Elementos da teoria dos jogos,
jornalismo de precisão e pensamento sistêmico
Informação
jornalística como suporte a decisões
Hélio
A. Schuch *
RESUMO: Este trabalho tem o
propósito de analisar a informação
jornalística como suporte a decisões com
referências em elementos da Teoria dos
Jogos, Jornalismo de Precisão e do
Pensamento Sistêmico. Para isto, serão
expostos e articulados conceitos destas três
técnicas, que, em conjunto, podem contribuir
para um melhor entendimento do papel da
informação jornalística em tomadas de
decisão. Introdutório, o plano do artigo
é: primeiro, analisar a continuidade e a
simetria da informação jornalística em
processos decisórios tipo jogos; após,
examinar o método do Jornalismo de Precisão
como técnica produtora de informação
precisa; e, seguindo, tentar demonstrar o
desempenho do Pensamento Sistêmico em seu
melhoramento. Por fim, apresenta-se a
síntese destas inserções.1
1.
Introdução
A
palavra informação assumiu tanta importância
que a época atual foi designada como Era
da Informação.2 Com efeito, a
sociedade contemporânea mostra como indicador
expressivo um gigantesco acúmulo de informação
e capacidade de difundi-la. O nosso interesse,
porém, está num tipo de informação, a
informação jornalística (notícia e
reportagem), originada em fatos da dinâmica
social, da qual o jornalismo se serve para
existir. Dentro da quantidade destes fatos,
muitos são causas e efeitos de decisões
materializações de informação. É o que
ocorre na política e na economia (com suas
derivações), que, como duas esferas imbricadas,
são as que causam mais impulsos na sociedade, ou
seja, decisões, o que é captado pelo jornalismo
daí a grande ênfase através de
editorias e a especialização de veículos
jornalísticos em relação a estes fatos. A
política e a economia são jogos, acionados e
movimentados em conseqüência das decisões dos
seus agentes3 ou jogadores. São jogos
porque constituem mundos com dinâmicas geradas
por interações entre jogadores, cujas decisões
são interdependentes e não unilaterais. Essas
últimas são objeto da Teoria da Decisão; as
primeiras, da Teoria dos Jogos.
Os jogadores
buscam seus objetivos através de disputas, e,
para isto, desenvolvem estratégias, calculam
custos e benefícios e a probabilidade de risco
em suas decisões, além de planejarem e
executarem lances. Seus recursos podem ser de
vários tipos, mas um deles é a informação
não apenas sobre suas próprias condições na
disputa, mas, principalmente, sobre seus
oponentes. Pela importância deste recurso, a
pesquisa em jornalismo deve ter como um objeto de
análise os papéis da informação jornalística
nas determinações dos agentes e sua inserção
em jogos. Entre estas funções estão as de
continuidade e simetria. Mas uma análise que
pretende identificar relações entre jornalismo
e processos decisórios deve também contemplar
os atributos de precisão e completude deste
recurso.
Estas qualidades
deveriam estar presentes em qualquer informação
jornalística, porém críticas que são
apontadas ao jornalismo indicam descontinuidade,
assimetria, falta de rigor, superficialidade e
fragmentação das informações. Não é
objetivo nosso discuti-las aqui. Pretendemos
apenas analisar: 1) as funções de
continuidade e simetria da informação
jornalística; 2) o jornalismo de
precisão, um método que, usando intensamente
estatística e programas computacionais,
possibilita informação precisa, ou seja,
conteúdo que vai além da mera aparência
dos fatos; 3) a técnica do
Pensamento Sistêmico, que pode contribuir no
trabalho de ultrapassar a mera aparência
dos fatos, pois sua aplicação vai ao
encontro da completude da informação
jornalística.
Continuidade e
simetria da informação jornalística são
elementos importantes para usos possíveis em
tomadas de decisão. A primeira função por
possibilitar o prosseguimento do jogo e a
segunda, para equalizar condições no sentido de
sua posse.
A informação
jornalística precisa, e esse seu estado é
essencial para sua inserção em processos
decisórios, é analisada através do Jornalismo
de Precisão que, acoplando o método científico
da sociologia funcionalista, se propõe a
quantificar variáveis. Estas, combinadas, são a
composição de qualquer fato e, logo, estão
presentes na matéria jornalística. A
quantificação de variáveis é um fundamento da
ciência e foi amplamente realizada por
cientistas sociais como Karl Marx e Émile
Durkheim, como demonstram seus livros-tese.
Contudo, para emprego do método científico no
jornalismo é preciso aprendizado que envolva
números, principalmente estatística, um
conhecimento ainda incomum nos cursos e, por
extensão, na atividade profissional. Mas, como
quantificar é o objetivo deste tipo de
jornalismo, o impedimento apontado deve ser
superado.
O emprego de
fundamentos do Pensamento Sistêmico nos estudos
de jornalismo4 permite aos
estudantes e profissionais uma compreensão mais
complexa e, em conseqüência, mais aproximada da
realidade dos fatos. Como resultado, torna-se uma
metodologia capaz de melhorar (no sentido de
conseguir maior completude e, por extensão,
profundidade) a informação jornalística, já
que descreve as conexões entre as partes
constitutivas, subjacentes, do fato, e não
apenas as meramente sobrejacentes. Por isso,
amplia o conhecimento sobre ele. De forma
sistêmica, um fato pode ser compreendido como
efeito de uma série de relações causais.
Relação causal é a apreensão mental das
relações entre as partes de um fato.
Graficamente, pode ser representada por diagramas
de laço causal. Assim analisado, facilita-se a
percepção do mecanismo que provocou
ou provoca sua existência um conhecimento
importante em processos decisórios.
2.
A continuidade e a simetria da informação
jornalística em jogos
Informação
é conhecimento comum se é
conhecida por todos os jogadores,
se cada jogador sabe que todos os
jogadores a conhecem, se cada
jogador sabe que todos os
jogadores sabem que todos a
conhecem, e assim por diante, ao
infinito. (Eric Rasmusen)
Numa disputa,
como o jogo de pôquer5 (que, aliás, foi uma
inspiração para a Teoria dos Jogos, ciência da
estratégia), cada jogador tem três estratégias
depois de apostar o primeiro cacife e examinar
suas cartas: sair do jogo, concordar com o valor
disputado, avançar, lançando aumento na aposta.
Saindo, por achar que suas cartas são fracas, e
por isso certamente não ganharia, estará
minimizando sua perda, já que perderá o que
apostou. Se permanecer, aceitando o valor em
aposta, ou se avançar, aumentando o lance de
aposta, o jogador estará buscando a
maximização de seu ganho. Mas, se algum jogador
continuar avançando no aumento do cacife, com a
aceitação dos outros, e assim por diante,
continuam existindo as três estratégias, só
que sair do jogo, a cada vez, fica mais caro,
porque a perda mínima do desistente estará
sendo maximizada. O jogador também poderá
blefar, procurando emitir informações falsas,6 em busca do
convencimento de que tem algum trunfo nas mãos.
