A
singularidade dos Brasiguaios:
Uma análise teórico-jornalística
Marcelo
Ludwig Dorneles Coelho *
1
INTRODUÇÃO
O
presente trabalho é resultado de monografia de
conclusão do Curso de Jornalismo apresentada ao
Departameto de Comunicação da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Brasil, em 1991 e
orientada pela professora Rosa Nívea Pedroso e
tem como tema o livro Brasiguaios; homens sem
pátria. Trata-se de uma reportagem
investigativa de Carlos Wagner, jornalista do
periódico diário de Porto Alegre intitulado Zero
Hora. A matéria foi publicada por partes no
jornal, em 1986, e recebeu nesse ano o Prêmio
Esso Regional. A edição em livro, com dados
atualizados, é de 1990.
Conforme o
vocabulário crítico dos termos empregados na
atividade jornalística sistematizado no livro A
estrutura da notícia, escrito por Nilson
Lage, professor do Departamento de Comunicação
da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a
reportagem consiste em um gênero jornalísitco
através do qual são investigados assuntos para
relatar uma história verdadeira, expor uma
situação ou interpretar fatos.
Na parte
inicial, a reportagem de Carlos Wagner será
apresentada de forma resumida capítulo por
capítulo com base nesta definição, que capta o
significado funcional da reportagem, a sua
manifestação enquanto fenômeno jornalístico
produtível. Ainda assim, serão explicados desde
o início conceitos filosóficos que facilitarão
o entendimento de como a reportagem, importante
gênero jornalístico, pode ser abordada sob
outro prisma.
Este ângulo
teórico possui como fundamento mais amplo a
visão de Adelmo Genro Filho sobre o Jornalismo,
como forma de conhecimento, desenvolvida na obra O
segredo da pirâmide. O mestre em Ciências
Sociais pela Universidade Federal de Santa
Catarina, já falecido, deixou formulações que
terão seu alinhamento no segundo capítulo.
Primeiro, será explicada a sua metodologia, com
a síntese das críticas que fez às principais
teorias que incidiram sobre o Jornalismo. A
seguir, as categorias utilizadas por Genro Filho
são apresenta, das com ênfase nas definições
encontradas em obras filosóficas importantes de
Friderich Hegel e Georg Lukács. O último
tópico traz, então, o conceito de Jornalismo
elaborado por A delmo Genro Filho.
O terceiro
capítulo traz a análise da reportagem in.
vestigativa de Carlos Wagner a partir da teoria
adelmiana. O livro Brasiguaios; homens sem
pátria é situado com relação a alguns
aspectos económicos e sociais da realidade
agrária brasileira, pretendendo-se que o leitor
compreenda o significado da investigação
enquanto totalidade.
Na conclusão
colocam-se alguns subsídios para novas
contribuições teóricas sobre a reportagem como
gênero jornalístico informativo e
interpretativo que torna possível ao jornalista
potencializar ao máximo as virtudes de sua
atividade. O autor do presente trabalho tem plena
consciência de que este é um campo de estudos a
ser demarcado.
2
- UM DIÁLOGO
O livro Brasiguaios;
homens sem pátria traz uma re portagem
investigativa que Carlos Wagner, repórter
especial do Jornal Zero Hora, realizou
em 1986, percorrendo caminhos que agricultores de
vários estados brasileiros fizeram ao lon. go
dos anos 60 e 70, rumo ao Paraguai.
Wagner começa o
texto do livro, apresentando o diálogo que
originou o termo "brasiguaios":
então
quer dizer que nós não temos os direitos
dos paraguaios porque não somos paraguaios;
não temps direitos dos brasileiros porque
abandonamos o país. Mas me digam uma coisa:
afinal de contas, o que nós somos?
-Vocês são uns brasilguaios, uma mistura de
brasileiros com paraguaios, homens sem
pátria (WAGNER, p.11).
Ele esclarece
logo depois que a conversa ocorreu em 1985 entre
um camponês e o então deputado federal pelo
Mato Grosso do Sul, Sérgio Cruz, que na época
estava no Partido Democrático Trabalhista (PDT).
2.1-
O PONTO DE PARTIDA PARA A APREENSÃO DE UMA PARTE
DA REALIDADE
Reproduzindo o
diálogo, o repórter começa a mostrar um
aspecto do problema que decidiu investigar.
Entretanto, esta questão não poderia, pela sua
complexidade, aparecer aos olhos do leitor como
algo dissociado de um contexto maior para ser
entendida. Este contexto, por sua vez, configura
uma realidade determinada. Qual a definição
possível para um conceito de
"realidade" dentro desta perspectiva?
O filósofo
tchecoeslovaco Karel Kosik, em sua obra Dialética
do concetro, escrita na década de 60,
define o mundo real como o da práxis humana. A
categoria, surgida antes de Cristo na Grécia
Antiga, ganhou novos contornos com a for;
mulação dos princípios materialistas na
Filosofia Alemã, no século XIX. Karl Marx
utiliza a palavra em suas Teses sobre
Feubarch: A coincidência do mudar das
circunstãncias e da atividade humana só pode
ser tomada e racionalmente entendida como práxis
revolucionante (MARX, TOMO 1, P.2).
Assim, a
realidade social é construída, em todos os seus
momentos, pela atividade humana e as relações
que a condicionam e ao mesmo tempo são
determinadas por esta. Isto por que não se pode
falar na História apenas como sucessão de
gerações, mas como palco de conflitos entre
diversos tipos de agrupamentos constituídos
desde que o Homem passou a transformar
racionalmente a natureza. Estes confrontos deixam
suas marcas ao longo do desenvolvimento da
práxis, enquanto conjunto de atividades e
relações de um sujeito, seja ele um povo
organizado, os agentes controladores de um
Estado, uma clajs se ou uma nação sem
território, no interior de e sobre uma
objetividade, seja ela uma terra inexplorada, uma
série de mecanismos políticos e jurídicos
estabelecidos por um governo autoritário ou a
falta de meios para satisfazer as necessida des
primárias como alimentação e moradia. O
sujeito possui o intelecto, e a objetividade as
coisas que existem fora doam bito intelectual. A
realidade, em suas facetas, é delineada a partir
desta interação.
Na primeira
parte do texto, cujo título é o mesmo do livro,
Wagner esclarece que a colonização das terras
para. guaias por colonos brasileiros não foi uma
emigração esponta, nea. Ela foi conscientemente
planejada por autoridades do Brasil e do
Paraguai. No primeiro capítulo, o repórter fala
dos pioneiros. Eles foram os negros e mestiços
brasileiros. Qual o motivo disto?
O relato de
Wagner, no livro, é abrangente. Em 1959, o
general Alfredo Stroessner se consolidou no poder
após violentas disputas no Partido Colorado, que
o sustentaria no governo paraguaio por mais de
três décadas. O general pôs então em
andamento um plano para aumentar a produção de
grãos dirigida ao mercado externo. A região do
Alto Paraná, próxima do território brasileiro,
foi a escolhida por estar a pou co mais de 90O
quilómetros por estrada asfaltada de Puerto
Stroessner e não muito longe do porto marítimo
brasileiro de de Paranaguá. Ali, os camponeses
paraguaios trabalhavam na terra sem um sentimento
de posse em relação a ela, segundo depoimento
de um religioso que viveu junto deles.
Ora, sem esta
postura dos agricultores, sua retirada por parte
dos militares paraguaios ficou facilitada. Era
necessário atrair grupos sociais brasileiros que
não tivessem tia digao de posse da terra. A
intelectualidade inserida no aparato fatal
paraguaio vislumbrou no norte e no nordeste do
Brasil estes segmentos, onde negros e mestiços
sem ou com pouca terra formavam a maioria. Carlos
Wagner explica a situação destas camadas:
Não
existem estudos que mostrem qual a quantidade
de brasileiros do Norte e Nordeste que foram
para lá no primeiro momento da
colonização. Mas amostragem feitas pelos
religiosos, na época, demonstram que entre
10O brasileiros que entraram no Paraguai,
cerca de 15 eram daquelas regiões. Eles
começavam derrubando o mato. A madeira era
vendida a preço vil para o dono da terra,
que por sua vez a negociava com os
comerciantes da cidade que a contrabanmdeavam
para o Brasil (WAGNER, p.15).
Os donos da
terra continuavam sendo os militares e líderes
do Partido Colorado de Stroessner, que haviam
expulsa, dos camponeses paraguaios. No final da
década de 60, o governo paraguaio orientou as
agências responsáveis por atrair os
colonizadores no sentido de enviar a seguinte
mensagem para os camponeses da região sul do
Brasil:
Com
a venda de um hectare no Brasil é possível
comprar mais de cinco lá no Paraguai.
Além disso, o governo financiava o dinheiro
necessário para retirar os tocos das terras
que haviam sido deixados pelos
pioneiros (WAGNER, p.16).
Wagner denuncia,
na sua reportagem, que as agências colonizadoras
fizeram renascer o mito da força de trabalho a
lema superior a de outras raças, como a dos
índios e a dos negros. Cita dados do Censo
paraguaio para mostrar o aumento da população
no Alto Paraná e afirma que a produção de
algodão e soja atingiu índices jamais
alcançados. Na metade da década de 70, os
sonhos dos agricultores começam a ruir. Os
preços das mercadorias desabam, e não há um
seguro agrícola do governo. Os camponeses
paraguaios voltam para a região e exigem suas
antigas terras. Apenas a construção da Usina
Hidrelétrica de Itaipu, já nos anos 80, atenua
o problema empregando parte da mão-de-obra
formada por eles.
Terminada uma
das etapas de construção da usina em 1983, a
única solução é o fracionamento das pequenas
propriedades. Vários agricultores brasileiros
começam a se organizar para voltar a seu país,
e quando trata disso, o repórter cita outra vez
o diálogo que introduziu o primeiro capítulo do
livro. Para terminá-lo, Wagner apresenta as
palavras de dois camponeses brasiguaios, que
falam sobre suas dificuldades. São eles José
Rodrigues dos Santos e Molar Lang. O pri meiro de família negra, o
segundo de origem alemã.
