A
formação universitária dos Jornalistas
Nilson
Lage *
Gostaria
inicialmente de agradecer à comissão
organizadora, à Associação Brasileira de
Escolas de Comunicação e à Escola de
Comunicação e Arte da Universidade de São
Paulo, na figura de seu presidente e diretor, o
Professor Doutor Tupan Gomes Correia, a honra que
me concede, e à Universidade Federal de Santa
Catarina, ao convidar-nos para proferir essa
palestra inaugural. Lamento a minha
incompetência na língua de Cervantes, mas, para
não torturar os companheiros dos demais países
da América Latina com enunciados absurdos,
falarei em português. O texto da palestra
estará disponível e creio que, como nossos
idiomas são parecidos, não haverá dificuldades
em compreendê-lo.
1. Jornalistas
e militância
Em artigo
publicado em El País, da Espanha, e
reproduzido no sítio Sala
de Prensa,
do México, Robert Fisk, decano dos
correspondentes ocidentais no Oriente Médio,
traça um retrato ridículo dos jornalistas
enviados para a cobertura da recente guerra de
Kosovo. Fantasiados de militares, convencidos da
lógica absurda de que faz sentido arrasar um
país quando não se gosta de seu governo,
submissos e passivos diante dos oficiais da OTAN,
esses jornalistas tornaram-se porta-vozes da
guerra imperialista, repetindo denominações
como "bombardeios humanitários" para
os raids aéreos, "danos
colaterais" para a destruição de alvos
civis e "campanha militar", quando
praticamente não havia resistência da débil
aviação iugoslava.
Não lhes passou
pela cabeça desconfiar do direito de alguém
muito forte agredir outro mais fraco, sem riscos,
sem culpa e sem direito a contestação:
toleraram a covardia como política de Estado.
Mais que isso: aceitaram um clássico princípio
de propaganda formulado por Jean-Marie Domenach
na década de 1950: da simplificação e do
inimigo único. Obedientes a ele, concordaram em
associar o Presidente Slobodan Milosevic a Adolf
Hitler, os sérvios aos nazistas e os albaneses
aos judeus da Segunda Guerra Mundial.
No entanto,
observa Fisk, "desafiar a autoridade faz
parte do trabalho de um jornalista".
Qualquer autoridade. E esse é o primeiro ponto
que se deve considerar quando se trata de nossa
profissão. Jornalistas não são sacerdotes nem
se espera que sejam militantes de causa alguma.
Dessa não-militância é que resulta sua
competência moral para o desafio. Devem
desenvolver uma persona profissional tal
que a despeito de crenças e valores
pessoais, compromissos de classe e de cultura
possam registrar os fatos e idéias do
nosso tempo com honestidade, concedendo à fonte
o direito de ser como é e ao público o direito
de escolher de que lado ficar.
No entanto,
desde sua formação escolar e ao longo da vida,
jornalistas são assaltados por ideólogos de
diferentes cores revolucionários,
reacionários, guerreiros, pacifistas,
homossexuais, ecologistas e místicos todos
pretendendo convencê-los a aceitar versões sem
crítica e a fraudar os fatos em nome de grandes
ou pequenos objetivos.
Nas últimas
décadas, esse assalto às escolas de jornalismo
e aos meios em que circulam jovens jornalistas
tornou-se insuportável. Antropólogos
insistentes, sociólogos apaixonados, psicólogos
confusos somam-se às estruturas de propaganda do
Estado e do poder econômico para despejar sobre
estudantes e repórteres as fantasias de suas
frustrações e de seus conhecimentos
transformados em matéria de doutrina.