O sucesso, porém, vai depender da sua
competência neste fingimento, ou seja, na
aceitação de suas informações.
O pôquer não
é um jogo de azar, mas de estratégia, pois um
recurso decisivo é informação. Rejeitar uma,
duas ou três cartas, é informação, assim como
aceitar determinado valor em aposta ou avançar.
Analisar, probabilisticamente, com base nas
próprias cartas e na rejeição demonstrada, as
probabilidades dos oponentes, produz outras
informações. Jogos de estratégia são jogos de
informação,7 de racionalidade.
Movidos por
interesses e objetivos, os jogadores podem
iniciar, continuar e finalizar um jogo. Através
de informação, um cálculo é o equacionamento
do teorema minimax (mínimo do máximo) e, por
extensão, do maximin (máximo do mínimo),
conceitos-chave da Teoria dos Jogos,8 bases para a formação
de estratégias.
Isto porque, se
as probabilidades de perdas e ganhos sempre
existirão em um jogo, o problema, então, está
em minimizar perdas e maximizar ganhos,9 que podem ser de
qualquer tipo, conforme atribuição valorativa
do jogador. Na carreira de políticos, por
exemplo, podem ser imagem, eleições,
perspectivas futuras.10
A maioria dos
fatos de interesse jornalístico se esgota na sua
difusão, mas outros, pela importância,
repercutem, são extensos e tomam a forma de
jogos competitivos. Quando um jogo é
estabelecido, seu resultado depende da capacidade
de cada jogador implementar suas estratégias e
decisões. Para isto, eles precisam de recursos,
entre os quais informação o suporte para
que seja possível formular estratégias e
implementá-las através de tomadas de decisão.
Isso diferencia os jogadores em dois tipos: 1)
jogadores mais informados e 2) jogadores
menos informados, resultando na assimetria de
informação. Informações dos planos de ação
e suas finalizações, o jogador (como fonte)
emite, ao competidor, via jornalismo, somente
aquelas de seu interesse. Esta interação,
através de informação, é o próprio jogo. Mas
o jogador mais informado, e, portanto, melhor
produtor de estratégias, como também melhor
decisor, emitirá mais informações. Dado o
jogo, para o jornalismo, em sua ação
tradicional de cobertura de fatos, e
somente neste sentido, isso significa
acompanhamento das estratégias e decisões de
cada jogador, porque são informações
jornalísticas. Sua seqüência é decidida pelos
jogadores, restando ao jornalismo apenas a
divulgação dos fatos.
Ocorre, assim, o
que segue: 1) informações jornalísticas
expressarão, com intensidade, interesses dos
jogadores, já que esses as proporcionaram
(através de declarações, por exemplo); 2)
como os jogadores são desiguais na posse de
informações, também o serão na formulação
de estratégias e decisões e na intensidade de
divulgação de seus interesses, via jornalismo.
Os mais informados têm condições de produzir
mais e melhores estratégias, o que
rende mais informação (suas
decisões serão também as mais acertadas). 3)
a extensão do jogo será decidida pelo jogador
mais informado, pois seu competidor, em
desvantagem, tende a desistir do jogo, buscando
minimizar sua perda.
Um ponto sobre
jogos e jornalismo que deve ser observado na
situação descrita é que as informações se
tornaram públicas por decisões de suas fontes
implicando em interesse.11
Igual a qualquer
outra motivação, interesse, quando objetivado,
pode ser conhecido, o que não significa que
possa haver aí relação com verdades do fato.
Algumas vezes, os interesses podem corresponder a
estas verdades, outras não. Como maximizar esta
correlação ou obter um ponto de equilíbrio?
Pelo posicionamento do jornalismo, mais
especificamente um veículo jornalístico, como
um terceiro jogador. A hipótese aqui é sua
estratégia de afirmar investigação em caso de
assimetria de informação entre governos e
público, relativizando a apuração
convencional. (Mas este veículo também joga, de
forma coligada, com algum outro jogador, através
de uma segunda estratégia - a opinião).12
Explicitemos com
dois exemplos, modelando-se a sua assimetria, ou
a falta de conexão com veículos (causada por
jogadores mais informados, agentes políticos),13 seguindo possibilidade
de jogo onde participam veículo, jogadores mais
informados e jogadores menos informados. Antes,
porém, são expostas algumas considerações
sobre uma abordagem que relaciona o jornalismo
com elementos da Teoria dos Jogos.
2.1 A
contribuição de um método para a tomada de
decisões
A atividade
jornalística é um objeto importante de pesquisa
(acadêmica e do setor produtivo), e um
instrumental teórico-analítico que pode ser
usado com eficiência, pelo menos para muitos
casos de estudo, é a Teoria dos Jogos, pois suas
técnicas são direcionadas para disputas,
permitindo concluir sobre as melhores decisões a
serem tomadas pelos jogadores, de um ponto de
vista essencialmente racional. Vejamos o
seguinte. Esta atividade, sendo um negócio, tem
interesse comercial. Seus veículos (impressos e
eletrônicos) atuam num mercado de concorrência,
no mesmo nicho (jornais de circulação nacional)
e com outros (telejornais). Por causa da
competição, procuram se diferenciar em linhas
editoriais, em articulistas/comentaristas, em
especialização de assuntos e de técnicas (como
jornalismo investigativo, por exemplo), em
propaganda, e para isto utilizam ferramentas de
marketing. Necessitam de anunciantes e de
audiência. Impressos ajustam preços;
telejornais, horários. Associam-se, fundem-se,
buscam outras e novas oportunidades, ampliando
seus interesses, outros desistem e abandonam o
mercado. Enfim, como em qualquer outro negócio,
o que se procura é a criação e implemento de
estratégias para a sobrevivência e expansão.
Ao mesmo tempo,
a atividade jornalística, por definição,
também tem um papel institucional. É
representativa de interesses dos cidadãos, cobra
e fiscaliza os poderes públicos. Sua liberdade
de ação é constitucional, pois aqui seu móvel
é o interesse público. A audiência não decide
o produto (notícias e reportagens), como ocorre
em outros ramos, onde os consumidores influenciam
na geração de mercadorias, porque ele tem sua
existência através de um princípio, conceito
auto-explicável, o interesse jornalístico, ou
seja, merecedor de conhecimento público.
Para a imprensa,
tradicionalmente (e, claro, também para
eletrônicos), até já foi estipulado o título
de quarto poder. Tudo isto configura o jornalismo
como uma instituição.
