A
informação desportiva emitida na TV
dirige-se aos sentidos ou ao pensamento?
Felisbela
Lopes *
É,
sobretudo, através do olhar e do ouvido que
acedemos àquilo que a televisão transmite, mas
é igualmente no imaginário de cada um que os
sentidos e os significados da imagem e do
discurso televisivos acontecem. Isto significa
que não pode haver nestes dois actos uma
contraposição, mas uma continuidade. Concebendo
o corpo como o meio que nos situa no mundo, uma
espécie de axis mundi, a fenomenologia
já havia neutralizado oposições como
corpo/alma, físico/psíquico,
sensível/inteligível. Concordando com estas
teses, a proposta de encarar a pele como o limiar
entre o que está fora e o que está dentro, mas
também como o lugar que permite o contacto a
partir do qual a comunicação se torna
possível, reúne, na nossa perspectiva, traços
pertinentes para pensar a informação desportiva
veiculada pela TV.
Um corpo que se
exibe é, antes de mais, uma superfície cutânea
em relação à qual o sujeito que com ele se
relaciona experimenta uma série de sensações
que podem ser elementos fundamentais da
organização da sua identidade. É também o
espaço de teatralização somática do eu
que se expõe e que, através disso, quer dizer
alguma coisa a alguém. A pele como
dispositivo de comunicação e não como
protecção faz todo o sentido, defende
Derrick de Kerkhove (1997: 128). Aceitando as
teses de Didier Anzieu que intitula
sugestivamente um dos seus livros como Le Moi
Peau , a pele seria não apenas aquilo
que delimita o corpo que temos, mas também
aquilo que nele fazemos penetrar, funcionando, à
partida, na expressão de Maria Augusta Babo
(2001), como uma superfície de
inscrição. Ou uma interface
da comunicação sensorial, como
prefere Jean Devèze (2003). Se tivermos em conta
que a pele é o primeiro órgão que participa na
troca de significados entre os indivíduos,
teremos de valorizar as sensações, nomeadamente
em enunciados informativos que mediatizam grandes
eventos desportivos que, por seu lado, aglutinam
multidões unidas por uma espécie de cola
emotiva, como é o caso do Mundial 2006.
Inscrito num
certo determinismo tecnológico, não fosse ele
discípulo de McLuhan, Derrick de Kerkhove
oferece-nos um interessante quadro de reflexão
acerca da influência que a comunicação
electrónica tem no indivíduo, nomeadamente a
nível sensorial. Dando conta de uma experiência
a que se submeteu no Laboratório de Análise dos
Media da Universidade canadiana Simon
Fraser, sob a direcção de Steven Kline,
para testar o impacte produzido no corpo e na
mente por certas imagens televisivas, Kerkhove
constatou que, apesar de não ter conseguido
fazer movimentos de pulso que indicassem
aprovação ou reprovação em relação àquilo
que passava num ecrã, um aparelho registou
várias alterações na condutividade da pele, no
ritmo cardíaco e em misteriosas
reacções da testa. Enquanto lutava
para conseguir exprimir uma opinião
escreve em A Pele da Cultura: uma
investigação sobre a nova realidade
electrónica o meu corpo
inteiro tinha estado a ouvir e a ver e a reagir
instantaneamente (1997: 34). Daqui
retira a conclusão de que diz já haver
suspeitado há muito tempo: A televisão
fala primeiro ao corpo e não à mente.
O autor, citando o estudo de vários
investigadores nesta área, aponta conceitos como
o colapso do intervalo, criado
por Edward Slopek2, ou sacudidelas
por minuto, fixado por Morris Wolfe3,
para referir o modo como a TV fala
prioritariamente aos nossos sentidos. E é isso
que a habilita a fazer a audiência vibrar em
conjunto, conferindo-lhe uma capacidade de
renovar a percepção e conhecimento da realidade4.
