Nostradamus,
o profeta profanado
que jamais previu o fim do mundo
Ruy
Fabiano *
O
aspecto mais interessante em torno da profecia de
fim do mundo, que tomou conta da mídia mundial
nas duas últimas semanas, é que ela jamais
existiu. Michel de Nostradamus, o visionário
francês do século XVI, jamais a proferiu, tendo
levado suas profecias em torno da vida na Terra
para além do ano sete mil da era Cristã.
| Ora, como poderia
prever o fim do mundo e, ao mesmo tempo,
continuar a profetizá-lo por mais cinco
mil e tantos anos adiante? O mais
intrigante, no exame da recente paranóia
que se produziu em torno do tema, é que
a centúria de Nostradamus, invocada para
dar respaldo ao boato, em nenhum momento
o menciona, nem mesmo de forma
alegórica. A centúria 10, quadra 72,
invocada pelos que anunciaram o fim do
mundo, diz o seguinte: "No ano de
1999, sete mês,/do céu virá um grande
rei de assustar/ressuscitar o grande rei
de Angolmois/ antes e depois de Marte/por
boa sorte reinar."
Com o
acréscimo de 14 dias ao calendário
Juliano, em vigor no tempo de
Nostradamus, o sétimo mês, em vez de
julho, pode ser agosto, quando, dia 11,
ocorreu o último eclipse solar total do
milênio.
A
associação, no entanto, entre o
"grande rei de assustar", que
viria no "sete mês", e o
eclipse total do sol, já extrapola as
centúrias de Nostradamus. Já é por
conta de seus exegetas, que
freqüentemente erram em suas
interpretações.
O
"grande rei de Angolmois",
segundo alguns intérpretes, seria Gengis
Khan, o grande chefe militar, fundador do
Império Mongol e conquistador da China,
que viveu entre os séculos XII e XIII, o
que torna a previsão ainda mais
hermética e distante dos dias atuais.
Os
versos dessa centúria, como, de resto,
todas as previsões do médico Michel de
Notredame, nascido em Saint-Rémy de
Provence, França, em 1503, prestam-se
às mais variadas interpretações. E é
fácil entender. Temeroso de levantar
suspeitas de heresia junto à
Inquisição, Nostradamus, de família
judaica, convertida compulsoriamente ao
catocilismo (o que o tornava sob suspeita
permanente), optou por uma linguagem
cifrada, arcaica mesmo para os padrões
da época. O vocabulário mistura termos
franceses, provençais, romanos, gregos,
latinos e de outras línguas derivadas.
Há
muitos versos que são simplesmente
ininteligíveis, o que facilita sua
aplicação aos mais diversos contextos.
Muitas vezes, ao longo da história,
Nostradamus foi usado para fins de
propaganda política. Em 1694, na
França, a facção contrária ao cardeal
Mazarin, eminência parda do rei Luiz
XIII, serviu-se de quadras de Nostradamus
para prever (e prover) sua queda e
exílio.
Na
Segunda Guerra Mundial, aliados e
nazistas serviram-se fartamente do
vidente provençal, falsificando-o com a
mesma sem-cerimônia. O astrólogo
suíço Karl Ernst Krafft, contratado
pelo Departamento de Propaganda nazista,
em Berlim, interpretou quadras de
Nostradamus de acordo com os interesses
estratégicos das forças do Reich. Os
nazistas queriam desobstruir as estradas
para Paris, quando invadissem a França,
vindos de Sédan.
Krafft
então fez circular panfletos, com
quadras alteradas, indicando que, segundo
Nostradamus, o sudeste da França não
seria perturbado pela guerra. Deu certo:
ato contínuo, civis e refugiados
correram para o sul, esvaziando as
estradas para os Portos do Canal.
Os
aliados deram o troco. A inteligência
britânica conseguiu que os aviões da
Real Força Áerea jogassem sobre alguns
países ocupados pelos nazistas folhetos
com quadras de Nostradamus prevendo a
derrota alemã. Esse expediente, segundo
avaliação na época, serviu para manter
acesa a chama da resistência nesses
países.
OBRA
PERDIDA
A partir
de 1551, Nostradamus publicou anualmente
almanaques e livros de predições, dos
quais pouca coisa chegou ao nosso tempo.
Tratavam de acontecimentos locais,
ligados a agricultura, meteorologia e
coisas afins. O sucesso dessas
publicações fez com que surgissem
numerosas outras, similares, muitas
falsamente a ele atribuídas, o que
contribuiu para desgastá-lo perante o
público.
