O
computador no jornalismo brasileiro
Marcelo
Soares da Silva *
Em
abril de 2003, completou vinte anos a primeira
experiência de informatização no jornalismo
brasileiro. Ela ocorreu na Folha de S.Paulo,
em 1983, quase um ano antes da implantação do
Projeto Folha,1 e foi o
marco simbólico das reformas no jornal. Cinco
anos depois da primeira redação informatizada,
todos os principais jornais brasileiros já
contavam com computadores.2
Hoje, os
computadores são uma ferramenta básica do
trabalho jornalístico, tanto para escrita quanto
para comunicação e pesquisa. Mas, na época, a
mudança foi quase repentina para os jornalistas.
Dez anos antes, em livros e seminários, o
computador era ficção científica.3
Vivia-se no período de reserva de mercado para a
indústria nacional de informática, e qualquer
compra de computadores em grande escala
como para redações, por exemplo envolvia
uma burocracia mastodôntica.
Segundo Maria
José Baldessar,4 "a
adoção do computador foi simultânea no país
inteiro, revelando a necessidade das empresas de
se modernizarem para enfrentar as exigências do
mercado". O uso dos novos sistemas visava
reduzir custos no futuro, tornando mais direta a
relação entre a redação e a gráfica, mas
também estava vinculado a um contexto de
modernização administrativa das empresas,
profissionalizando seu pessoal e criando sistemas
industriais de gestão da produção.
Baldessar
resgata relatos sobre a adoção das máquinas de
escrever pelas redações brasileiras, entre o
final dos anos 30 e meados dos anos 40, para
traçar um paralelo. O uso da máquina de
escrever era exigido para que os gráficos não
tivessem problemas para compreender as diferentes
caligrafias dos jornalistas, e assim pudessem
compor o texto mais rapidamente para que as
páginas fossem impressas mais cedo. O mesmo
ocorreu na implantação dos computadores, quatro
décadas depois. Segundo Carlos Eduardo Lins da
Silva, pouco tempo depois da implantação dos
terminais a Folha anotava uma vantagem de
40 minutos no processo industrial do jornal em
relação ao sistema anterior.
Segundo Elio
Gaspari,5 a primeira onda de
informatização deu gradualmente aos jornalistas
funções de gráficos, mas não trouxe mudanças
significativas no conteúdo das notícias. Para
os jornalistas, o computador era uma máquina de
escrever sem papel. Em setores técnicos como a
fotocomposição, a máquina organizava o texto
em títulos, colunas e legendas, que depois eram
recortados e colados em chapas de acrílico (os
pestapes, aportuguesamento de
"paste-up", suporte para colagem). O
procedimento durou até meados dos anos 90,
quando foram adotados programas de editoração
eletrônica que permitiam ao diagramador compor a
página toda na tela. Também nos anos 90 foram
incorporados às redações softwares que
tratavam fotos, ampliando-as e diminuindo-as e
colocando-as diretamente na página
eliminando o setor de fotomecânica, em que o
tratamento das imagens era feito em grandes
câmaras escuras.
Nada disso, nos
primeiros 15 anos, alterou a forma como os
jornalistas apuram a informação apenas
como eles a apresentam. "Os jornalistas
foram obrigados a produzir textos mais curtos, a
escolher títulos sintéticos, a se preocupar com
o uso da imagem. Proliferaram as colunas de notas
curtas, que têm um número elevado de leitores.
Passou-se a utilizar com mais intensidade
recursos gráficos como tabelas, quadros e
mapas", enumera Alzira Alves de Abreu.6
A pesquisadora,
uma autoridade no estudo da história política
brasileira do século 20, observa que outras
alterações na forma do jornal, além da
redação, também foram conseqüência da
introdução dos computadores e levaram a
mudanças na redação:
O objetivo
das empresas de comunicação, ao adotar
novas tecnologias, era em última instância
baratear seus custos operacionais. Essa
economia futura exigia de início pesados
investimentos em equipamentos, que por sua
vez requeriam a imediata rentabilidade do
veículo. Foi nesse quadro que, levando-se em
conta que quanto mais público, mais
publicidade, um novo elemento se tornou
fundamental para os meios de comunicação: o
marketing.7
O marketing
levou à criação de cadernos voltados para
públicos específicos e suplementos
publicitários. Levou, nos anos 90, à tendência
do "infomercial", uma mistura de
publicidade com informação jornalística
que causa polêmica no mundo inteiro. "Por
pressão da publicidade, por exemplo, quase todos
os jornais de grande circulação nacional
passaram a usar cor, o que os obrigou a melhorar
a qualidade do papel", escreve Alzira Alves
de Abreu.8 Mas a maior parte
dessas decisões estava fora da redação.