-
Uma mulher ficou doente da
cabeça porque seus moleques morreram.
- Nós chegamos lá por volta de 69 e
trabalhamos como boi de canga. Lembra que a
alegria da piazada era jogar bola entre os
tocos das árvores. Os mais velhos ensinava,
as primeiras letras aos mais novos. Os
médicos e os hospitais estavam do lado
brasileiro a preço de ouro (WAGNER,
p.21-2).
No capítulo 2
do livro, o repórter escreve sobre os
brasileiros que retornaram ou estão retornando.
Um fator impulsionou a volta de alguns
brasiguaios: o Plano Nacional de Reforma
Agrária, lançado pelo Governo Sarney em 1985.
Os camponeses, tornam-se indesejáveis no Paraná
devido à estrutura econômica do Estado, muito
desenvolvida no que se refere à concentração
de lavouras de algodão, soja e trigo. Wagner
explica os contratempos enfrentados pelos
agricultores em relação ao Movimento dos
Sem-Terra, entidade que agrupa trabalha, dores
rurais sem condições mínimas para plantar e
sobreviver no Brasil. Os sindicatos destes
trabalhadores, do oeste para. naense, não os
ajudam por medo de represálias dos fazendeiros.
O período mais explosivo em tensões, segundo o
jornalista, é o primeiro semestre de 1986.
Wagner ilustra
este momento através de um episódio que
envolveu uma das únicas entidades que
colaboraram com os agricultores. O Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de São Miguel do Iguaçu
ajudou os brasiguaios a irem para um acampamento
no interior do município. O presidente do
sindicato, Miguel Issor Sávio, organiza os
camponeses, que muitas vezes eram empregados com
salários baixos pelos grandes plantadores de
algodão paranaenses. Sávio começou a ser
vigiado e a 2 de agosto de 1986 sofreu um
atentado a tiros. Ainda que ele tenha
sobrevivido, o apoio do sindicato aos brasiguaios
diminui. No Mato Grosso do Sul, as famílias
brasiguaias con seguem uma melhor articulação
política. O deputado federal Sérgio Cruz, que
foi do PDT e mudou para o Partido dos
Trabalhadores (PT), passaria a representar seus
interesses no Cori gresso Nacional em Brasília,
e o Movimento dos Sem-Terra (MST) se aliaria com
padres e pastores preocupados com as questões
agrárias no Brasil para organizar os camponeses.
Os acampamentos se sucedem, e Wagner se refere ao
município de Ivinhe mas como o "retrato do
Brasil nos anos 80" no interior do Mato
Grosso do Sul:
Os
colonos não se chamam por nome, mas assim: o
gaúcho, o sergipano, o baiano (...) ali tem
acampados de todos os lados do país. Aliás,
reassentados pelo então Instituto Nacional
de Colonização e Reforma Agrária (INCRA)
(WAGNER, p.34).
O jornalista
encerra este capítulo mostrando um pouco do
dossiê entregue ao governo brasileiro pelas
lideranças dos brasiguaios, que conseguiram
criá-las em cada grupo de dez famílias. Eles
passaram a ter uma rede de informações entre o
Brasil e o Paraguai e comprovaram 31 casos de
violência no país agora presidido por Andrés
Rodrigues contra os colonos brasileiros. Estes
episódios ocorreram em 1985 e 1986. Wagner
publica na reportagem um resumo do relatório
sobre os acontecimentos.
No terceiro
capítulo, Wagner escreve sobre os brasileiros
que ficaram no Paraguai e sua luta contra os
preconceitos de outros agricultores, e entre eles
próprios, além de escrever que seus vistos de
imigrantes são renovados de 90 em 90 dias.
Transcreve depoimentos de alguns colonos e
termina a primeira parte do livro sintetizando o
teor de um encontro de Jair Krische, membro do
Movimento de Justiça e Direitos Humanos do
Brasil, com uma comissão de brasiguaios.
O ponto de
partida para que o leitor se informe acerca do
assunto da reportagem é a origem do processo que
levou ao surgimento dos brasiguaios. As
sucessivas ações que atraíram os agricultores
brasileiros para o Paraguai foram planejadas pelo
governo daquele país. O que ali eles viveram e
as diferentes respostas à situação consistem
no centro da primeira parte do texto de Wagner.
Algo diferente será encontra do pelo leitor na
segunda parte.
2.2
- A CONTEXTUALIZAÇAO DA SAGA
A segunda parte
da reportagem recebeu o título "A terra dos
generais". O jornalista escreveu uma curta
introdução, antes do quarto capítulo, para
afirmar que as denúncias dos brasiguaios, em
1985, fizeram do Paraguai alvo das atenções
brasileiras. Diz também que quando Andrés
Rodrigues derrubou, em um golpe militar, Alfredo
Stroessner, em 1989, cumpriu-se uma profecia do
que ele, repórter, denomina "esquerda
paraguaia": os traços essenciais da
ditadura seriam mantidos .
Nos capítulos
anteriores, algumas informações apareceram como
elementos de contextualização da saga dos
brasiguaios. No começo do livro, Wagner explica
que a agricultura sempre foi a base da economia
paraguaia e que ainda em 1986 garantia 60% do
produto interno bruto. Entenda-se aqui a
contextualização como delimitação de uma
realidade económica e social determinada. Esta
realidade tem aquele significado explicitado
no início deste trabalho. O elemento de
contextualização é a referência a um dado que
amplia a visão do leitor sobre um objeto de
investigação (o Paraguai), que serviu como
cenário para o surgimento dos brasiguaios e para
a configuração de conexões que o jornalista
procurou elucidar.
No quarto
capítulo do livro, Wagner trata da economia
paraguaia. Apresenta números para demonstrar
como o mundo financeiro oficial a cada vez pior
em 1986, e o clandestino se mantinha bem. Relata
que o Movimento Intersindical de Trabalhadores,
uma organização de sindicatos paraguaios
independentes do apoio oficial, calculou que o
setor da construção civil era, na segunda
metade da década de 80, o mais atingido pelo
desemprego. Localiza no modelo agroexportador
organizado pelo governo de Stroessner uma causa
decisiva para a situação do Paraguai. O país
viveu o seu "milagre" com a
construção de Itaipu, mas as importações
acabaram por superar as exportações entre 1973
e 1986.
O jornalista
também chama a atenção para a percentagem de
trabalhadores paraguaios sindicalizados, 8% deles
de modo independente do governo. A crise
econômica fez com que os empregados das áreas
urbanas reagissem fundando o Movimento
Intersindical de Trabalhadores de 1986. A
Confederação Paraguaia de Trabalhadores seria
atrelada ao governo, devido aos chamados
sindicatos "pelegos", mas controlaria
28% da mão-de-obra. Wagner exemplifica com um
casal de funcionários públicos e seus dois
filhos menores as dificuldades para viver em
Assunción, além de detalhar fraudes sofridas
pelo Banco Central do Paraguai.
A polícia
paraguaia é o tema do quinto capítulo. O
jornalista revela as brigas internas do Partido
Colorado quando a crise colocou na ordem do dia a
possibilidade de que Stroessner fosse
substituído no Poder e os entendimentos do
Acordo Nacional, que reuniu toda a oposição
paraguaia nos anos 80, com o Partido do Movimento
Democrático Brasileiro (PMDB), no sentido de que
este pressionasse o governo brasileiro para que
tomasse posição quanto à sucessão paraguaia.
Wagner explica o papel da Igreja nas pressões
contra o governo de Stroessner e traça um perfil
dos partidos paraguaios.
A crise acabou
pesando mais do que as articulações, e o
general Andrés Rodríguez, sendo capaz de manter
o Exército unido e contando com o apoio dos
Estados Unidos, comanda o Golpe de Estado que
derruba Stroessner em 1989. Logo depois, ele
venceria uma eleição para a Presidência da
Repúbliuca da qual a oposição pôde
participar.
O último
capítulo da reportagem se chama "Direitos
Humanos e Cultura". Cabe reproduzir o seu
primeiro parágrafo, pela capacidade de síntese
demonstrada pelo jornalista:
Por
30 anos vigorou no Paraguai o estado de
sítio, que deu poderes extradiordinários ao
governo. Graças a ele o general Alfredo
Stroessner se manteve como o primeiro
mandatário do país por mais de 32 anos. A
Imprensa doi mantida sob uma rigorosa
censura. As artes em geral foram
destroçadas. A cultura guarani 90% da
população falam o idioma guarani e o
espanhol, qwue é a língua oficial
caiu no esquecimento. O paraguai é a terra
do medo (WAGNER, p.77).
Carlos Wagner
resume, assim, a época da ditadura Stroessner.
Porém, não deixa de falar sobre a rede de
espionagem montada pelo regime comandado pelo
general e o fechamento do Diário ABC Color,
um dos jornais que tentou circular no país com
uma certa isenção informativa. O repórter
apresenta o depoimento de Erwin Benitez, que era
editor de política do periódico, fechado em
março de 1984. O livro termina com uma
contraposição. Wagner relata algumas prisões
políticas e, logo depois, reproduz a opinião de
Rúben Stanley, vice-presidente do Partido
Colorado, que nega a censura a imprensa e a
repressão política. A última declaração da
reportagem é de um religioso que afirma estar a
cultura paraguaia sendo destroçada pelos
interesses dos "amigos brasileiros". O
jornalista acrescenta ser esta uma verdade que
causa constrangimento, após ter citado
denúncias de outros religiosos sobre a
manutenção do aparato repressivo depois da
vitória e-leitoral de Andrés Rodrigues, em
1989. Termina deste modo Brasiguaios; homens
sem pátria.
O conjunto de
referências na segunda parte do livro a estes
diversos aspectos da realidade paraguaia dá
margem a uma ou várias interpretações
possíveis do "Fenômeno Brasiguaios"
para o leitor? Compreender isto é
imprescindível para que se possa efetivar uma
análise teórico-jornalística das
características que tornam esta reportagem
investigativa exemplar.
