Comunicação,
folclore e globalização
Sebastião
Geraldo Breguêz *
A
palavra globalização (mundialização para os
europeus) está na ordem do dia dos grandes
debates realizados não só nos meios acadêmicos
por economistas, comunicadores, sociólogos e
antropólogos, mas também pelo público em
geral. Há uma tendência a reduzir a causa de
todos os grandes problemas enfrentados pelas
sociedades de hoje à globalização. Mas a
globalização entendida como interpenetração
de culturas, modos de pensar, agir, sentir e
consumir, não é só fruto das transformações
do modo de produção capitalista,
principalmente, na década de 90. É o resultado
de um processo cumulativo de mudanças que
tiveram início há séculos atrás. As viagens
de Marco Polo ao Oriente e seu relatório de
viagem publicado depois, talvez, seja o início
da integração do mundo em um mercado consumidor
de produtos e serviços. Depois, no século XV,
com as navegações, que alterou a geografia do
mundo, a criação da imprensa por Gutemberg e o
mercantilismo - estas alterações modificaram o
processo global de integração mercadológica e
cultural. O objetivo, deste artigo, assim, é
fazer uma re-leitura do pensamento deMashall
McLuhan (teórico canadense) - o primeiro
estudioso da Comunicação a falar em Aldeia
Global e as mudanças na cultura e sociedade no
século XX.
Os
meios de comunicação de massa estão destruindo
o folclore ou a sociedade está sendo formada por
uma só cultura?1
A evolução
gradativa e posteriormente acelerada do modo de
produção capitalista a partir da Revolução
Industrial provocou sérias mudanças no contexto
global do século XX. De uma sociedade onde a
organização social e político-econômico era
artesanal, agrícola e feudal, passamos a uma
sociedade cuja economia e instituições radicam
essencialmente na indústria e na produção em
grande escala. Essa mudança de infra-estrutura
provoca, pro sua vez, mudanças na
super-estrutura, pois ambas estão em ampla
interação, modificando toda ideologia, valores,
modos de pensar, agir e sentir, modos de ver as
coisas, sem falar do próprio ambiente
ecológico. Foi o surgimento da Sociedade de
Consumo. A Revolução Industrial iniciada na
Europa e exportada para vários outros países do
Mundo foi constituindo, na medida de seu
desenvolvimento, fases avançadas processo
industrial onde, por exemplo, hoje o mundo
inteiro se integra progressivamente num mercado
de consumo internacional, buscando cada vez mais
enormes gamas de bens. A sociedade de consumo deu
primazia ao homem consumidor e todas as classes
sociais foram chamadas a consumir.
Os produtos são
baratos, pois são feitos em larga escala,
atendendo a uma enorme variedade de consumidores
com diversos "status" e poder
aquisitivo. Paredes de propaganda, anúncio de
jornais, rádios, televisões, cinemas, tudo a
fazer a apresentação da cultura de massa e de
seus produtos. Os anúncios, as relações
públicas, a doutrinação, o obsoletismo
planejado não são mais custos improdutivos e
sim elementos básicos da produção. Essa
sociedade tecnológica se caracteriza, ainda,
pela automação progressiva do aparato material
e intelectual que regula a produção, a
distribuição e o consumo. Um aparato que se
estende também às esferas tanto particulares e
públicas mas suas esferas políticas,
econômicas e culturais. O aparato tecnológico
(no qual as ciências se converteram em fatores
necessários para o processo de produção e
consumo, principalmente a matemática e também a
psicologia e a sociologia) alcança um grau de
produtividade no trabalho que torna possível o
aumento do nível de vida a uma larga escala da
população que antes se considerava "não
privilegiado".
