Já
vai tarde
Análise da edição da revista Veja
sobre a renúncia de Fidel Castro,
aos 50 anos da Revolução Cubana
Juliana
Silva Sakae *
A
cobertura da revista semanal Veja
(Brasil), da editora Abril, foi passível de
análise ética em vários momentos da história
do país: Cazuza. Uma vítima de Aids
agoniza em praça pública (edição 1.077
de 26 de abril de 1989), A morte de Elis
Regina. A tragédia da cocaína (edição
de 27 de janeiro de 1982), Collor de Mello,
o caçador de marajás (23 de março de
1988), Eldorado dos Carajás, Brasil, 17 de
abril de 1996 (edição de 24 de abril de
1996), Drogas: mais uma vítima. Cássia
Eller 1962-2001 (edição 1.733 de 9 de
janeiro de 2002), A grandeza da fé: Papa
João Paulo II (edição 1.899 de 6 de
abril de 2005). Em fevereiro de 2008, na
renúncia oficial do presidente de Cuba por quase
cinqüenta anos, Fidel Castro, a revista destacou
na capa a reportagem com o título: Já vai
tarde: o fim melancólico do ditador que isolou
Cuba e hipnotizou a esquerda durante os anos
50 (edição 2.049 de 27 de fevereiro de
2008). Agora, completam-se 50 anos da Revolução
Cubana e um ano da edição da revista,
maior em circulação no Brasil, sobre a
renúncia do presidente, por motivos de saúde.
Neste trabalho será analisada a
desqualificação semântica de Fidel Castro e a
editorialização da reportagem no texto escrito
por Diogo Schelp, Alexandre Salvador, Duda
Teixeira, Thomaz Favaro e Vanessa Vieira e o
partidarismo da revista Veja na edição
escolhida.
Para análise do objeto,
parte-se do princípio de que a neutralidade é
uma característica impossível ao jornalismo,
enquanto ciência praticada por seres inseridos
em um determinado espaço social, cultural,
econômico e político. Porém, destaca-se o
conceito de objetividade aparente em Clóvis de
Barros Filho, em que se acorda entre leitor e
jornalista a busca pela objetividade mesmo
sabendo ser impossível sua efetivação. A
informação jornalística pode fazer crer numa
representação do real desmediatizada, ou seja,
sem que a subjetividade inerente a todo processo
de codificação seja patente (FILHO,
2003). Na recepção, ao efetuar a leitura de uma
reportagem, se tem a decorrência do efeito
real desta aparente objetividade, e há
conseqüências para todo o sistema informativo.
Com efeito, todas essas características do
estilo informativo tendem a reforçar a
verossimilhança dos textos mediante a
ocultação do autor. Ou seja, pretendem que o
leitor aceite o texto como reflexo da realidade,
não manipulado por mão humana (VILARNOVO
e SANCHEZ apud FILHO, 2003)
Eugênio Bucci
defende que o conceito de objetividade apenas
aparente não pode ser a justificativa para a
existência do outro extremo, o partidarismo
político. A objetividade ou o que
se chama de objetividade em jornalismo é
uma conquista efêmera, não durável, relativa e
precária, mas, sobretudo em política, um
mínimo de distanciamento crítico pode e deve
ser pretendido pelos profissionais de
imprensa (BUCCI, 2002: 112). No caso
analisado, a visão política da revista Veja
é assumidamente direitista nos conteúdos
opinativos editoriais, colunas e artigos
mas também nos considerados informativos,
como o gênero reportagem. No texto, o leitor
espera informações que indiquem elementos da
realidade mesmo que seja utópica esta
aproximação , muito mais que a opinião
sobre o acontecimento, e sua mistura confunde a
acepção do leitor sobre os acontecimentos.
Na edição da
revista Veja em questão, a reportagem
Já vai tarde: o fim melancólico do
ditador que isolou Cuba e hipnotizou a esquerda
durante os anos 50, escrita por Schelp, tem
em sua abertura expressões como
arrogante e farsesca para
descrever o discurso histórico de Fidel Castro
em 1953, adjetivos que descrevem o presidente
embasados em uma opinião e que não adicionam
informação ao leitor, se não apenas juízo de
valor.
