Meios de
Comunicação e a construção da
temporalidade mundo
Marialva
Barbosa *
Até
que ponto as temporalidades existentes no mundo
contemporâneo foram construídas pela ação da
mídia? Como algumas questões políticas e
econômicas da atualidade podem ser explicadas a
partir da inserção da Terra-Pátria,
utilizando a expressão de Edgar Morin, numa nova
dimensão temporal? A relação dos meios de
comunicação com o tempo é, de tal ordem, que
é possível categorizá-la como sendo uma
questão mediática. Não só porque participam
da sedimentação no imaginário de uma nova
temporalidade-mundo, mas porque a configuração
narrativa da mídia notadamente
audiovisual se inscreve numa relação de
natureza, sobretudo, temporal.
A
menos de um ano do fim do milênio, há a
lembrança constante, de que um novo século
está prestes a começar. No Brasil, os meios de
comunicação se apressam em estabelecer dois
marcos, construídos de forma complementar: de um
lado o fim do milênio e de outro, no mesmo
patamar, os 500 anos do Descobrimento. Dois mil
é, assim, associado à entrada do país num novo
ciclo: o terceiro milênio que, por sua vez,
coincide com a sua maturidade como Nação.
O que chama
atenção, além da demarcação simbólica dos
dois momentos singulares, reduzidos a um mesmo
instante pontual, é o fato de ser a maior
emissora de televisão do país a TV Globo
- a promotora oficial das comemorações do meio
século de Brasil. Que as comemorações são um
instrumento primordial no discurso dos meios de
comunicação já foi exaustivamente constatado.
Mas o que isto representa? Que tipo de
construção é engendrada e/ou referendada pelos
meios de comunicação para o milênio que se
enuncia? Que papel têm os meios de comunicação
na construção do tempo como acontecimento? E,
sobretudo, que temporalidade se cria em
correlação com esta memória singular,
afirmação de um novo momento para a
construção de uma idéia de Nação?
Qual é o
"espirito do tempo" deste final de
século e que papel desempenha a ação da mídia
na construção desse espírito?
Italo Calvino
destaca em suas Leçons américaines
(1989: 99-100) os motivos dominantes deste final
de milênio - "rapidez, exatidão,
visibilidade, multiplicidade e
consistência" - ao mesmo tempo em que
sublinha as conseqüências da "chuva
ininterrupta de imagens" sob a qual vivemos.
"A mídia
não cessa de transformar o mundo em imagem,
multiplicando-o numa fantasmagoria de jogos de
espelhos: essas imagens, freqüentemente, são
desprovidas da necessidade interna que deveria
caracterizar toda imagem, ao mesmo tempo em que
é forma e significado, impondo atenção e
sentidos virtuais". (CALVINO: op. cit: 100)
Sublinhando o
caráter transitório, acrescenta que grande
parte dessas imagens se dissolve como os sonhos
e, ao mesmo tempo em que não deixa nenhum traço
na memória, deixa uma sensação de estranheza e
mal estar.
Também Régis
Debray (1991: 242) observa que a compressão do
tempo, que aboliu as distâncias entre os
continentes, modifica nossa relação com a
cultura e com o consumo dos objetos de
conhecimento. O homem do mundo contemporâneo
quer adquirir uma bagagem cultural tão
rapidamente como consome um almoço num fast-food.
E os meios de comunicação forjam essa
aceleração, na medida em que faz parte da
conquista do público informar, cada vez mais, em
tempo-real, isto é, no momento mesmo da
ação acontecimental.
O jornalismo,
particularmente, se situa numa tensão permanente
entre o mundo e o tempo. Os acontecimentos ganham
sentido pela apropriação e interpenetração
dos grandes sistemas de mediação, movimento
obrigatório para chegar ao público que, assim,
forma uma opinião e uma representação do
mundo.
Se até bem
pouco tempo o objetivo dos meios de comunicação
consistia em informar o mais rapidamente
possível, hoje os meios técnicos de captação
e transmissão possibilitam que o acontecimento
seja mediatizado enquanto se desenrrola.