2.3
- A ABERTURA PARA UMA CONCLUSÃO DO LEITOR SOBRE
O ASSUNTO
Carlos Wagner,
em entrevista concedida especialmente para este
trabalho, revelou as preocupações que teve com
os leitores, ao começar a redigir sua reportagem
sobre os brasiguaios. As suas pretensões
enquanto jornalista eram claras, como se
verificará. Se elas foram concretizadas, ou
não, é o que será analisado a seguir.
A primeira
intenção de Wagner era fazer com que o leitor
relacionasse a "questão brasiguaia"
com o contexto global onde ela se desenvolveu,
informando para que aquele que o lesse
raciocinasse nesta perspectiva. A medida em que
ia produzindo seu texto, o repórter quis
enfatizar a realidade paraguaia sem prejuízo do
tema principal da matéria: Se eu dissesse
o que eu penso, seria um panfleto. O que eu fiz
então foi abrir o Paraguai, pondo o
país na mesa do leitor. Ele poderia concluir o
que quisesse (WAGNER, Entrevista exclusiva,
maio de 1991, Porto Alegre).
Evitar que o
leitor ficasse em "um beco sem saída"
para entender o assunto foi o outro objetivo de
Wagner. Assim, juízos de valores como considerar
o regime de Stroessner no Paraguai uma ditadura e
a ideia manifestada ao final do livro de que a
destruição da cultura naquele país por
"amigos brasileiros" causa
constrangimento foram inseridos com base em um
conjunto amplo de informações. Elas são
principalmente sobre os brasiguaios na primeira
parte da reportagem e acerca da vida no Paraguai
na segunda parte.
Ao longo do
texto de Wagner, uma leitura minuciosa revela
efetivamente possibilidades para bem mais de uma
conclusão sobre os fatos. O jornalista propicia
uma visão das diversas tendências,
predominantes ou não, de desdobramentos do caso.
O que torna o pensamento de quem se informa
através da reportagem não definitivo.
Utilizando a
mesma divisão de aspectos construída por
Wagner, estas aberturas para o raciocínio do
leitor poderiam ser delimitadas deste modo:
1ª Parte - Os
brasiguaios não surgiram graças a uma
emigração espontânea. Os colonos brasileiros
foram atraídos para o Paraguai pelo Governo
Stroessner, que pretendia aumentar a produção
de grãos para a exportação. A partir daí,
começam a viver enormes dificuldades, porque
não ficam com a posse da terra, não recebem
apoio estatal e, em um segundo mo mento, entram
em conflito com os agricultores paraguaios que
querem voltar a plantar nas regiões de onde
foram expulsos. As lideranças rurais e
religiosas, entretanto, trabalham por uma união
dos agricultores, respeitando as diferenças de
suas culturas. Depreende-se deste processo que as
tensões entre os camponeses seriam transformadas
em disposição de luta contra a situação que
os oprime e os responsáveis por ela, se
dependesse de agentes políticos presentes no
cenário investi, gado por Wagner. O repórter
elucida como a ditadura paraguaia veria resultar
de seu plano uma faca de dois gumes. É este o
fio condutor de seu texto: as ações dos
brasiguaiose dos dirigentes das organizações
que com eles se envolveram passam lentamente a se
contrapor a uma determinada lógica estabelecida
por sujeitos políticos de outro lado, os
militares e os fazendeiros paraguaios e
brasileiros. O jornalista leva o leitor a pensar
se há uma síntese possível dos interesses em
Jogo neste quadro ou não. Se concluir que não,
provavelmente e colherá um lado para se
posicionar, um ângulo para refletir sobre o
problema, baseado nas informações que recebeu.
2ª Parte - Wagner apresenta
os atores políticos, econômicos e culturais, na
sociedade paraguaia. Através de seu relato sobre
a conjuntura em que se deu a derrubada de Alfre
do Stroessner, o "País do medo" é
descrito sem que fiquem dúvidas para o leitor de
que esta qualificação usada pelo jornalista se
justifica. Ele informa que havia a exigência de
permissão do governo para manifestações de
protesto contra a política económica e os
impecilhos a elas organizados pelas forças de
segurança. Denuncia a existência de presos
políticos que foram detidos sem provas, como
Remigindo Ramires, se questrado em território
brasileiro em 1978 e acusado de ter sido um
guerrilheiro nos anos 60. Fornece detalhes sobre
a postura de partidos de oposição a um regime
que com o general Rodríguez no Poder continua
violando os direitos humanos, dando crédito a
afirmações de religiosos sobre a manutenção
do aparato repressivo da Era Stroessner. Quem lê
o texto, porém, entende que a realidade
paraguaia, onde ilegalidades como o contrabando
de mercadorias se impõem contra qualquer
instituição, não é imutável. Ainda que
Wagner explicite sua opinião em muitos momentos
acerca do que investiga, possui o mérito de
mostrar que o Paraguai não ficou como está por
acaso. Se há agentes que fazem a História
naquele país, quem busca saber como defini-lo
deve saber quais as ações conscientes
possíveis e necessárias para que ele evolua
politicamente.
Aceita-se na
reportagem, portanto, a liberdade de expressão
como valor fundamental para o desenvolvimento de
uma nação, no sentido em que esta palavra é
comumente empregada: uma comunidade unida por
laços idiomáticos, territoriais e
institucionais. Constatada a ausência da
liberdade de expressão no Paraguai, não se
esgotam para o leitor as nuanças que conduzem a
formação da opinião. Wagner consegue
demonstrar que existem diferentes perspectivas
para este país da América do Sul e que elas
ensejam muitas reflexões. Uma delas até que
ponto a necessidade de ocupar espaços, dentro de
uma estratégia económica governamental, motiva
e justifica meias verdades propagandeadas para um
povo sob outra jurisdição?
Sistematizadas
estas observações sobre Brasiguaios; homens
sem pátria, a obra O segredo da
pirâmide, de Adelmo Genro Filho, passa a
ser o assunto do presente trabalho. Os
fundamentos filosóficos da teoria do Jornalismo
estudada carecem de uma explicação
pormenorizada e didática. Posteriormente, a
reportagem de Carlos Wagner merecerá
considerações sob outro prisma.
3
- UMA TEORIA
Adelmo Genro
Filho nasceu em 1951 em São Borja, no interior
do Rio Grande do Sul. Foi ainda na infância para
Santa Maria onde concluiu o curso de Jornalismo
na Universidade Federal daquela cidade, em 1975.
Escreveu vários ensaios filosóficos e
políticos para as revistas Teoria e
Política, Civilização Brasileira
e Práxis. Alguns deles foram publicados
com poucas modificações no livro Marxismo,
filosifia profana (Porto Alegre, Tchê!,
1986).
Na Universidade
Federal de Santa Catarina, Adelmo Genro Filho
lecionou na Faculdade de Jornalismo durante os
anos 80. Lá cursou o Mestrado em Ciências
Sociais, apresentan do como tese a obra lançada
em 1987 pela Editora Tchê, de Porto Alegre: O
segredo da pirâmide; para uma teoria marxista do
jornalismo.
O mestre em
Ciências Sociais morreu em fevereiro de 1988.
Deixou estabelecidos os fundamentos iniciais de
uma visão filosófica sobre o Jornalismo
Informativo. A metodologia utilizada por Genro
Filho, as categorias que empregou para conceituar
a produção jornalística e as possibilidades
que abriu para uma análise teórica do
significado da reportagem, em particular a
investigativa, são as questões examinadas a
seguir.
3.1
- A METODOLOGIA UTILIZADA POR ADELMO GENRO FILHO
O autor de O
segredo da pirâmide (...) afirmou no
prefácio da obra que o Jornalismo é uma forma
de conhecimento condicionada pelo desenvolvimento
do capitalismo, mas com potencialidades que
ultrapassariam a funcionalidade deste modo de
produção. Observe-se, portanto, que Adelmo
Genro Filho considerava possível a humanidade ir
além do sistema econômico e social que se
tornou dominante no mundo após a Revolução
Francesa de 1789.
Para tentar
desvendar a essência do Jornalismo,Genro Filho
se coloca em uma perspectiva marxista. Ele
pretende demonstrar que nenhuma das correntes que
abordou o fenômeno jornalístico compreendeu a
sua especificidade. Por raciocinar de maneira
materialista e dialética, o autor situa
historicamente estas escolas teóricas e incide
sobre os desdobramentos concretos de cada uma das
premissas que as nortearam. Em outras palavras,
aborda as conexões da teoria com a prática
quando se trata de pensar o Jornalismo na
sociedade contemporânea, no que se refere às
relações de produção e reprodução das
condições de vida.
Na introdução
a obra, Genro Filho utiliza conceito já citado
no presente trabalho: a práxis. Ela é tomada
como autoprodução humana, conjunto de
determinações subjetivas através das quais os
homens constróem suas relações de convivência
e fazem com que elas tenham desdobramentos
objetivos - inovações técnicas, novas
linguagens etc.
O conhecimento,
para o autor, é a dimensão simbólica da
apropriação social dos homens sobre a
realidade. Suas formas são a ciência e a arte,
por exemplo. Antes de sua defesa do Jornalismo
como uma outra forma de conhecimento, Genro Filho
aponta as limitações do funcionalismo, da
Escola de Frankfurt, da Teoria dos Sistemas e do
que chama de materialismo reducionista, enquanto
concepções acerca do Jornalismo Informativo.
Nos três
primeiros capítulos da obra, o funcionalismo é
o objeto de apreciações. Estes são os
problemas cruciais desta teoria, segundo Genro
Filho.
A perspectiva
funcionalista no estudo da Comunicação Social
se consolida nos Estados Unidos, após a Primeira
Guerra Mundial, alicerçada em estudos empíricos
formais. Nas palavras de Genro:
O
desenvolvimento dos meios de comunicação e
do próprio jornalismo são analisados como
processos independentes em relação ao
desenvolvimento global das força produtivas
e da luta de classes, ou seja, apartadas do
movimento históricos em seu conjunto
(p.33).