Em 1953,
levado a julgamento pelo crime de ter enviado
seus primeiros seguidores para um ataque
suicida a um quartel, o jovem advogado Fidel
Castro Ruz assumiu a própria defesa e o fez
de forma magnífica. Antecipando a retórica
magnética, grandiosa, arrogante mas farsesca
que o caracterizaria pelo resto da vida
política, disse aos juízes: "A
história me absolverá". Passou-se mais
de meio século e, aos 81 anos, conceda-se,
Fidel está diante do tribunal da história.
Visto o sofrimento que infligiu ao povo
durante 49 anos como senhor absoluto de Cuba,
a absolvição está fora de cogitação.
(SCHELP. Revista Veja, Edição
2049, 27 de fevereiro de 2008)
A utilização
da palavra suicida qualifica o ataque
e, inserido em meio a descrição informativa,
não deixa ao leitor espaço para dúvida quanto
à intenção de Fidel Castro no ocorrido. A
Revista Senhor, que durou de 1959 a 1964,
publicada mensalmente pela Editora Delta de São
Paulo, publicou uma reportagem sete anos após o
ocorrido, em junho de 1960, e descreveu o mesmo
acontecimento. Enviado a Cuba para conhecer o
presidente, o cronista e jornalista Rubem Braga
escreveu com a utilização de outras
expressões:
A 26 de
julho de 1953 é assaltado o quartel de
Moncada, o segundo em fôrça da república,
em Santiago de Cuba, capital da província do
Oriente, por 165 revolucionários comandados
por Fidel Castro. Uma piroquetagem heróica
que trouxe uma reação terrível: muitos
insurgentes foram torturados e assassinados
depois de presos e os soldados praticaram
desmandos de toda sorte contra a população.
O arcebispo de Santiago interveio a favor dos
que haviam escapado para a montanha graças a
isso e à correção de um tenente que não
cumpriu a ordem de matá-lo Fidel Castro
ficou vivo. Preso em uma choça com dois
companheiros, prostrados pela fome, foi
levado ao cárcere. Aproveitou o julgamento
para expor suas idéias, condenar a ditadura
de Batista e os abusos do regime. Sua coragem
e eloqüência impressionaram e suas últimas
palavras foram: Condenai-me! Não
importa! A História me absolverá!.
(BRAGA. Revista Senhor, ano 2, número 6,
junho de 1960)
A sentença
uma piroquetagem heróica que trouxe uma
reação terrível descreve o ocorrido a
partir de outro ponto de vista político. As
informações são mais completas na segunda
reportagem apresentada. Braga expõe a ação
(ataque) e reação (assassinatos e tortura) que
culminou no julgamento de Castro e se pode
questionar se o ataque foi intencionalmente
suicida ou não, enquanto Schelp o qualifica,
além de suicida, de
crime uma escolha
anti-castriana antes da constatação de
fatos.
Nos Estados
Unidos, o Código da Sociedade dos Jornalistas
Profissionais defende que o partidarismo viola o
espírito do jornalismo americano (apud BUCCI,
2002:111), mas no Brasil há controvérsias. A
justificativa para Bucci é que, nas revistas
semanais, diferente do jornal diário, há a
editorialização da reportagem, em que
não há demarcação explícita entre um
texto de editorial e um texto de reportagem, às
vezes uma questão de opinião aparece como se
fosse uma mera constatação de fatos
(BUCCI, 2002: 112). Seria então pactuado entre o
público leitor e o editor o posicionamento
político da revista e, então, permitida uma
reportagem com qualificação opinativa de acordo
com a posição política da empresa
jornalística.
Bucci cita a
cobertura das eleições de 1994 pela revista
Exame, da editora Abril, na edição de 28 de
setembro, a qual apoiou assumidamente a
candidatura de Fernando Henrique Cardoso e
estampou na capa a chamada da reportagem
principal: Porque Fernando Henrique é
melhor. Afirma que a revista semanal
abrange um público segmentado e bem
informado. Ao assumir uma posição declarada
perante a eleição, ela deixa ao seu leitor a
opção de discordar. Como se fosse um editorial
diário. Admita-se então que, embora
autoproclamado reportagem de capa, o
texto de Exame pôde ser lido como se fosse um
editorial. (BUCCI, 2002: 114).