Esta hibridez de
papéis traz complexidade ainda maior quando se
acrescenta um outro ponto, antigo mas sempre
recorrente em discussões, e que se refere ao
campo político-ideológico. Os veículos
manifestam ideologias políticas, os jornalistas
selecionam os fatos e divulgam apenas o que lhes
interessam, as informações são manipuladas, em
resumo, o jornalismo é um somatório de
interesses eis os entendimentos
existentes. Um freio para estas situações
parece ser o apelo ético, constantemente
referido no mundo da atividade.
A verdade dos
fatos não é o ideal pensado, muito menos
manifestações ideológicas com objetivos
políticos, ou ainda, meros preconceitos, mas o
resultado da ciência. Só há uma maneira de
saber com exatidão, ou, pelo menos, dela se
aproximar, sobre o que foi dito no parágrafo
anterior, sintetizado como o jornalismo é
um somatório da interesses: através de um
método científico que quantifique relações de
interdependência, jogos, que nada mais são do
que manifestações de interesses. Veja-se que o
que tem importância não são os interesses
internalizados no indivíduo (da mesma forma que
a opinião, vide nota 12), mas os expressados em
disputas. A atividade profissional contém
vários jogos: anunciantes jogam com veículos (e
vice-versa), veículos jogam com governos (e
vice-versa), fontes jogam com repórteres (e
vice-versa), (e aí o off é uma
estratégia), veículos jogam com audiência (e
vice-versa), veículos jogam com veículos etc.
Dentro deste
quadro, a Teoria dos Jogos deveria merecer
atenção da atividade (setor produtivo e
universidade) e aplicada em pesquisa e ensino, no
cotidiano dos veículos, incluindo-se no
conhecimento profissional, pois tem elevado poder
explicativo para tomadas de decisões. É certo
que existem dificuldades para isto, e uma delas
é a própria complexidade da técnica. Outra, é
a necessidade de se tratar o objeto de forma
científica e não ideológica, como muitas vezes
ocorre. Embora o jornalismo faça parte das
atividades que permitem, em graus variados,
arbítrio, preferências, escolhas, existem os
anteparos pressões da audiência, que se
fortalecem num ambiente que proporciona cada vez
mais opções para a posse de informação (e
isto também é um jogo). Mais: o método da
Teoria dos Jogos determina extrema objetividade
para o pesquisador e para o jornalista, pois
busca resultados quantificados de conceitos
subjetivos, como estratégias, por exemplo, que
se revestem em movimentos para alcançar
determinados fins.
Segue-se,
porém, que é uma técnica capaz de clarificar e
prever ações, objetivando subjetividades com
graus de precisão. Tem o atributo de eficiente,
como qualquer outro método científico, para
muitos e vários casos de disputas. A sua parte
conceitual já demonstra serventia para o
jornalismo. Primeiro, porque é uma técnica que
apresenta informação como um recurso,
aplicando-a como componente estratégico em
várias situações de jogos. Por isso, consegue
dar utilidade real a informação, que, aqui,
decisivamente, incorpora valor. Neste sentido,
são desenvolvidos vários conceitos (por
exemplo, completa, incompleta, perfeita,
imperfeita, simultânea, seqüencial, simétrica,
assimétrica). Segundo, muitos fatos de interesse
jornalístico são jogos; competitivos, na
maioria das vezes, outras não, e os dois tipos
são explicados pela terminologia da teoria.
Assim vista, a informação jornalística
resultante tem condições de ser estruturada de
forma mais completa e consistente, expondo
ligações que geralmente não estão a
descoberto em relatos convencionais. Enfim, é
uma teoria cuja técnica pode contribuir muito
com o jornalismo, como já ocorre em outros
campos de conhecimento (economia, genética,
sociologia, política, direito, administração).
A informação
jornalística tem sua função de continuidade
quando está relacionada a um fato que pode ser
caracterizado como jogo, e as decisões de seus
agentes configuram-se em informação
seqüencial. Isto pode ser representado através
de uma árvore de decisão, a forma de uma
disputa em sua forma extensa. O início, a
raíz, é o próprio fato, originado
por um jogador, e daí seguem-se outros lances,
ou decisões, dos jogadores, situados em
nós. A informação jornalística é
contínua quando relata o que ocorre em cada
nó, até a conclusão do jogo ou
esgotamento do fato. Esta informação pode ser
interrompida em algum tempo do jogo, por
interesses do próprio veículo ou por
dificuldades na obtenção de informações. A
interrupção por vontade do veículo significa
um tipo de posicionamento como jogador, atuando
coligado com outro, pois jogo é uma situação
de conflito entre, pelo menos, dois jogadores.
Interromper o fluxo de informação, o que
equivale a ignorar o próprio jogo, desde seu
início, é uma estratégia que permite a
existência de decisões sem a coerção de sua
publicidade. Esta situação, quando envolve
agentes políticos, origina a assimetria da
informação entre o Estado e a população.
Neste caso, o jogador menos informado é o
veículo e, por extensão, o público.
O motivo
dificuldades na obtenção de
informações pode ser considerado
operacional quando se trata de fatos que envolvem
agentes privados, mas no caso de agentes
políticos, o resultado é assimetria de
informação entre Estado e público. Este tipo
de assimetria é ponto essencial no jornalismo,14 pois um fundamento da
democracia são as informações simétricas
entre governos e população. Neste jogo,15 a estratégia do Estado
é manter a população como jogador menos
informado, via desconexão com veículos.
Visualiza-se como ocorre esta assimetria através
da figura1,16 onde o agente político
(1) pode executar uma seqüência de decisões
(que ocorrem nos nós, ou conjuntos de
informação), ligadas por linhas cheias, e
respectivas estratégias (A ( c ou d) ou B (e ou
f)), e o veículo jornalístico (2) não consegue
se conectar (situação representada por linhas
em azul) a estes conjuntos.

Figura 1
Não havendo
conexões, é reforçada a estratégia dos
agentes políticos de divulgação de
informações de seu interesse por meios
próprios (assessorias, propaganda). O
impedimento força a investigação jornalística
e será através dela que os veículos tornam-se
jogadores independentes em relação a qualquer
outro jogador, com a estratégia de oferecer
aquilo que é negado por agentes. Quando o
veículo reproduz declarações de A e B está
divulgando expressões, o que é uma função do
jornalismo, porém, também divulga os interesses
aí contidos.
