Produção
de televisão de baixo custo com qualidade DV
ou superior em pequenas comunidades e regiões
carentes
Fábio
B. Almeida, Nilson L. Lage, Clóvis Geyer Pereira
*
Resumo: Com a
ampliação, ad infinitum, do
número de canais de áudio-e-vídeo (via
cabo, satélite, TV digital, Internet de
banda larga ou Internet 2), surge a
possibilidade de ampla utilização de
som e imagem em educação seriada ou
permanente, difusão cultural, promoção
comunitária etc. Considerando o padrão
econômico dominante na maior parte dos
países mundo e o imperativo ético de
preservar culturas e saberes, será
preciso baixar muito o custo de
produção. Isso é possível utilizando
edição não-linear e câmaras menos
sofisticadas para a obtenção de
qualidade DV (720 x 480 linhas, áudio de
48kHtz, l6 bit, estéreo). O segredo é o
emprego de técnicas desenvolvidas em
telejornalismo e a separação entre a
produção de conteúdos e da mensagem. O
projeto conta com a parceria do
Laboratório de Experimentação Remota
do Centro Tecnológico da UFSC.
Até
recentemente, a televisão era concebida como
veículo em que um emissor dirigia mensagens a
grande número de receptores.
Na concepção
dominante em vários países da Europa, a TV
seria adequada à difusão de filmes
complementando a exibição em cinemas; e à
transmissão direta de eventos desportivos,
cívicos ou artísticos, desde concertos de
música até apresentações teatrais.
Na concepção
americana, a TV herdou do rádio a vocação do broadcasting
a produção de espetáculos próprios,
desde soap operas até shows de
auditório e seriados. A operação em rede
ampliou esse modelo, gerando concentração de
recursos que se traduziu em produção cara,
incluindo não apenas a operação de captação
da imagem, mas também, na maior parte dos casos,
sua concepção e realização artística.
É outra a
realidade que se começou a implantar com a
difusão da TV por cabo, prosseguirá com a TV
digital e chegará ao limite quando o avanço
tecnológico viabilizar a transmissão direta ou
o download de grandes pacotes de imagem em
movimernto na Internet de banda larga ou na
Internet 2 coisa que já se consegue
realizar em condições laboratoriais. [A
utilização da Internet 2 como veículo para
produção em vídeo está sendo estudada por
vários grupos acadêmicos, um deles operando na
área de Engenharia Elétrica da Universidade
Federal de Santa Catarina.]
Se o
preenchimento dos canais disponíveis atualmente
na chamada TV paga via cabo ou satélite
já não oferece a fragmentação
temática desejável, como poderão os atuais
caríssimos modelos de produção atender à
diversidade do público particularmente
nos países pobres habitados pela grande maioria
da humanidade? Como colocar o vídeo, instrumento
importante de informação cultural e técnica em
nossa era, a serviço de comunidades locais,
carentes ou não, ou de comunidades profissionais
ou temáticas dispersas desde
neurocirurgiões até apreciadores de mantras?
Como, no quadro político da globalização,
tornar o vídeo instrumento capaz de responder ao
imperativo ético de preservar e ampliar o
direito à pluralidade da informação?
A historia das
comunicações registra momentos em que a oferta
de canais superou a demanda, dando origem não à
especialização ou pluralização dos temas, mas
a programações repetitivas e com baixa
qualidade de conteúdo - por exemplo, nas rádios
FM. O desejável, no caso da imagem-e-som, é que
se possa propiciar a utilização dos espaços a
serem oferecidos para a educação seriada ou
permanente, projetos de intercâmbio de
informação, difusão cultural, saúde pública,
promoção comunitária, cidadania e registro
documental.
Será um
desastre se a multiplicação de canais
limitar-se a eliminar, pela atomização da
audiência, o tanto de qualidade existente nas
atuais programações televisivas.
Isso nos leva a
pretender, desde já, estruturar sistemas
tecnológicos que viabilizem a produção de
baixo custo e qualidade aceitável, integrando-os
com a experiência técnica acumulada em
telejornalismo.