Essa
aceleração do tempo mediatizado, utilizando-se
da simultaneidade, é acompanhada pelos efeitos
da virtualidade e da interatividade que também
desempenham enorme influência sobre as visões
de mundo do público. O real pode ser, pela
ação do indivíduo, mesmo à distância, objeto
de mudança, o que dá ao presente uma visão de
transitoriedade absoluta. O presente não mais
"emerge do tempo" (Arendt: 1974) , mas
é construído na interatividade virtual.
O presente passa
a ser o fato no momento de sua transformação em
acontecimento, dando ao espectador a impressão
de que está diante da realidade e da vida e
permitindo-o, ao mesmo tempo, ter a sensação de
participar mais intensamente, ao lado de um vasto
auditório, na constituição do próprio
acontecimento.
O segundo
aspecto que cria um enorme interesse pelas
chamadas transmissões em tempo real é a
imprevisibilidade: o que acontece está sendo
escrito no momento mesmo da transmissão o que
pode significar surpresas.
Tempo e
Narrativa
Refletir sobre o
tempo mediatico é analisar, também, a relação
intrínsica entre tempo e narrativa. A forma que
assume determinadas narrativas induz ao como
desta relação, ou seja, a forma como o público
se comporta diante da mensagem.
A narrativa da
televisão, caracterizada sobretudo pela
fragmentação, leva a uma apropriação
igualmente fragmentada, permitindo uma
pluralidade de ações no instante mesmo da
recepção. Assim, se por um lado na
contemporaneidade o público se expõe por um
longo período à mensagem televisiva, esta
exposição se dá numa lógica de fragmentação
e de divisão da atenção. Pode-se ler, enquanto
se vê televisão, pode-se conversar enquanto se
desenrrola a trama narrativa ficcional ou
informacional na tela da TV, entre inúmeras
outras ações.
Por outro lado,
o sistema mediático funciona segundo as mesmas
leis das narrativas míticas e literárias, nas
quais desepenham papel fundalmental o tratamento
retórico e estilístico próprio, a gestão da
temporalidade através da narrativa e, sobretudo,
a liberdade de criação do receptor. A narrativa
é, como diz Paul Ricouer (1995), "a
guardiã do tempo".
A narrativa
mediática, por outro lado, inscreve-se no tempo
por obedecer a uma temporalidade construída, na
qual ordem, duração e freqüência
são as contantes. Cada programa televisivo, por
exemplo, segue uma ordem pré-estabelecida, dura
um certo número de minutos e é exibido numa
frequência que se repete. Transformar o tempo
abstrato numa forma concreta, que informa sobre
este mesmo tempo, é materializar uma idéia
preferencial de tempo e considerar a posição do
leitor/espectador no ato de recepção.
Ler um jornal,
ver uma emissão de televisão, escutar um
programa de rádio é estar intrinsicamente
inserido no tempo, não só porque se desvenda o
acontecimento e sua forma textual, mas porque
esta narrativa está inscrita no tempo do leitor
e/ou espectador, já que é a partir da
apropriação que o acontecimento se transforma
em experiência vivida.
Assim, a
narração mediática que, em princípio, seria
fragmentos do "real", ganha sentido e
valor de acontecimento - na operação de
apropriação ou quando é restituída ao tempo
de agir, marcando a interrelação do mundo do
texto ao mundo do auditório.
Falar de um
tempo mediatico é, pois, refletir sobre como a
temporalidade mudou a forma narrativa da mídia,
mas também como esta configuração dissemina
uma visão preferencial do tempo no universo do
público.
A temporalidade
contemporânea transformou a aceleração e a
interatividade em atributos narrativos dos meios
de comunicação, modificando a maneira como se
opera a construção dos acontecimentos. Estes
atributos, entretanto, estão no universo de
produção, mas também no de recepção.
Construindo uma
narrativa que valoriza esses dois aspectos, a
mídia elege uma visão de temporalidade que se
dissemina no universo do auditório. Se é
necessária, cada vez mais, a difusão do
acontecimento no instante mesmo de sua
produção, se ao mesmo tempo pede-se a
interatividade do auditório, permitindo a
ilusão de reconfiguração narrativa permanente,
em que se transforma o tempo extra-textual um dos
componentes mesmo, segundo Ricouer, do ato de
leitura? Se a cada minuto é preciso construir um
outro acontecimento, em tempo real,
haverá espaço para o extra-textual,
reconfiguração em que se transforma o tempo?