Isto se
configura na análise funcionalista porque ela
parte de um pressuposto sociológico expressado
por Durkheim. Para manter o distanciamento e uma
imparcialidade em re lação aos fatos, eles
deveriam ser tratados como "coisas". As
vontades em foco no seu desenrolar não poderiam
ser colocadas em primeiro plano pelo
investigador. Comentando o livro Sociologia
da Imprensa Brasileira, de José Marques de
Melo, Genro Filho aborda as necessidades sociais
respondidas pelo Jornalismo. Aparece, então, sua
segunda crítica ao método funcionalista.
2) A premissa de
que a atualidade se tornou alvo da curiosidade
dos cidadãos, nas concentrações urbanas, para
o exercício da profissão e da política, é
aceitável. Ocorre que com o desenvolvimento
industrial dos meios de comunicação e de
transporte, a atualidade amplia-se no espaço. O
mundo inteiro é integrado pelas conexões
económicas e culturais edificadas no
capitalismo, segundo uma determinada lógica. No
bojo desta universalização, surgiram relações
de dominação dentro de cada país e entre os
países.Genro Filho ressalta que a atividade
jornalística, para os funcionalistas, precisa se
voltar para denúncia e correção de
"patologias sociais", como se a
definição destas mazelas não dependesse de
quem comanda a ordem social onde elas surgem. O
escritor aceita a concepção marxista de que,
sendo a classe dominante por controlar os meios
de produção e reprodução dos objetos
necessários para a existência humana, a
burguesia também controla a veiculação de
ideias para as outras classes. O caráter
socializante de informações possuído pelo
material impresso, sede pender dos
funcionalistas, teria que simplesmente joerpetua
os valores dominantes, tornando conhecidos pelo
público os acontecimentos importantes da
atualidade de modo que estes valores sejam
enaltecidos.
3) O autor de O
segredo da pirâmide (...) se detém na
consequência mais direta da visão funcionalista
para a prática jornalística, no segundo
capítulo. Citando o livro de Fraser Bond, Introducción
ai periodismo, Genro Filho ironiza:
O
livro (...) considera os deveres da
imprensa: independência, imparcialidade,
exatidão, honradez, responsabilidade e
decência. A complexidade ética e política
que envolve cada um desses conceitos não
parece ter abalado o professor emérito da
Escola de Jornalismo de Nova York.
(p.43).
Seguem-se
algumas considerações acerca das manipulações
dos "deveres da imprensa" que poderiam
ocorrer sob o capitalismo desenvolvido
norte-americano. Mais adiante, Genro Filho
critica a opinião de Clóvis Rossi sobre a
interposição psicológica do jornalista entre
fato, tal como aconteceu, e seu mero relato. Em
seu livro O que é o jornalismo, Rossi
afirmou que o repórter não se despe de
condicionamentos ao se ver diante da notícia.
Adelmo Genro Filho encontra
nesta ideia a aceitação implícita de que os
fatos jornalísticos são puramente objetivos.
Coerente com os pressupostos materialistas
dialéticos, explica que os conhecimentos deste
tipo pertencem à dimensão histórico-social,
decorrendo, por mais simples que sejam, de
relações estabelecidas pelas consciências
humanas. Esta é uma dimensão essencial dos
fatos antes de se transformarem em no tícias ou
reportagens. Há, portanto, não só uma psique a
ser levada em conta, mas uma postura ética e
ideológica de quem é responsável pela
transformação dos acontecimentos em notícias .
Já no terceiro
capítulo, o autor antecipa alguns elementos de
sua teoria sobre o Jornalismo, ao sintetizar os
limites da visão funcionalista. Como no presente
trabalho o entendimento da sistematização
adelmiana é imprescindível Este trecho de O
segredo da pirâmide (...) será examinado
em outro item. Vejamos agora as deficiências da
teoria geral dos sistemas, conforme Genro Filho:
1) Com a
evolução dos computadores desde os anos 50, a
Teoria da Informação, voltada para o estudo do
comportamento estatístico dos sistemas de
comunicação, se eleva a uma generalidade mais
complexa. Deste modo, acaba fornecendo alguns
princípios para a Teoria Geral dos Sistemas. A
visão sistêmica busca descobrir as leis gerais
de todos os sistemas, seja qual for sua natureza
ou composição especial.
Nessa
busca de identificação de fenômenos e
processos tão díspares, a tentativa de
produzir modelos matemáticos possui
importância decisiva, pois significa um meio
efetivo de encontrar a objetividade comum a
diversas campos da realidade (p.73).
Ora, se a
sociedade é um sistema, os indivíduos são
realidades irredutíveis e não podem ser
dissolvidos "sistematicamente". Para
Genro Filho, os conflitos entre as várias me
diações sociais constituídas pelos homens,
como as classes, os partidos etc, podem levar,
inclusive, a superação de uma realidade
sistémica. As tensões que nascem das
contradições sociais não são, desta maneira,
passíveis de uma redução a algo
"inerente" ao todo.
2) A
importância da probabilidade para medir o
interesse em uma informação seria superestimada
pela Teoria dos Sistemas. Não compreendendo que
o Homem, através da Evolução, construiu
"um mundo" qualitativamente
diferenciado do natural, os sistemistas
escamoteiam a margem de liberdade que os seres
humanos vão constituindo ao transformarem os
meios para satisfazerem suas necessidades.
Uma notícia,
como produção simbólica, deve ter a
pertinência de sua divulgação avaliada pela
repercussão que terá no processo
histórico-social vivido pela humanidade, e não
pela simples probabilidade de se concretizar.
Cabe inserir aqui uma citação mais longa de O
segredo da pirâmide (...), porque o exemplo
utilizado aparece comumente nos manuais e ilustra
muito bem a assertiva anterior.
se
um cão morde um homem não é notícia, mas
se um homem morde um cão então temos uma
notícia. Realmente, a probabilidade de que
um homem avance a dentadas contra um cão é
bem menor (...) do que a probabilidade de
novas violações dos direitos humanos pelo
exército salvadorenho. Portanto, a primeira
notícia seria mais importante, do ponto de
vista jornalístico, do que esta última, na
medida em que contém maior quantidade de
informação, sendo os critérios
matemáticos da Teoria da informação. No
entanto, é fácil perceber que a notícia
sobre El Salvador tem mais significado e
importância, pelo fato de conter mais
universaldade e estar ligada às
contradições fundamentais de nossa época
(p.80).
Por considerar
sólida a tradição acadêmica produziu da pela
Escola de Frankfurt, inaugurada na Alemanha dos
anos 20, é a ela que Adelmo Genro Filho dirige
um número maior de críticas.
1) Os teóricos
Theodor Adorno e Max Horkheimer,em sua oposição
tanto ao socialismo real estruturado na União
Soviética da Era Stálin (1924-53), não teriam
entendido a técnica como feita pelo Homem, mas
como um fenômeno que receberia integralmente um
significado negativo das relações sociais. Suas
potencialidades de aprimoramento do modo como os
homens convivem e reproduzem suas condições de
existência não são valorizadas pelos
frankfurtianos. A universalização da cultura e
das artes, bem como a sofisticação das
alternativas estéticas, são possibilidades que
Adorno e Horkheimer não admitiram por completo,
segundo Genro Filho.
2) O complexo
formado pelos meios de comunicação de massa,
inseridos na economia de mercado, foi chamado
pelos frankfurtianos de Indústria Cultural. O
controle e a manipulação de enormes massas por
ela mereceriam a qualificação da quase
onipotentes.
Não
são percebidas brechas significativas no
processo cultural hegemonizado pela
burguesia, ou seja, a manifestação
reproduzida e ampliada de certas
contradições políticas e
ideológicas (p.10O).
3) A cultura
tradicional, configurada pelo próprio acesso da
burguesia à direção do sistema
econômico-social, é entendida como superior a
produzida pelo sistema industrial. A grande arte,
em termos de literatura, teatro, música e
pintura, é tomada como única referência para
que se considere uma criação artística como
elevada. Genro Filho afirma que não ficam
indicados pelos frankfurtianos caminhos viáveis
para o enfrentamento de classes através da
cultura e das artes.
4) O autor de O
segredo da pirâmide (...) assinaIa que a
expressão "Indústria Cultural"
insinua que é a base industrial, independente
das relações sociais de produção, a causa da
manipulação e da degradação da cultura.
Genro Filho se
ocupa também das contribuições contemporâneas
do filósofo alemão Jurgen Habermas para um
estudo da evolução do Jornalismo. Habermas
tenta demonstrar, segundo o escritor brasileiro,
que o estabelecimento do Estado de Direito
Burguês tornou possível a imprensa abandonar
sua posição polêmica e explicitamente
partidária do período em que os proprietários
dos meios de produção não exercem o Poder
Político. Prevalece, então, na época do
Jornalismo Informativo, desde o final do século
XIX, a necessidade de um investimento do dono da
empresa jornalística para gerar lucros,
subordinando-se a política da empresa aos
interesse da economia de mercado, com a venda de
espaços publicitários a anunciantes e um
controle mais rígido das notícias.
A contestação
de Genro Filho a tese de que o anseio por
informações jornalísticas sentido pela
sociedade, ao longo do desenvolvimento dos meios
de comunicação, fica em segundo plano, se
repete quando o autor analisa obra de outros
intelectuais brasileiros sobre o assunto.
Comentando um texto de Ciro Marcondes Filho,
intitulado "Imprensa e capitalismo",
Genro Filho explica a dialética das exigências.
(...)
as necessidades geradas pelo capitalismo são
também moedas de duas faces: uma particular,
específica do sistema burguês, e outra
universal, que se agrega ao gênero (humano)
ou pelo menos, a um longo período da
história posterior (...).
Em
termos qualitativos, a questão se repõe: o
capitalismo produziu a necessidade de
um gênero de informação por meio do
qual também reproduz as bases econômicas e
ideológicas do sistema que é precisamente
fruto do jornalismo contemporâneo, o qual
será herdado por qualquer sociedade que
suceder a atual (p.112).
Ainda antes de
conceituar o jornalismo, Genro Filho problematiza
o que chama de materialismo reducionista. Ele
questiona o estudioso Vladimir Hudec
(provavelmente de algum dos países da Europa
Oriental. Não há indicações sobre sua
nacionalidade), que definiu o jornalismo como
produto das necessidades económicas, políticas
e ideológicas da burguesia. Genro Filho
argumenta que a essência de um fenómeno não se
deduz integralmente de sua origem. É preciso
saber o que diferencia o Jornalismo de outros
ramos de produção de mercadorias surgidos com o
capitalismo e não somente apontar esta
vinculação.