O
silêncio e o texto final
Desde o início,
a mudança trazida pela tecnologia no trabalho
dos jornalistas era percebida fundamentalmente na
forma como se tratava o texto até porque,
historicamente, o jornalismo é mais facilmente
compreendido como uma atividade de produção de
textos, não exatamente de informação. Os
jornalistas que acompanharam o processo
observavam, com admiração, como o computador
permitia um controle maior sobre o texto (não
era preciso bater novamente o texto inteiro para
corrigir uma só linha, por exemplo) e como as
redações ficaram mais limpas e silenciosas.
Darci Demétrio, um veterano das redações
gaúchas, escreveu o seguinte sobre o assunto em
1991:
Antes, o
piso vivia coalhado de papéis amassados,
porque na pressa de fazer suas tarefas o
jornalista não tinha muita preocupação em
jogá-los na cesta de lixo. Agora, o ambiente
é semelhante ao da sala de uma dona-de-casa
obcecada pela limpeza. O papel também perdeu
a utilidade; só quem o usa é quem sai à
rua em busca de notícias e os diagramadores.
Mas calculadoras, réguas, catálogo de
títulos e letras, usados pelos
diagramadores, também vão pro espaço. Os
cálculos são feitos pelo computador e
devolvidos em forma de expressões em
código, ao terminal.9
Uma
expressão-chave encontrada em praticamente todos
os textos publicados sobre os computadores nas
redações entre o final dos anos 80 e o começo
dos anos 90 é "texto final". Ela é
recorrente, por exemplo, em artigos da Revista
Imprensa e da Revista de Comunicação entre 1987
e 1995, e em trabalhos sobre a entrada o
computador nas redações. Um exemplo é este
trecho de um estudo de Sérgio Capparelli sobre
as mudanças organizacionais a partir da chegada
do computador ao jornal Zero Hora, em
1988:
Ainda no
início dos anos 70, a rotina do trabalho
jornalístico pressupunha uma pauta, o
deslocamento junto com um fotógrafo para a
cena de um acontecimento, entrevistas, volta
à redação, reconstrução do fato através
de modelos do discursos jornalístico,
leitura do texto produzido por um chefe de
reportagem, correções do texto por um
redator ou copidesque edição, cópia do
texto para impressão, revisão e passagem
para o processo industrial propriamente dito.
A primeira mudança foi o fim do copidesque
nos anos 70, pois o jornal começou a
contratar repórteres com texto final,
submetidos a uma contagem periódica do
número de laudas produzidos num determinado
período de tempo. A informatização do
jornal em 1988 reforçou essa tendência, com
a utilização do texto já digitado pelo
próprio repórter levando a despedida em
massa dos revisores, cargos privativos de
jornalistas.10
Texto final
significava que o repórter era o último a mexer
em seu texto antes de o editor mandá-lo para a
página. Na Folha, a informática levou à
extinção do cargo de revisor de provas
tipográficas com cem demissões e
também à necessidade de o repórter escrever
diretamente o texto que seria publicado, sem a
intermediação de redatores ou revisores.
Segundo Carlos Eduardo Lins da Silva, isso acabou
com a desculpa do "erro de revisão"
para justificar problemas nos textos.11
O setor de copidesque, introduzido na imprensa
brasileira nos anos 50, passou a ser extinto a
partir da década de 70.
Em vários
jornais, parte do arquivo foi transposta para
sistemas informatizados.12
Mudanças
com a internet
Os jornalistas
brasileiros só começaram a perceber alguma
possibilidade de usar o computador para melhorar
a qualidade da informação que publicam a partir
da chegada da internet às redações. Ela só se
tornou comum entre 1997 e 1998.
Antes disso, já
havia algumas experiências. Desde 1995, o Jornal
do Brasil havia implantado o pioneiro JB Online.
No mesmo ano, a Folha de S.Paulo colocou
em sua redação um terminal para que uma
jornalista fizesse pesquisas. Foi criada uma
coluna sobre a rede e a Folha, em
sociedade com o grupo Abril, criou o Universo
Online. Em 1996, a RBS compraria o provedor de
acesso Nutec, transformando-o no Zaz. Mais tarde,
ele seria vendido à empresa espanhola Terra, que
seria comprada pela Telefónica de España.
