignoravam a
existência e interferência humana. Desde que
Galileu disse que o livro da natureza fora
escrito em caracteres matemáticos, tinha-se como
certo que esta linguagem representava o mundo
objetivo e isso permitir aos físicos fazer
afirmações sobre o futuro comportamento desse
mundo. Agora, dentro do átomo, esse mundo
objetivo do tempo e do espaço nem sequer
existia, e os símbolos matemáticos da física
teórica referiam-se a possibilidades, e não a
fatos (Heisenberg, 1996: 98).
Esta
discussão que parece
intrínseca aos embates epistemológicos da
Física envolve, na verdade, muito mais
terreno. Tem relação com objetividade, certezas
e verdades de um lado; e com instabilidade,
dúvida e subjetividade, de outro.
O advento do
Princípio da Incerteza é apenas a ponta
visível de um iceberg de crises
paradigmáticas. Abaixo dela está uma montanha
de questionamentos a certezas antes inabaláveis,
que logo virão à tona. O anúncio de Heisenberg
provoca uma fissura perigosa no colosso das
certezas universais porque revela a fragilidade
destas convicções. Por essa trinca, pode-se
entrever insegurança, instabilidade,
desconforto. Permanece uma sensação
desagradável parecida com uma vertigem, que traz
consigo falta de discernimento, inexatidão,
imprecisão.
O
Jornalismo entre a dúvida e a incerteza
Um dos cânones
do Jornalismo é a exatidão das informações, a
correção dos relatos, a fidelidade do informe
com o acontecido. O mundo do Jornalismo (sua
função social, sua justificativa ética e boa
parte de seus procedimentos técnicos) se
sustenta na crença e nos esforços dos
profissionais para reportar com precisão. Esta
atividade moderna se expandiu no mundo e
consolidou-se enquanto campo autônomo na esfera
pública à base do compromisso do jornalista com
a verdade e com seus detalhes. Imaginar o
Jornalismo como uma máquina distribuidora de
incertezas e ambigüidades é mesmo muito
difícil para o imaginário popular. Que dirá
para quem está diretamente ligado à reflexão e
à manutenção desse valor?
Tal como os
paradigmas científicos, as bases do Jornalismo
também sofreram abalos no último século. Sua
habilidade em relatar objetivamente os fatos é
questionada; pairam dúvidas sobre sua capacidade
de manter isenção editorial frente a pressões
políticas e de mercado; e mesmo o próprio
conceito de verdade com o qual o
Jornalismo trabalha é, hoje,
desacreditado. Com pilares desgastados, o
Jornalismo se vê diante de quatro cenários
distintos, mas que têm correlação mútua:
- O perigo de
um fracasso enquanto ideal de função.
Com a crise dos valores que o formam, o
Jornalismo corre o risco de não
satisfazer a seus imperativos éticos e
de não funcionar como esperado. Se
repórteres não relatam os fatos com a
veracidade anunciada, qual a sua função
numa sociedade ansiosa por informação?
- A
proximidade de uma grave crise de
confiança. Há décadas, crescem e se
disseminam as críticas aos veículos de
comunicação e aos profissionais
envolvidos no processo informativo. Este
é um sintoma claro de que algo não vai
bem. Com o aprofundamento nas
indagações sobre os valores que servem
de base para o Jornalismo, a tendência
desta crise se tornar crônica é mais
real. Como conviver com as pressões e
expectativas de um público cada vez mais
ciente de seus direitos à informação e
mais conhecedor do funcionamento do circo
da mídia?
- A
emergência de mudanças estruturais e de
revisão de paradigmas. A decorrência
natural de uma situação constante de
cobrança é a tomada de atitudes mais
concretas. Assim, repórteres, redatores
e editores devem se sentir instados a
mudar, buscando novos procedimentos,
estabelecendo outras rotinas de trabalho
e mesmo rediscutindo padrões
deontológicos.
- O temor de
uma convivência com elementos estranhos
à sua gênese, mas que
já contaminam seus alicerces. Se a
velocidade e o processo de acumulação
dos acontecimentos atropelar o poder de
aglutinação da categoria e inviabilizar
muitas das mudanças pretendidas, o
cenário é desalentador. Além de
precisar se adaptar a novas condições,
os profissionais terão ainda que se
habituar a práticas que já corroem as
fronteiras de delimitação do
Jornalismo: a cada vez mais freqüente
confusão entre informação e
entretenimento, a ditadura da medição
da audiência, a prevalência das leis de
mercado como reguladoras de litígios, o
embaçamento do limite entre Jornalismo e
Publicidade...
Qualquer que
seja o cenário a ser enfrentado pelo Jornalismo,
uma condição é subjacente: valores como
objetividade e verdade precisam ser reavaliados.