Nada contra a
Antropologia, a Sociologia ou a Psicologia. No
entanto, vemos um encontro nacional de estudantes
de Comunicação como esse que se realiza agora
em Maceió, capital das Alagoas, estado
nordestino brasileiro que é um dos lugares mais
miseráveis do universo, segundo no ranking mundial
de mortalidade infantil. E o que discutem esses
estudantes? As condições históricas que
conduziram a essa pobreza? A odiosa contradição
entre a miséria do povo alagoano e o luxo da
orla marítima, com sua alta concentração de
automóveis caros, playboys, drogas,
pistoleiros e prostitutas? Especulam sobre a
ameaça de intervenção dos Estados Unidos na
Colômbia? Meditam sobre o servilismo dos
correspondentes de guerra em Kosovo? Questionam a
possibilidade de se estender a todos os homens,
ou à maioria deles, os avanços da ciência e
tecnologia modernas? Não. Discutem o sexto
sentido, a holística e o tarô.
Vivemos uma
época em que os centros frouxos que
assumiram o poder mundial, em última instância,
controlam tanto os discursos oficiais quanto os
de contestação. Por um lado, as instituições
mantêm sua prática do auto-elogio e desenvolvem
raciocínios pelos quais sempre estão certas e
são justas. Por outro, os descontentamentos são
canalizados para questões existenciais,
problemas que se situam fora da História ou
campanhas em que preocupações legítimas servem
de biombo para esconder o medo do conhecimento e
o horror à ciência. Milhões e milhões de
dólares têm sido aplicados no financiamento de
pesquisas, na área das ciências humanas, com o
objetivo não de descobrir algo verdadeiro e
útil, mas de impedir que elas reflitam as
tensões sociais geradas pelo desemprego, pela
perda de conquistas sociais e pela concentração
de poder e riqueza que caracterizam o processo de
globalização.
Estranhas teses
resultam desse investimento. Ao lado de um
conhecimento que, na área das ciências da
natureza, penetra em velhos campos de mistério,
desvendando os mecanismos da mente e penetrando
nos segredos da vida desde o genoma até a
clonagem , surgem, na área humanística,
afirmações espantosas. Pois não diz Sandra
Harding, autora hoje muito citada, em The
Science Question of Feminism (Cornell
University, 1986) que a Física "é não
apenas sexista, mas também racista, classista e
culturalmente repressora"? Não afirma outro
desses sábios pós modernos, Fox Keller, em
entrevista citada por Gross e Levitt, em Higher
Superstition (John Hopkins Univesity,
Baltimore, 1998), que os aceleradores de
partículas "torturam a natureza para
arrancar seus segredos"? Não afirma sempre
Bruno Latour, em seu extremado relativismo, que
não há grande diferença entre ciência e
ficção?
Algumas dessas
teorias ou fantasias que hoje prosperam são
particularmente temíveis para nós, da América
Latina. Somos povos mestiços. Nossos
colonizadores, da primeira leva da expansão
mercantil, não estavam armados com os
preconceitos da moral calvinista. Assim, foram
brutais, cruéis na exploração dos povos
dominados, mas implantaram relativa tolerância
racial, que resultou em intensa miscigenação.
Levas sucessivas de migrantes resultaram em
sociedades nas quais a convivência é não
apenas conveniente, mas fundamental. A pregação
constante do orgulho étnico, que tanta desgraça
causa pelo mundo, é, assim, uma ameaça a nossas
sociedades e a nossa existência nacional. Essa
defesa disfarçada do apartheid,
freqüentemente proposta sobre supostas razões
históricas como se cada um de nos tivesse
herdado a culpa pelo colonialismo não
representa, na verdade, oposição ao racismo,
mas o reativa, contribuindo para ocultar as
relações econômicas que são as efetivamente
responsáveis pela desigualdade em nossos
países.
Por outro lado,
bilhões de dólares estão sendo transferidos
dos cofres públicos dos países desenvolvidos
para organizações não governamentais.