Se se permite a
editorialização da reportagem e o partidarismo,
desde que demonstrado publicamente e
observadamente limitado, existe a problemática
de a revista Veja ser uma das principais
fontes de informação do país. As
revistas semanais de informação preenchem no
Brasil uma necessidade importante de leitura,
devido à sua longevidade e alcance nacional,
especialmente entre as classes médias, que não
compram jornais diários (KUCINSKI, 2002:
17). Os fatos descritos através de um ponto de
vista político singular chegam aos leitores como
visão política majoritária, mesmo justificada
por Bucci como um traço de nascença nas
revistas. Embora Bucci defenda que se trate de
uma representação da consolidação de
opiniões médias do público ao qual se destina,
a editorialização da reportagem pode colaborar
para consolidar a opinião em construção, mais
que apenas demonstrá-la. Kucinski defende que
esta posição pode reforçar o preconceito da
classe média inclusive. Nas funções de
determinação da agenda e produção do consenso
atuam como usinas de uma ideologia atribuída às
classes médias, inclusive no reforço de seus
preconceitos. (2002: 17). Na reportagem em
questão, o texto foi utilizado mais como
instrumento de legitimação do ponto de vista
político da linha editorial que como
apresentação de fatos, atribuídos como
essência do gênero jornalístico em questão.
Além do
partidarismo e da editorialização da
reportagem, analisa-se a desqualificação
semântica de Fidel Castro na reportagem. Do
texto, foram retirados os seguintes trechos:
Todo político tem de ser bom mentiroso.
Para ser Fidel é preciso, no entanto, ser um
grande farsante. Ele é um dos maiores que a
história conheceu. O repórter não expõe
durante a matéria fatos ou acontecimentos que
possam chegar à conclusão de farsa e reiterem
esta afirmação. Na página seguinte, o
repórter se utiliza da expressão grande
fingidor para qualificar o presidente:
Desde os primeiros momentos da revolução
que o levou ao poder, em janeiro de 1959, Fidel
mostrou a utilidade política de um grande
fingidor. O repórter também se utiliza da
ironia para continuar a construir a hipótese
defendia na matéria, de que Castro já deveria
ter saído de seu cargo há tempo: Nem que
quisesse, a saúde debilitada e a velhice lhe
permitiriam candidatar-se a algo mais do que uma
vaga no jazigo dos heróis na Praça da
Revolução. Diante de uma impossibilidade finge
que está por cima. Vintage Fidel. Clássico
Fidel (SCHELP. Revista Veja,
Edição 2049, 27 de fevereiro de 2008).
A escolha na
adjetivação dos fatos foi estudada por Kucinski
na cobertura jornalística da eleição de 1998.
Os principais jornais e revistas do Brasil
colaboraram para construção da figura de
príncipe e sapo, dos candidatos
Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da
Silva, como definiu Marisa Letícia, esposa do
candidato perdedor. Kucinski analisa a cobertura
da mídia como uma desqualificação semântica
do Partido Trabalhista: A mídia e os
institutos de pesquisa e de opinião pública
haviam decretado a reeleição de FHC e a derrota
de Lula antes mesmo do início da campanha
(KUCINSKI, 1998: 132). Através da utilização
de expressões como xiita, os
principais jornais do país desqualificaram o
candidato presidencial e colaboraram na
construção do bem e mal.
Tomando de empréstimo a expressão cunhada
pela imprensa internacional para demonizar o
fundamentalistmo islâmico, a Folha de São Paulo
passou a chamar de xiita uma ala
supostamente mais radical do PT e, depois, por
metonímia, a totalidade do partido
(KUCINSKI, 1998: 132).