Na perspectiva de Kerkhove, as tecnologias seriam
extensões das nossas faculdades psicológicas
que ampliariam o poder das nossas mentes. No caso
da televisão, os órgãos em causa seriam a
visão e a audição, funcionando o pequeno ecrã
como o lugar onde, fora do nosso corpo, se
projecta uma imaginação recriada em público,
ganhando, por isso, um estatuto colectivo. A ela
nos ligaríamos particularmente através da
audição e da visão, que, com as novas
tecnologias, adquirem um outro significado.
Ver, afirma Derrick de
Kerkhove (1997: 127), é desenvolver uma
nova precisão e flexibilidade do nosso olhar; é
ver por detrás das nossas costas, como vemos à
frente dos olhos; é apreender o mundo numa
relação frontal, mas num ambiente circundante
total. Trata-se de um grande desafio,
impossível de realizar se não aliarmos o olhar
ao pensamento. Ao contrário do mítico Jano,
não possuímos uma visão de 360º graus. Os
nossos olhos apenas nos mostram o que está à
nossa frente. Recorda Stephen Bertman (2001: 57)
não ser por acaso que o corpo humano está
orientado para a frente:
Os
olhos e o nariz estão implantados à frente; os
pés e os dedos dos pés apontam para a frente;
os joelhos e os cotovelos são articulados de
modo a favorecer o movimento frontal. Dos
órgãos sensoriais do corpo, só os ouvidos
estão implantados de lado, a fim de permitirem
apanhar os sons em estereofonia.
Servindo-se da
sugestão do compositor Murray Shafer, o autor da
obra A Pele da Cultura escreve que com
os olhos estamos sempre à beira do mundo a olhar
para dentro, enquanto com os ouvidos é o mundo
que vem até nós e estamos sempre no seu centro
(1997: 148). Construindo pontos de vista que se
situam do lado de fora, mas em frente a nós, a
televisão dirige-se prioritariamente ao nosso
olhar, incitando os telespectadores a seguirem as
respectivas emissões como se estivessem no
centro do universo televisivo. Há, neste
contexto, dois mundos: aquele que apresenta o
pequeno ecrã (de natureza pública) e aquele que
pertence a cada telespectador (de índole
privada) que se pretende fazer fundir num só,
diluindo-se, desse modo, o público e o privado
numa realidade psicológica.
Na televisão, e
no caso concreto de eventos desportivos com
grande popularidade como é o caso do futebol, a
proximidade que esses conteúdos instalam em
relação à audiência e a componente
espectacular que lhes é intrínseca, fazem-se à
distância daquele que promove as emissões e
daquele que as vê. O pequeno ecrã institui
momentos que se partilham sem contacto físico
entre os co-celebrantes (os telespectadores). É
consensual a ideia de encarar a TV como um
espaço propício ao rito: pelo carácter
repetitivo da sua grelha, pela diversidade de
suportes físicos (verbais e visuais), pela forma
fortemente codificada das suas mensagens, pela
acentuada carga simbólica que tem... Reunindo
uma vasta comunidade invisível que se interliga
em lugares diferentes pelo acto de ver, a
televisão institui-se numa cerimónia colectiva
que se acentua no caso de um Mundial de Futebol.
E é, sobretudo, através da audição e da
visão interpeladas, em grande parte, pela
função fática que se torna presente
aquilo que parece estar longe. Embora o
acontecimento seja re-presentado, o telespectador
experimenta relativamente àquilo que vê uma
relação de proximidade, como se estivesse ali,
nas bancadas do jogo a gritar pela equipa de
todos nós.
É também nos
sentidos que Jesus Gonzalez Requena (1989) busca
parte da sua argumentação para pensar o
espectáculo. Tacto, gosto e olfacto, vinculados
a percepções de territorialidade, são sentidos
que, de certa forma, inviabilizam aquilo que se
concebe como algo de espectacular, na medida em
que necessitam de uma certa distância e de uma
impressão de estranhamento. A audição, por seu
lado, dá-nos alguma compreensão acerca desse
tipo de manifestações e, quando associada à
visão, pode aceder em pleno ao espectáculo.