Um jogo entre
agentes políticos (1) versus segmento da
população (2) pode ser assim
esquematizado: 1 tem interesse em aprovar
uma lei; 2 não tem interesse nesta lei. 1
é o jogador mais informado devido ao acesso
privilegiado a informações do Estado,
possui informação completa e perfeita. 2
é o jogador menos informado, porque não tem
este acesso, possui informação incompleta e
imperfeita. O destino da lei depende da
intensidade da opinião pública, a favor ou
contra, que repercute no parlamento, e será
decidida pelas informações divulgadas por
veículos jornalísticos. 1 sabe que a
aprovação integral da lei é difícil, por
isso, também atua para que seja aprovado o
máximo possível de seu conteúdo. 2, por
ser o jogador menos informado, portanto em
desvantagem, procura que a lei não seja
aprovada, mas também sabe que isto não é
possível, e assim atua para que, pelo menos,
seja aprovado o mínimo possível de seu
conteúdo.
Sendo 2 o
menos informado, uma de suas fontes de
informação é o próprio jogador 1,
através dos veículos jornalísticos. Mas,
quando esses reproduzem o que 1 têm
interesse em divulgar, as informações não
acrescentam vantagem para 2, logo, não
contribuem para o equilíbrio da disputa.
Observe-se que o desequilíbrio ocorre através
de maior e menor posse de informações. A forma
de torná-la proporcional é através de um
terceiro jogador, os veículos (3),
atuando na busca da informação sonegada por 1,
ou seja, aquelas que esse não têm interesse em
divulgar, o que significa investigação
jornalística. 3 pode se posicionar neste
jogo com a estratégia da opinião
(favorável tanto a 1 como a 2),
mas a sua estratégia informação
deve ter a eficiência suficiente para compensar
o jogador menos informado.17 Do contrário, demonstra
estar coligado com 1, em detrimento de 2,
pois reproduz, ampliando, os interesses de 1.
Esta parcialidade não está situada, portanto,
na opinião, que, por evidência,
sempre será parcial, mas na
informação. As estratégias, neste
jogo, são as seguintes:
Estratégias:
Jogador 1
aprovar integralmente a lei ( l )
maximizar o conteúdo aprovado ( ll )
Jogador 2
não aprovar a lei ( lll )
minimizar o conteúdo aprovado ( lV )
Jogador 3
Investigar ( V )
não investigar ( Vl )
A sua
visualização, de forma extensiva, segue na
figura 2.

Figura
2
Pode-se observar
que o jogador 3 situa-se no meio do jogo.
Através das ramificações superiores os
movimentos são os seguintes: quando o jogador 1,
que dá início ao jogo, executa sua
estratégia (I, aprovar integralmente a lei), 3
tem duas estratégias em relação ao jogador 2.
Pela estratégia (V, investigar) ele proporciona
condições para que 2 tenha as suas duas
estratégias de interesse (III, não aprovar a
lei e IV, minimizar o conteúdo aprovado), mas,
quando executa a estratégia (VI, não
investigar), visualizada nas ramificações
intermediárias, reduz estas possibilidades para
somente aquela de menor interesse de 2 (IV,
minimizar o conteúdo aprovado). Nas
ramificações inferiores percebe-se que, quando
o jogador 1 pratica sua estratégia (II,
maximizar o conteúdo aprovado), 3 repete
a estratégia (V, investigar), possibilitando que
2 mantenha as suas duas estratégias; mas,
quando decide pela estratégia (VI, não
investigar), diminui, novamente, as
possibilidades de 2, condicionando a
estratégia de menos interesse (IV, minimizar o
conteúdo aprovado).
Em um quadro de
assimetria de informação, o jornalismo é
impulsionado a investigar para compensar o
jogador menos informado. Por métodos
tradicionais (como entrevistas coletivas, ou
não), o jogador mais informado oferecerá apenas
as informações de seu interesse. Através da
investigação há a possibilidade de se extrair
informações que não refletem estes interesses,
e é isso que produz o equilíbrio entre os
jogadores. Dificilmente esta igualdade será
absoluta, mesmo porque será haverá mais
informações pela própria dinâmica dos
processos decisórios. Mas, cada vez que o
jornalismo ofertar uma informação que não
tenha o interesse do jogador mais informado,
estará levando o jogo ao equilíbrio.
3.
A necessidade de método (e tempo) para a
produção de informação precisa
Muitos
temas e acontecimentos de enorme transcendência
cultural, política, institucional e de qualquer
ordem não chegam a ser notícia simplesmente
porque os jornalistas não conhecem ou não
dispõem de tempo e do método necessários para
sua observação. (José Luis Dader)
Usar método
científico das ciências sociais para produzir
informação jornalística precisa é o objetivo
do Jornalismo de Precisão (referências 16 e
17). E se apoia no uso de programas
computacionais capazes de quantificar variáveis
e de acesso a sítios e no emprego intenso de
estatística, possibilitando em conseqüência, a
relativização da importância de fontes
convencionais. Para isso, acopla no trabalho
jornalístico fundamentos de um método
sociológico - o funcionalista. Dito isto, cabe
analisar as causas que impedem um maior
desenvolvimento deste tipo de jornalismo, a
importância da quantificação (números e
estatísticas) nos métodos clássicos da
sociologia e o método próprio do jornalismo de
precisão, que assegura a sua capacidade
produtora de informação para processos
decisórios.
Um equívoco que
geralmente ocorre em disciplinas nos cursos
universitários de graduação de jornalistas é
a inversão de um princípio de aprendizagem:
enfatiza-se o mero repasse de conteúdos e não
se ensina a aprender, ou seja, não se forma a
capacidade que proporciona independência
científica-intelectual. Embora a expressão
ensinar a aprender seja freqüente em
discussões sobre ensino (sempre como uma
intenção), o problema permanece. E por que?
Porque para aprender é necessário o
aprendizado de técnicas eficientes de pesquisa
(aqui está o sentido de aprender),
que inexiste nos cursos. Técnicas de pesquisa
são ferramentas operacionais para enfrentar e
resolver problemas de conhecimento. Uma técnica
é a matemática; outra, a estatística. Mas
nenhuma, salvo talvez raras exceções, faz parte
dos currículos acadêmicos. Desta forma,
torna-se difícil o trabalho jornalístico e o
uso de programas computacionais que envolvem
números e estatísticas - bases da precisão
buscada pelo jornalismo em referência. A falha
impede a aplicação de técnicas de
quantificação e é a responsável pela
superficialidade de matérias jornalísticas.
Esta situação
torna-se mais complexa quando é conectada com a
natureza do jornalismo, uma atividade que trata
somente de coisas novas,
perguntando,
investigando,
descobrindo, duvidando,
confirmando,
esquematizando, mapeando,
relacionando, explicando,
relatando fatos recentes. Na
formação de jornalistas, por isso, é
fundamental a capacidade de pesquisa, que,
profissionalmente, deve ser entendida como
geração, de forma constante, de informação.