Em uma
aparição famosa, ele vai ao tribunal do
júri e faz um discurso mercurial:
(...) Senhoras e senhores deste
tribunal, que esta revolução não devore
seus próprios filhos". Lindo? Sim, mas
era uma farsa. Naquele mesmo dia, dois jovens
combatentes comunistas urbanos que não
lutaram na guerrilha rural de Castro foram
condenados à morte. A revolução devorava
alguns de seus próprios filhos. Mas o que
ficou? O discurso inflamado com referências
eruditas. Funciona sempre? Não. Funciona em
Cuba, que tem Fidel e algumas outras
características que ajudam esse tipo de
farsa a passar por verdade. Ajuda muito banir
a imprensa, dominar a televisão e o rádio,
proibir a entrada de jornais estrangeiros no
país e impedir os cidadãos de viajar para o
estrangeiro. Ajuda enjaular por tempo
indeterminado, e sem juízo formado, toda a
oposição. Ajuda muito abolir as liberdades
individuais e ser o ditador de uma ilha, um
país-cárcere. Eis a grande obra de Fidel
Castro em meio século de governo. A
história o absolverá? Difícil. (SCHELP.
Revista Veja, Edição 2049, 27 de
fevereiro de 2008)
Neste parágrafo
há apenas argumentação para provar a hipótese
apresentada no início da reportagem, mas há
pouca informação da qual se pode, o leitor,
concluir se Fidel Castro foi ou não prejudicial
a Cuba. Não se tem dados sobre o julgamento,
como o motivo nem local; não se tem
informações sobre os jovens condenados à morte
e a relação deles com Castro, ou detalhes
específicos sobre a censura à imprensa ou a
abolição das liberdades individuais. Apenas
definições generalistas que não colaboram para
construção de uma opinião, a não ser a já
formada e defendida.
Para Filho, o
conceito de ética evoluiu paralelamente à
conceitualização da recepção. Os
conceitos de objetividade,
profundidade, diversidade
temática, sobriedade,
utilidade, seletividade,
busca da certeza ganharam as páginas
dos tratados de ética e dos manuais de bom
jornalismo (FILHO, 2002: 127). Como
já exposto, o conceito de objetividade, certeza
e demonstração do real são impossíveis de se
alcançar, assim como a dissociação entre
opinião e informação; a impossibilidade não
pode ser justificativa para o abandono destes
preceitos considerados por Filho como preceitos
éticos. Na reportagem apresentada foi constatada
a adjetivação excessiva de Fidel Castro como
forma de demonstração da hipótese já
vai tarde, com pouca informação
como demonstrado quando comparado com uma
reportagem semelhante e muitos dados
generalistas.
Além de
pactuada a editorialização da reportagem e o
partidarismo da revista entre o leitor e
publicação, o público legitima esta mistura
entre construção do real e opinião como
argumentação da hipótese em um mesmo gênero
jornalístico, que poder-se-ia chamar aparente
reportagem. No Brasil a mídia
desempenha papel mais ideológico do que
informativo, mais voltado à disseminação de um
consenso previamente acordado entre as elites em
espaços reservados, e, em menor escala, à
difusão de proposições de grupos de pressão
empresariais (KUCINSKI, 2002: 17). A
cultura jornalística no Brasil, para Kucinski,
é autoritária e acrítica na medida em que
apenas reitera idéias que promove sua
discussão. O texto demonstrado é, antes de
reportagem, um espaço de editorial em que há
destaque na capa e nas páginas centrais
internas.
______________
BIBLIOGRAFIA:
KUCINSKI, Bernardo. A
síndrome da antena parabólica: Ética no
jornalismo brasileiro. São Paulo: Editora
Fundação Perseu Abramo, 1998.
BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa.
São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
FILHO, Clóvis de Barros. Ética na
comunicação. São Paulo: Summus Editorial,
2003.
BRAGA, Rubem. Cuba: O assunto é revolução.
Revista Senhor, Editora Delta, São Paulo,
ano 2, n 6, p. 34-39, jun de 1960.
SCHELP, Diogo. Já vai tarde: o fim melancólico
do ditador que isolou Cuba e hipnotizou a
esquerda durante os anos 50. Revista Veja,
Editora Abril, São Paulo, n. 2.049, fev de 2008.
*
Juliana Silva Sakae es académica de Periodismo en la Universidade Federal de
Santa Catarina, Brasil.
Esta es su primera colaboración para Sala de Prensa.
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