Assim, o olhar é o principal vector que nos
conduz à cena onde tudo se passa. O
olhar, afirma Requena (1989: 57),
apresenta-se como o sentido-rei, como
aquele através do qual o sujeito se constitui
como espectador. Embora a sonoridade
seja um elemento não despiciendo, a plasticidade
visual confere sedução ao acto que se dá a
ver. Em termos sensoriais, a biografia da
humanidade constitui-se como uma história
visual. Como recorda Stephen Bertman (2001: 56),
a nossa compreensão do tempo é
condicionada pela nossa percepção do espaço,
o que significa que as nossas atitudes
são avivadas não só por determinados objectos
que vemos, mas pelo próprio facto de existir a
visão.
A importância
de um Campeonato do Mundo de Futebol assenta na
transmissão em directo de sucessivos desafios,
feita com relatos cheios de marcas emotivas e
prolongada por emissões informativas (notícias,
reportagens e debates) onde as emoções ocupam
lugar de destaque. A este nível, as perguntas
acumulam-se: que lugar tem essa componente
emocional no jornalismo, nomeadamente no
jornalismo desportivo? Em programas de debate que
elegem o futebol como tema central, será
legítimo os jornalistas interpelarem os seus
interlocutores, tendo em conta as emoções que
estes são capazes de verbalizar? A nossa
resposta a estas questões é afirmativa, mas
isso pressupõe responsabilidades acrescidas para
quem faz informação, principalmente em
televisão, onde a exposição das pessoas é
maior e a mensagem veiculada tem mais impacte.
A valorização
das emoções como parte fundamental de qualquer
comportamento racional é relativamente recente.
O passado devolve-nos várias figuras que
insistiram, a partir de diferentes campos, na
oposição entre o sentir e o pensar,
como que seguindo esta máxima: se existo porque
penso, estou perdido porque sinto. Não era isso
que caracterizava o herói romântico, cativo do
seu lado emocional e esquecido das suas
obrigações sociais? Por muito tempo, notou-se
uma certa dificuldade em aceitar as emoções
como base da razão. No entanto, em determinados
períodos, houve quem chamasse a atenção para
essa componente da vida individual e social. Foi
o caso, por exemplo, de Darwin, James e Freud,
que, no século XIX, se detiveram no estudo da
emoção, concedendo-lhe um lugar privilegiado no
discurso científico5. Nesse tempo,
sociólogos como Tocqueville, Le Bon, Durkheim,
Simmel também reconheciam as emoções como uma
variante explicativa com alguma importância no
estudo da acção social. Já na primeira metade
do século XX, as ciências cognitivas
minimizaram a vertente emocional do indivíduo e
correntes sociológicas como o funcionalismo
enfatizaram as bases racionais da acção social,
nomeadamente nos sistemas de acção
instrumental.
As emoções
viriam a adquirir outro vigor para a compreensão
do agir do homem com certas investigações
sociológicas e, sobretudo, com pesquisas das
Neurociências dos finais do século XX. Barbalet
(2001: 39-40) aponta algumas iniciativas que
demonstram a crescente importância que as
emoções ganharam nos últimos anos entre os
sociólogos: em 1984, foi fundada a International
Society for Research on Emotions; em 1990
criou-se a secção de Sociologia das
Emoções, da Associação
Sociológica Americana; em 1990, foi formado o Grupo
de Interesse para a Sociologia da Emoção
dentro da Associação Sociológica Britânica;
em 1992 instituiu-se um painel de Sociologia
das Emoções na Conferência Anual da
Associação Sociológica Australiana. O desenho
desta área específica da Sociologia consagrada
às emoções revela, pois, o crescente interesse
da comunidade científica por esta problemática.