Por
que telejornalismo
Dada a
necessidade de deslocamento fácil e edição
rápida, os sistemas de produção em jornalismo
foram sempre os mais portáteis e simplificados
em toda a indústria da televisão e do vídeo.
Na década de
1950, usavam-se pequenas câmaras
cinematográficas em que o filme mudo
preto-e-branco era movimentado por mecanismo de
corda. No segmento eletrônico do telecine
dispositivo que confrontava um projetor de cinema
e uma câmara de televisão , fazia-se a
conversão para a imagem positiva.
Mais tarde, no
alvorecer da TV em cores, popularizou-se em todo
o mundo a câmara CP, que associava filme
colorido reversível (original positivo) de 16 mm
e uma trilha de som magnético paralela aos
quadros; com ela, o registro de formas, clamores
e ruídos da guerra do Vietnam ficou ao alcance
de um único operador, o repórter-cinegrafista.
A edição, porém, não podia ser feita em
moviola, cortando e colando pedaços do filme:
como a película transita aos saltos por detrás
da lente, quadro a quadro (24 vezes por segundo),
a tomada de som na banda magnética tinha que ser
deslocada 18 quadros, para captar o movimento em
velocidade constante. Numa entrevista, por
exemplo, se efetivado o corte físico do filme,
os lábios do entrevistado continuariam se
movimentando na tela, em silêncio, por alguns
instantes, porque a supressão do som antecipava
a da imagem.
Uma solução
possível era transferir som e imagem para fitas
analógicas de vídeo-teipe de duas polegadas de
largura e fazer a edição nas grandes máquinas
então disponíveis. O filme colorido reversível
era caro; reveladas rapidamente com banhos
químicos e jatos de ar, as cores desbotavam em
pouco tempo. Os aparelhos de vídeo-teipe, por
sua vez, protegidos por patente da Ampex (RCA
Victor), que os inventou, em 1957, custavam
fortunas e eram habitualmente reservados para
produções mais duráveis e rendosas do que as
notícias do dia-a-dia.
Essas
limitações começaram a ser superadas na metade
da década de 1970, quando a Sony lançou os
gravadores e players de mesa para fitas de
¾ de polegada; sincronizados através da leitura
do tempo de base (pelo TBC, time base
corrector), constituíam ilhas de edição
com qualidade aceitável, principalmente para a
primeira geração de produtos, e custo bem mais
baixo. Logo viriam as câmaras e gravadores
portáteis, que podiam ser levados por uma
pessoa, elas no ombro, eles a tiracolo; depois,
as fitas de meia polegada (Beta [® Sony] e S-VHS
[super-VHS]), câmaras cada vez menores e mais
leves, as camcorders (gravadores e
câmaras acoplados).
Os muitos
inventos e avanços tecnológicos que se seguiram
caracterizam o desenvolvimento de uma única
idéia básica: a transformação de som e cores
da imagem em feixes de trilhas analógicas
transversas sobre uma tira de plástico ou,
mesmo, de papel.
A
miniaturização foi possível graças
principalmente à progressiva introdução de chips
e circuitos impressos nos equipamentos. No
entanto, a digitalização da informação
gravada só veio quando os computadores
alcançaram velocidade e capacidade de memória
bastante para registrar e processar imagem e som.
Com ela,
recuperou-se a não-linearidade, isto é, a
possibilidade de incluir segmentos em uma
gravação (como acontecia na montagem em filme)
sem ter que copiá-la toda novamente.
Dispensou-se a necessidade de percorrer a fita de
teipe até a locação do ponto de corte ou
inserção (a deixa). A edição da
matéria, tão logo feita a transposição para o
disco rígido, é, portanto, mais rápida, menos
enervante. E, como não se trata de cópia, mas
de leitura, não há perda de informação
pode haver até ganho no processo de
edição, por maior que seja o número de
reaproveitamentos sucessivos, problema antes
insuperável, por exemplo, nos editores
analógicos em S-VHS.