Nascida nessa
época, como fruto da infra-estrutura
capitalista, a Cultura de Massas, reúne culturas
diferentes e serve de elo de ligação entre
essas culturas numa constante interação,
englobando a um só golpe a cultura popular (ou
folclore) e a cultura erudita.2
A Cultura
popular pertence estruturalmente a uma classe
social definida dentro do sistema de produção
capitalista, que é o povo, com seus modos de
pensar, agir e sentir e comunicar seu universo
cultural. Aqueles que apenas tem acesso aos modos
de produção capitalista e não posição de
mando ou de influência.3
A cultura
erudita, dos letrados, dos burgueses, pertence a
uma classe social, também definida e
caracterizada pelo modo de produção capitalista
que são os proprietários dos meios de
produção. Aqueles que apenas têm posição de
mando e determinam os próximos rumos culturais,
políticos e sociais, que por serem determinados
pela infra-estrutura econômica estão sujeitos
à ela4. A evolução histórica do homem
sempre deu destaque a dois tipos principais de
conteúdos culturais. A popular ou folclórica
alicerçada num processo empírico e iletrado de
acumulação de experiência e inovações
transmitidas de pai a filho, de irmão a irmão,
cuja transmissão é pela vivência, é oral e se
baseia na proximidade. A cultura erudita, ao
contrário, é alicerçada com bases letrada, em
normas científicas, em relação de causa e
efeito.5 Até a época de Gutemberg o
patrimônio cultural da humanidade era
transmitido e difundido em esferas muito
estreitas e distantes uns dos outros. A cultura
erudita era iniciada somente aos filhos da
aristocracia e os poucos que conseguiam ter
proximidade ao círculo hermético da elite. A
cultura popular, ao contrário, era transmitida e
era consumida pela grande maioria da população
que constituíam as classes subalternas. Ao lado
da medicina clássica, dos proprietários dos
meios de produção, (os servos, os camponeses,
os escravos, os trabalhadores braçais, etc). Ao
lado do teatro erudito existia o teatro popular.
Ao lado das manifestações literárias da elite
estavam as manifestações escritas do povo.
Assim por diante.6 Com a inovação da
Imprensa, capitalistas interessados em ampliar
sua acumulação, o modo de produção daquela
época foi transformando, também, a produção
cultural tendo como ideologia formar um
consumidor geral sem distinção de classes. A
produção em massa começou a iniciar-se também
no setor de utilidades não imediatas. A cultura
de massa, então foi formando subsídios para seu
progresso cada vez mais espantoso. Uma cultura
que reúne os símbolos, normas, valores, mitos,
imagens, etc., de um universo popular e um
universo erudito. Até, então esses universos
culturais mantinham uma posição
inter-comunicativa mas distante um do outro. Um
exercia influência e pequenas mutações no
patrimônio genético - cultural do outro sem que
houvessem mudanças estruturais e/ou
morfológicas radicais. Acontecia que fatos da
vida popular eram inseridos através de obras
artísticas da cultura erudita através da
pesquisa, contatos e ás vezes vivência mesmo. E
isso vemos em várias obras literárias de
escritores antigos, músicos, pintores e
escultores. Por outro lado, o simbolismo dos
letrados era incorporado ao simbolismo do povo
pelas influências de domínio, mando,
imposição, doutrinação (o caso dos
missionários cristãos ilustra bem esse
exemplo). Os exemplos são muitos, mas bastaria
caracterizar, neste trabalho, por exemplo, o
fandango, que é uma dança dramática encontrada
no Brasil, em Alagoas, e que é uma variante de
velhos costumes musicados portugueses. Mesmo a
literatura de cordel, que um crítico literário
norte-americano disse que Jorge Amado usou para
seus romances, é um tipo de comunicação
escrita do povo, elaborada e adaptada de formas
poéticas de portugueses e espanhóis (atualmente
é muito difundido no mundo inteiro, e existe
inúmeros estudos a respeito). Roger Pinon,
Professor belga licenciado em filosofia
germânica pela Universidade de Liége, tem uma
série de trabalhos a respeito. Veja por exemplo.
"El Cuento Folkórico", Editorial
Universitária de Buenos Aires, 1965. No Brasil,
a região mais rica em manifestações do
folclore literário é o nordeste.7
Atualmente, o
processo de intercomunicação da cultura de
massa não permite distinção entre cultura
popular e cultura erudita. O folclore foi
perdendo suas características de
"vivant" assim como também a
tendência é a de formação de uma sociedade
uni-cultural. Estamos assistindo a uma
aculturação do folclore e da cultura burguesa.8
O rádio, a
televisão, o cinema, o jornal, as revistas, as
publicações em geral, estão matando o folclore
na medida em que as camadas populares têm acesso
aos meios de comunicação. Na medida em que uma
sociedade subdesenvolvida vai passando pelo
processo de desenvolvimento e industrialização,
onde as condições pré-capitalistas de
existência, as estruturas sociais arcaicas, o
analfabetismo, o pauperismo, a sub-higiene, a
fraca alimentação, vão sendo substituídas por
condições mais compatíveis com a dignidade
humana.9 Por isso, diz Édison Carneiro
que as manifestações coletivas do folclore são
encontradas em regiões brasileiras, como por
exemplo o litoral paraense, o interior da
Paraíba, o Recôncavo Baiano, zonas de notório
atraso econômico, de pobreza crônica do povo,
de condições pré-capitalistas de existência.10
Roger Bastide11 diz que o folclore está
morrendo justamente no momento em que se tornou
ciência no Ocidente. O folclore está morrendo
após as transformações econômicas fundadas no
modo de produção capitalista. Na França, por
exemplo, o Professor Varagnac conseguiu
demonstrar que o folclore foi destruído após a
introdução do maquinismo na agricultura e não
conforme se pensava que fosse somente o serviço
militar, a escola primária, e o desenvolvimento
das redes de estradas em 1850. O Folclore,
então, tende-se a reduzir a grupos esparsos da
população urbana como os grupos infantis e as
sub-populações urbanas de favelados.12
A introdução
da máquina na agricultura, a aculturação dos
mass-media, cujo principal amigo do folk é o
radinho de pilha, destróem a harmonia existente
e impede a continuidade das manifestações
populares como por exemplo, ritos como o
mutirão, o boi-bumbá, as cangadas, os reisados,
a medicina rústica, as advinhas, os provérbios,
as crendices e superstições, a literatura de
cordel, etc.