A aceleração
do tempo longe de ser somente produção é
criaçao da mídia na contemporaneidade. O tempo
mediático é um continum de aceleração
e de transformação do futuro no instante. Se o
futuro se transforma permanentemente em presente,
na lógica construída não há futuro e sim um
presente continum.
A urgência
impede a reorganização da narrativa e os seus
múltiplos jogos de temporalidade. É nesse
sentido que se torna também essencial para os
meios de comunicação sublinhar o que é
memoravel ou não, já que o passado, apresentado
como imóvel e inacessível, é efetivamente
materializado em narrativas, na qual o espectador
tem a ilusão de participar.
Mas, se grande
parte dessas imagens "se dissolve no
sonho" ou na ilusão de sua própria
profusão é necessario construir também a
memória. Se ela não mais existe, precisa ser
elaborada e esse passa a ser um atributo natural
da mídia. É preciso reinventar as tradições.
A ilusão de uma
temporalidade direta se sobrepõe a de uma imagem
real. Se é possível difundir o acontecimento no
momento de sua produção. Isso quer dizer que se
constrói a idéia da mídia como guardiã da
mais absoluta autencidade e verdade. A imagem é
a real, já que o acontecimento não é
mais recontado.
Da mesma forma
que a eclosão da transmissão direta mudou a
relação entre narrativa e temporalidade, os
sistemas virtuais embaralharam as antigas
categorias da ficcional, histórico e
jornalístico. Se o acontecimento mostrado é o
que está se desenvolvendo naquele momento, os
meios de comunicação não são apenas arquivos
para o futuro, mas arquivos permanentes do
presente. E a narrativa que produzem não é mais
a mescla de ficcional com o informacional, e sim
a narrativa histórica do imadiato.
A esta
virtualidade acrescentou-se a lógica da
interatividade que produz a ilusão de ter não
apenas a imagem em tempo real, mas o poder
de modificá-la. Com isso, cria-se a certeza
poder construir não apenas o futuro, mas também
o presente, já que este pode ser modificado, a
partir de um ato de vontade. A interatividade
tem, pois, uma relação intrínsica com as novas
lógicas temporais.
Todos os dados
do mundo podem estar accessíveis, hoje, em linha
direta e em tempo real a partir de
um computador pessoal. A metáfora da nevegação
com que frequentemente designamos a gestão
desses programas, mostra que o sentido é
desafiar a inércia e abolir o espaço e o tempo.
"Ilusão
participativa ou revolução da nossa relação
com o mundo e o conhecimento? Ainda é cedo para
julgar se esses acessos em tempo real aos bancos
de dados de uma aldeia global nos levarão a uma
melhor forma de mediar o real ou aos labirintos
das bibliotecas de Babel, como diz Borges".
(LITS: 1995)
Relações
temporais
A relação
temporalidade e midia não se dá exclusivamente
na configuração narrativa do discurso. Diversas
são as interseções de natureza temporal que o
leitor/espectador estabelece, algumas de natureza
bastante concreta.
Para algumas
passoas, estar diante de um programa de
televisão ou escutar uma emissão radiofônica
pode ter o sentido de "passar o tempo"
e a televisão responde perfeitamente a esta
expectativa. Para outras, ao contrário,
significa gerir o tempo, de forma racional,
permitindo fazer diversas outras coisas, num
duração limitada, e que seria dedicada a uma
única atividade. Olhar a televisão pode parecer
"tempo perdido", e neste sentido
reveste-se a ação de uma valoração real.
Por outro lado,
a percepção concreta que temos sobre o tempo e
a divisão que estabelecemos das horas do dia e
da noite tende a se modificar sob a influência
da mídia. Jacques Attali em sua Histoires du
temps (1993) lembra que a definição do
tempo universal ligada ao meridiano de Greenwich
data de 1885 e que no século XIV o dia não era
dividido em 24, mas em sete horas canônicas.