Está aberto
também o caminho para a compactação dos
sistemas de transmissão remota, os
caminhões de externa. Câmaras
digitais, computadores portáteis e a
possibilidade de trafegar sinais digitais de
vídeo (pelo rádio, circuitos elétricos e cabos
de fibra ótica, por exemplo) permitem imaginar
um futuro próximo em que, para muitos usos, o
reino da imagem desça do Olimpo dos grandes
produtores para a mesa de trabalho de
profissionais modestos empenhados em projetos de
informação, ensino, ação comunitária e
documentação da realidade.
A experiência
ensina que, nesses casos, o único elemento
insubstituível é a competência de quem opera
os equipamentos. É sempre bom lembrar que
câmaras fotográficas e recursos para captação
e edição de som existem há mais tempo, com
custo acessível, e nem por isso fotos amadoras e
cd-roms domésticos conseguem atrair a atenção
fora do pequeno círculo de pessoas para as quais
foram produzidos.
A
pesquisa em curso
Este é o
primeiro paper levado a congresso de um
projeto de pesquisa que iniciamos em 2002,
objetivando: (a) estudar padrões, linguagens e
procedimentos de produção exeqüíveis para
pequenas cidades, concentrações carentes,
utilizando recursos de baixo custo propiciados
pela gravação digital e edição linear; (b)
realizar o mesmo estudo, porém visando
produção destinada a públicos específicos ou
pequenos públicos não carentes, com exigência
menor de redução de custo; (c) selecionar
equipamentos e softwares adequados ou
promover sua criação. Em qualquer caso,
mantém-se qualidade DV (resolução 720x480,
áudio de 48 kHtz, 16 bit estéreo) ou superior.
A filosofia é
produzir a mensagem, não o conteúdo, conceito
que se pretende importar da tradição do
jornalismo. Isto significa que, embora o sistema
de cobertura externa possa, por exemplo,
registrar os passos de um balé ou o desempenho
de atores em palcos ou arenas, jamais se cuidará
de produzir tais espetáculos. Evita-se ao
máximo o estúdio; buscam-se ambientes naturais
ou comunitários, até como meio de emprestar ao
produto, além do conteúdo, as formas do mundo
real ou do mundo possível em que se passa a
ação.
No caso das
comunidades, planeja-se cobrir eventos
programados ou não, sejam artísticos,
desportivos, culturais, religiosos, cívicos ou
de qualquer outra natureza; debates e entrevistas
sobre esses eventos ou acontecimentos externos,
abordados da perspectiva da comunidade. No caso
das emissões com temática especializada, a
cobertura será de eventos ou ações continuadas
na área, incluindo atividades laboratoriais,
exposições e debates públicos, programas
didáticos e de apoio ao ensino à distância
etc; paralelamente, a promoção de talk shows
e entrevistas. bem como o acompanhamento de
ações continuadas para fins documentais,
utilização futura com objetivos técnicos ou
históricos.
Instalações
e equipamentos
Haverá
provavelmente a necessidade de um mini-estúdio,
com ar condicionado remoto, iluminação adequada
e tratamento acústico, No entanto, sua
utilização será limitada, não se estimou
ainda quanto. Definida, mesmo, está a
necessidade de, n camcorders, n
microcomputadores para a edição, dispositivos
de iluminação externa, cabos e microfones.
1. Câmaras
Embora os
modelos evoluam continuamente, a opção inicial
mais simples foi pelas câmaras Sony DCR-TRV,
montadas na Amazônia brasileira; equivalentes ou
variações com características superiores. O
sistema de compressão nesses dispositivos (TRV
330) é o Digital 8, o mesmo do DV, com 500
linhas de resolução horizontal (duas vezes mais
do que o padrão VHS) e boa quantidade de
informação de cor (três vezes mais do que o
padrão VHS). Têm a vantagem do preço, inferior
a mil dólares, e algumas desvantagens
operacionais próprias de sua previsão de uso
por amadores, como é o caso da dificuldade de
controlar o foco quando se desativa o sistema
automático.
A maioria das
câmaras TRV tem entrada analógica, o que
permite a digitalização de fitas antigas
(analógicas) do acervo. Podem trabalhar como pass
through, isto é, como conversores
analógico-digitais, o que poderá ser útil,
particularmente na recuperação de gravações
de arquivo, embora o preferível seja guardá-las
digitalizadas.