Com a
introdução do maquinismo no campo, novas
relações de produção passam a caracterizar as
estruturas sociais e econômicas e isso impõe
novas ideologias. Como o folclore está situado
na superestrutura da sociedade, mudando a
infra-estrutura econômica, mudanças também se
efetuarão na superestrutura. O trabalhador rural
marginalizado pela máquina, no campo, emigra,
para grandes centros urbanos onde espera e anseia
por melhores condições de vida. No centro
urbano, a mão-de-obra especializada caracteriza
o mercado de trabalho e o homem tem que ter uma
formação técnica, mínima que seja (como
pintos, pedreiro, marceneiro, etc.), dentro de
uma especialidade para se manter. Na medida que o
trabalhador rural se insere nas novas relações
de produção, vai interiorizando comportamentos
"dos civilizados" e vai abandonando
suas formas rústicas de pensar, agir e sentir,
vai se "civilizando" embora isso
demande tempo.13
Desde 1957,
McLuhan se referia a um folclore de laboratório.
Para ele, a nossa cultura é totalmente uma
cultura de laboratório. É programada por
técnicos da publicidade, do rádio, da
televisão, do cinema, do jornal, da
universidade, dos departamentos de psicologia
social. Após elaborada, a cultura de massa é
posta ao consumo, a circulação (observando que
ela é elaborada em função de infra-estrutura
capitalista) para as camadas sociais que existem
na estrutura que lhe serviu de ventre. A cultura
de massa, então, para se firmar, se serve de
mecanismos diversos de controle social seja na
padronização dos gostos seja na produção em
série de produtos baratos que são impostos à
compra pelo consumidor ideal. Portanto, para
McLuhan, o folclore atual, assim como toda
cultura, é fruto de laboratório, e não aquela
forma "vivant" de que nos fala Albert
Marinus, folclorista belga,14 que caracterizava as
comunidades aldeãs antes de Gutemberg.
A indústria do
disco promoveu a massificação das obras de
Beethoven, Chopin, Wagner, Mozart, Straus ou
Schubert, para não citar outros. A indústria do
livro promoveu a produção em massa de Homero,
Dante, Shakespeare, Voltaire, Dumas, Eça de
Queiroz, Machado de Assis, Jorge Amado e outros.
A "ofsete" permite a produção em
milhares de exemplares de quadros de Dali,
Picasso, Da Vinci, Monet, Casanova, Renoir e
outros. A televisão pega isso tudo e revoluciona
ainda mais: Obras artísticas, musicais e
teatrais estão diariamente pelos programas de
televisão e cinema.15
O folclore está
se fundindo na cultura de massa? A sociedade
está sendo formada por uma só cultura? Ou será
que o folclore é fruto da estratificação
social e da desigualdade na difusão das
conquistas culturais da humanidade?
O folclore tem
uma função social e é questão muito
importante saber porque o povo faz o folclore e
por que se realiza nele. Acredito que aí
chegaremos ao ponto em que se fundamenta, se
estrutura as diferenças sociais, econômicas e
políticas que dividem os homens.