No mesmo
capítulo, o autor brasileiro manifesta sua
discordância no que se refere às premissas da
atividade jornalística nos países socialistas.
Adelmo Genro Filho afirma que a dominação de
partidos burocráticos que acreditam ser a
criação de uma sociedade sem classes um
"objetivo cientifica, mente
fundamentado" - e não uma possibilidade
histórica - conformou um Jornalismo amorfo e
avesso à novidade. Isto ocorre porque a
burocracia dos partidos comunistas determinou a
obediência de supostas "leis objetivas do
desenvolvimento social" pelos que produzem
as informações, que teriam que manter um
comportamento otimista a priori, pois as
organizações conhecedoras daquelas normas
assumiram o comando de todas as esferas da vida.
A metodologia
adelmiana, portanto, abrange esta verificação
dos motivos pelos quais diversas correntes
teóricas não desvendam a especificidade do
Jornalismo Informativo, para depois oferecer uma
definição do fenómeno, sob um ângulo
filosófico.
3.2
- AS CATEGORIAS UTILIZADAS POR ADELMO GENRO FILHO
No terceiro
capítulo, Genro Filho se refere ao ensaio de
Robert E. Park publicado em 1940 em um jornal da
Universidade de Chicago. A crítica fundamental
dirigida ao americano incide sobre a sua
definição de conhecimento. Park aceitava a
noção do "conhecimento de" alguma
coisa como aquele que não ultrapassava uma
dimensão mais simples da experiencia, que
captava apenas o seu aspecto fenomênico. O
"conhecimento acerca de" seria aquele
mais elevado, que abarcaria um número maior de
relações que perpassam o objeto. O
norte-americano indicou o "conhecimento
de" ou "de trato" como ponto
inicial do contínuo onde se localiza a notícia.
O problema, para
Adelmo Genro Filho, é que o conhecimento não se
resume aos graus de abstração em que se
realiza. O essencial é saber quais os gêneros
possíveis de conhecimento. Apontando este limite
do funcionalismo, o autor de O segredo da
pirâmide (...) apresenta mais adiante, no
capítulo sete de sua obra, sua postura diante do
Jornalismo.
Uma
vez que o jornalismo inaugura historicamente
uma nova possibilidade epistemológica, uma
teoria capaz de abrangê-lo deve propor
claramente o problema em sua conexão com
categorias fisiológicas, situando aos
aspectos histórico-sociis no contexto de um
reflexão de alcance ontológico sobre o
desenvolvimento social (p.156).
A nova
perspectiva de conhecimento inaugurada pelo
jornalismo será, portanto, demonstrada através
de categorias filosóficas. Os três conceitos
utilizados por Genro Filho foram usados também
pelos filósofos gregos antes de Cristo, mas sua
colocação no centro da lógica foi empreendida
peIo pensador alemão Friderich Hegel, no século
XVIII. O singular , o particular e o universal
são géneros de conhecimento porque são níveis
diferentes da realidade.
Em seus Princípios
da Filosofia do Direito, Hegel define o
Estado como espírito universal no mundo. Isto
porque, na sua organicidade, sua configuração
é de um conjunto de leis e instituições
válidas, em tese, para todos os cidadãos em uma
sociedade, em um país. A particularidade, nesta
obra, é quase sempre tomada como aquilo que vem
das relações entre indivíduos como partes de
uma realidade maior: suas necessidades
subjetivas, seus interesses concretos, como a
propriedade, por exemplo.
Observe-se que a
propriedade pessoal, neste caso, é algo
particular, mas o direito à propriedade é
universal. Hegel trata aqui do mundo jurídico,
sem descartar a possibilidade de que a
"coisa própria" se constitua enquanto
valor moral universal, ou seja, de um universo
considerável de homens em suas relações
sociais. Não por acaso, quando trata da esfera
dos cidadãos, a sociedade civil, o filósofo
alemão escreve que ela contém dois momentos
onde a relação da universalidade com a
particularidade ganha concretude:
- A liberdade
contida no sistema de proteção da
propriedade pela Administração da
Justiça; e
- A
prevenção contra a circunstância e o
cuidado dos interesses particulares como
algo comum por meio do Poder de Polícia
e a Corporação burocrá tica dos
diversos órgãos públicos.
Hegel viveu no
período da Revolução Francesa de 1789, e fez
dela seu objeto de investigação filosófica da
dialética histórica. Uma classe transformadora,
parte de uma sociedade, a burguesia, passou a
representar os interesses das classes populares,
os camponeses e artesãos. Ora, aquele segmento
com isso encarnou a universalidade. A burguesia
uniu quase todas as camadas sociais para passar a
governar a França. O particular incorporou o
universal, fato que demonstra como eles se
influenciam reciprocamente e são
indissociáveis. Nesta realidade em movimento,
onde entra o singuiar?
Nos Princípios
da Filosofia do Direito, o filósofo alemão
confere ao singular identidade com o efêmero, o
temporário, o aspecto único que se esgota em
si, ao longo de uma ação, ou em um indivíduo.
Aqui é necessária uma ressalva. Hegel era
idealista. Filosoficamente, isto significa que
para ele as determinações da realidade eram
sempre da idéia para a concretização, do
espírito absoluto para o mundo objetivo. O
Estado, como encarnação de um espírito
supostamente universal, deveria ser aceito em sua
realidade nacional, sem que se procurasse
estabelecer conexões de suas características
com as relações sócio-econômicas que
vigoraram ao longo de sua formação. Por isto,
inclusive, Hegel defendia a monarquia
constitucional de sua época. O universal,
então, precederia e se imporia sobre o
particular e o singular.
Os materialistas
dialéticos, desde Karl Marx no século XIX até
o pensador húngaro Georg Lukács no século XX,
vão ressaltar, de modo oposto, a conversão
mútua de um nível do real em outro e como um
contém o outro. Uma frase simples esclarece
isso. Quando se diz que "Luís Matarazzo da
Silva é homem", fica subentendido que Luís
possui um conjunto de características comuns a
todos os seres humanos, como a capacidade de
raciocinar, mecanismos biológicos que
distinguiram o Homem de outros animais, entre os
quais a oposição do dedo polegar ao indicador,
etc. Porém, Luís Matarazzo da Silva também
pode ser diferenciado dos outros homens. Seu
próprio nome o diferencia. No entanto, ele
combina, além disso, uma série de traços
psíquicos e uma posição social de um modo que
o leva a agir de determinada maneira em seu
ambiente próximo. Assim, ele vai seguir uma
profissão, conviver com outras pessoas, sendo
conhecido como um certo indivíduo, único,
singular.
Quando se pensa
em uma pessoa, torna-se fácil situá-la em uma
parte do mundo. O particular pode ser sua
família ou sua nação. No livro Introdução
a uma Estética Marxista, escrito na
primeira metade dos anos 50, Georg Lukács
considerou que o particular estético consiste no
típico, que baliza a organização da obra
artística. Quando o retrata, o artista se eleva
acima de sua subjetividade imediata.
Ocorre que
Lukács adota o pressuposto de que a ciência e a
arte refletem a mesma realidade objetiva, como
formas de conhecimento diferentes. Assim, a
ciência estabelece preceitos universais. Ela
busca as leis gerais que regem os fenómenos nas
mais diversas esferas. Qualquer equação de se
gundo grau se resolve pela fórmula de Baskarah
(Para ax² + bx c = O, usa-se -b±), mas
como entender a afirmação de que a arte
subordina a imediaticidade do singular e a
abstração generalizante do universal no
típico?
Lukács
sistematiza sua visão tendo em mente a
Literatura realista, que tanto no Brasil quanto
na Europa se ocupou das contradições sócias. A
poética contemporânea da Música Popular
Brasileira fornece um bom exemplo para se dei
limitar a particularidade estética. Observe-se
um trecho da letra de Construção,
composta por Chico Buarque de Hollanda no começo
da década de 1970:
(...)
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo por tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
(...)
Comeu feijão com arroz como se fosse um
príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dabçou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
(...)Morreu na contramão atrapalhando o
tráfego.
Compare-se com
estes outros textos hipotéticos
A
classe operária no Brasil tem pouco acesso a
alimentos ticos em proteínas, sendo os
empregados do setore da construção civil
alguns dos mais prejudicados neste aspecto.
Seu baixo poder aquisitivo, que não lhe
permite consumir alimentação de melhor
qualidade, está diretamente relacionado com
suas condições de trabalho altamnete
perigosas. Dados estatíticos comprovam que x
milhares de trabalhadores da construção
civil morrem a cada ano caindo de prédios
incabados, que jamais teriam possibilidades
econômicas de ocupar.
O
pedreiro Ademir Souza Gonçalves morreu ontem
à uma da tarde caindo do alto da
construção onde trabalhava em Copacabana.
Meia hora antes de cair no meio da rua,
quando o movimento de automóveis era
intenso, Gonçalves tinha almoçado arroz com
feijão e bebido um resto de cerveja
preta.
Chico Buarque
não realizou uma investigação no âmbito das
ciências sociais, recorrendo a estatísticas
sobre acidentes de trabalho no Brasil, nem fez
uma reportagem sobre um acidente fatal que matou
um determinado pedreiro, o compositor carioca
desenvolveu em versos a tipicidade de uma parte
dos brasileiros em seu drama social cotidiano
totatalizou esta representação no particular,
com sua capacidade criativa.
Adelmo Genro
Filho não aceita a premissa lukacsia na de que a
arte e a ciência refletem a mesma realidade. O
criador é inseparável da obra, à medida que
recria a dimensão do real de que se ocupa.
Trata-se
de uma realidade (a refletida pela arte) que
mantém traços de identidade e pontos de
pertinência em relação áquela que é
objetio da ciência. (...) A ciência tende
para a objetividade, para a revelação em si
do objetio, esse é o movimento que a
caracteriza. A arte funde sujeito e objeto no
contexto de uma totalidade particular, mas
cujo conteúdo, embora não seja exaustivo,
refere-se sempre à totalidade mais ampla da
existência histórica e ontológica dos
homens e da sociedade (p.157).