Mas talvez tivesse sido no campo das
Neurociências que as emoções conquistaram
maior notoriedade. Aí, António Damásio foi um
dos grandes impulsionadores de estudos que
congregam a racionalidade com a emotividade: no
livro O Erro de Descartes6,
o cientista contrariou as teses daqueles que
defendiam a separação entre o corpo e a alma;
na obra O Sentimento de Si7
(2000), deteve-se no papel da emoção e do
sentimento na construção do Si;
em Ao Encontro de Espinosa (2003) procurou
a biologia dos sentimentos. A
valorização conjunta do emocional
e do racional é permanente no
trabalho deste cientista. Apresentando as
emoções como curiosas adaptações que
fazem parte integrante do mecanismo através do
qual os organismos regulam a sua sobrevivência
(2000: 75), Damásio leva em linha de conta o
facto de a componente emocional condicionar a
regulação homeostática, concluindo, então,
que as emoções não só proporcionam fontes de
energia como também estão sempre
prontas a evitar a perda de integridade que
prenuncia a morte (Damásio, 2000: 76).
Outra das suas funções é serem um elemento
activo nos processos de raciocínio e de tomada
de decisões (2000: 61). De forma alguma se
defende que as emoções se substituem à razão,
antes se advoga que constituem um adjuvante em
decisões que se julgam racionais, sobretudo
no que diz respeito a assuntos pessoais e sociais
que envolvam riscos e conflitos
(Damásio, 2000: 62).
A valorização
da componente emocional dos indivíduos é
retomada por alguns investigadores sociais,
principalmente por aqueles que estudam o
quotidiano. Por exemplo, Michel Maffesoli refere,
noutros termos, essa urgência em atender aos
processos emotivos subjacentes aos actos
cognitivos. Na sua perspectiva, há que levar
em linha de conta o aspecto instituinte das
coisas mais do que o aspecto instituído,
acrescentando ser necessário recuperar
o que vem de baixo, a sociabilidade que nasce com
a componente do afecto que lhe está inerente
(1996: 238). O laço emocional revela-se, assim,
como um meio de agarrar melhor o vivido. No livro
O Eterno Instante, o sociólogo fala na
importância de se criar um pensamento
do ventre (2001: 181), ou seja, uma
atitude que tome em consideração as emoções
enquanto expressões societais. A esta posição
está subjacente a ideia de que hoje se opera um
regresso a outra maneira de nos relacionarmos com
a realidade e com os outros. Essa ligação
processa-se por uma espécie daquilo a que este
sociólogo chama cola do mundo,
de que resulta uma certa viscosidade
social, situada na ordem da
experiência vivida e percepcionada através de
diferentes sentidos. Talvez seja pertinente
recordar que, do ponto de vista etimológico, consenso
é formado por cum + sensualis, implicando
que a união8 de pessoas à volta de
determinado acontecimento se cumpre não por meio
de uma abstracção ou racionalidade, mas
sobretudo através do sensível. Podemos
falar de ambiência afectiva, arrisca
Maffesoli (1993: 66), garantindo que hoje há uma
nova ordem social desenhada por uma comunicação
através da qual se evidencia um quotidiano feito
de agregações, muitas vezes a distância, que
reflectem o desejo de viver experiências em
conjunto, frequentemente de forma vicária.
É neste
ambiente que as transmissões televisivas do
Mundial de Futebol e, adicionalmente, as
emissões informativas especiais que se promovem
à sua volta conquistam grande importância. Para
além de absorver este air du temps, essa
comunicação televisiva, estruturada pela imagem
e pelo som, também se revela propícia à
natureza expressiva e dinâmica do próprio
acontecimento. Essa preferência que o
jornalismo, em geral, e o desportivo, em
particular, manifestam em relação a um discurso
acentuadamente fático merece a alguns
investigadores reparos de vária ordem, não se
diferenciando contextos, pessoas ou formatos.