Por quatro anos,
as empresas tateariam no escuro buscando formas
de capitalizar o uso da internet. Publicidade?
Poucos arriscavam anunciar num meio que não era
de massa. Tentou-se o provimento de acesso. O
Universo Online foi uma das primeiras e mais
bem-sucedidas tentativas, em que pese os
gigantescos prejuízos que registra.
Em 1999 e 2000,
foi registrado o "boom" da chamada
"nova economia". Diversas empresas de
internet eram formadas, contratando jornalistas
para produzir "conteúdo" (a palavra de
ordem) com altos salários, o que inflacionou o
mercado. Jornalistas de prestígio, como Ancelmo
Góis e Lilian Witte-Fibe, eram contratados a
peso de ouro para atrair audiência para
websites. O fim do ciclo, em 2001, após a
verificação de que não houve novas fontes de
recursos financeiros para a mídia, gerou uma
série de demissões em massa de jornalistas, os
famosos "passaralhos". Essa crise tem
impactos até hoje.
Desde 1997, aos
poucos os jornais começaram a tentar usar a rede
como fonte. Como há pouca bibliografia sobre o
assunto, abro aqui um parêntese para um pouco de
exercício testemunhal, que ilustra como os
jornais se adaptaram à chegada do novo meio.
No Correio do
Povo, a internet chegou em meados de 1996.
Inicialmente, havia dois ou três computadores
que acessavam a rede. Mas também não se sabia
exatamente o que fazer dela, nem em termos
empresariais e tampouco em termos jornalísticos.
O jornal criou um provedor de acesso à rede e um
website entre abril e julho de 97. A idéia era
cravar a bandeira do Correio do Povo na internet.
O site apenas transpunha cada texto do jornal
para a internet, sem atualizações durante o
dia, como já estava começando a se tornar comum
então. Ainda hoje, o site é semelhante ao que
era nos seus primórdios.
Dois meses após
a implantação do site, o editor-chefe, Telmo
Flor, decidiu utilizar a internet para melhorar o
uso da informação na redação, para que os
jornalistas usassem em seu trabalho os recursos
disponíveis online. Até então, eles apenas
tinham acesso ao e-mail. Poucos computadores
acessavam a rede, e gradualmente foi liberado o
acesso em todos eles. Para ajudar os jornalistas
nas pesquisas, criei a página chamada Bússola
Internética.13
Dividida em
seções por editoria (política, economia,
geral, rural e variedades), a Bússola tinha
links para diversos recursos de pesquisa, que eu
passava horas buscando na rede. De dicionários
online a enciclopédias, dos jornais de outros
países a tradutores eletrônicos, das páginas
com informações oficiais a localizadores de
cidades no mapa. Isso poupava consultas ao
funcionário designado para facilitar o uso da
rede e encorajava os jornalistas a se tornarem
autodidatas na busca de informações na
internet.
Posteriormente,
por sugestão e insistência da redação, o
website do Correio do Povo passou a contar com um
mecanismo de busca de textos já publicados. Até
então, como o arquivo de jornais não era
informatizado, os jornalistas precisavam contar
com a própria memória para saber o que já
havia sido publicado anteriormente sobre o
assunto do dia. Agora, contavam com um artifício
a mais que, embora menos eficiente que um
arquivo digital devidamente indexado, era
imensamente mais prático do que o que se tinha
antes, com a simpática vantagem de os leitores
também terem acesso a ele.
Usar a internet
impedia o jornal de levar furos: até então, o
editor-chefe contava apenas com um resumo enviado
à meia-noite, pela Agência Estado, informando
as manchetes dos jornais do resto do país. Com a
internet, ele podia conferir alguns jornais de
fora do Estado, e por várias vezes ele mobilizou
repórteres após a meia-noite para recuperar
informações exclusivas publicadas em outro
Estado. Usar a rede também permitia aprofundar a
informação publicada. Com a internet, se pôde
levantar rapidamente uma breve biografia do
presidente da Funai morto num acidente de avião
em 1998.
As pesquisas na
internet, guiadas pelo faro jornalístico,
também permitiam dar furos. No começo de 1999,
durante a crise financeira da desvalorização do
real, alta dos juros e troca de presidentes do
Banco Central, o editor-chefe solicitou uma
pesquisa sobre o que afinal era o sistema de
metas de inflação, que havia sido mencionado
casualmente por Armínio Fraga quando foi
anunciado como presidente do BC. Com base em
estudos estrangeiros, o jornal antecipou numa
manchete de domingo os principais contornos
do sistema, oficialmente anunciado apenas
na semana seguinte.