Ainda neste
capítulo de O segredo da pirâmide
(...), Genro Filho explica que o universal
contém e dissolve os diversos fenómenos
singulares e os grupos de fenómenos particulares
que o constituem. O singular integra tanto o
particular como o universal., em sua identidade,
e o particular se situa dinamicamente entre os
extremos. O escritor traz o caso de uma greve na
região do ABC em São Paulo para mostrar como
estas três dimensões da realidade se coesionam
em um fato jornalistíco.
Ao
ser transformada em notícia, em primeiro
plano e explicitamente, serão consideradas
aqueles fatos mais específicos e
determinados do movimento, ou seja, os
aspectos mais singulares. Quem, exatamente,
está em greve, quais são as
reivindicações, como está sendo organizada
a paralisação, quem são os líderes, qual
a reação dos empresários e do governo,
etc; (...) Mas a notícia da greve terá de
ser elaborada como pertinente a um contexto
político particular, levando em conta a
identidade de significado com outras greveres
ou fenomenos sociais relevantes. Será um
acontecimento que, de modo mais ou menos
preciso, terá de ser situado numa ou mais
classes de eventos, segundo uma análise
conjuntural que pode ser consciente ou não.
(...) No entanto, a universidade desse
fato político, em que pese não seja
explicitada, está necessariamente presente
enquanto conteúdo. Ou seja, com o
pressuposto que organizou a apreensão do
fenômeno e como significado mais geral da
notícia, teremos uma determinada concepção
sobre a sociedade, a luta de classes e a
história (p.163).
No oitavo
capítulo de O segredo da pirâmide
(...), Genro Filho reforça as noções acerca
desta dialética. O jornalismo surgiu como uma
forma social de percepção da realidade
necessária para todos os seres humanos ainda que
dentro de um sistema onde existe uma dominação
de classe. Esta parte da sociedade
contemporânea, que exerce controle econômico e
político de várias maneiras sobre os meios de
comunicação, não conduz à especificidade do
fenómeno jornalístico.
3.3
- A ESPECIFICIDADE DO JORNALISMO
Explicitando
mais uma vez seu entendimento de que as
potencialidades do jornalismo transcendem a
realidade histórico-social do capitalismo,
Adelmo Genro Filho apresenta o que considera O
segredo da pirâmide (...) no capítulo
nove. Arites desta definição da essência do
jornalismo, o escritor arrola algumas teses sobre
a objetividade, os sujeitos e os fatos
jornalísticos em geral.
A sociedade,
tomada como simples objetividade, é vista como
probalistica. Genro Filho acrescenta que ela
envolve sujeitos humanos, os quais criam margens
de escolha entre estas probabilidades, delineando
assim a esfera da liberdade. A totalidade
concreta, categoria cara ao filósofo
Tchechoeslovaco Karel Kosik, já referido, é
entendida como transformação da possibilidade e
da probabilidade em liberdade através da
criação e superação de necessidades no mundo
social graças ao trabalho.
Nesta relação
global entre o sujeito e o objeto, um produz o
outro. A objetividade também é produzida pelo
homem, apesar de, pela própria definição dela,
estar fora da consciência humana. No fluxo
contínuo da realidade objetiva, os fatos
jornalísticos são um recorte efetuado a partir
de uma escolha. Genro Filho ressalta que não se
cai no subjetivismo e no relativismo quando se
admite que há uma substância histórica e
socialmente constituída independentemente de
qualquer enfoque subjetivo e ideológico.
A
verdade, assim, é um processo de revelação
e constituição dessas substância. Vejamos
um exemplo extremo: ocorreu um fato que
envolve Pedro e João, no qual o último
resultou mortalmente ferido por tiro
disparado pelo primeiro. Psso interpretar que
Pedro matou,
assassinou ou tirou a vida
de João. Ou, ainda, que Pedro apenas
executou, sob coação, um crime premeditado
por terceiros. Não posso esconder,
entretanto, que Pedro atirou contra João e
que este resultou morto (p.188).
A Notícia, em
sua redação, foi "desenhada" por
inúmeros autores dentro e fora do Brasil como
uma pirâmide in vertida. O lead, termo usado
pelos norte-americanos, significa aproximadamente
"cabeça" da matéria. Ele se
materializa pela resposta as seis perguntas no
momento de escrever o primeiro parágrafo, que
sintetiza o fato: que, quem, onde, como, quando e
por quê? A pirâmide é invertida, conforme esta
noção presente na maioria dos manuais de
jornalismo, porque a notícia caminharia do mais
importante para o menos importante.
Genro Filho
concorda que o lead encarna o momento
jornalístico principal, mas situa a questão sob
um outro ângulo. Para o escritor, o jornalismo
é uma forma de conhecimento que se cristaliza no
singular. Abordando sob o prisma epistemológico
(ramo da filosofia que investiga a produção do
conhecimento) a Notícia, o mestre em ciências
sociais inverte a pirâmide.
(...)
a notícia caminha não do mais importante
para o menos importante (ou vice-versa), mas
do singular para o particular, do crime para
a base. O segredo da pirãmide é
que ela é invertida, quando deveria estar
como as pirãmides seculares do velho Egito:
em pé, assentada sobre sua base
natural" (p. 191).
Os diferentes
triângulos servem para Genro Filho distinguir as
modalidades jornalísticas. O equilátero fornece
o modelo da menor unidade de informação
jornalística,que é a notícia diária. A
igualdade dos três ângulos configura um
equilíbrio entre a singularidade do
acontecimento, a particularidade que o
contextualiza e o seu significado universal
dentro de um contexto. Esta significação é
delineada por idéias e valores que o repórter
fará como referências aceitáveis para todos os
indivíduos ou a grande maioria deles.
Um triângulo
isósceles, com a base menor que os Iados,
representaria a notícia sensacionalista, que se
caracterizaria por uma exacerbação da
singularidade, quase sem nenhum elemento de
contextualização. O caso oposto é ilustrado
por um isósceles com a base maior do que os
lados, representando a abertura para uma
generalização ampla do singular ao particular.
A produção da
notícia se orienta pelos pressupostos
filosóficos e ideológicos do jornalista, que os
projeta de modo implícito pela hierarquização
dos fatos que a compõem. Um profissional capaz
de efetivar uma grande reportagem potencializa ao
máximo estas possibilidades, apesar do controle
de informações por seus patrões e pelos
anunciantes que financiam o jornal onde trabalha,
ou não? Voltemos a Brasiguaios, homens sem
pátria.
4
- O "XIS" DA QUESTÃO
No livro A
aventura da reportagem, escrito pelos
jornalistas Gilberto Dimmenstein, da Folha de
São Paulo, e Ricardo Korstcho, do Jornal
do Brasil, há uma série de experiências
relatadas por estes dois profissionais da
imprensa brasileira. Não menos importante são
algumas afirmações de Clóvis Rossi, a quem já
se fez referência no presente trabalho, que
escreveu o prefácio para a obra.
Rossi concorda
com a definição de Cari Bernstein, do Washington
Post, de que o jornalismo deve consistir na
melhor verdade possível de se obter. Quando se
refere à reportagem, o brasileiro sentencia que
ela é a técnica de contar boas histórias.
Dimmenstein acrescenta que o imprevisível
fornece sempre material abundante para o ótimo
jornalismo, no capítulo de A Aventura da
Reportagem que escreveu.
Os profissionais
da Folha de São Paulo apreendem um
aspecto da questão. Para analisar a
investigação sobre os brasiguaios, parte-se
aqui de pressupostos mais abrangentes. O primeiro
deles: a verdade é um processo. Não se trata,
portanto, de verificar se Carlos Wagner alcançou
a "melhor ver dade possível", pois
isto implicaria admitir que as conexões
verdadeira dos fatos são absolutamente
inalcançáveis.
A segunda e a
terceira premissas estão interligadas. Aceita-se
a visão adelmiana do jornalismo como uma forma
de conhecimento calcada na singularidade, e
toma-se a reportagem como busca de singularidade
de cada acontecimento para que seus
desdobramentos particulares .sejam estabelecidos
. A concepção do jornalista acerca da realidade
onde atua e sua capacidade de expressão
"para contar boas histórias"
determinam o grau de contextualização das
ações invejs tigadas. Por consequência, são
fatores decisivos para que seus leitores recebam
informações corretas e reflitam sobre os
assuntos que lhes despertarem interesses.
4.1
- OS MOMENTOS DA INVESTIGAÇÃO DE WAGNER
Carlos Wagner
soube dos braiguaios através de uma nota
publicada no jornal Zero Hora, enquanto
estava de férias. Voltando a exercer suas
atividades, propôs o tema como pauta, já
sabendo das dificuldades da investigação. Os
aspectos do problema, como a situação em si dos
colonos brasileiros no Paraguai, os procedimentos
da ditadura Stroessner para atraí-los, as
condições políticas e económicas daquele
país da América Latina, foram elucidados,
segundo revelou o repórter na entrevista para o
presente trabalho, com ações rápidas e uma
utilização precisa de informações das fontes
de que dispunha.
O jornalista
ficou duas semanas viajando pelas regiões
fronteiriças, correndo o risco de ser preso por
causa da repressão à imprensa no Paraguai. De
volta a Porto Alegre, depois de ter recolhido
todos os dados de que precisava, passou a
planejar como redigiria a série de matéria que,
no seu conjunto, constituiriam a reportagem.
A delimitação
do objeto investigado por Wagner foi essencial
para que o caso dos brasiguaios fosse desvendado
em suas especifidades. Entretanto, há um outro
fator que uma análise teórico-jornalística
não pode desconsiderar,quando uma grande
reportagem é o assunto. A visão adelmiana sobre
o jornalismo deixou uma lacuna importante quanto
a este aspecto do problema.