__________
Notas:
(1) O conceito
de cultura que adotamos neste trabalho é o mesmo
que consta no "Dicionário Filosófico
Abreviado, de M. Rosental e P. Iudin, Ediciones
Pueblos Unidos, Montevidéu, 1950, que diz o
seguinte: "Cultura - Conjunto dos valores
materiais e espirituais criados pela humanidade,
no curso de sua história. A cultura é um
fenômeno social que representa o nível
alcançado pela sociedade em determinada etapa
histórica: progresso, técnica, experiências de
produção e de trabalho, instrução,
educação, ciência, literatura e arte, e
instituições que lhes correspondem. Em um
sentido restrito, compreende-se sob o termo
cultura, o conjunto de formas da vida espiritual
da sociedade que nascem e se desenvolvem à base
do modo de produção dos bens materiais
historicamente determinado. Assim, entende-se por
cultura, o nível de desenvolvimento alcançado
pela sociedade na instrução, na ciência, na
literatura, na arte, na filosofia, na moral,
etc., e as instituições correspondentes. Entre
os índices mais importantes do nível cultural,
e em determinada etapa histórica, é preciso
notar o grau de utilização dos
aperfeiçoamentos técnicos e dos
desenvolvimentos científicos na produção
social, o nível cultural e técnico dos
produtores dos bens materiais, assim como o grau
de difusão da instrução da literatura e das
artes entre a população" (pág. 104).
Segundo Édison Carneiro, (em Dinâmica do
Folclore, Editora Civilização Brasileira, 1965)
por folclore entende-se um conjunto de modos de
sentir, pensar e agir peculiares às camadas
populares das sociedades civilizadas e que alguns
folcloristas estendem o campo do folclore a todas
as sociedades, até mesmo as primitivas. Diz
ainda que a existência de graus diversos da
mesma cultura é necessária para caracterizar o
fenômeno.
(2) José
Marques de Melo num artigo publicado na rev.
VOZES (outubro de 1969, ano 63, nº 10) diz que a
cultura de massas atua como veículo de
interação entre a cultura clássica e a cultura
popular estimulando o intercâmbio simbólico
entre elas, e, ao mesmo tempo, extraindo de ambas
códigos e elementos místicos que incorpora ao
seu próprio acervo e os retribui sob a forma de
novas influências". A evolução histórica
do homem sempre deu destaque a dois pólos
distintos de estágios culturais numa mesma
sociedade cuja natureza de organização e
estratificação e cuja determinação está no
modo de produção determinado historicamente.
(3) O folclore
pertence a superestrutura da sociedade (para
maiores detalhes vide livro de Édison Carneiro -
"A Dinâmica do Folclore"), já citado,
página 81 cuja determinação está na
infra-estrutura que estabelece relações
produtivas entre os homens. "Na produção
social dos homens, estes estabelecem entre si
determinadas relações, indispensáveis e
independentes de sua vontade; estas relações de
produção correspondem a um estágio de
desenvolvimento de suas forças produtivas
materiais. A totalidade daquelas relações de
produção constituiu a estrutura econômica da
sociedade - verdadeira base. Sobre ela, ergue-se
a superestrutura legal e política, à qual
correspondem determinadas formas de consciência
social. O modo de produção da vida material
determina o caráter geral dos processos sociais,
políticos e espirituais da vida" (Karl
Marx, Prefácio de "CONTRIBUIÇÃO À
CRÍTICA DE ECONOMIA POLÍTICA", in
Marx-Engels, OBRAS ESCOLHIDAS, Sigla XXI).
(4) Antônio
Gramsci ("Os Intelectuais e formação da
Cultura", Editora Civilização Brasileira,
1968) diz: "Cada grupo social, nascendo no
terreno originário de uma função essencial no
mundo da produção econômica, cria para si, ao
mesmo tempo, de um modo orgânico, uma ou mais
camadas de intelectuais que lhe dão
homogeneidade da própria função, não apenas
no campo econômico, mas também no social e no
político: o empresário capitalista cria consigo
e técnico da indústria, o cientista da economia
política, o organizador de uma nova cultura, de
um novo direito, etc. Deve-se notar o fato de que
o empresário representa uma elaboração social
superior, já caracterizada por uma certa
capacidade dirigente a técnica..."
(5)
"Sociologicamente, a cultura clássica e a
cultura popular situam-se em pólos extremos. A
primeira é uma cultura própria das elites, dos
grupos privilegiados que detêm o poder uma
sociedade, ou melhor as classes dominantes. A
segunda é uma cultura peculiar à grande massa
populacional que constitui o pólo dos
dominadores 0na estrutura da organização
social" (José Marques de Melo,
"Comunicação, Cultura de Massas, Cultura
Popular" in Revista VOZES, já citado.
Édison Carneiro, em "Sabedoria Popular do
Brasil" diz que o campo do folclore se
estende a todas as manifestações da vida
popular como o traje, a comida, a habitação, as
artes domésticas, as crendices, os jogos, as
danças, as representações, a poesia anônima,
o linguajar, revela a Existência de todo um
sistema de sentir, pensar e agir, que difere
essencialmente do sistema erudito, oficial,
predominante nas sociedades de tipo
ocidental". E tal sistema reflete as
diferenças de classes sociais (de educação, e
de cultura) que divide os homens.