Incumbidas de um complexo de tarefas que
supostamente deveriam tornar suportáveis as
condições do atual pacto de dominação, essas
entidades, ditas não lucrativas, incluem
segmentos religiosos e leigos que se caracterizam
pelo reacionarismo genérico oposto a qualquer
avanço científico. O meio acadêmico é um dos
objetivos prioritários de sua atuação. Com ela
renascem atitudes medievalistas, velhos
misticismos que, na academia, ocupam o espaço
vazio dos grandes modelos de explicação do
mundo, como o marxismo
No caso da
formação dos jornalistas, outra praga, essa
cultivada no campo dos estudos de linguagem,
compromete ainda mais os programas de ensino. A
teoria lingüística, atenta a aspectos técnicos
mas não aos políticos, deixou de considerar
relevante a existência de línguas de cultura
nacionais, optando por igualar dialetos e
idioletos numa suposta democracia da palavra. Em
decorrência, é cada vez mais difícil encontrar
professores capazes de ensinar a língua padrão,
normalizando as formas de dizer em países
extensos e de cultura diversificada como o
Brasil. A língua nacional já não é
praticamente ensinada no 1º e 2º
graus, onde a substituem, em geral, por supostos
exercícios de criatividade. Mesmo na
Universidade este ensino está se tornando raro.
No entanto, jornalistas escrevem na língua
padrão e a inadequação dos jovens
profissionais para a produção de textos é a
maior queixa de editores e empresas.
2. O conceito
moderno de Jornalismo
Esse é um
resumo de nossos problemas que, como se vê, têm
origem variada. Uma dessas origens é uma
concepção arcaica de nossa profissão. Quando
surgiu, no Século XVII, o jornalismo era
essencialmente publicismo. A burguesia utilizou
amplamente os periódicos impressos em sua luta
pelo poder, por todo o Século XVIII. Os jornais
eram lidos como panfletos e os leitores
valorizavam mais que tudo o editorial.
A mudança
começou com a Revolução Industrial, no Século
XIX. Na medida em que o público leitor se
tornava multidão, graças à difusão do ensino
público na Europa, as triagens cresciam e o
investimento na produção de um veículo
aumentava, com a mecanização, o conteúdo
relevante dos jornais deslocou-se para os
segmentos de informação e entretenimento. Foi
aí que nasceu a notícia, a reportagem e o
jornalismo como o conhecemos hoje.
O controle dos
veículos pelos bancos que os financiam e pela
publicidade que os sustenta não consegue
impedir, assim, a diversidade, que é sustentada
por uma razão de mercado. O jornal a
informação jornalística em geral, em
impressos, no rádio, na televisão ou na
Internet é atualmente produto de primeira
necessidade, sem o qual o homem moderno não
consegue gerir sua vida produtiva, programar seu
lazer, orientar-se no mundo e, finalmente,
formular suas opiniões. É uma forma de
conhecimento e um serviço público essencial.
Nesse contexto, nada mais inútil do que um
jornalista militante, cujo discurso se pode
adivinhar antes mesmo de lê-lo ou ouvi-lo.
A técnica da
notícia jornalística é um dos raros exemplos
de texto desenvolvido fora da tradição da
literatura, com base na maneira espontânea com
que as pessoas contam umas às outras suas
experiências. Ela se difundiu basicamente a
partir dos Estados Unidos quando, após a guerra
civil, esse país viveu sua própria revolução
industrial com rapidez e intensidade sem
precedentes, alimentada por levas e levas de
imigrantes da Europa.
Nada disso
pertence ao universo de conhecimento da Academia.
Atrasada em relação à realidade, ela vê no
jornalismo apenas doutrinação e nos jornalistas
instrumentos do poder. A teoria dominante nos
meios universitários é ainda a da agulha de
injeção, segundo a qual os veículos inoculam
nas pessoas um veneno para o qual elas não têm
defesa. Essa crença perpassa os textos da
influente Escola de Frankfurt, base da formação
da maioria dos críticos de imprensa do meio
universitário. No âmbito de Frankfurt,
revestida de formas requintadas de pensamento e
estilo, na tradição da filosofia alemã, a
classe operária, que Marx sonhou ser a portadora
do futuro da humanidade, transforma-se
paulatinamente em massa, objeto inerte de
dominação.