Daniel Herz foi
professor na Faculdade de Jornalismo da
Universidade Federal de Santa Catarina e um dos
colaboradores de Adelmo Genro Filho em sua
pesquisa. Teve acesso, inclusive, aos originais
de O segredo da pirâmide (...). Em
entrevista concedida especialmente para o
presente trabalho, Herz admitiu que o esquema
adelmiano manteve em aberto a questão do gênero
jornalístico ora em exame. A grande reportagem
não está compromissada com a imediaticidade da
produção jornalística diária.
Ora, aquilo que
surge de novo, de imprevisível, e que se torna
notícia, de um dia para o outro, tem a agudeza
de sua singularidade contida nas seis perguntas
clássicado lead, conforme a teoria adelmiana.
Imaginemos, por exemplo, que Wagner se limitasse
a esperar o surgimento de fatos relacionados com
os brasiguaios. Em uma certa data, ele
publicaria, talvez, uma matéria cujo primeiro
parágrafo seria assim:
O
governo paraguaio admitiu ontem que montou
várias agências de propaganda para atrair
colonosbrasileiros em busca de terras, sem
que a posse delas estivesse garantida para
eles no apís comandado por Alfredo
Stroessner. O objetivo dos militares
paraguaios era aumentar a produção de
grãos para a exportação em seu
país.
Estão aí
respondidas as perguntas que, quem, onde, como,
quando e por que. Entretanto, a ditadura militar
no Paraguai dificilmente confirmaria estes
procedimentos. Não é por acaso que os regimes
autoritários tolhem ao máximo a liberdade de
movimentos dos profissionais de imprensa. O
estranho é que alguns dos profissionais atuantes
nos meios de comunicação julgam que uma agenda
com números de telefones e um destes aparelhos
são tudo que alguém precisa para ser um bom
repórter.
Uma
investigação jornalística desmente esta
simplificação, que, interpretada ao pé da
letra, conduz a um "fontismo" perigoso.
Cabe aqui uma rápida digressão em torno das
elaborações de Hegel em sua Filosofia do
Direito.
O pensador
alemão, como no presente trabalho se observou,
identificou a singularidade com a dimensão
temporal imediata de um acontecimento. Além
disso, afirmou que o conhecimento de um caso
jurídico em sua singularidade não contém
jurisdição. Isto significa que não basta
alguém incendiar a casa de um outro para que
ocorra um crime. Se a sociedade da qual estes
dois indivíduos participam tiver atingido um
estágio de relações econômicas onde a
destruição proposital do patrimônio particular
for um procedimento doloso típico, have rá um
crime.
A esfera
jurídica necessita de uma cadeia de mediações
para incidir sobre ações concretas. Elas vão
da imposição de valores e normas como
dominantes em um determina do universo à
formulação de mecanismos (leis,
punições,etc.) pelos legisladores. Do mesmo
modo a singularidade de um fato por si não leva
ao conhecimento de sua significação na época
em que ele ocorre. Na notícia diária, a
contextualização possui menos espaço do que na
grande reportagem, que traz mais elementos para a
tipificação do acontecimento em uma atualidade
histórica. Brasiguaios; homens sem pátria
demonstra para que se deve elucidar o singular em
uma trajetória.
4.2
- A BUSCA DA SINGULARIDADE DOS BRASIGUAIOS
Todo conjunto de
acontecimentos é novo em relação a uma
realidade mais complexa, dentro de um universo
bem mais amplo. Uma reportagem investigativa
consiste na busca da singularidade destes fatos
interligados para situá-los em seus
desdobramentos particulares, de modo que
concepções e valores do jornalista sobre
questões que interessem a todos dentro de uma
sociedade ficam implícitos.
Além de uma ida
ao palco onde se desenrolou a trajetória dos
brasiguaios, Wagner precisou em um segundo
momento planejar e organizar seu texto,
hierarquizando os diversos aspectos do problema.
Não começou sua matéria com um lead
convencional, mas sua primeira frase já
apresenta uma faceta única no movimento dos
agricultores. Uma explicação inicial se
desenvolve no primeiro parágrafo e será
reforçada pelos dados ao longo da reportagem.
Eis o trecho citado:
A
colinização das terras paraguaias pelos
colonos brasileiros não foi um movimento
populacional espontâneo. Ela foi
minuciosamente pensada pelas autoridades dos
dois países. Para o Brasil é interessante
ter 10% da população do paraguai composta
de brasileiros (p.13).
Observe-se que a
singularidade se mantém como centro de toda a
primeira parte da matéria. Quando Wagner explica
como surgiu o termo "brasiguaios",
reproduz o diálogo entre um agricultor e o
deputado federal, na época, Sérgio Cruz, no
qual este diz que os colonos eram uma mistura de
brasileiros com paraguaios sem pátria. O
jornalista apresenta um movimento temporal
delimitado que sintetiza com precisão a falta de
direito daqueles homens, ressaltando mais uma vez
de forma clara a dimensão singular do que
viveram.
Esta mesma
lógica explica os depoimentos do "negro
José e do alemão Molar". Os indivíduos,
de carne e osso, concretos em suas angústias e
vontades, contam o que viram e lembram. José
Rodrigues e Molar Lang são a memória viva da
colonização brasileira planejada no Paraguai.
Wagner é mais uma vez feliz ao trazer para o
leitor unicidades de um fato na saga que
investigou.
Rodrigues
lembra de uma mulher que ficou doente
da cabeça porque os seus moleques
morreram. Ela tinha quatro filhos;
depois que o último morreu, ela conversava
com eles. Xingava as crianças porque
tinham sujado a roupa. Depois de contar esta
história, ele entra em uma espécie de
depressão emocional. Eu tento arrastá-lo
para outros assuntos, para contornar a
situação. Pergunto como vive hoje. Ele me
olha e diz: - Vivendo, ora! Pois o Rodrigues
continua como agregado e plantando hortelã a
meias, para os japoneses." (p. 2?).
Quando aborda o
retorno dos brasiguaios ao seu país de origem,
Wagner demonstra outra especificidade do caso: a
falta de ajuda dos sindicatos de trabalhadores
rurais brasileiros. O que ocorreu com o
presidente da entidade de Foz do Iguaçu, Miguel
Issor Sávio, um dos poucos a colaborar com os
brasiguaios, comprova o quanto esta ação era
perigosa:
(...)
na noite do dia 2 de agosto de 86 (...)
Sávio tinha ido visitar uns parentes com a
esposa. Perto da meia-noite chega em casa e
é recebido por um estranho. Este (...)
ensaiou uma espécie de assalto. Sávio
disse: - Pode levar tudo. O estranho sorriu e
disparou os tiros (p.28).
Todo o esforço
secreto, que culmina na formação de lideranças
entre as famílias brasiguaias e no surgimento de
uma rede de informações para que elas organizem
seus acampa, mentos e suas articulações
políticas, delineia no segundo capítulo a
singularidade dos caminhos percorridos pelos
colonos. O dossiê publicado resumido por Wagner
sobre as violên cias comprovadas contra trinta e
um deles resume de maneira contundente a dor
deste grupo social.
Quando trata dos
que ficaram no Paraguai, o repórter aponta como
traço dos agricultores seu conformismo a parente.
Um dos fatos escolhidos para aparecer no texto se
revela cómico sem deixar de ser trágico.
Através dele, ocli. ma de repressão no Paraguai
encontra como resposta ingenuidade em um colono,
característica que o salva de uma prisão. A
história foi contada por um líder camponês,
cujo nome Wagner preserva em sigilo:
Um
colono foi parado na estrada pela polícia
paraguaia. Eles lhe perguntaram seos seus
documentos estavam em ordem. Eles não
estavam em ordem. Daí um dos agentes
perguntou se ele era Colorado. O colono disse
sim. Foi mandado embora sem ser perturbado.
Acontece que ele pensou que tinham perguntado
se ele torcia para o time de futebol do
Internacional (Colorado de Porto
Alegre) (p.43).
O partido
colorado, do General Stroessner, adquire mais
importância na segunda parte do livro. Nela,
Wagner se deterá com mais atenção no Paraguai
enquanto contexto particular de uma América
Latina dominada por ditaduras ou em fase de sua
lenta superação ao mesmo tempo transformada
pela existência dos brasiguaios e condicionante
dos rumos a serem seguidos por eles.
A singularidade
da questão brasiguaios é apreendida, portanto,
como processo de exploração planejado por uma
ditadura militar que assumiu determinadas
perspectivas econômicas e políticas para seu
país, e, assim, ensejou o surgimento de um
conjunto de agricultores oprimidos e
marginalizados sem pátria porque sem direitos
nem no país para onde foram, nem no país de
onde saíram. A lenta reação dos colonos a isso
também é reconstuída como dimensão única
desta trajetória, e as suas individualidades,
por seus depoimentos e atitudes organizativas ou
de perplexidade (como no diálogo onde aparece o
termo "brasiguaios"), cumprem a
função imprescindível para a enorme qualidade
da reportagem. Este gênero jornalístico adquire
um estatuto próprio em relação à pesquisa
histórica não só pela repercussão da
atualidade em sua elaboração, mas por ter a
singularidade como ponto de partida e integrador
dos acontecimentos, na contextualização destes.
Qualquer historiador teria que examinar o
"caso brasiguaio" à luz de categorias
universais próprias da ciência em que se
especializou a partir do período vivido por
Brasil e Paraguai para a análise da situação
daqueles colonos. Isto não significa que as
fronteiras entre o Jornalismo e a História não
sejam derrubadas muitas vezes, porém,não se
deve esquecer que elas existem.
4.3
- A MATERIALIZAÇÃO DA REPORTAGEM
A reinversão da
pirâmide, para que ela seja figura da
construção do texto jornalístico, é um
pressuposto aceito por Carlos Wagner. Segundo
ele, o mais importante em uma reportagem
investigativa consiste na adequada contextua,
lização do acontecimento, a qual se encontra,
utilizando-se a forma geométrica, na base da
pirâmide com os pés no chão. Por sua
vivência, Wagner aceitou intuitivamente a teoria
miana.