As
profecias que chegaram aos dias de hoje e
o tornaram notável através dos séculos
foram publicadas em livro em 1555:
"As Profecias de Michel de
Nostradamus". O que o notabilizou em
seu tempo foi uma profecia importante
cuja concretização pôde testemunhar em
carne e osso. Previu ¾ e publicou essa
previsão em 1554 ¾ que o rei Henrique
II, da França, seria morto num torneio.
A lança do adversário perfuraria seu
olho através do elmo. A profecia
consumou-se em 1559.
|
A reprise do
fim do mundo
Flamínio
Araripe *
Devido
ao sucesso de marketing,
e à grande repercussão
na imprensa, o fim do
mundo do dia 11 de agosto
vai ser reprisado no dia
31 de dezembro. Mais uma
vez, as obscuras
centúrias de Nostradamus
vão ser tiradas das
estantes, e uma legião
de profetas de ocasião
alimentará a pauta da
mídia nas vésperas do
evento.
Assim,
não vai faltar assunto
na fila de espera do
cabeleireiro. O rádio, a
televisão e os jornais
vão alimentar a fofoca
do dia na fila do banco,
no elevador, nos
escritórios.
A
fofoca se espalha de boca
em boca, e logo vai
atingir toda a sociedade,
com ajuda do seu
principal aliado, os
meios de comunicação.
Alguém disse que é
função da imprensa
publicar noticias de
interesse social?
Os
jornais vivem acostumados
a noticiar as coisas que
acontecem do lado de cá,
do mundo dos objetos, das
coisas materiais. Com a
pauta do fim do mundo,
aproveitam para uma
incursão ao lado de lá,
das coisas imateriais.
O
primeiro fim do mundo
tinha no eclipse uma
imagem. O segundo fim do
mundo terá uma data. E
associado à data, o
momentoso acontecimento
do Bug do Milênio, a
falha dos computadores
programados para a
leitura do ano no espaço
de dois dígitos.
A quem
cabe na redação a
cobertura do fim do
mundo? Fica com a
editoria de Ciência,
quando existe? Vai para a
equipe de reportagem
local, que cobre Cidades?
Ou vai pra o caderno de
Cultura e Entretenimento?
Pode, afirnal, ficar na
mão de qualquer um, que
vai misturar ainda mais a
onda de emocionalismo da
opinião pública.
Não é
preciso ser esotérico de
carteirinha para saber
que os místicos
identificam uma Nova Era
na época em que vivemos.
Há um renascer na
espiritualidade, um sopro
que renova as religiões
tradicionais, e tem
lotado auditórios para
ouvir seus líderes. Há
mudanças no estilo de
vida, com novos hábitos
de consumo associados à
Nova Era.
Como a
imprensa quase nada
acompanha esses campo da
imaterialidade, e são
escassos os repórteres
especializados em
esoterismo ou religiões,
o assunto acaba na mão
de qualquer um. O
despreparo é o caminho
mais fácil do tratamento
sensacionalista da
matéria.
É
preciso alguém nas
redações com
sensibilidade para falar
com o coração da massa
nestes assuntos de fim de
século, sem misticismo,
sem explorar a crendice
popular. Alguém com
cultura e coragem para
dizer que Nostradamus,
pintado como o profeta do
fim do mundo, não tem
nada a ver com a
história.
O
artigo publicado a seguir
por Sala de Prensa, de
Ruy Fabiano, jornalista
político de Brasília,
dado a entender das
coisas do espírito, traz
luz a esse assunto.
Quando é mesmo que o
mundo vai acabar de novo?
* Flamínio
Araripe es periodista
en Fortaleza, al noreste
de Brasil, y escribe
sobre ciencia y
tecnología, informática
y economía. Miembro del
Consejo Editorial de Sala
de Prensa y colaborador
de Gazeta
Mercantil.

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A
rainha Catarina de Médicis, impressionada, manda
chamá-lo a Paris e, desde então, torna-se sua
protetora, preservando-o das suspeitas da
Inquisição.
Voltando ao fim
do mundo. O que Nostradamus previu para 1999 foi
o início de guerras e turbulências, que se
estenderiam até o ano de 2002, envolvendo toda a
humanidade e provocando destruição e morte em
larga escala. Não, porém, o fim do mundo.
Essas guerras
(que os exegetas classificam de Terceira Guerra
Mundial, muito embora essa terminologia inexista
em Nostradamus), instauram o caos na Terra,
submetendo a ordem social e política a profundas
transformações, que se estendem até o ano de
2031.