O uso da
internet para fins informativos continuou no
Correio do Povo depois de 99. Seu animador foi o
chefe de reportagem Paulo Acosta, fascinado pelas
possibilidades da informática. Nas eleições de
1986, ele criara um programa de computador
simples para tabular e prever as tendências do
resultado da contagem de votos para a Rádio
Guaíba. Além dos recursos da Bússola, ele
recolheu outros websites úteis para os
jornalistas do Correio e criou o Saiti,14
que também publica textos informativos e
humorísticos.
Isso durou até
os primeiros meses de 2001, quando o departamento
de informática cortou o acesso dos jornalistas
à rede após um ataque de vírus que quase
impediu o jornal de ser publicado certa noite.
Para evitar novos vírus, em vez de implantar
programas antivírus mais eficazes e educar os
jornalistas sobre que tipo de mensagens não
deveriam ser abertas, os técnicos de
informática optaram por castrar o acesso dos
jornalistas à rede.
Até a data em
que este capítulo estava sendo escrito, Paulo
Acosta só havia conquistado a liberação de
três computadores para a pesquisa, todos eles
fora da rede interna do jornal. Um deles ganhou o
apelido de "drive-thru", como as
lanchonetes onde se entra de carro, pega-se o
lanche e vai-se embora.
Primeiros
sinais de CAR
As primeiras
menções e tentativas de se implantar a
reportagem com o auxílio do computador em
redações brasileiras datam de 1994, quando
ainda era incerto o panorama das mudanças que a
tecnologia traria à imprensa. Internet ainda era
quase ficção científica no Brasil, numa época
em que o presidente norte-americano Bill Clinton
falava de maneira otimista em uma Superestrada da
Informação; TV a cabo, uma aposta
recém-iniciada no país. Os grupos brasileiros
de mídia queriam saber como colocar seus meios
de comunicação na era da informática. Foi o
início de uma época de grandes investimentos,
que teve seu auge entre 1999 e 2000 e declinou
logo depois, gerando a profunda crise atual.
Em 1994, uma
comissão de editores de jornais brasileiros
viajou aos Estados Unidos a convite do governo
americano, para conhecer as últimas técnicas e
tendências do jornalismo daquele país. Durante
dez dias, o grupo visitou redações americanas,
observando como os jornais organizam suas equipes
de reportagem, como eles imprimem jornais, como
os jornalistas se associam. Marta Gleich, hoje
editora-chefe de Zero Hora, esteve na comitiva e
forneceu a este trabalho o panorâmico relatório
que apresentou, na volta, à direção do jornal.
Naquele tempo, a principal preocupação
refletida pelos jornalistas era sobre a
permanência dos jornais num mundo informatizado.
No relatório, Marta transcrevia declaração de
um dos diretores do New York Times,
dizendo que o Times seguiria editado mesmo após
a publicação de sua última edição de papel.15
Outro dos
jornalistas presentes à comissão era Marcelo
Beraba, então um dos principais editores da Folha
de S.Paulo e, oito anos mais tarde, fundador
e primeiro presidente da Abraji. Em entrevista
para este trabalho, ele conta que ficou
impressionado com as aplicações da informática
para a reportagem, também mencionadas em um
parágrafo do relatório de Marta Gleich. Elas
foram apresentadas durante visita à
Investigative Reporters and Editors. Ao voltar a
São Paulo, Beraba solicitou à direção do
jornal a instalação de uma bancada de
computadores com os principais recursos
informatizados da época, para que alguns
jornalistas selecionados pudessem começar a
experimentar com análises de bancos de dados. No
pequeno grupo, estavam José Roberto de Toledo,
Fernando Rodrigues, Cláudio Tognolli, Mário
César Carvalho e João Batista Natali. Ao lado
de Beraba, os três primeiros fazem hoje parte da
diretoria da Abraji.
Todos os
jornalistas que fizeram parte daquele grupo
passaram a aplicar análises informatizadas em
seus trabalhos. Fernando Rodrigues, por exemplo,
produz desde 1996 um caderno anual chamado
"Olho no Congresso" ("Olho no
Voto" em anos eleitorais), que compara o
desempenho parlamentar de todos os deputados
federais e senadores, atribuindo notas a eles.