Mesmo hoje não se vive de maneira unívoca a
mesma relação temporal. Uma série de estudos
publicados pela UNESCO (1975) mostra a
permanência de divisões tradicionais do tempo
em numerosas regiões.
A mídia
permite, sob certo aspecto, a utilização
disseminada de um mesmo corte temporal. Se no
século XIX, o desenvolvimento das estradas de
ferro e, num segundo instante, do telégrafo e do
telefone, tornou imperativa a unificação da
hora, o rádio a partir dos anos 20 e depois a
televisão permitiram a difusão da hora oficial,
de maneira cada vez mais extensiva para o
conjunto da população. Não se pode abstrair o
fato de ser a televisão hoje uma espécie de
relógio contemporâneo que rege o tempo na vida
cotidiana. Jantamos antes ou depois do jornal das
oito, saimos para o trabalho antes ou depois do
noticiário da manhã e marcamos nossos encontros
após a emissão do programa x ou y.
Tendendo também
a se apropriar do tempo, de tal forma, transforma
a hora real num abstrato. Assim, programas de
televisão como Jô Soares 11 e 30 são
difundidos a meia noite e, por vezes, até mais
tarde, mas o tempo real continua sendo 23
horas e 30 minutos. Por outro lado, a hora passa
a ser construída como se fosse uma
particularidade da emissora x ou y: são 7 horas
da manhã na rádio x ou na televisão y.
A estruturação
do tempo nas grades de programação dessas
emissoras se impõe de maneira imperativa, com o
mesmo rigor do trabalho, tendo, ao mesmo tempo,
um sentido de ritualização. Regis Debray (1991:
322) remarca esta função religiosa. Para ele,
os programas distribuídos na grade de horários,
de maneira rígida, ritmam o tempo cotidiano e
semanal, como no passado ocorria nos mosteiros
com as rezas matinais.
Para além de
tudo isso, os meios de comunicação veiculam uma
temporalidade que lhes é extremamente própria.
Ao olharmos um filme ou uma novela de época,
utilizamos parte de nosso tempo disponível para
entrarmos num outro tempo. Fazem, assim, uma
espécie de buraco na realidade do tempo e
inserindo-nos num tempo imaginário.
Ao transmitirem
em tempo real o acontecimento ou ao
reconstruírem o passado, reconfigurando-o na
narrativa, dão a impressão de que é possível
estar inserido na realidade e na vida e, mais
além, de ser possível participar de forma mais
intensa, ao lado de um vasto auditório, de um
acontecimento presente ou passado.
Assim como
procuram, cada vez mais, informar o que está
acontecendo, agora, no mundo, os meios de
comunicação audiovisuais preocupam-se em
difundir imagens de um passado, mais ou menos
distante, dando a impressão de nossa presença
no tempo, de participação, criando, pois, uma
nova relação do espectador com este passado.
Essa relação resulta numa outra modificação
extremamente profunda da nossa
relação com o tempo e que tem reflexos na
própria forma como representamos a morte.
Reconstruindo o
passado, seja na ficção, seja no discurso
informativo, a televisão sugere para o
espectador do presente que o passado não
desapareceu, já que ao torná-lo accessível,
faz com que continue a existir de alguma forma.
Dando-lhe a aparência de vida, induz a idéia de
que o presente e o futuro são predeterminados,
tal como os filmes.
Por outro lado,
ao associar o presente a uma realidade concreta
o tempo real relega o futuro
ao tempo da não existência. Se o passado pode
ser reconstruído e o presente se constitui de
instantes que são substituídos sem cessar, a
idéia de futuro se dilue dentro do próprio
presente.
A percepção
generalizada da temporalidade, que não anula os
seus sentidos particularizados, permite, pois,
afirmar que há um sentimento do tempo ou como
diz Italo Calvino um certo "espírito do
tempo" que marca este final de milênio.
Essa afirmação supõe uma espécie de adesão a
uma consciência coletiva de um tempo soberano e
simplificado, que rege nossas relações sociais.