O epicentro dos
conflitos é sempre a Europa, que será invadida
pelos povos muçulmanos e terá suas principais
capitais ¾ Paris, Roma, Londres ¾ destruídas.
Como se não bastasse, até o ano 2162, o planeta
estará submetido a desequilíbrios ambientais
gravíssimos, atingido por ondas de calor, tendo
sempre por pano de fundo guerras generalizadas.
A batalha final
entre o Bem e o Mal ¾ o Armagedon bíblico ¾
está previsto apenas para o ano de 2360, quando
o planeta ficaria imerso em trevas e coberto por
"uma poeira", que alguns exegetas
acreditam radioativa. Somente a partir de 2400,
diz Nostradamus, a humanidade se reencontra com a
Luz e passa a viver sob os auspícios de uma nova
era, de paz e prosperidade.
OS
MÍSTICOS
Não se deve
cobrar dos místicos a responsabilidade pelos
boatos e distorções a respeito do fim do mundo.
Não foram eles que os propagaram. Ao contrário,
consideram-nos nocivos ao equilíbrio das
pessoas. As inúmeras seitas e escolas
iniciáticas mundo afora sustentam, em sua
maciça maioria, que o eclipse solar é o marco
de um novo momento para a humanidade.
Não é o fim,
mas o começo de um tempo novo, mais voltado para
a espiritualidade, para o resgate dos valores
ligados à fraternidade, muito embora seus
efeitos não se façam notar do dia para a noite.
O que talvez
tenha deflagrado o surto de paranóia foram
lances isolados como o do costureiro espanhol
radicado em Paris, Paco Rabanne. Ele convocou a
imprensa para anunciar que estava fechando seu
famoso atelier parisiense, um dos mais
concorridos do planeta, em função de sonhos
premonitórios sucessivos, relacionados com o
eclipse e a profecia de Nostradamus.
Segundo seus
sonhos, a França seria destruída. Outras seitas
embarcaram nessa. Algumas literalmente, como é o
caso da Energia Universal e Humana, na cidade
espanhola de Aleixar, cujo líder Luong Mihn Dang
construiu uma versão contemporânea da Arca de
Noé, em cimento armado, prevendo novo dilúvio
sobre a Terra.
Houve também os
que, sem qualquer respaldo místico ou
doutrinário, baseados apenas no noticiário da
mídia ou em alguns goles a mais de aguardente,
deram conseqüência prática aos boatos. É o
caso do delegado Jorge Germiniano, da cadeia
pública de Picuí, interior da Paraíba, que
soltou os presos em nome do Apocalipse, e acabou
demitido. E também do secretário de
Administração do Piauí, Magno Pires, que
decretou ponto facultativo para esperar o fim do
mundo.
Malucos e
excêntricos sempre existiram. E foi o ponto de
vista deles que, neste momento, por razões de
cunho apelativo, mais interessou à mídia
nacional e mundial. Com isso, deixou de ser
conhecido e aprofundado o ponto de vista dos
místicos mais conseqüentes. E o que eles dizem?
Que, além do eclipse solar, houve o alinhamento
de quatro planetas, deixando a Terra no centro de
uma cruz cósmica. Na horizontal, Saturno se
opõe a Marte; na vertical, Urano fica diante do
Sol e da Lua.
Os astrólogos
identificam nessa conjunção um momento
importante de exacerbação das emoções e
aguçamento da sensibilidade, pela influência
mais intensa que a Lua passa a exercer sobre a
Terra. Isso, em tese, favorece a proliferação
de conflitos. Daí a previsão de guerras, em
consonância com as previsões de Nostraedamus.
Mas o alinhamento favorece também a
religiosidade das pessoas, o que dá o
contraponto e abre horizontes de otimismo e
confiança.
Para quem
acredita, é isso aí. Para quem não acredita,
trata-se de um fenômeno puramente físico. Em
qualquer das duas hipóteses, nada a ver com o
fim do mundo ¾ e menos ainda com os versos
enigmáticos do sempre profanado e jamais
compreendido profeta Michel de Nostradamus.
* Ruy
Fabiano es
colaborador de Agência Estado, el despacho de noticias más grande de
Brasil, y en los últimos años fue columnista de
Correio
Braziliense. Es un
estudioso de temas espirituales, habiendo cursado
Teología en el monasterio de São Bento, Rio de
Janeiro. Esta es su primera colaboración para Sala de Prensa.
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