Um passo
adiante. estão câmaras com 700 linhas de
resolução e saída MPEG-4, que pode ser
alternativa para o envio de vídeo pela rede
Internet, se pensarmos em banda mais larga do que
as disponíveis hoje ou na Internet-2. O ganho
operacional é grande, mas o custo pode ser até
cinco vezes maior.
2. Hardwares
de edição
A escolha dos hardwares
de edição envolve considerações importantes
sobre custo-benefício e estratégias de
atuação no caso específico deste projeto.
Levando em conta
o desempenho e a preferência que se manifesta no
segmento profissional, a primeira opção seria a
linha Macintosh e, nesta, o modelo G4 ou
sucessores, com mais de 800 MHz. Em plano
inferior, o iMac, equipamento de uso amador.
Acima dele, os sistemas com programas AVID, caros
para nossos propósitos.
No entanto,
além do investimento inicial que, no Brasil,
chega a ser três ou quatro vezes maior do que se
gastaria na aquisição de um PC com
operacionalidade similar, a linha Macintosh tem
tecnologia fechada. Isso significa que se
dependerá sempre do fabricante para a obtenção
de peças ou para upgrade, que se torna
altamente improvável. A própria manutenção
não é disponível em muitas cidades do país.
A questão
política também tem seu peso: o mundo
globalizado é mais discurso do que realidade; em
países como os nossos, periféricos e
empobrecidos, bloqueios comerciais ou
dificuldades de importação são sempre
consideráveis como hipótese. E o risco é bem
maior para compradores isolados de produtos com griffe,
como os Macintosh.
Isso nos levou a
optar pelos PCs. Fabricados em série ou montados
artesanalmente, são hoje tão comuns quanto os
cartões de crédito. Processadores, placas e a
maioria dos periféricos encontram-se com
facilidade em toda parte; os preços de
componentes e periféricos caem com rapidez,
estimulados pela concorrência. São poucos os
casos de oligopólio de produção, como ocorre
com as impressoras a jato de tinta: aí, o
problema reside não no preço de compra, mas na
venda cruzada de tinteiros, cujo custo chega a
superar a metade do que se paga pela máquina.
Qualquer
computador PC com processador Pentium 4 ou
equivalente de 1 GHz ou mais; discos rígidos IDE
ATA, velocidade igual ou superior a 7.200 rpm
(preferivelmente dois, cada com pelo menos 40 GB
cada); memória RAM de 512kB e placa IEEE1394,
aceita softwares de edição, bem como
outros aplicativos úteis no caso.
3. Sistemas
de DNG com várias entradas
Não existem
presentemente no mercado equipamentos para a
cobertura digital (digital news gathering)
de eventos externos com várias câmaras, exceto
caros caminhões de externa. No
entanto, é possível conceber comutadores que,
acoplados a computadores portáteis (laptops)
com características similares às indicadas
acima, consigam propiciar a inserção de som e
imagem de várias trilhas na edição de um
programa.
Para o
necessário suporte tecnológico, estamos
associados ao Laboratório de Experimentação
Remota (RexLab, em http://www.rexlab.ufsc.br) do
Centro Tecnológico da Universidade Federal de
Santa Catarina, dirigido pelos professores
doutores João Bosco Mota Maia e Luiz Fernando
Jacintho Maia.
Supomos que
será possível concentrar o comando de todo o
sistema no teclado do computador, admitindo-se,
talvez, alguma forma de controle remoto para
focalizar a imagem e movimentar a câmara
ou mesmo fazê-la acompanhar automaticamente
figuras humanas ou seres vivos. O objetivo é
reduzir o tamanho das equipes, concentrando o
trabalho em controladores, mais do que operadores
que atuam sob comando.
Para o tráfego
do sinal até o servidor que gerará a imagem (na
rede ou para o transmissor), há várias
hipóteses, embora essa questão específica
escape ao escopo da pesquisa, no estágio atual:
cabeamento de fibra ótica, onde houver; via
rádio (viável para distâncias de até 80 km,
presumivelmente); pela rede elétrica; e, talvez
no futuro próximo, a rede telefônica comum,
graças, principalmente, à crescente
compactação.