Talvez abundem no jornalismo desportivo feito
através da televisão exemplos de uma
informação que aproveita as emoções para com
elas construir espectáculos promotores de
histerismo e impulsionadores de tumultos
accionados por claques em fúria. No entanto,
isso não legitima posições que visam sanear as
marcas emotivas do discurso informativo, até
porque isso seria um exercício condenado ao
fracasso e, mesmo que fosse viável, subtrairia a
essa informação grande parte da sua riqueza
expressiva.
Antes de
condenar a presença das emoções no discurso
jornalístico, seria aconselhável interrogar em
que medida elas poderão ser uma fonte de
conhecimento e uma oportunidade de nos juntarmos
uns aos outros em torno de uma equipa que
representa uma nacionalidade. Como demonstrou a
narratóloga Mieke Bal, razão e emoção são
duas componentes fundamentais que toda a
estratégia narrativa deve conseguir misturar (apud
Masson, 1997: 346). Esta linha não constituiu
uma novidade. Reportando-se ao sofrimento,
Aristóteles, na Retórica, já sublinhava
a importância de o discurso comportar aspectos
emocionais, capazes de persuadir acerca da
veracidade do mesmo aqueles que o escutam,
tornando-o aos seus ouvidos mais compreensível,
porque também evidenciando mais autenticidade.
Isto faz com que as emoções não devam ser
tidas como uma manifestação irracional, mas
como algo que ajuda a organizar o pensamento e a
agregarmo-nos uns aos outros em torno de
determinado evento/causa.
Com alguma
frequência, as emoções são tomadas como
sinónimo de sensacionalismo, sendo este quase
sempre encarado como elemento perturbador da
informação que se pretende construir. É
curioso o facto de este conceito se referir a sensação,
que etimologicamente deriva de sensu,
significando sentido, acção de sentir,
faculdade de se aperceber. Poder-se-iam
definir as sensações como um fenómeno
fisiológico que produz uma modificação no
indivíduo, capaz de desencadear certos afectos,
sem, no entanto, com eles se confundir. António
Damásio chama às primeiras emoções e
aos segundos sentimentos. Diferentemente
da componente afectiva/sentimentos enraizada num
tempo dilatado, as sensações/emoções são
fenómenos que, apesar de intensos, são
imediatos e passageiros. Tal como o jornalismo,
acrescenta Marc Lits (2001) que, depois de
realçar a natureza pontual das sensações,
afirma isto: A informação poderia ser
definida como essencialmente sensacional, já que
se desenvolve a partir do princípio do
imediatismo e da proximidade temporal ao
acontecimento. Não é no conteúdo
daquilo que se conhece que o investigador faz
assentar a componente sensacional dos
acontecimentos, mas na enunciação que a partir
deles é construída, a qual, por seu lado,
desenha uma determinada promessa
de comunicação com o público. Não
há sensação sem relação, lembra
Lits, que faz emergir o sensacional do discurso
mediático quando a enunciação se
sobrepõe ao enunciado, procurando,
através disso, chamar a atenção das
audiências. Num livro em que trabalha
empiricamente a noção de sensacionalismo,
Gloria Awad (1995) identifica o sensacional com
tudo o que pode produzir uma impressão
de surpresa, de interesse ou de emoção
(1995: 11). Este campo semântico do
surpreendente e da causa comum, para o qual
remete este conceito, não coincidirá com alguns
valores-notícia do jornalismo
televisivo, particularmente daquele que se detém
no futebol?
É certo que a
crescente aproximação do jornalismo desportivo
das modalidades dramáticas ou festivas da
enunciação obriga à discussão do triângulo
informação-realidade-responsabilidade
social, mas isso não deve levar à
defesa apriorística de que um relato
jornalístico assente em sensações nos desvia
irreversivelmente do campo do jornalismo. Talvez
o caminho seja o de analisar até que ponto essas
representações são marcadas pelo esforço de
compreender, explicar ou debater os
acontecimentos ou se se caracterizam pela
irrealidade, banalidade, boçalidade e
leviandade.