Ao mesmo tempo,
inspirados no estruturalismo lingüístico, os
críticos acadêmicos buscam nos jornais mitos e
metáforas, sem perceber que eles não são
criados ali, mas em centros de poder, entre os
quais avulta a própria academia.
De todas as
invenções da minoria culta contra o jornalismo,
talvez a mais perversa seja a da categoria da
alienação. Segundo a doutrina que se ensina em
nossas escolas, todo noticiário que não é
político, que não se reporta ao teatrinho de
fantoches onde se apresentam figuras como
Pastrana, Banzer, Chaves, Menen ou Cardoso, é
pura alienação. No entanto, se a revista
erótica é alienante, também é alienante a
mulher amada. Se o suplemento de turismo é
alienante, também é alienante a paisagem
magnífica. Se a notícia esportiva é alienante,
também é alienante a prática do esporte. Se a
revista para adolescentes é alienante, também
são alienantes as paixões e os conflitos da
adolescência. A vida se resume, então, ao
universo patético em que supostos
revolucionários meditam sobre sua própria
impotência.
Outra vertente
da crítica inábil do jornalismo é uma visão
estreita do próprio processo de comunicação.
Embora haja vários modelos para esse processo, a
Academia elegeu o primeiro e o mais simples
deles, o de Shannon e Weaver, como paradigma.
Pelo modelo de Shannon e Weaver, desenvolvido por
esses engenheiros para dar conta de circuitos
telefônicos, a mensagem é produzida pelo
emissor, codificada, caminha por canal até o
receptor, que a decodifica e reconstitui. O erro
consiste no conceito de produzir: é possível
que Van Gogh tenha efetivamente produzido a
mensagem de seus quadros; não é verdade, no
entanto, que o repórter de polícia produza em
sua mente a mensagem em que relata um
atropelamento. Ele apenas a formula a matéria,
com base em informações que colhe na fonte.
Jornalistas não inventam ou criam a informação
que publicam. Eles partem de relatos e da
observação e traduzem para uma linguagem
padrão o conjunto do que perceberam.
Se os
intelectuais fossem mais laboriosos em sua
pesquisa, constatariam que o modelo de Gerbner,
por exemplo, dá conta desse processo em que, em
lugar de produzir a mensagem, o emissor percebe
uma informação, a reelabora e transmite. Mas
também não é certo que as proposições de uma
linguagem sejam apenas conceitos codificados. Uma
frase simples, como "todo homem é
mortal", tem 144 significados diferentes, se
consideradas as ambigüidades de suas partes e
das regras que as combinam. O processo de
decodificação é, na verdade, complementado por
amplo e inteligente processo de inferências,
estudado, no âmbito da Teoria da Cognição, por
autores que a Academia latino-americana ainda
conhece pouco, como Paul Grice e sua Teoria da
Conversção; Johnson Phillip-Laird e sua Teoria
dos Modelos; Dan Sperber e Deidre Wilson e sua
Teoria da Relevância.
3. Os
problemas atuais do Jornalismo
No meio
profissional, aquele que se refere á realidade e
não ao delírio acadêmico, os problemas são
outros. Por exemplo: a concentração dos grandes
veículos de comunicação e, em contrapartida, a
existência crescente de veículos alternativos,
dos quais o mais evidente é a Internet. Com a
edição não-linear em rádio e televisão e a
pluralidade de canais, que já são centenas e
poderão chegar aos milhares ou centenas de
milhares em pouco tempo, abre-se um campo
fantástico à democratização da informação.
Como a produção jornalística obedece hoje a
padrões profissionais de qualidade,
inigualáveis por amadores, coloca-se a questão
de formar produtores para essa intensa demanda.