(6) Existia e
ainda existe. Ainda existe o teatro popular com
suas danças dramáticas como o Bumba-Meu-Boi, o
reisado, etc. Ainda existe a medicina dos
excretos. Ainda existe a literatura de cordel.
Ainda existem as diferenças de classes...
(7) A literatura
de cordel é encontrada em feiras. Em Governador
Valadares, cidade que sempre recebe imigrantes
nordestinos e baianos a procura de melhores
condições de vida, encontramos inúmeros
exposições de literatura de cordel nas praças,
ruas e principalmente no Mercado Municipal. Os
livretos de cordel vinham pendurados em cordas. O
nome cordel é derivado de corda. É através das
cordas que são feitas as suas exposições. São
publicações em prosa e verso num português
arcaico onde o povo transmite as suas dores e os
seus risos. A literatura de cordel tem sido alvo
de inúmeras depredações, principalmente de
editores paulistas. Eles se apossam da forma e do
conteúdo da prosa popular e publicam os livretos
com o português civilizado".
"Prostituem" a riqueza do povo.
(8) Essa idéia
de sociedade unicultural vai de encontro com a
própria organização e estruturação da
sociedade, que é estratificada. Edgar Morin
partindo da idéia de cultura como "complexo
de símbolos, normas e imagens" encontra
inúmeras culturas que penetram no indivíduo em
sua vida diária. Existe, para Morin, uma cultura
religiosa, uma cultura nacional, uma cultura
clássica, uma cultura popular, uma cultura de
massas.
(9) O
tradicional em folclore recebe, com o mass-media,
uma série de impactos. E vai interiorizando
formas novas, secularizadas embora o conteúdo
permaneça. O folclore como tradição está
morrendo, porque está se remodelando.
(10) As
manifestações coletivas do folclore tendem a
morrer. O que caracteriza um rito como o
mutirão, por exemplo, é a coesão do grupo, do
povo que se utiliza dele. Na medida que as
condições capitalistas de existência, ou para
ser mais exato, o modo de produção capitalista
é introduzido numa sociedade folk desagrada a
coesão grupal por que estabelece novos tipos de
relacionamento entre os elementos dessa
comunidade.
(11) Prefácio
de "Arte, Folclore e
subdesenvolvimento", Souza Barros, Editora
Paralelo / MEC.
(12) Édison
Carneiro critica essa posição de André
Varagnac. Diz ele que Varagnac se negou a
analisar a questão de permanência dos modos de
sentir, pensar e agir que constituem o folclore.
Vide observação 10.
(13) Vide notas
10 e 12. Aqui em Belo Horizonte, encontramos,
para nossa surpresa, em muitas favelas,
comportamentos de folk que estão ainda bem
vivos. Numa favela na Nova Suíça, por exemplo,
encontramos inúmeras famílias que faziam aborto
com mentrasto. A mulher, na época em que tem
certeza da gravidez, toma inúmeras vezes ao dia
chá de mentrasto e usa essa planta para colocar
no ventre - o que muitas vezes causa uma ferida e
morte da paciente. Essa mesma família tinha
resquícios de comportamento indígena. Após a
gravidez, o marido se sente na obrigação de
ficar oito dias acamado, junto com a criança. Se
não fizer isso, ele fica com uma insuportável
dor de dente. Pesquisando outras favelas,
encontramos o mesmo comportamento. Essas
famílias são oriundas do interior de Minas
Gerais e muitas delas do meio rural onde
trabalhavam como meeiras com proprietários de
terras que lhe cediam o terreno para que ele
cultivassem.
(14) É claro
que as observações de McLuhan foram realizadas
num país altamente industrializado onde o
mass-media é mais influente porque o poder
aquisitivo da população permite uma série
consumo de produtos culturais. Muito do folclore
que está aparecendo como secularização do
tradicional é fruto da influência do
mass-media. Entretanto, cabe observar como
Édison Carneiro, que a cultura popular se nutre
de desejos de bem-estar econômico e social e
constitui uma forma de reivindicação social e
é expressão das aspirações populares e suas
expectativas frente à realidade social. Povo
não é passivo frente aos meios de comunicação
de massa que seriam ativos para McLuhan.
(15) Cabe aqui
observar que a televisão apresenta obras
artísticas. Entretanto, ela as apresenta
destituídas de seu valor estético original,
porque esvazia totalmente a obra de arte. Mas
apresenta... embora ôca.
*
Sebastião Geraldo Breguêz es profesor en la Univale y uno de los editores del Jornal Brasileiro de
Relações Públicas.
Esta es su primera colaboración para Sala de Prensa.
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