São muitos os
trabalhos que salientam o facto de, em certos
casos, o discurso jornalístico ser muito
permeável às emoções. Entre nós, salienta-se
o estudo de Eduardo Cintra Torres (2006) sobre a
mediatização da queda da ponte de
Entre-os-Rios e do 11 de
Setembro, que enfatiza a importância
que as emoções tiveram nos relatos dos
jornalistas e na relação que os telespectadores
mantiveram com esses trágicos acontecimentos. A
capacidade que a informação, nomeadamente
aquela veiculada pela TV, tem para levar as
pessoas não só a pensar em certos tópicos como
também a chorar ou a vibrar de alegria obriga à
reflexão sobre os caminhos que se trilham para
mediatizar certas realidades. Por vezes, tão
importante como saber o que alguém pensa sobre
determinado assunto é ver/escutar o que diz
acerca das vivências que tem de determinada
situação. Por vezes, um discurso jornalístico
que absorve alegrias, tensões, ansiedades,
explosões de contentamento e expõe tudo isso em
registo directo poderá ser mais informativo do
que o relato equidistante dos factos. A equação
que identifica a informação com a razão e o
espectáculo informativo com a emoção
revela-se, deste modo, demasiado limitativa. Um
programa de desporto que põe em cena uma
conversação, nomeadamente um debate, necessita
de discursos pontuados pelo racional e pelo
emocional. Se as relações interpessoais se
processam no quotidiano através da troca de
palavras, de gestos ou de posturas que reflectem
permanentemente as emoções daqueles que aí
estão envolvidos, seria possível subtrair essas
marcas ao discurso jornalístico?
Ao legitimar a
presença das emoções no jornalismo,
nomeadamente no jornalismo desportivo, estamos
conscientes de que destacamos uma componente do
discurso mediático que facilmente poderá
resvalar para incitamentos a tumultos por parte
dos adeptos, para o desrespeito pelo bom nome dos
jogadores ou dos árbitros, para espectáculos de
entretenimento
Por isso, também defendemos
a urgência de se promover uma ética exigente
nos princípios, rigorosa nos métodos e
intransigente na respectiva aplicação. O
jornalismo desportivo feito através da TV tem um
amplo campo de actuação: desde o relato dos
jogos aos programas de debate em estúdio,
passando pelas reportagens nos estádios e nos
espaços circundantes. Cada um destes géneros
comporta certamente práticas jornalísticas
particulares e efeitos diversos junto das
audiências. Não é nosso propósito explorar
aqui essas variáveis, apesar de julgarmos
urgente retomar estas questões e aprofundá-las
de modo a traçar fronteiras entre aquilo que
pertence ao campo jornalístico e aquilo que se
integra numa indústria de entretenimento ao
serviço de interesses económicos e/ou de clubes
de futebol. No entanto, há alguns pontos que
queremos reter.
Neste livro, os
jornalistas Carlos Daniel e David Borges
sublinharam já a dificuldade intrínseca à
composição do plateau de um
programa de informação centrado no futebol. À
partida, os convidados deveriam ser escolhidos de
acordo com as respectivas competências para
falar do assunto em debate, mas todos sabemos que
essa selecção é tributária de outras
exigências: capital mediático/notoriedade,
discurso fluente e expressivo, telegenia
Com os convidados já dentro do estúdio,
levanta-se outro desafio: o de saber moderar a
conversa. Se qualquer debate conduzido por um
jornalista tem como principais objectivos a
problematização e a compreensão daquilo que se
discute, o moderador deverá fazer uma gestão da
palavra que promova a credibilidade e a
clarificação daquilo de que se fala. Não será
esta uma tarefa fácil, pois o registo é
frequentemente salpicado por marcas emocionais
que remetem para juízos de valor vazios de
qualquer argumentação. Esses discursos poderão
ocupar legitimamente o espaço televisivo, mas
convém valorizar de igual modo a palavra
ponderada e/ou explicativa dos convidados.