4. Software
Quando se fala
em baixo custo, é preciso pensar, hoje,
principalmente, em softwares.
Desenvolvidos com a mira voltada para o mercado
americano e, secundariamente, europeu, os softwares
comerciais particularmente os que dominam
o mercado atingem preços muito altos para
usuários de países pobres.
Um conjunto de
aplicativos composto por Dreamweaver, Fireworks,
Flash, Photoshop, Director e Adobe Premiere
alcança valor correspondente a mais de cinco
anos de trabalho de um cidadão brasileiro que
receba salário mínimo isso sem contar o
sistema operacional da Microsoft. Embora nem
todos esses programas devam ser colocados em cada
máquina, o custo é exorbitante para comunidades
carentes e elevado para as não-carentes.
Daí nossos
esforços para, ao lado dos aplicativos
comerciais, experimentar aplicativos gratuitos
que rodam com sistemas operacionais freeware,
particularmente com o Linux. No momento, temos
instaladas em máquina as versões Red Hart 8.0 e
Conectiva 9.0 do Linux; os aplicativos de
edição Cinelerra e Kino; e o aplicativo de
imagem Gimp 1.2.3. Admitimos a possibilidade de
complementar ou adaptar algum programa freeware
para a execução adequada de outras operações
básicas de que necessitarmos. Conjuntos
similares já estão sendo usados em televisões
universitárias (ao que sabemos, na TVU de
Uberaba), e na TV Amapá, da Rede Amazônica.
Equacionada esta
questão, instalamos em outro computador o Adobe
Premiere 6.0 sobre sistema Windows XP. Podemos
confrontar, assim, o desempenho dos editores,
considerando eventual redução de custos. Temos
convicção de que, neste campo, operam
estratégias de marketing e preferências
ideológicas (como a resistência a certos
aplicativos da Microsoft) que não correspondem a
vantagens efetivas e podem justificar preços
mais elevados.
Técnicas
e formatos
Tema de nossa
competência específica, a definição de
formatos e de opções técnicas de produção é
o item chave de viabilização de sistemas deste
tipo. Algumas diretrizes gerais foram traçadas:
- Produzir a
mensagem, não seu conteúdo;
- Utilizar
ambientes naturais sempre que possível;
- Dispensar
cenários, mas acompanhar o
desenvolvimento tecnológico quanto a
cenários virtuais;
- Utilizar
recursos de edição próprios de
sistemas informáticos, tais como os
oferecidos por programas como Flash ou
Fireworks, bem como gráficos produzidos
em planilhas e outros que antecipam a
convergência entre a técnica
tradicional de vídeo e a linguagem da
Internet.
- Buscar
formatos mais adequados para a
digitalização dos produtos, desde o DVD
aos cd-roms, considerando os custos de
gravação e a manutenção do acervo.
A partir daí,
pretende-se formatar módulos de três horas com
os seguintes gêneros de programa:
A
Com uma câmara, tripé (eventual) e edição
não-linear em computador:
1. Boletim
informativo Coleção de registros de
eventos, depoimentos breves de participantes,
entrevistas rápidas. A atualidade desses
registros, bem como outras características
próprias do interesse jornalístico,
caracterizam alguns desses boletins como
telejornais ou magazines
eletrônicos. Para a edição,
consideram-se cabeças (em que o
repórter aparece apresentando o lead da
matéria ou o narrador a introduz),
passagens (em que o repórter ou
narrador transita de um para outro tema ou
locação, dentro do mesmo assunto), imagens
narradas em off e sonoras,
sejam entrevistas ou cenas tomadas com ruído
ambiente. O boletim pode ser introduzido e
integrado, entre um e outro segmento, por ou mais
apresentadores que, neste caso, ocuparão sempre
o mesmo local , para facilitar o reconhecimento
do programa e indicar sua continuidade que
se chama cumprir função fática.