Não há como contornar o impasse. O
Jornalismo precisa enfrentar a discussão sobre
sua relação como mediador social, repensando o
que é um relato preciso, o que significa
reportar fatos com objetividade. Se o Jornalismo
se ocupa de certezas, e se as indagações acerca
da participação da subjetividade emergem com
força crescente, não mergulhar nesta busca pode
comprometer ainda mais a função desse campo
profissional. Se até mesmo os cientistas vêm
mergulhando nestas escuras águas, por que
jornalistas que sempre se espelharam nos
primeiros para definir método e conduta
iriam se esgueirar?
Heisenberg
reflete sobre a dose de subjetivismo presente em
suas contribuições. Segundo ele, a teoria não
contém características subjetivas genuínas.
Mas ela começa
pela
divisão do mundo em
objeto e o resto do mundo e,
também, do fato de que, pelo menos para o
resto do mundo, utilizamos
conceitos clássicos em nossa descrição.
Essa divisão é arbitrária e,
historicamente, uma conseqüência direta do
método científico; a utilização de
conceitos clássicos é, afinal, uma
conseqüência da maneira geral de o ser
humano pensar. Mas isso já constitui uma
referência a nós mesmos e isso na medida em
que nossa descrição não é completamente
objetiva. (1999: 82)
A
divisão entre subjetivo e objetivo, portanto,
parece ser mais complexa do que se supõe,
acredita o físico alemão. As fronteiras que
separam os dois latifúndios parecem mais
porosas, crivadas de entradas e saídas, através
das quais acontece uma mútua contaminação. De
acordo com o mesmo Heisenberg (op.cit.:
112-113), a divisão cartesiana sobre o
pensamento humano dificilmente poderá ser
exagerada, e é justamente o que se deve
criticar. Ele prossegue, lembrando que, segundo a
interpretação dos cientistas que como ele
trabalhavam em Copenhague, é possível falar de
Teoria Quântica sem se mencionar como
indivíduo, embora não se possa ignorar que a
ciência é feita por pessoas, que trazem consigo
traços de subjetividade.
A ciência
natural não se restringe simplesmente a
descrever e explicar a Natureza; ela resulta
da interação entre nós mesmos e a
Natureza, e propicia uma descrição que é
revelada pelo nosso método de questionar.
Essa foi uma possibilidade que não poderia
ter ocorrido a Descartes, mas que torna
impossível uma separação bem nítida entre
o mundo e o Eu. (op.cit.:115)
Já se
disse aqui que o Jornalismo tem raízes
cartesianas, e que esta condição ajuda a dar os
traços distintivos de sua natureza. Já se disse
também que há uma crise de paradigmas na
ciência e no próprio Jornalismo, o que provoca
inquietações de lado a lado. Afirmou-se ainda
que as contribuições de Descartes funcionam
como fundações para a construção moderna do
pensamento ocidental. Ao mesmo tempo, apontou-se
para a necessidade de viver a crise de valores e
de perceber que, mesmo na ciência, saídas
estão sendo buscadas. O Princípio da Incerteza
é um exemplo da engenhosidade do raciocínio e
uma forma de como pontes entre razão e empirismo
podem ser construídas.
Neste percurso
reflexivo, proponho não descartar Descartes, mas
enraizar Heinserbeg. Como o Tomé bíblico,
alimento minhas suspeitas com perguntas.
Até chegar às respostas se não
definitivas, pelo menos mais acalentadoras -,
será preciso duvidar mais e mais, pois este é o
motor da busca do conhecimento. Entretanto, com
uma tolerância maior no convívio com a
incerteza.
___________
Referências:
BERNSTEIN, Jeremy. As
idéias de Einstein. São Paulo: Cultrix,
1991
CHRISTOFOLETTI, Rogério. A medida do olhar:
autoria e objetividade na reportagem. Tese de
doutorado. ECA/USP, 2004
DAMÁSIO, António. O erro de Descartes.
São Paulo: Cia das Letras, 1998
DESCARTES, Renée. Discurso do Método.
Sintra: Publicações Europa-América, 1977
Gaukroger, Stephen. Descartes: uma biografia
intelectual. Rio de Janeiro: Editora da UERJ
e Contraponto, 1999
HEINSENBERG, Werner. A parte e o todo. Rio
de Janeiro: Contraponto, 1996
HEINSENBERG, Werner. Física e Filosofia.
Brasília: UnB, 1999. 4ª edição
LANDIN FILHO, Raul. O destino da revolução
racionalista. Folha de S. Paulo. São
Paulo, 24 de março de 1996. Mais! p.11
STRATHERN, Paul. Bohr e a teoria quântica em
90 minutos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1999
_____
Notas:
*
Rogério Christofoletti e doutor em Ciências da Comunicação,
vice-coordenador do Mestrado em Educação na Univali, Brasil. Autor de Ética no
Jornalismo (Ed. Contexto, 2008), entre
outros, e de artigos no Brasil, Portugal, Peru,
Colômbia e Equador. Es colaborador de SdP.
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