Ou ainda a
questão ética. Até que ponto a prática do
jornalismo fere direitos individuais e o direito
das instituições de resguardarem seu prestígio
e seus segredos? Até que ponto devem os
jornalistas de nossos países concentrarem-se na
cobertura dos atos e feitos oficiais, quando
sabemos que nossos governos, nas atuais
circunstâncias, são meros títeres de poderes
maiores, sejam políticos ou econômicos? De que
forma revelar a realidade de nossos países, sem
banalizar e folclorizar a miséria? Como tornar
atraente para o público em geral a informação
macroeconômica e de ciência e tecnologia que
são o que há de mais nobre no jornalismo
contemporâneo? Que transformações trará, para
técnica tradicional da notícia, a
incorporação necessária de infográficos e, em
geral, dos recursos multimídia? Como gerir com
eficiência pequenas, médias e grandes unidades
produtoras de informação em ambientes altamente
competitivos? Quais os recursos legais para
enfrentar o recrudescimento da censura e das
formas veladas de controle da informação pelo
Estado e pelas instituições do poder
financeiro?
São problemas
concretos. Se nos dispomos a enfrentá-los e a
engajar nesse processo as instituições
universitárias, precisamos de uma nova abordagem
do jornalismo, de uma visão crítica com
relação aos preconceitos com que
tradicionalmente a Academia vê o nosso ofício.
Em primeiro
lugar, é preciso dizer que a ética do
Jornalismo é de formulação simples.
Jornalistas devem basear-se:
- na
reverência diante dos fatos e das
verdades científicas;
- no
descompromisso com teorias e versões de
fatos; e
- no respeito
às pessoas que, sendo fonte ou público,
sustentam tais teorias e versões.
Dos três itens,
o mais sensível e o segundo, que trata do
descompromisso com teorias e versões. Transmitir
informações, interpretá-las sem
comprometer-se, preservando, ao mesmo tempo, os
valores e crenças individuais, é um exercício
de uso da terceira pessoa que envolve treinamento
e competência crítica. No entanto, ainda o
estuprador, o celerado, o pedófilo, um serial
killer, um imperador como Nero ou um ditador
como Adolf Hitler devem ter suas razões
expostas, porque jornais se escrevem para seu
tempo e para a História.
Mesmo a opinião
manifesta, que é mais rara e cada vez menos
relevante no jornalismo moderno, deve
contentar-se em ser expressão de um sentimento
coletivo e não do viés pessoal do jornalista
que a formula. Nada mais tolo do que um
editorialista assalariado de jornal econômico
assumir como se fossem suas as teses do grande
capital ou do que o jornalista empregado de um
sindicato de alfaiates fingir serem suas as
reivindicações dos alfaiates.
4. Por uma
formação específica
Diante desse
quadro, chegamos, por fim, à formulação de
nosso problema: como formar jornalistas, nas
circunstâncias atuais?
Em primeiro
lugar, defendemos a formação universitária,
apesar de todas as dificuldades que expusemos
longamente. As razões dessa escolha fundam-se no
senso comum. A responsabilidade envolvida no
tráfego de informações, a sofisticação
tecnológica e a relevância do direito dos
cidadãos à informação indicam a necessidade
de estudos demorados para a prática do
Jornalismo estudos que, como acontece com
as demais profissões de nível superior,
deverão estender-se por toda a vida.
Em segundo
lugar, admitimos a formação profissional
pós-graduada, desde que em cursos com extensão
equivalente ao mestrado e com mais de metade da
carga horária ocupada por disciplinas técnicas.
Em terceiro
lugar, o mais importante, advogamos uma
orientação nova nas escolas, que devem
voltar-se para a realidade dos jornalistas como
categoria e da atividade como empreendimento.
Isso implica, naturalmente, o distanciamento dos
estudos de comunicação, tais como vêm sendo
habitualmente praticados, porque neles não há
lugar para o Jornalismo como o concebemos.
O conceito de
comunicação, em sua origem histórica, é
avesso ao Jornalismo. Ele é considerado
exclusivamente por sua vertente originária,
publicística, rejeitando-se toda possibilidade
de um Jornalismo que seja serviço público e de
uma informação que seja conhecimento.