Outros marcadores com o mesmo objetivo são
vinhetas e aberturas padronizadas ou
estilisticamente similares. A distribuição das
matérias deve obedecer a ritmo que facilite a
percepção, quer grupando-as por critério de
semelhança, quer alternando informações tensas
e distensas, planos fechados e planos abertos
etc. A produção compreende basicamente a
feitura de uma pauta, a apuração de
informações em fontes secundárias, a
marcação de encontros ou a obtenção de
autorizações necessárias, a captação de
imagens, som e entrevistas. A edição obedece a
um planejamento discursivo (matérias
jornalísticas, neste caso, raramente excedem
dois minutos e, em regra, ficam abaixo disso) e
se faz por corte e fusão de imagens, com
inserção de caracteres gráficos, mapas,
desenhos ou imagens fixas, se for o caso.
2. Documentários
São programas extensos (geralmente, de
dez minutos a uma hora) dedicados a um tema ou a
uma seqüência de eventos por exemplo, a
evolução de uma técnica cirúrgica, a
descrição de uma única cirurgia (eventualmente
precedida da exposição do quadro clínico), ou
o relato de uma viagem à Antártica. Podem
incluir depoimentos, entrevistas, retrospectivas.
recuos (flashbacks) ou avanços (flashfowards)
no tempo, narrações em off, depoimentos
ao vivo ou cobertos por imagem. Embora o vídeo
tenha herdado do cinema a estrutura narrativa em
planos (visuais) e seqüências (de eventos), o
documentário pode ser dividido em episódios ou
conforme tópicos que vão sendo expostos um
após outros, de acordo com alguma ordem lógica.
O processo de produção começa com um pesquisa
prévia (de dados e imagens) e a confecção de
um roteiro, tão detalhado quanto possível;
prossegue com a complementação da pesquisa
iconográfica, planejamento e tomada das cenas,
realização de entrevistas, produção de
gráficos e vinhetas e concepção de um estilo
visual que determinará os critérios de
edição. Documentários têm sua linguagem
fixada conforme os objetivos: se a finalidade é
didática, por exemplo, os tópicos principais
terão que ser destacados e/ou repetidos; se as
imagens são o foco de atração, pode-se
introduzir o programa com flashes
rápidos, que antecipam a história; se se trata
de uma expedição ou narrativa de viagem,
pode-se tomar o próprio viajante como narrador e
contá-la como aventura, ou fazer a ação
decorrer ilusoriamente em um único dia, desde a
alvorada até o entardecer.. A estratégia deve
ser escolhida já a partir do roteiro, que serve,
como é óbvio, de guia, não apenas para a
captação de imagens e informações, mas
também da edição. Documentários instrucionais
são particularmente úteis no ensino de
matérias que se reportam à realidade objetiva
ou material, como a geografia, a história ou
ciências, bem como na transmissão de
procedimentos ou técnicas; o ideal, nestes
casos, é que haja alguma interatividade
isto é, o usuário possa parar e retomar
seqüências que não conseguiu acompanhar
e testes objetivos recapitulando os episódios.
3. Entrevistas
São encontros formais, nos quais alguém
discorre sobre algum assunto, sobre vários
assuntos ou sobre si mesmo diante de um
entrevistador, que questiona e orienta o
diálogo. São o instrumento de excelência para
a abordagem de temas discursivos ou conceituais
em qualquer área de conhecimento - história,
economia, política etc., bem como para
incursões na intimidade ou visão peculiar de um
personagem sobre o mundo que o cerca.
Construídas com palavras, as entrevistas podem
expressar emoção, em determinados momentos, e
isso as distingue da maioria dos relatos escritos
ou depoimentos cartoriais. A estratégia do
entrevistador é ceder o espaço de maior
destaque ao entrevistado, embora mantendo o
controle da conversa e assegurando que ela não
escapa aos objetivos pretendidos; seu primeiro
compromisso é colocar o entrevistado à vontade.
fazendo-o como que esquecer microfones e
câmaras. As melhores entrevistas (neste sentido,
de programas com a duração de mais de dez
minutos e até uma hora ou mais neste
caso, em capítulos) são aquelas que se realizam
em ambiente próprio do entrevistado, com as
pessoas que conversam sentadas ou passeando lado
a lado e perguntas pertinentes, que refletem
conhecimento prévio do tema pelo entrevistador e
eventualmente são feitas a partir das próprias
respostas, o que elimina a possibilidade de se
seguir cegamente um questionário estabelecido
com antecedência. Na produção, é usual manter
a câmara fixada na pessoa do entrevistado;
depois da entrevista, ela é desviada para a
figura do entrevistador, que repete, uma a uma,
as perguntas feitas. A inserção desses trechos
e de tomadas panorâmicas faz-se habitualmente na
edição.