Para isto precisa de métodos, preferencialmente
quantitativos. Precisão não significa única e
exclusivamente números; número e palavra se
complementam, o primeiro fundamentando a
precisão, já que não admite dúvida, e a
segunda explicando o seu significado. O que se
enfatiza é a meta: a informação principal é
algum tipo de quantificação, derivando daí
outras informações.
Para a melhoria
da formação, duas disciplinas deveriam ser
incluídas nos currículos: Matemática -
Jornalismo e Estatística -
Jornalismo.18 O domínio destas
matérias, em nível adequado para a atividade
jornalística, como cursos focados para a
produção de reportagens - e isso é o
importante -, é um suporte decisivo para o
trabalho de compreensão e quantificação de
variáveis com elaboração de produtos
infográficos; e mais: conhecimento e cálculo de
média, mediana, moda, desvio padrão, medidas de
dispersão, variância e covariância,
probabilidade, distribuições binomial, normal e
de Poisson, amostragem, estimação, testes de
hipóteses e significância, Student,
Qui-Quadrado, decisão estatística, regressão
linear simples. A matemática sugerida é a base
para o conhecimento estatístico, que é o
objetivo, pois se trata de transformar variáveis
em informação.
O jornalismo de
precisão sofre crítica em sua pretensão19 de
cientificidade. Mas vejamos. Para o trabalho
científico (uma dissertação de mestrado, por
ex.) são necessários basicamente seis
componentes: 1) conhecimento sobre o
assunto a ser investigado, 2) conhecimento
de método (aí compreendido o instrumental
analítico-estatístico), 3) projeto de
pesquisa (ou também roteiro), 4)
apuração de dados e informações de pesquisa, 5)
recursos (como computador e programas) e 6)
tempo. A finalidade do jornalismo de precisão
não é produzir um trabalho acadêmico, mas uma
notícia ou reportagem com método científico.
Por isso, não se torna necessário o item 1,
pelo menos não na intensidade exigida pela
academia. A necessidade deste conhecimento está
no nível preliminar, como uma pauta, uma
intenção de abordagem conjugada com
informações introdutórias. Já o item 2
é importante, pois é a técnica necessária
para o desenvolvimento da reportagem, o método.
O item 3 corresponde a uma pauta, um
roteiro de trabalho. É organização das etapas
que devem ser cumpridas O item 4 equivale
à própria apuração jornalística (e a busca
de dados e informações sempre é dificultosa,
tanto no jornalismo como na academia). O item 5
compreende os meios de trabalho, que devem estar
disponíveis, tanto na academia como nas
empresas. O item 6 (tempo) é um fator que
diferencia em muito os dois tipos
de trabalho. Na academia, ele é adequado, no
jornalismo, é escasso. Em rigor, portanto,
apenas dois componentes diferem na elaboração
de um trabalho acadêmico e de uma reportagem,
mas que são decisivos: primeiro, a exigência de
método, de técnicas que devem ser dominadas
pelo jornalista; segundo, o tempo, sempre
insuficiente.
Analisemos o
componente método. O trabalho
básico de um repórter, após treinamento (em
curso e mercado), não oferece maiores
dificuldades. No entanto, uma reportagem feita do
ponto de vista do jornalismo de precisão não é
um trabalho básico. Primeiro, porque exige
método. Que método é este? Na sociologia
existem três, que são clássicos: marxista
(Karl Marx), weberiano (Max Weber) e
funcionalista (Émile Durkheim). Cada autor
escreveu inúmeros livros, mas também cada um
apresentou em texto o que pode ser considerado
seu próprio método. Karl Marx, junto com
Friedrich Engels, por exemplo, escreveu A
Ideologia Alemã e, individualmente, Contribuição
à Crítica da Economia Política; Max
Weber, A Objetividade do
Conhecimento na Ciência Social e na Ciência
Política 1904;20 Émile Durkheim, As
Regras do Método Sociológico. Estes textos
apresentam os métodos usados nos livros-tese. Em
Marx, O Capital; em Weber, A Ética
Protestante e o Espírito do Capitalismo;
em Durkheim, O Suicídio. Os métodos
diferem claramente, conforme critérios para
exame na investigação sociológica.21
Destes três
livros-tese, dois expõem números (cálculos e
estatísticas) para sustentar as pesquisas, O
Capital e O Suicídio. No primeiro, existe
extrema abundância, e Marx chega a criar
inúmeras fórmulas relativas à economia
capitalista, como, por exemplo, a taxa de
mais-valia.22
Porém, será no
cálculo da formação da taxa geral de lucro e a
transformação de valor em preços de produção
que Marx realizará o cálculo-síntese da
economia capitalista. Iniciando com a
composição orgânica do capital, e relacionando
diferentes ramos de produção, ele elabora
tabelas mostrando o movimento e mais
importante , a interação entre estes
ramos através de uma média, a taxa média de
lucro. Nesta transformação de valor em preço
de produção, Marx procura demonstrar a
dinâmica do capitalismo.23 Durkheim usa
mapas e tabelas com estatísticas para investigar
o suicídio, tema título de sua pesquisa.
Separando rigorosamente a motivação
psicológica da sociológica para o suícidio,24 o autor busca suporte em
registros sobre suicídios na Europa para
desenvolver seu trabalho. Pela análise
estatística,25 Durkheim fez uma
pesquisa que se tornou clássica na sociologia.
Marx usa números de duas formas: como
estatísticas26 (dados reais pesquisados
em documentos oficiais), e em cálculos, através
de fórmulas originadas em conceitos por ele
elaborados.
O segundo caso
(cálculos) foi possível porque Marx tem como
ponto de partida a teoria do valor-trabalho: o
valor de uma mercadoria é a quantidade de tempo
necessário para produzi-la. É um conceito que
pode ser quantificado, pois o tempo admite
medição. E deste conceito derivam todos os
outros27 que Marx cria e expõe,
na expressiva maioria das vezes, de forma
matemática. Tanto Durkheim como Marx usaram
números na tentativa de comprovar suas teses.
Foram rigorosos em suas pesquisas, e por isso
produziram ciência social da maior qualidade.
Max Weber não
utilizou números como Marx e Durkheim, e sua
obra é igualmente reconhecida como um dos
clássicos da sociologia. No entanto, é
interessante notar que em A Ética Protestante
e o Espírito do Capitalismo o autor inicia
com uma constatação- chave para sua pesquisa,
proveniente da estatística.28 Weber partiu de um fato,
percebido estatisticamente, e conectando rigorosa
e exaustivamente outros fatos, históricos e
sociológicos, produziu uma pesquisa que se
tornou fundamento das ciências sociais.