São várias as
origens dessa distorção.
Ela encontra,
como vimos, guarida no pensamento acadêmico
marxista, embora Karl Marx tenha sido, em sua
maturidade, um jornalista competente no conceito
atual, como prova a leitura de sua produção,
como correspondente de jornais americanos na
Europa. Pode-se mesmo dizer que a incapacidade
para formular um conceito correto de Jornalismo
é fator relevante no complexo que conduziu ao
fracasso da experiência soviética, na medida
mesmo em que ela não conseguiu gerar uma
sociedade democrática.
Mas a visão
reacionária do Jornalismo está também
implicada no modelo da comunicação social
concebido na sociedade ocidental, a partir da
idéia de "fabricação do
consentimento" para o progresso, implicada
nas teses de Walter Lippman, na década de 1920.
Na década de 1960, quando os americanos temiam a
difusão pela América Latina dos ideais da
Revolução Cubana, a Ciespal impôs a nossos
países um ensino polivalente que deveria formar,
ao mesmo tempo, jornalistas e publicitários,
radialistas e cineastas, relações públicas e
produtores de livros. Associando jornalismo a
jornal, sem perceber, num caso típico de miopia
de concepção, que se tratava de algo mais amplo
a informação pública , a Ciespal
subordinou, assim, a formação dos jornalistas a
uma área teórica ideologicamente comprometida.
E esse legado nos ficou da guerra fria.
Para consolidar
o casamento tempestuoso, ao longo desses anos,
contribuiu o fato de que o jornalismo, sendo
profissão que nasceu à margem da Academia, não
contava em seus quadros com professores de
carreira, pós-graduados, em número bastante. No
entanto, no Brasil, nos últimos 15 anos, a
partir do currículo mínimo de 1984, que impôs
que as disciplinas técnicas ocupassem metade do
tempo do curso, formou-se a massa crítica
necessária. Há hoje bem mais de uma centena de
jornalistas com doutorado e mestrado, muitos mais
se formam a cada ano, e a eles se somam dezenas
de profissionais de outras áreas, interessados
no Jornalismo, fascinados por ele ou empenhados e
estudá-lo a sério e sem preconceitos.
Cursos de
Jornalismo devem ser coordenados por jornalistas
competentes e ministrados dominantemente por
jornalistas atentos à realidade da profissão.
Isso hoje já é possível.
E de que deve
constar um curso de Jornalismo? A nosso ver, é
adequada a porcentagem de 50%, em cursos de
quatro anos, prevista na legislação brasileira
para as disciplinas técnicas. O jornalista é,
antes de mais nada, pessoa que escreve e edita
informação em diferentes meios e a competência
algo fundamental para que se possa exercer a
profissão com dignidade.
Quanto ao
restante do curso, ele deve incluir uma
porcentagem não superior a dez por cento do
total ou um quinto das disciplinas
não-técnicas com a exposição das
teorias da informação e da comunicação, com
ênfase para os estudos teóricos de inferência,
que incluem o binômio lógica/reconhecimento de
padrões. Nos 40 por cento restantes, é
essencial prover informação ampla, honesta e
equânime sobre os fatos e idéias de nosso
tempo, criando as bases de um aprendizado que se
estenderá ao longo do exercício profissional e
por toda a vida do jornalista.
Esse é o
projeto que temos. O projeto em que está
engajada a Universidade em que trabalho. O
projeto a nosso ver mais justo, que submeto a
apreciação dos eminentes colegas professores
aqui reunidos.
*
Nilson Lage es
periodista, profesor-investigador de la Universidade Federal de
Santa Catarina y
colaborador de Sala de Prensa. Esta fue la ponencia inaugural del II Encontro
Latino-americano de Professores de Jornalismo, celebrado en São Paulo, Brasil, en
agosto de 1999.
|