B
Com dispositivos de captação de imagem com
várias câmaras e edição ou corte
simultâneo para transmissão direta ou
gravação
É possível, em
tese, registrar qualquer evento, desportivo,
científico, cívico, cultural etc. Destacamos:
1. Eventos
desportivos e cênicos Neste caso, o
usual é ter uma câmara panorâmica fixa e
tomada de som com o narrador e/ou com o som
ambiente. Outras câmaras fazem tomadas de
detalhes que vão sendo inseridas. Pode-se
efetuar o corte de som no caso de uma entrevista
ou de evento ruidoso à margem do que está sendo
coberto, mas a regra é tomar a trilha sonora
como roteiro para eventual edição.
2. Cirurgias
e outros procedimentos em que coexistem
situações gerais e detalhes que devem ser
considerados simultaneamente Pode-se
manter uma câmara fixada no panorama da ação e
outra acompanhando detalhes; pode-se ainda
superpor informações sobre variáveis
relevantes (ritmo cardíaco, temperatura, pulso
do paciente; velocidade, rotações e temperatura
do motor de um veículo em movimento etc.). O
narrador será, em regra, um especialista. Na
verdade, a transmissão ao vivo de um evento
desse tipo pode envolver riscos (de atraso ou
descontinuidade, por exemplo) que devem ser
sempre considerados.
3. Debates,
conferências e talk shows
A disposição dos equipamentos decorre da
distribuição dos debatedores e do conferencista
e platéia. A principal dificuldade é antecipar
que debatedor ou quem da platéia irá falar ,
talvez interrompendo a fala do outro; o tempo que
se leva para fixar a imagem neste personagem
atrapalha bastante o aspecto visual do programa.
Ainda aí, a câmara panorâmica é uma boa
saída; ela permite que se recorra a imagens
neutras toda vez que ocorre intervenção
inesperada; ainda assim, é preciso muita
atenção, principalmente no caso de transmissão
direta, em que erros não podem ser corrigidos.
Planejamento
de produção
Cuidado que se
deve ter é o de assegurar boa iluminação e
captação de som nos ambientes comunitários.
Tomemos uma
universidade. Ela dispõe de cabos de fibra
ótica que percorrem o campus e podem
facilitar o trafego de imagens para um
servidor-gerador ou para a gravação, se esta
for centralizada. Há vários auditórios,
dezenas de laboratórios das mais diferentes
especialidades, um hospital universitário e
campos de esporte.
Dentre esses
locais, deveremos selecionar previamente aqueles
em que se poderão efetuar gravações ou
transmissões. Em seguida, planejar, para cada
um, a colocação de luzes, câmaras e
microfones, considerando diferentes usos. Um
auditório, por exemplo, será iluminado de uma
forma para a apresentação de um espetáculo e
de outra para uma solenidade ou entrevista.
Feito uma vez,
esse planejamento será executado em n
ocasiões.
Um
novo perfil profissional
A
digitalização das grandes emissoras de
televisão foi um processo caro, promovido pela
indústria de equipamentos, e onde se pode ter
cometido erros graves.
A onda da
digitalização da produção jornalística
começou em meados da década de 90. Salas de
produção jornalística integrada passaram a
permitir o armazenamento de informação em
texto, imagem parada, gráficos e seqüências de
vídeo e áudio, de modo a permitir o acesso de
grande número de jornalistas ao mesmo tempo.
Emissoras menores, como a finlandesa YLE,
completaram a instalação dos novos sistemas em
1996; produtores maiores, como as inglesas ITN e
BBC, completaram a digitalização em meados de
1998.