3.1 A
adequação do método funcionalista para se
obter informação precisa
A partir da obra
de Durkheim e com os avanços da estatística
refinou-se o método funcionalista para a
investigação científica de variáveis,29 amplamente utilizado nas
ciências sociais. Os Estados Unidos são o país
onde ele é mais aplicado, não apenas na
academia, mas em diversas situações de
pesquisa.30 Este método científico
recebeu impulso ainda maior com a criação e
utilização de programas computacionais que
permitem quantificação de variáveis e também
simulação de suas dinâmicas. As duas
tradicionais e clássicas variáveis X
(independente) e Y (dependente) resolvem, resumem
e concluem, ainda, vários problemas, mas são
insuficientes diante da complexidade e
necessidade de precisão no trabalho científico.
O método funcionalista, por definição, é
quantitativo. Seu objetivo é medir variáveis
componentes que são partes de um problema
de pesquisa, e por isso se relacionam mutuamente.
É dele que o jornalismo de precisão se serve no
seu objetivo de mensurar, buscando rigor nas
informações. Informação precisa exige
quantidades, medidas estatísticas, conexões.31
A prática de
qualquer profissão é funcional a seus
propósitos, e nem poderia ser diferente, pois
deve chegar a resultados como a
realização de um serviço ou a cristalização
de um produto. A prática é a execução do
trabalho propriamente dito, e para ser eficiente
precisa de um atributo-chave, funcionalidade,
isto é, adequação para seu propósito. Aí
aparece a necessidade de um método, uma técnica
de fazer, de executar,
de concluir, de trabalhar com
rigor, de chegar a resultados,
e, conforme a complexidade do objetivo, surgem os
níveis de dificuldades, que somente podem ser
superados por conhecimento teórico. Sendo a
prática, fonte do conhecimento empírico, a
materialidade do processo de trabalho, o seu
limite é justamente o aprendido apenas através
da experiência - suficiente para repetição,
mas não para avanços, inovações. Por isso,
necessita se abastecer no conhecimento teórico.
É contra-senso compreender o jornalismo, cujo
objetivo é produzir e difundir informação, ou
seja, conhecimento, como uma atividade
meramente prática. O jornalismo
torna-se frágil32 quando predomina uma
valorização da prática. É a prática
que ensina; é a prática que explica o trabalho;
é a prática que dá competência; em resumo, é
a experiência (acúmulo de prática) o fator
decisivo são concepções
equivocadas que circulam no ambiente
profissional.
No método
científico, a prática é apenas a execução de
um trabalho, coordenada pela teoria. Não se
trata de abstrações, mas de regras, já
definidas pela ciência, que conduzem as etapas
da tarefa proposta. Com método, uma reportagem
pode se constituir em uma tese, isto
é, ter o impacto de um conhecimento novo,
rigorosamente construído, e que pode ter várias
utilidades, uma delas servir para decisões. A
demonstração de utilidade efetiva do jornalismo
é ter suas informações utilizadas de alguma
forma. Expondo graus de precisão, a informação
jornalística desloca o entendimento bastante
comum sobre a superficialidade do jornalismo
isto é apenas coisa de jornal
e faz uma matéria jornalística assumir o
valor de utilidade real.33 Esta qualidade pode ser
obtida quando o objetivo é evidenciar fatos com
rigor, o que é possível apenas através de um
método que privilegie formas de quantificação,
seja através de medidas, seja também através
de normas e técnicas que possibilitam a
objetividade de variáveis; comparando,
descrevendo conexões causais, demonstrando
relações como resultado, se obtém
informação jornalística precisa, preferencial
em processos decisórios.34
Atente-se, no
entanto, para o seguinte. As informações
jornalísticas que podem se usadas em decisões
são de dois tipos, conforme sua origem: 1)
as mediatizadas (declarações,
repasse) e 2) as produzidas
(apuração, reportagem). No primeiro
caso, o circuito da informação é:
1) Agente
político/econômico (declara)35 - repórter (repassa) -
audiência
No segundo caso,
o circuito é:
2) Repórter
(apura) - notícia ou reportagem -
audiência
No primeiro
circuito, a origem da informação é a
declaração do agente, e para o repórter resta
apenas a sua difusão. Já no segundo, esta
origem é a apuração do repórter em
diversas fontes , que pode ser o agente,
mas conjuntamente com bases de dados/documentos.
O primeiro caso é um repasse, via jornalismo, de
informações de interesse da fonte (o agente),
e, conforme sua posição no cenário
político/econômico, é a causa de tomadas de
decisão imediatas por outros decisores. Como se
pode observar, com relativa freqüência, a
partir de declarações de agentes políticos
seguem-se, como efeitos, decisões de outros
agentes, econômicos e políticos, às vezes
concomitantemente.36
No segundo
circuito, pela apuração, é possível aceitar,
reduzir, relativizar, senão eliminar, um
componente importante da informação
jornalística: os interesses da fonte, como, por
exemplo, dados relativos a números e
estatísticas, ou seja, níveis de precisão. Uma
fonte pode emitir dados corretos, e isso será de
seu interesse; pode ocorrer o contrário, e isso
também será de seu interesse. A única forma de
administrar este fornecimento de informações é
a checagem. Mesmo porque apurar não
é apenas colher informações, mas,
principalmente, conferi-las. Através da notícia
ou reportagem a probabilidade de precisão é
maior porque o repórter teve controle sobre seu
trabalho, ao contrário da informação
mediatizada, cujo domínio é predominantemente
da fonte.37
Deslocando a
preponderância dos interesses das fontes, a
notícia ou reportagem de precisão reforça o
método funcionalista que está embutido neste
trabalho jornalístico, pois acentua a
objetividade das informações.38 Como resultado,
aproxima-se mais do objetivo da ciência:
proporcionar conhecimentos reais sobre
determinado fato. Sendo capaz, por isso, de, a
cada informação jornalística, difundir
comprovações suficientes para tomadas de
decisão. Na forma de informação pública, a
notícia e a reportagem precisas não municiam
apenas agentes em posições executivas, mas
qualquer pessoa, já que todos são agentes
decisórios; na política, na economia, e em
outras esferas da sociedade.
O jornalismo de
precisão, portanto, é um avanço na atividade
profissional. Primeiro, porque insere o método
científico numa profissão que tradicionalmente
sempre esteve vinculada ao empirismo (com o
estudo e a aplicação de técnicas científicas,
mudam as mentalidades e a própria cultura de
trabalho). Segundo, por conseqüência, porque
qualifica o jornalismo, pois torna possível a
existência de um tipo de informação diferente
das demais, a informação precisa, proveniente
de um método científico, e não de
procedimentos tradicionais, insuficientes para
conseguir precisão. Terceiro, seguindo, equipara
o jornalismo à capacidade de geração própria
de informações por empresas não
jornalísticas. Para processos decisórios, as
organizações utilizam métodos científicos.