Sublinhe-se que o jornalista pauta a sua
profissão por princípios de pluralismo, de
independência e de honestidade informativa,
embora isso não implique rígidos modos de
actuar. No caso de um moderador, os papéis a
adoptar serão diversos. Poder-se-á optar por um
papel minimal, apresentando o assunto e
apagando-se atrás das trocas verbais; por um
papel explicativo, através do qual se
descodificam certos conteúdos; por um papel
pedagógico, interpretando as exigências do
público como uma procura de conhecimento e
esforçando-se por que os convidados digam aquilo
que sabem de forma acessível; por um papel de
animador, privilegiando o laço afectivo com o
espectador em detrimento do esforço para fazer
compreender os argumentos apresentados; por um
papel de confronto, cortando a palavra aos
convidados para contrapor outros pontos de vista.
Na mesma emissão, o jornalista pode assumir
diferentes papéis.
No caso das
reportagens feitas nos estádios antes e depois
dos grandes desafios de futebol, o trabalho de
campo do repórter esbarra com fontes de
informação que tendem a centrar o seu discurso
no registo emocional. Todavia, a estafada
pergunta o que sente perante este
resultado? poderia ser poupada, se os
profissionais da informação percebessem que,
mais do que desencadear estados de alma, talvez
fosse mais pertinente interpelar esses
interlocutores acerca das tácticas em jogo, do
desempenho da equipa, sem com isso obviamente se
excluírem as emoções do sujeito do discurso.
Também aquilo que se mostra deveria ser alvo de
um apurado trabalho de selecção de planos que
evitasse mostrar cenários que distorcessem os
acontecimentos. Seria, pois, importante promover
no jornalismo desportivo uma ecologia dos
discursos e das imagens, sem, com isso, remeter
essa informação para um universo autotélico,
completamente desligado dos eventos que se
pretendem mediatizar.
Na informação
jornalística, estabelece-se, por vezes, uma
oposição entre interesse e importância,
associando-se ao primeiro conceito uma ideia de
lúdico ou de trivial e ao segundo questões mais
sérias e estruturantes daquilo que configura a
sociedade. Por outro lado, também é costume
opor interesse público ao interesse do
público, querendo significar com a primeira
designação aquilo que importa saber e com a
segunda aquilo que agrada às audiências. Serão
essas oposições atravessadas por uma certa
simplificação que, por vezes, carece de
fundamento. No livro intitulado Por qué
Interesan las Noticias, o investigador Juan
Ramón Muñoz-Torres manifesta discordância
relativamente à contraposição dos termos interesse
e importância, na medida em que, na sua
opinião, se separa o que, de facto, está unido:
É preciso violentar a sinonímia que
existe etimologicamente entre interessar e
importar. Importância e interesse partilham o
mesmo campo semântico (2002: 87).
Recuemos, pois, à raiz etimológica desses
conceitos. Interesse deriva
por substantivação do verbo interessar,
ou, em latim, interesse, que significa
estar entre, participar, importar.
Importante tem a sua origem no verbo
latino importare, que quer dizer trazer
para dentro, introduzir, suscitar.
Ambos os vocábulos significam aquilo que não
nos é indiferente, que nos mantém atentos a
qualquer coisa, que nos envolve e suscita vontade
de saber. Daí não termos qualquer dúvida
acerca da importância e do interesse
jornalísticos que suscita um evento como o
Mundial de Futebol. Que nos fala primeiro ao
corpo e, só depois, à nossa mente, numa lógica
coincidente com a da TV que se dirige primeiro
aos nossos sentidos e, posteriormente, ao nosso
pensamento.
__________
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* Felisbela
Lopes es doctoranda en
Información Televisiva y profesora en la Universidade do Minho, en Portugal. Este texto forma parte
del libro A
TV do futebol, del que
ella es coautora, y lo remite como su primera
colaboración para Sala de Prensa.
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