Na última parte
da reportagem, o centro do proble ma passa a ser
o Paraguai. A tipificação deste país da
América Latina, no que se refere às
consequências do sistema econômico para sua
população, explica o quadro enfrentado pelos
brasiguaios. Quando aborda a economia do país
governado por mais de 30 anos por Alfredo
Stroessner, o jornalista lembra que até a
chegada do general ao Poder, as atividades pro
dutivas eram voltadas para as necessidades da
população. O modelo agroexportador começa a
ser implantado, e a reforma agrária se realiza
para que se plantem produtos exportáveis, como
soja e algodão. Por isso, além do fato de não
terem como sobreviver no Brasil, os colonos
brasileiros tornam-se o "público-alvo"
da propaganda elaborada pelas agências de
coIonização paraguaias".
Com o
desabamento dos preços de mercadorias expor
tadas, no inicio da década de 80, aliado à
falta de uma pro posta de desenvolvimento
industrial e à força do contrabando que conta
com a conivência das autoridades, a crise da
ditadura militar paraguaia se acentua. A
oposição política se articula, assim como a
ala progressista da Igreja Católica e o
Movimento Intersindical de trabalhadores, que
congrega os sindicatos independentes da
federação de trabalhadores reconhecida
oficialmente. A concentração de renda e a falta
de direitos humanos se somam para que as
pressões ao regime se tornem incontrolãveis. A
mudança, entretanto, é de um general por outro,
e este outro é confirmado pelo voto popular:
Andrés Rodrigues venceu as eleições
presidenciais em 1989.
Os problemas da
posse da terra se agravam com a emigração dos
colonos brasileiros. Wagner revela que mais de 30
mil famílias campesinas perambulam pela
fronteira com o Brasil, depois da ida de mais de
30 mil brasileiros para o Paraguai. O dispositivo
constitucional daquele país que assegura a cada
família camponesa 25 hectares para a
sobrevivência foi totalmente desrespeitado pelos
comandantes da ditadura militar.
Termina, então
a reportagem com a tipificação da saqa dos
brasiguaios como um plano autoritário dos
militares paraguaios, que se somou à falta de
uma vontade política do regime instalado no
Brasil após 1964 de realizar uma reforma
agrária no país. Carlos Wagner se preocupou com
o contexto paraguaio. Abordam-se agora algumas
condições sociais e econômicas brasileiras que
contribuíram para a emigração dos camponeses,
que o repórter poderia lembrar com mais ênfase,
mas isto não diminui seus méritos.
Dados
atualizados do Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária (INCRA) apontam
21 milhões de agricultores sem terra. Os
latifúndios, caracterizados como grandes
propriedades improdutivas e ociosas, espalham-se
por 85% das terras agriculturaveis. Sobram 9,5%
destas para as pequenas propriedades. Estudos
recentes da Organização das Nações Unidas
mostraram que sõ Honduras e Serra Leoa
concentram mais a renda do que o Brasil.
Dificuldades de
comercialização de produtos agrícolas, como a
oscilação de preços e o transporte sempre caro
para as regiões urbanas, além do acesso
restrito a métodos eficazes de plantio são
alguns dos fatores responsáveis pelas
migrações e emigrações das famílias
brasileiras do cam po nas últimas décadas. Ao
longo deste período, a mecanização chegou a
lavouras de poucos agricultores: os que tinham
maior quantidade de terras e podiam pagar
salários a empregados. O desenvolvimento do
capitalismo nas zonas rurais bra sileiras não
tirou de cena trabalhadores que podem contar com
um emprego apenas em uma estação do ano, por
causa da cultura com que lidam, e sem as mínimas
garantias do atendimento a necessidades básicas,
como os "bóies-frias". Eles são quase
um terço dos 21 milhões de camponeses.
O leitor
encontrará um panorama abrangente do quadro
agrário brasileiro e suas conexões com o
mercado externo, desde a época colonial, no
livro Os lucros da fome, de Miranda
Neto. Este agrônomo reuniu várias informações
importantes. Entre estas, a de que na América do
Sul 17% dos proprietários controlam 90% da
terra.
A obra de Wagner
se materializou nesta realidade, que é resultado
da consolidação de relações sociais entre os
homens e deles com o mundo objetivo. A reportagem
investigativa consiste na busca da singularidade
da saga dos brasiguaios para revelar seus
desdobramentos em uma parte da América Latina. O
conjunto destes desdobramentos integra a
tipificação do fato como imposição
autoritária dos que comandaram o Estado
paraguaio na Era Stroessner, com reflexos na luta
por dignidade travada por camponeses de dois
países.
As mediações
organizativas e as ações planejadas pelos
agricultores para assegurarem suas
sobrevivências são contrapartida do
autoritarismo. Elas conferem a exatidão
geométrica do triângulo isósceles com a base
no chão que simboliza a matéria de Wagner, pois
também ficam elucidadas peIo jornalista nas suas
singularidades e particularidades. E manam do
livro de Carlos Wagner valores como o respeito à
vida, o apoio à liberdade de expressão e a
solidariedade. A reportagem os projeta como
universais.
5
- CONCLUSÃO
A teoria
adelmiana, que define o Jornalismo como uma nova
forma de conhecimento cristalizada na
singularidade dos acontecimentos, pode oferecer a
possibilidade de apreensão do significado da
reportagem investigativa. A fecundidade do que
surge de novo, de diferenciado, no fluxo
histórico-social, se torna plena neste gênero
jornalístico quando o repórter é capaz de
situar um fato, ou um conjunto de fatos que
constitui uma trajetória, como parte típica de
uma realidade.
O real se
configura como processo delineado através da
prãxis, isto é, do conjunto de relações de um
sujeito com a objetividade. A ação política é
uma destas esferas, onde as perspectivas dos
grupos e sub-grupos sociais se colocam em
confronto dentro e fora do complexo de
instituições estatais. Na América Latina, em
países como o Paraguai, os interesses das
oligarquias dominantes prevaleceram nas últimas
décadas via ditaduras militares.
Fugiria dos
limites do presente trabalho uma análise mais
aprofundada de como se imbricaram os projetos dos
militares, enquanto segmento responsável por
moldar as condições políticas e de
"segurança nacional" paraguaia, e os
rumos económicos favoráveis aos donos da terra
no Paraguai. Coube, sim, demonstrar como a
investigação de um resultado das imposições
ditatoriais é exemplo de um jornalismo
instigante, que leva os leitores à reflexão,
sob um prima teórico.
A essência de
uma trajetória a singulariza em relação a
algo. A especificidade, ou a série de
especificidades da saga dos brasiguaios, é
situada como decorrência do caráter do regime
comandado por Alfredo Stroessner por mais de
trinta anos e da privação do direito à terra
para os cara poneses brasileiros. Direito que
deveria ser elementar em um país com mais de
oito milhões de quilômetros quadrados.
Carlos Wagner,
como repórter competente, souber dar com os
níveis diferentes da realidade. É pouco
importante se esta capacidade surgiu de sua
intuição e das experiências concretas que ele
viveu. Fundametal e entender que ele sabe
que são os homens e mulheres que edificam as
relações sociais e são por eles condicionados.
Das mediações que eles constróem, nascem ou
não modificações estruturais e radicais nessas
relações.
O jornalista
estabelece conexões sem que abdique das ideias e
dos valores com os quais se identifica. Ele pode
até explicitá-los, em uma reportagem
investigativa de grande porte, quando os fatos
com que lida propiciam sugerir a universalidade
de questões permanentes. Dizem respeito a toda a
humanidade a dignidade da vida, a liberdade de
pensamento e expressão, a igualdade de direitos,
enfim.
Da notícia
diária, de sua forma textual, também emanam -
aí quase sempre implicitamente - concepções
filosóficas ou culturais do indivíduo que a
elabora. Estas conceções não precisam se
articular de modo sólido, mas se manifestam
desde o momento em que se escolhe o ângulo de
aborda, gem do acontecimento noticiado.
A sigularidade
conforma o aspecto novo e único, enquanto
diferenciador do fato, dentro do fluxo histórico
do qual são retiradas as notícias e as grandes
reportagens. As informações se tornam
completas, levando o leitor à reflexão, quando
inseridas em uma parte da realidade
histórico-social que esclarece a significação
do fato, sua tipicidade.
Todo este
movimento processual fato (trajetória) -
investigação do jornalista -
notícia/reportagem é dotado de maior grandeza
à medida que o profissional percebe o fato como
ato. Os acontecimentos histórico-sociais possuem
protagonistas, desde suas origens. Brasiguaios;
homens sem pátria conduz a esta
compreensão.
As
contribuições de estudantes de Jornalismo e dos
que o exercem sobre os assuntos analisados por
certo continuarão. Como forma de conhecimento
consolidada no mundo con temporâneo, suas
potencialidades enquanto atividade informa, tiva
permitem o desvendamento dos dramas e das
perspectivas de homens e mulheres como os
brasiguaios, das aventuras que em um verso o
poeta Paulo Mendes Campos foi capaz de resumir:
_______________
BIBLIOGRAFIA:
- BOLETIM Nº 1 DO MOVIMENTO DE
JUSTIÇA E REFORMA AGRÁRIA. Porto Alegre:
Movimento de Justiça e Reforma Agrária, 1991.
Irregular.
- GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da
pirâmide; para uma teoria marxista do jornalismo.
Porto Alegre, Tchê, 1987.
- HEGEL, Georg. Principios de Ia filosofia dei
derecho. ..Buenos Aires, Editorial Sudamericana,
1975.
- KOSIK, Karel. Dialética do concreto.
Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1989.
- KOTSCHO, Ricardo et alli. A aventura da
reportagem. Paulo, Summus, 1990.
- LAGE, Nilson. La estructura de Ia noticia.
Havana, Editorial Pablo de La torriente, 1987.
- LUKÁCS, Georg. Introdução a uma
estética marxista. Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 1978.
- NETO, Miranda. Os_ lucros da fome. Rio
de Janeiro, Dois Pontos, 1985.
- WAGNER, Carlos. Brasiguaios: homens sem
pátria. Petrópolis, Yozes, 1990.
*
Marcelo Coelho é
jornalista da Televisão Pública Educativa do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil.
Esta es su primera colaboración para Sala de Prensa.
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