Quarto, concluindo e em resumo, porque inicia a
consolidação do jornalismo como atividade
fundamentada em ciência. Sempre resistente a
modos científicos de atuação, o ramo
jornalístico pode (e deve) deixar de ser um
reduto refratário na aplicação de ciência
para produzir conteúdo, da mesma maneira que é
capaz de inovar em forma.
Nisso tudo, é
necessário, de maneira suficiente, o componente
tempo, sempre escasso na rotina profissional.
Estamos, porém, analisando uma concepção nova
de trabalho que não pode ser ajustada ou
enquadrada ao existente. O método científico
não se desenvolve dentro de uma lógica que não
consegue perceber diferenças entre senso comum e
conhecimento, ou ainda, entre difuso e preciso.
Para se chegar ao rigor pretendido, o tempo é um
fator definitivo e deve ser adequado. O resultado
será uma informação jornalística com a
qualidade que somente o método científico pode
oferecer.
4.
O melhoramento da informação jornalística
através de conexões causais
A realidade é
uma só, o que importa é a
retina
(Machado de Assis)
Por que razão
há diferenças entre informações
jornalísticas que abordam o mesmo fato?
Excluindo-se qualquer motivo editorial, uma
resposta pode ser o modelo mental39 do repórter, a
capacidade de percepção40 de realidades. Como
forma de pensar, os modelos mentais
diferem nos indivíduos e produzem compreensões
divergentes sobre o mesmo acontecimento
observado. Um componente-chave desta forma
de pensar nos interessa neste capítulo: o
pensamento sistêmico (e o seu inverso, o
pensamento não sistêmico).
Qualquer
atividade profissional molda modelos mentais, a
maneira como a pessoa percebe determinadas
situações-objeto, condicionando a prática de
sua operacionalidade. Para isto, uma série de
princípios, fundamentos e mesmo suposições se
agrupam, como conhecimentos, configurando o modo
de pensar e agir, ou seja, os modelos mentais.
Estes são formados e também modificados via
aprendizagem,41 tanto em escolas como em
empresas. Uma palavra que se relaciona fortemente
com modelo mental é mudança, de ambientes
(econômicos e políticos) e do mundo de
trabalho, enfim, de conceitos novos que implicam
em ajustes nas formas de pensar para implemento
de soluções.42 É o modelo mental que
acarreta um entendimento dinâmico, ou não, da
realidade que envolve o indivíduo. Pensamento
sistêmico pressupõe movimento. Os fatos
percebidos de forma sistêmica proporcionam o
conhecimento mais próximo da realidade, pois
seus componentes são vistos como produtos de
interações (econômicas, políticas etc.). Isto
é, como se ajustam, com efeito, na vida real.
Logo, são de interesse científico e
jornalístico.
Embora a idéia
de movimento seja uma categoria central da
natureza do jornalismo, nem sempre o conceito é
acionado na atividade. Por parte do ensino
graduado, notam-se currículos estáticos, onde
perduram conteúdos que pouco agregam à
profissionalização, faltando, em contrapartida,
o necessário para torná-la mais consistente
(como resultado, tem-se uma mera capacidade de
trabalho propedêutica); na pesquisa, observa-se
a persistência de abordagens desfocadas do
jornalismo (conseqüência: escasso poder
explicativo nos campos acadêmico e
profissional); em empresas, percebe-se a
continuidade de métodos tradicionais de
produção, seguindo-se resultados previsíveis
(um efeito disto, certamente, é a diminuição
da demanda por produtos impressos). A idéia de
movimento parece estar reservada ao cotidiano de
redações, principalmente no deadline.
Mudanças, quando ocorrem, são, na maioria das
vezes, reativas e não proativas.
O descrito
mostra relações de causa-efeito, e todas se
relacionam de forma sistêmica. Para a fase
difícil do jornalismo43 existem várias causas,
mas estamos nos restringindo apenas aos
componentes relacionados com o setor
universitário.44 Conhecimento,
aliás, sempre será uma ferramenta decisiva para
soluções de problemas. Uma graduação frágil
se reflete na capacidade profissional. Uma
pós-graduação com falhas é uma causa que se
distribui em dois sentidos: 1) na
graduação universitária e, 2) no setor
produtivo (onde rebatem os problemas desta
formação, entre outros, carência de
conhecimento para enfrentamento de problemas
próprios do ramo). A crise no setor repercute na
profissão (desemprego, baixos salários) que,
por sua vez, se conecta no ensino (sua
desvalorização, por exemplo). Mais cedo, mais
tarde, os efeitos aparecem. O sistema apontado é
debilitado, pois cada componente transmite aos
outros suas próprias falhas. A sua
visualização é mostrada na figura 3:
Figura
3
Através de uma
visão sistêmica dos fatos se percebe não
apenas as relações entre os componentes de um
sistema, e como interagem, mas seus movimentos e
suas transformações. Conectado, cada um
influencia todos os outros, porque transmite
informação. Uma vez montado o diagrama de
conexões, gráfica ou mentalmente, o resultado
será um conhecimento muito diferente, de melhor
qualidade, e, principalmente, mais completo e
profundo do que aquele proporcionado por
componentes tomados isoladamente. Não se trata
de simples somatório, mas de perceber movimento,
influências mútuas, mudanças, ou seja,
informações que somente são possíveis de
serem conhecidas e compreendidas por meio de
interações. A informação captada é o produto
da dinâmica dos componentes quando em
interação, ou seja, as causas e efeitos em
movimento conjunto.
4.1 A
completude da informação jornalística
Reportagem nada
mais é do que um relato que tem um eixo, a
própria notícia ou mesmo a idéia que baseou a
sugestão de alguma pauta. Seu ponto de partida
sempre é um fato, uma singularidade.45 Ao redor desta linha
serão encadeadas outras informações
relacionadas, compondo o conteúdo. Parece não
haver dificuldade na percepção da notícia,
pois essa se impõe de forma
automática, por sua relevância
jornalística, restando apenas sua divulgação.46 A reportagem pode
iniciar de uma notícia, na forma referida, mas
também da criatividade e imaginação do
jornalista. Tudo partirá de fatos, notícias ou
não, mas existem diferenças
significativas -, no conhecimento, na percepção
e, principalmente, na estruturação mental de
determinadas informações que podem gerar
reportagens. Há risco na reportagem, porque
essa, quando pronta, deverá se constituir numa
notícia, no entanto, construída
pelo jornalista, ao contrário da informação
noticiada por sua natural importância.