Mas para que
exista essa adesão é preciso criar figurações
e abstrações que possam ser compreendidas pela
sociedade. E essas reduções são estabelecidas
pela mídia, não só reconfigurando a
temporalidade na sua narrativa, mas difundindo a
mesma presença do tempo, imperceptível e
imemorial.
Por outro lado,
ao construir e tornar visíveis novas
temporalidades tempo real, tempo
mundo, tempo mutacional da interatividade
os meios de comunicação desempenham um
papel único na construção da subjetividade
coletiva em torno de uma mesma relação
temporal.
Além disso, ao
selecionar o que deve ser objeto de uma
duração, ao interferir mesmo nesta lógica,
podemos dizer que estabelecem um movimento
próprio do tempo que espelha a imagem e a
vivência particularizada de culturas
específicas.
Estabelecer essa
idéia de constituição de uma subjetividade
temporal pela ação dos meios de comunicação
não significa negar que a idéia univoca do
tempo e a sua difusão foi e é criada,
sobretudo, pelos modos de produção. É antes de
tudo a disciplina do trabalho, a divisão das
horas do dia entre tempo livre, do lazer, e tempo
do trabalho, da produção, que ensejou toda essa
construção preferencial.
Entretanto, a
entrada em cena das novas tecnologias,
possibilitou um outro tipo de homologia. A
informatização, a robotização, as novas
técnicas genéticas, a energia nuclear mudaram
os modos temporais de intervenção humana nos
processos de produção, modificando também a
noção de tempo.
Gradativamente,
de maneira discreta, vai se formando uma nova
concepção. As novas tecnologias realizam uma
total dissociação do tempo do homem e do tempo
da máquina. As qualidades que esses aparelhos,
engenhos da modernidade, pedem são, sobretudo,
mentais e inscritas numa nova duração. Exigindo
o tempo calmo da atenção, da reflexão e do
comando, introduzem o homem numa dupla
temporalidade: a da reflexão necessária ao
controle das tecnologias e a lógica da
aceleração, que permite a construção do
presente como futuro. Se a primeira temporalidade
se dá no espaço da produção e é destinada a
poucos, a segunda é de natureza genérica e se
distribui de forma massificada pela sociedade.
Subitamente o
mundo se fechou em torno de nós. Nada mais é um
fato local, o mundo está em todas partes e,
paradoxalmente, não está em nenhum lugar. Nada
mais é um acontecimento particular e local.
Todas as informações, aparentemente, chegam
instantaneamente a todos os lugares. Chega-se ao
final do século com a certeza de que é
impossível escapar dessa temporalidade mundo.
Evidentemente
razões de ordem concreta levaram a inserção de
todas as nações compulsoriamente nesta lógica.
O avanço do
capitalismo e sua hegemonia como sistema
econômico mundial forçou o caminho em direção
a uma economia globalizada. Na lógica da
auto-aceleração, as empresas líderes do mundo
politico e econômico encontram o único espaço
disponível para a venda de seus produtos. As
novas máquinas tecnológias, sob a pressão de
um mercado implácavel e de um simbolismo que
transforma em ultrapassado tudo o que não é a
última novidade, pedem renovação constante.
Constatar a obsolescência tornou-se natural. Mas
essa idolatria do novo, como contrário de
ultrapassado ou obsoleto, foi o caminho criado
pela economia capitalista para a renovação do
seu aparelho produtivo.
Por outro lado,
vive-se o tempo da especulação financeira. O
dinheiro como que se dilue no espaço terrestre
inteiro, sem materialidade concreta,
transmutando-se em índices nas telas dos
computadores dos mercados financeiros que se
interligam mundialmente. A crise econômica de um
país se reflete, em segundos, em todos os
lugares do mundo. As bolsas despencam
vertiginosamente e o dinheiro virtual, já
que só existe em índices pré-fixados
passa a valer mais ou menos em instantes
fugidios. O tempo, como o dinheiro, da
economia-mundo caracteriza-se por sua fluidez e
virtualidade.
Talvez o exemplo
mais emblemático desta virtualidade monetária
seja a nova moeda européia. Desde 1 de janeiro
de 1999 é possível, em quinze países da
Europa, pagar instantaneamente pela compra de
qualquer produto em euro. É possivel também
investir, poupar, movimentar as contas correntes,
tudo, em euro. Mas o euro como moeda na
materialidade concreta e histórica de todas as
moedas através dos tempos só será
visível em 2002. Até lá só existe
virtualmente.