Tognolli e Rodrigues foram enviados a um
congresso da IRE naquele ano.
Vindo daquele
grupo, o primeiro jornalista no Brasil a usar
sistematicamente os computadores como uma
ferramenta de apuração tal qual o bloco de
notas e o gravador foi José Roberto de Toledo,
ex-repórter especial da Folha de S.Paulo
e hoje editor-chefe do Jornal do Terra.
Desde 94, ele faz reportagens com análises de
bancos de dados principalmente sobre
questões sociais, como violência, desemprego e
pobreza. Mais recentemente, ele usou essas
técnicas para analisar dados eleitorais sobre
mapas, mostrando tendências regionais de voto.
A Folha
continuou investindo na exploração das
possibilidades da técnica. A partir de 1997, o
jornalista mexicano Pedro Armendares, do Centro
de Periodistas de Investigación, passou a ser
convidado para falar sobre CAR aos alunos do
treinamento em jornalismo promovido três vezes
ao ano pelo jornal. Em um breve período no Jornal
do Brasil, Beraba buscou implantar por lá as
técnicas de CAR entre 1996 e 1998. Enviou o
repórter Bruno Thys a um congresso da IRE, e por
algumas vezes convidou Pedro Armendares para dar
palestras sobre o assunto no jornal.
O primeiro
registro bibliográfico no Brasil sobre o uso de
computadores para análise de dados com fins
jornalísticos está no livro "Reportagem:
teoria e técnica de entrevista e pesquisa",
de Nilson Lage.16 Publicado em
2001, ele reserva um capítulo para apresentar as
técnicas usadas nos EUA, com exemplos de
reportagens bem-sucedidas e avaliações sobre as
vantagens do uso desse tipo de técnica.
"Trata-se de colher e processar informação
primária ou, pelo menos, intermediária entre a
constatação empírica da realidade e a
produção de mensagens compreensíveis para o
público", explica.17
No final de
2002, na reunião que formou a Associação
Brasileira de Jornalismo Investigativo, uma
palestra do jornalista norte-americano Brant
Houston, da Investigative Reporters and Editors,
marcou a primeira vez em que jornalistas
brasileiros fora de iniciativas
específicas e reservadas tiveram acesso a
informações sobre pesquisa e análise de
informações online. Ele falou sobre como os
jornalistas podem refinar seu método de busca de
informações, mostrando como exemplo uma base de
dados preparada por um jornalista americano
sobre ferimentos sofridos por caçadores
, demonstrou algumas operações dentro
dela e mostrou a reportagem feita a partir do
material.
Vera Pinheiro,
do Jornal ANJ, resumiu assim a fala de Houston:
A festa
acabou. A gente precisa aprender a escrever
sobre números. Se repórteres entrevistam
pessoas, podem entrevistar dados. A linguagem
pode ser estranha, no início, mas depois que
se 'aprende a buscar coisas úteis para
construir uma história', fica-se mais
confortável com as informações e mais
feliz por ser capaz de fazer isso. Isso serve
para quem não tem intimidade com os recursos
que o computador oferece ao trabalho
jornalístico e para quem não gosta de lidar
com números, dados, estatísticas.18
"The party
is over" foi a primeira frase da resposta de
Houston a um jornalista da platéia que levantou
a questão sobre a validade de fazer esse tipo de
análise de dados. Segundo esse repórter, a
falta de treinamento dos jornalistas para lidar
com números tornaria inviável a técnica.
Houston aproveitou a deixa para conversar com os
jornalistas sobre alguns raciocínios que o
jornalismo com o auxílio do computador traz
sobre o papel da fonte (já discutidos em parte
nos capítulos anteriores). Ainda no relato de
Vera Pinheiro:
Lembrando
que as pessoas não são perfeitas e os dados
que elas produzem também não o são, Brant
recomendou que os repórteres procurem saber
de onde vêm os dados, como foram feitos os
cálculos, que leiam toda a documentação
para saber quem colocou os números da
informação, quais são as falhas e só
depois fazer a matéria. 'Os dados são
limitados porque são feitos por pessoas, e
todas as pessoas são falíveis e limitadas.
Você não pode desafiar os números que não
conhece'. 'A gente tem se cuidar e quem fez a
estatística também', disse Brant,
enfatizando que não se pode publicar dados
estatísticos sem checar a metodologia e, se
não entender, perguntar: 'por favor, me
mostre como entender esse dado'. Além disso,
sugeriu conversar com várias pessoas da
área da matéria que está sendo elaborada.
