Jornalismo
e distanciamento: a relação mídia e política
Mayara
Rinaldi *
Quanto
se discute ética aplicada ao jornalismo, uma das
primeiras questões levantadas é a importância
da independência editorial. Está no alicerce da
ética jornalística e dos códigos
deontológicos da profissão a independência dos
meios de comunicação e dos profissionais que
trabalham com jornalismo. A maior parte dos
veículos assume este valor, ao menos
discursivamente, como essencial. No código de
ética da Associação Nacional de Jornais (ANJ)
do Brasil, por exemplo, entre os dez preceitos
listados para serem cumpridos pelos jornais
afiliados, o primeiro deles é: Manter sua
independência.
Uma
das formas que os profissionais de jornalismo
encontraram para cultivar sua independência e
buscar a objetividade conceito muito
discutido entre os estudiosos, pois muitos
sustentam que é impossível ser objetivo
foi manter distanciamento em relação às suas
fontes. Assim como argumenta Antônio Fidalgo,
A virtude da distância constitui uma das
principais virtudes de quem trabalha na
comunicação. [...] Distante e próximo designam
aqui atitudes e não o local em que o jornalista
se encontra relativamente ao acontecimento. É
possível manter as distâncias em cima do
acontecimento e ser-se demasiado próximo mesmo
afastado do acontecimento, no tempo e no
espaço.
O
jornalista Eugênio Bucci, em seu livro Sobre
Ética e Imprensa, afirma inclusive que a
independência editorial e a credibilidade
conseguida com tal conduta não são apenas
questões éticas, mas também exigências do
mercado de comunicações, ou seja, as empresas
éticas têm maior probabilidade de sucesso no
sistema capitalista.
No
Brasil, entretanto, a realidade é um pouco
diferente da orientação ética de
independência e distanciamento. O site Contas
Abertas publicou, no último dia 26 de maio,
uma matéria relatando a relação de políticos
com a mídia no país. O texto intitulado
271 políticos são sócios de empresas de
comunicação mostra como é notável a
representatividade da classe política na mídia,
especificamente nas empresas de radiodifusão.
Além das relações declaradas, a repórter
lembra também que não é possível mensurar
relações informais e indiretas, como por
exemplo, por meio de parentes ou pessoas de
confiança que ocupam o lugar sem revelarem a
quem representam.
Os
dados da reportagem, que traz também
informações sobre os partidos que mais possuem
filiados como proprietários de empresas e os
estados recordistas em políticos sócios de
mídias, relevam a necessidade da discussão
ética que deve ser feita no Brasil. Bucci
assinala dois pontos em seu livro que são
bastante pertinentes ao tema. O primeiro deles se
refere à função do jornalismo como
quarto poder ou contra
poder. Falar em jornalismo é falar
em vigilância do poder (p. 18), afirma o
pesquisador.
Quando
se pensa em jornalismo como vigilante do poder,
cão de guarda é a famosa expressão
para definir este papel atribuído aos
jornalistas, fica a pergunta sobre o caso dos
políticos donos de empresas de radiodifusão: de
que maneira podem este veículos serem vigilantes
de si mesmos?
Outra
importante questão, que está diretamente ligada
à pergunta acima, tem relação com a
afirmação de Bucci: Pretender que as
redações possam ser ilhas de ética dentro de
empresas que realizam operações escusas ou
dentro de sociedades em que as instituições
democráticas sejam precárias, é o mesmo que
apostar em boa medicina dentro de um hospital que
compra remédios falsificados (p.25). Como
esperar, então, que os profissionais que
trabalhem para empresas chefiadas por políticos
mantenham o distanciamento necessário para
realizar práticas éticas de jornalismo?
A
realidade de muitas empresas brasileiras mostra
como os veículos do país ainda necessitam
evoluir muito em suas coberturas jornalísticas,
principalmente quando se fala em jornalismo
político. Embora os profissionais que destas
empresas possam argumentar que, mesmo trabalhando
para políticos, conseguem manter sua
independência editorial, há um terceiro debate
colocado: não é preciso apenas ser ético, mas
também parecer ético. A independência do
jornalista só é verdadeira quando é
escancaradamente explícita (p.81), diz
Bucci, e quando ela deixa de ser explícita,
surgem as aparências de que, não sendo
explícita, ela talvez não seja tão
autêntica (p.82).
Desta
forma, no caso dos veículos em que donos ou
sócios são políticos não há escapatórias
para desculpar a falta de ética em virtude da
falta de distanciamento e independência. Ou são
condenados eticamente pela relação direta que
possuem com a classe política, ou por não
explicitarem que não existe influência por
parte desta mesma classe.
Referências:
BUCCI, Eugênio. Sobre
Ética e Imprensa. São Paulo: Companhia das
Letras, 2000.
FIDALGO, Antonio. A distância como virtude.
Considerações sobre ética da comunicação.
Universidade de Beira Interior, 1997. Disponível
em:
http://www.bocc.ubi.pt/pag/fidalgo-distancia.pdf.
Acessado em: 05/06/08
CONTAS ABERTAS. 271 políticos são sócios de
empresas de comunicação. Disponível em:
http://contasabertas.uol.com.br/noticias/detalhes_noticias.asp?auto=2252.
Acessado em : 05/06/08.
* Mayara Rinaldi e Acadêmica de Jornalismo da Universidade Federal de
Santa Catarina, Brasil. Esta es su primera
colaboración para Sala de Prensa.
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