Chegamos, pois,
a virada de mais um século com a atividade
econômica mundializada espacialmente e, ao mesmo
tempo, desmaterializada. Por outro lado, nos
escritórios, nas fábricas, nos bancos, nos
centros de poder a execução das tarefas requer
não apenas ritmos e cadências determinadas, mas
uma nova combinação temporal que se materializa
no sicronismo e minutagem exacerbada de todas as
operações.
Ao lado deste
novo tempo econômico, cohabita um novo tempo
tecnológico, no turbilhão de tecnologias da
informática, nuclear, espaciais e genéticas que
mudam as relações originais do homem com a
temporalidade. Cria-se, aquilo que Chesneaux
(1996) chama, o tempo-interface,
comprimido ao externo e rigidamente programado,
ignorando o "jogo livre" dos
intervalos, não conhecendo pausa, nem
repetição.
Assim, a
informática miniaturiza ao extermo o tempo, que
passa a ser medido em nanosegundos ou
picosegundos; a genética é capaz de acelerar o
processo de criação humana e a exploração
espacial coloca o homem diante de novas escalas
temporais, o tempo fóssil (Idem: 28)
Cria-se, por
outro lado, uma nova referência do passado. A
memória guardada pelos computadores de nosso
cotidiano se constitui de estoques de dados
parciais, informações que surgem de uma
espécie de vazio, sem referência aos processos
nos quais foram criadas e aos contextos que lhe
deram sentido. A memória do cérebro técnico
planetário é, assim, uma memória restritiva e
em nada se parece com a humana, que exprime uma
experiência elaborada na duração e representa
uma instância constitutiva da identidade dos
indivíduos ou dos grupos.
Chegamos, pois,
à virada de mais um século, percebendo que as
forças históricas mais emblemáticas da
contemporaneidade são, sem dúvida, as novas
tecnologias e a economia mundializada, ambas
mudando nossa relação espacial, mas sobretudo
temporal.
Além disso, a
modernidade-mundo construiu uma aparente
igualdade mundial, sob slogans que inserem,
compulsoriamente, o mundo na
"pós-modernidade". O progresso não é
mais o objetivo, porque a tecnologia levou o
homem a um aparente êxtase: o êxtase
tecnológico.
______________
BIBLIOGRAFIA
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entre le passé et le futur", préface à
lédition française de La crise de la
culture, Paris, 1974.
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« Lhistorien régisseur du
temps ? Savoir et responsabilité ».
Revue historique, n. 605, jan-mar 1998. PUF,
1998
CALVINO, Italo. Leçons
américaines. Aide-mémoire pour le prochain
millénaire. Paris: Gallimard, 1989.
CHESNEAUX, Jean. Habiter le
temps : passé, présent, futur :
esquisse d un dialogue politique.
Paris : Bayard, 1996.
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1991.
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quelques interrogations actuelles. »
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1998 . Paris : Documentation
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LITS, Marc. "Temps et
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neufs". In: Recherches en Communication,
n. 3. Louvain: Université Catholique de Louvain,
1995
PRONOVOST, G. Sociologie du
temps. Bruxelles : De Boek Université,
1996.
Revue Recherches en
Communication. Numéro 3, Louvain :
Université Catholique de Louvain, 1995.
* Marialva
Barbosa es
profesora titular de periodismo en la Universidade Federal
Fluminense (Río de
Janeiro, Brasil), doctora en Historia por la
misma Universidad y tiene un posdoctorado en
Comunicación Social por el Centre National de
Recherches Scientifiques
(París, Francia), donde desarrolló una
investigación sobre "Tiempo, memoria y el
papel de los medios de comunicación". Este
artículo es un extracto del texto final de su
investigación, publicado en Francia en la Revue Critique (1999) y que pronto será editado en
Brasil con el título: Meios de
Comunicação, memória e tempo: a construção
da redescoberta do Brasil. Esta es también
su primera colaboración con Sala de Prensa.
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