Sim, admitiu Brant, 'usa-se tempo para
construir uma reportagem séria'. Para ele,
uma boa reportagem não é escrita sem
entrevistas adicionais e não admite apenas
cópia de números. 'Temos de ter
incertezas'. Embora o jornalista não tenha
respostas certas, quando olha os dados tem
perguntas novas. E mais: 'não se fala sobre
números sem falar com pessoas'. Brant disse
que não se sente bem com uma reportagem se
ele não entrevistar pelos menos três
pessoas que não se falam entre si.19
Formada a
Abraji, foi criado um comitê especialmente
voltado ao treinamento de jornalistas em
técnicas informatizadas de pesquisa
jornalística, dirigido por Toledo (diretor do
comitê). Em agosto de 2003, um grupo de 22
jornalistas selecionados por Toledo participou de
um curso dado por Brant Houston e um colega seu,
Ron Nixon, nas dependências da Folha de
S.Paulo. A idéia do curso era formar
instrutores em CAR, sediados em diversas regiões
do país, para que possam ser multiplicadores do
uso da técnica por meio de cursos locais.
Nos meses
posteriores a esse curso, houve treinamentos em
Ribeirão Preto (SP) e em duas redações do
grupo Globo: a de O Globo e a da equipe de
jornalismo da TV Globo. No seminário da Abraji
em Recife (PE), em novembro de 2003, foram dadas
oficinas de CAR para quatro turmas de estudantes
e profissionais. Na Rede Globo, no dia seguinte
ao curso foi ao ar no Jornal Nacional uma
reportagem questionando estatísticas da
Secretaria de Segurança Pública do Rio de
Janeiro toda ela apurada em uma planilha
de Excel, mostrando como o governo ocultava dados
de violência letal, separando nas estatísticas
as ocorrências de homicídios das de encontro de
cadáver reduzindo, assim, os números.
Existe
curiosidade pelo assunto, conforme demonstrada
pela demanda por cursos de CAR nos seminários da
Abraji e em consultas por e-mail à entidade. Mas
ainda não se sabe ao certo o grau de segurança
média dos jornalistas brasileiros no uso do
computador. Em geral, ainda é raro que
jornalistas brasileiros usem outros recursos
informatizados para a busca e análise de
informações, além da internet. Até hoje, não
há levantamento preciso, além do anedótico,
sobre o assunto no Brasil.
O uso da
internet possibilitou avanços, como a pesquisa
em bancos de dados online (como o do IBGE).
Permitiu que jornalistas brasileiros iluminassem
capítulos obscuros da história garimpando em
sites de universidades americanas arquivos de
documentos liberados pelos serviços de
inteligência dos EUA, produzidos nos anos 60 e
70. Permitiu entrevistar por e-mail
personalidades mundiais de destaque, e de forma
democrática: tanto grandes meios, como O Globo,
quanto meios menores, como a Folha da
História, podiam fazer entrevistas com um Noam
Chomsky, tendo seu e-mail e algum domínio do
inglês.
Mas, como visto
nos capítulos anteriores, o uso jornalístico
dos computadores não se resume ao uso da
internet, ao processamento de textos e imagens e
à composição de páginas. Há aplicações,
como os programas de manejo de bancos de dados e
as planilhas de cálculo, que permitem encontrar
grandes pautas mas poucos jornalistas os
utilizam.
Para
avaliar a familiaridade com o computador
Não existem
estudos sobre como os jornalistas brasileiros
utilizam o computador para o seu trabalho. Com
base nos censos americanos já debatidos no
capítulo anterior, montei um questionário para
avaliar a situação nacional. Ele cobre
questões demográficas e técnicas. A intenção
era avaliar o quanto a idade, localização e
condição empregatícia do jornalista influi em
sua familiaridade com o computador e percepção
de necessidades (ou mesmo desejabilidade) de
treinamento para um melhor uso em seu trabalho.
Também avaliaria a familiaridade específica com
determinadas utilidades informáticas.
Devido ao baixo
número de respostas recebidas, não serão
publicados aqui os resultados obtidos. Como essa
informação teria enorme valor e justificaria um
futuro trabalho, descrevo abaixo a metodologia
criada por analogia para obtê-la.
O questionário
um formulário de sete páginas em formato
.rtf (que abre nos principais processadores de
texto) foi enviado à lista de discussão
da Abraji, que reúne quase 300 jornalistas.20
Ela é um universo de pesquisa interessante
porque reúne de estudantes interessados no glamour
da investigação jornalística a repórteres
tarimbados e editores ocupados, de todos os
Estados do Brasil e, eventualmente, do exterior.