García Avilés
e Bienvenido Leon (AVILÉS & LEÓN, 2002)
informam que as emissoras espanholas Antena 3 e
Tele 5 despenderam, cada uma, pelo menos seis
milhões e meio de dólares (a primeira gastou o
dobro, mas a cifra inclui a construção de
estúdios em um novo prédio). Tele 5 ocupa 95
jornalistas e 30 produtores na sede; Antena 3
emprega 500 jornalistas, na Espanha e no
exterior. Em que pese a diferença entre esses
valores e os previstos no projeto em curso,
alguns aspectos são comuns:
(a) a
necessidade de que os jornalistas tenham
competências múltiplas, isto é, sejam
capazes de escrever roteiros, produzir
programas, editar, apresentar, reportar
algo comum no modelo de produção
toiotista que se vim implantando em
diferentes áreas da indústria. Apenas
tarefas muito complicadas, como a produção
de gráficos complexos, admite pessoal
especializado;
(b) a
integração de conhecimentos tecnológicos e
procedimentos jornalísticos. No caso de
empreendimentos grandes, isso pode ser
resolvido com a criação de cargos como
gerente de sistemas e gerente de mídia,
ambos com formação em engenharia. O gerente
de mídia é uma espécie de webmaster
da rede interna ou intranet do departamento
de jornalismo (o material editado permanece
no servidor por alguns dias e é. em seguida,
copiado para arquivo em base externa). Em
pequenos produtores, como os concebemos,
muitas questões tecnológicas terão que ser
resolvidas em casa e um número
menor delas dependerá sempre de assistência
externa;
(c) o uso
intensivo da internet como meio de
comunicação, apuração, transferência de
informações e, no futuro, certamente,
tráfego de arquivos de imagens em movimento,
imediatamente e em larga escala. Dentre os
jornalistas espanhóis ouvidos por García
Avilés e Bienvenido Leon, 78,5 % consideram
mais rápido o processo de edição e saúdam
o aumento do número de ilhas de edição
(agora, computadores) disponíveis. Vantagem
adicional é que a atribuição a uma única
pessoa da totalidade do processo produtivo
resulta em maior domínio do assunto. A
adaptação dos jornalistas, no entanto, não
é fácil. São ferramentas novas e
habilidades a ser incorporadas (como as de
editor ou roteirista a um repórter
experiente) que, no modelo taylorista
anterior (de produção segmentada ou linha
de montagem), estavam segmentadas. A
adaptação, no caso espanhol, levou, segundo
os autores, cerca de um mês, o que é, no
caso, pouco tempo;
(d)
acreditamos que o isolamento e o contato mais
íntimo com a tecnologia exigirão ainda mais
dos envolvidos em projetos de pequena
dimensão como os aqui imaginados. A
formação para isso desenha novos
currículos, mais focados na estruturação
das mensagens que trafegam por mídia de
tecnologia conforme suas finalidades e os
ambientes sociais em que se inserem. Será
necessário contato íntimo com computadores
e programas, coisa que já vem sendo exigida
no provimento de informação em bancos de
dados e portais da internet.
Há anos vimos
advertindo que a formação dos jornalistas deve
especificar-se e considerar as interfaces com a
estruturação de linguagens e com a tecnologia
da mídia, seja como instrumento de apuração (a
Internet), de processamento (planilhas, bancos de
dados, editores de texto), de edição (gráfica,
em áudio, em áudio e vídeo, multimídia, para
a Internet). Sem esse conhecimento, toda
formação que a universidade propicie, ainda que
consistente (o que não é sempre o caso), não
terá como se transferir ao mundo real, em
produtos e mensagens.
Não há tortura
pior do que condenar um ser humano, ainda que
sábio, ao silêncio.
__________
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ENCONTRO INTERNACIONAL DE JORNALISMO, 3º, São
Paulo, 1991. Conferências e debates.
Rio de Janeiro: Editora J.B., 1992. p.69-87.
* Fábio B.
Almeida, Nilson L. Lage
y Clóvis Geyer Pereira son profesores en el Departamento de
Jornalismo, de la Universidade Federal de Santa Catarina. Lage es, además, miembro del Consejo
Editorial de Sala de Prensa.
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