Segundo Philip
Meyer, pesquisas com formulários enviados pelo
correio ou pela internet são ideais para mapear
pequenos grupos.21
Alguns dos
entrevistados que responderam à pesquisa,
porém, observaram problemas sérios no tamanho
do questionário em relação ao meio utilizado
para a pesquisa. José Roberto de Toledo observou
que muitos jornalistas poderiam se sentir
intimidados pela forma e extensão do
formulário, reduzindo a margem de respostas. Foi
dado um mês de prazo. No primeiro dia, sete
formulários foram recebidos. Apenas cinco vieram
depois. Para uma pesquisa válida, será
necessário repensar a forma de abordagem e
amostragem.
Fiz algumas
adaptações à metodologia de Bruce Garrison,
descrita no capítulo anterior. Nos EUA, antes de
a internet se popularizar, era comum os jornais
assinarem serviços de pesquisa de textos online,
como a base de dados Lexis-Nexis.22
Também antes da popularização da internet, os
jornais tinham a opção de assinar serviços de
bulletin-board system (BBS), que eram uma
internet em menor escala, de troca de conteúdos
entre os usuários desse sistema. No Brasil, isso
não alcançou as redações, retardando a
visualização da possibilidade de uso
jornalístico de informações disponíveis
online.
Outra
alteração foi nas perguntas sobre os programas
usados pelos jornalistas. Ao invés de manter o
termo tecnicamente descritivo
("planilhas", "gerenciadores de
bases de dados"), preferi descer ao nível
mais popular dos usuários de informática:
"Excel ou semelhantes", "Access ou
semelhantes", etc. Também busquei maior
precisão nas utilidades: "Excel ou
semelhantes (para cálculos)", "Excel
ou semelhantes (para organizar dados e elaborar
gráficos)", etc.
Algumas das
questões buscam mensurar o fato de que algumas
redações brasileiras restringem o acesso dos
jornalistas à internet, por medo de vírus ou
por outras justificativas.
Também incluí
no questionário perguntas sobre o grau pessoal
de familiaridade dos jornalistas com o
computador. Desde os anos 80, se tornaram
populares no Brasil os cursos de informática, a
que muitos acorrem para aprender o básico para
mexer em um computador. A partir da segunda
metade dessa década começaram a se popularizar
microcomputadores caseiros, como o MSX, o TK-90X
e os CP-400 (algo entre um videogame e um
computador, ligados à TV e usados para jogos,
surgidos durante a reserva de mercado para a
indústria nacional de informática, derrubada no
início dos anos 90). Hoje é comum às famílias
de classe média (onde se encaixam os
jornalistas) ter um PC em casa, quase como um
eletrodoméstico análogo à TV.
O questionário
inclui questões abertas e fechadas. As fechadas
buscam avaliar com quais ferramentas da
informática o jornalista já tem intimidade, ou
quais já usou pelo menos como tentativa. Elas
buscam também saber qual é a freqüência com
que o computador é usado pelos repórteres
brasileiros como algo mais do que uma máquina de
escrever que deixa de funcionar quando falta luz.
Também busco avaliar quais são os principais
usos da internet feitos pelos jornalistas para
seu trabalho. Nas questões abertas, peço
exemplos desse uso, tanto perguntando por
reportagens feitas com análise de bases de dados
quanto com pesquisa na internet.
A partir dos
dados americanos e do conhecimento da realidade
brasileira sobre o contato entre jornalistas e
informática, pode-se derivar algumas hipóteses
preliminares:
a) Saber
usar bem a internet é uma habilidade
considerada desejável pela maioria dos
jornalistas para seu trabalho;
b) Jornalistas com
mais experiência de apuração tradicional
tendem a dar menos importância aos recursos
da informática em seu trabalho;
c) Jornalistas mais
jovens, com experiência prévia em
informática, tendem a ser mais abertos a
isso;
d Essa habilidade
provavelmente será mais bem cotada do que a
de usar recursos de análise de informação,
como planilhas e administradores de bases de
dados;
e) Jornais maiores
tendem a investir mais na obtenção dessas
habilidades, e a valorizar jornalistas que as
tenham;
f) Confia-se
principalmente nas informações colocadas no
ar pelos governos, por serem de fontes
oficiais (tradicionalmente consideradas mais
seguras);
g) O principal
recurso online usado pelos jornalistas são
os mecanismos de busca como Yahoo e Google;
h) Apenas uma minoria
de jornalistas está disposta a incorporar a
análise de bases de dados a seu trabalho;
i) Muitos usam poucos
recursos da informática e deixam de aprender
a usá-la com mais proveito a seu trabalho
por falta de tempo.
Notas:
1 A história da
informatização da Folha é contada em várias
fontes. A principal é SILVA, Carlos Eduardo Lins
da. "Mil Dias". O jornalista participou
do processo de implantação dos terminais e do
Projeto Folha, e o livro é um estudo sobre essa
experiência. O artigo "Informatização e
Edição", de Caio Túlio COSTA (in FOLHA.
"Seminário de Jornalismo", 1986)
também relata detalhes sobre os obstáculos
encontrados na época.
2 DEMETRIO, Darci. "Não Quebre a
Cara". Vozes, 1991.
3 Nos Cadernos de Jornalismo do JB, o computador
era apresentado como algo extremamente distante.
No "Seminário de Alto Nível para
Jornalistas", ocorrido nesta UFRGS em 1974,
a menção tecnológica era às
telecomunicações. No livro "O Papel do
Jornal", de Alberto DINES, nenhuma menção.
4 BALDESSAR, Maria José. "A Mudança
Anunciada: o Cotidiano dos Jornalistas e a
Revolução Informacional".
5 JORNAL ANJ.....
6 ABREU, Alzira Alves. "A Modernização da
Imprensa (1970-2000). Zahar, 2003.
7 ABREU, idem.
8 ABREU, pg. 29.
9 DEMETRIO, idem, pg.93.
10 CAPPARELLI, Sérgio. "Zanzibar de novas
tecnologias: imprensa regional e Zero Hora".
Pré-textos Compós, 1997. Disponível em
http://www.facom.ufba.br/pretextos/capparelli1.html
11 SILVA, "Mil Dias", pg.
12 Segundo informação fornecida por um dos
entrevistados para esta monografia, o jornal onde
trabalha, no Rio, chegou ao extremo de acabar com
o arquivo do jornal por causa da quantidade de
informações disponíveis de graça na internet.
13 Sua versão mais recente está disponível na
internet, em http://www.geocities.com/mssilva.
14 Hoje em www.osaiti.com.br.
15 Hoje em dia, em grande parte o mesmo
entendimento sobre o futuro da imprensa se
consolidou entre as empresas jornalísticas
brasileiras. "Entendemos que é esse ritmo
de 24 horas e não o suporte que pode ser
tanto o papel quanto a tela que define o
jornal. Consideramos que essa necessidade até se
acentua, na medida em que existe uma oferta muito
grande, inassimilável de informação, com
níveis de credibilidade muito díspares. (...)
Então, a idéia de que os jornais tradicionais,
seja no velho ou no novo suporte, sirvam como uma
espécie de âncora, de referência informativa
no meio dessa balbúrdia, dessa cacofonia
noticiosa, é até uma oportunidade interessante
a ser explorada pelos jornais", disse o
diretor de redação da Folha de S.Paulo, Otavio
Frias Filho, em entrevista à Revista Fapesp
(janeiro/2004).
16 LAGE, Nilson. "Reportagem: teoria e
técnica de entrevista e pesquisa". Record,
2001.
17 Idem, pg. 156.
18 "Repórteres devem adquirir familiaridade
com números". Jornal ANJ, janeiro de 2003.
Disponível em
http://www.patamar.inf.br/webc/webs/anj/jornal_anj/detalhes.cfm?id_web=53&id_noticia=329.
19 Idem.
20 Para informações sobre como participar da
lista, acesse http://www.abraji.org.br/lista.htm
21 MEYER, 2002, pg. 111-112.
22 Que reúne todos os textos, desde os anos 80,
de jornais dos EUA e de outros países. Do
Brasil, não.
* Marcelo
Soares da Silva es
periodista brasileño, responsable de la
investigación por Internet en la redacción del
diario Correio
do Povo. Este texto
forma parte de la tesis Contribuição ao
estudo das condições brasileiras para o uso das
técnicas de reportagem auxiliada por computador
(Computer-Assisted Reporting) que presentó
para obtener la licenciatura en Periodismo en la Universidade Federal do
Rio Grande do Sul, y fue
remitida por el autor para su difusión en Sala de Prensa, de la que es colaborador.
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