Para estes dois
tipos de informação jornalística, no entanto,
existem formas diferentes de percepção. Não
basta haver certeza de sua relevância, este é
apenas o ponto de partida. É necessário que a
informação seja a mais completa e profunda
possível, no nível que o jornalismo pode
oferecer. Para isto, contribui em muito -
o pensamento sistêmico e a técnica das
conexões causais, pois possibilitam maior e
melhor explicação dos fatos, um resultado
importante para processos decisórios e também
para o próprio jornalismo.47
É possível o
conhecimento completo sobre um fato quando são
expostos todos os seus componentes de forma
articulada, isto é, conectados entre si, onde
cada um tem função de causa e efeito.
Observe-se a dificuldade para esta percepção.
Os fatos mostram apenas a sua aparência, mas o
que interessa saber é a sua estrutura e seu
mecanismo. Para descobrir, são necessárias
informações (ou conhecimento já acumulado),
método e abstração, ou seja, esforço
científico. Neste sentido, a elaboração de uma
reportagem não deixa de ter semelhança com a
ciência. O que vai diferir, agudamente, é o
valor do objetivo alcançado, efeito do processo
de trabalho. Reportagem, por exemplo, pode ser
capaz de despedir presidentes fatos
insignificantes para a ciência política?
Também pode mostrar com exatidão as tramas do
crime, oferecendo às autoridades todas a
informações necessárias para a tomada de
decisões. Pode ser capaz de fornecer
conhecimentos para processos decisórios
econômicos. Outras, porém, apresentam pouca ou
nenhuma importância.
Embora a
ciência persiga, e muitas vezes alcance,
determinados domínios de suas áreas, sempre há
algo a ser descoberto. Um motivo é a interação
de componentes de um sistema, muitas vezes
percebidos isoladamente e que, se conectando,
desenvolvem dinâmicas, impulsos que exigem
respostas; uma vez dadas, continuam a desenvolver
movimento, e assim por diante.48 A complexidade é
diretamente proporcional ao número e,
principalmente, às formas de interação dos
componentes que se relacionam num problema de
pesquisa. Isso não é diferente com um fato de
onde surge a reportagem.
O importante
nisso tudo é perceber que os fatos de interesse
jornalístico assumem a configuração de
sub-sistemas, interiorizados em outros, maiores.
Disso depreende-se que as bases de informação
para reportagem serão os componentes endógenos
(próprios do sub-sistema), mas também são
significativos, em maior ou menor grau, os
exógenos (situados em sistemas maiores). Para
apreender suas relações, alcançando as
essenciais e desprezando as insignificantes, o
jornalista deve lançar mão do principal suporte
de trabalho: seu arsenal de perguntas, a
si mesmo e as fontes, de todos os tipos, cujas
respostas serão a base para conclusões da
reportagem. Este produto, por isso, não é o
somatório simples de duas ou mais opiniões
divergentes, os dois lados da
notícia, como historicamente se recomenda.
Para se conseguir nível de qualidade de
informação, o conteúdo, basicamente, provém
do jornalista. Movimenta-se, assim, um conceito
tradicional da atividade: seu apego a fontes
convencionais. A etapa da apuração, a mais
importante, sem dúvida, afirma-se ainda mais
porque é na conquista de informação que o
jornalismo pode se posicionar diante das várias
e inúmeras formas atuais de acesso ao
conhecimento.
É um
entendimento comum a idéia de conexão direta,
tipo causa-efeito. O que se torna mais complexo
é a descoberta e demonstração de como uma
causa afeta um efeito, ou ainda, as mudanças e
transformações que ocorrem através de uma
relação causal. O conhecimento é justamente os
resultados da realimentação de uma causalidade,
pois através deste efeito pode ser compreendido
o que existe de forma subjacente, o que
está atrás, encoberto, no fato. A
completude da informação jornalística, assim,
é conseguida quando se explica o mecanismo
interno do fato, sua dinâmica, impossível de
ser captada pela simples observação, cujo
limite esbarra na aparência, nos elementos
sobrejacentes.
Através de
relações causais notam-se influências mais
precisas entre componentes que, através de um
pensamento não-sistêmico, não apresentariam
nenhuma ou apenas fraca conexão, ou, ainda, a
possibilidade de um realimentar outro. Tomemos
como exemplo a causa-efeito entre desemprego e
aumento da criminalidade,49 que pode ser visualizada
na figura 4, e após o acoplamento, neste
relacionamento, da informação jornalística.
Figura
4
Esta relação,
no entanto, não se esgota no efeito, e pode ser
modelada como segue, por exemplo. A expansão da
criminalidade terá outros efeitos, um deles o
reforço na configuração do crime organizado.50 Suas ações, amplas,
serão fatos de interesse, o que motiva
informação jornalística. Não de forma
tradicional, pois não se trata da criminalidade
comum, mas do crime estruturado. Para melhor
desempenho profissional, jornalistas
organizam-se,51 montam cursos de
aprimoramento. Observe-se que o aumento e a
importância de ações criminosas provocaram uma
resposta de dentro do jornalismo. Não se trata
apenas de reportar, mas de apurar de forma
intensa, investigar, assumindo riscos, tomando-se
iniciativas. Esta relação causal pode ser
visualizada na figura 5:
Figura
5
Este diagrama
pode se lido da seguinte forma: aumentando a
causa crime organizado aumenta o
efeito informação jornalística e
esta, agora como causa, diminui o efeito
crime organizado. É um sub-sistema
cuja dinâmica tende a minimizar este componente
porque, na medida do aumento, e qualificação,
da informação jornalística, aumentam também a
ações de agentes públicos em resposta ao
crime organizado. Há refreamento do
componente através do jornalismo, de forma
indireta, como é próprio de sua função.
Na teoria do
pensamento sistêmico é enfatizado que
relações causais não existem simultaneamente,
juntas.52 É indiferente se os
períodos de tempo que separam os componentes
são mais ou menos longos, pois sempre haverá
herança, de forma acentuada ou mesmo
resíduos. Dentro de um sistema, semelhante à
genética, traços de componentes são
transmitidos numa série de conexões. Causas que
remetem seus efeitos para o futuro, mas neste
percurso, em cada período de tempo presente,
coexistem uma série de componentes, que se
influenciam mutuamente, o que não exclui
forças passadas que permanecem
dentro deles, em maior ou menor intensidade.53
A informação
jornalística, nesta perspectiva, torna-se uma
explicação do funcionamento de
sub-sistemas, e isto permite um entendimento mais
completo dos fatos. De uma abordagem que poderia
ser superficial, avança, oferecendo seu
mecanismo. É isto que melhora a
qualidade do produto jornalístico e o aproxima
do conhecimento efetivo de realidades. Para
processos decisórios, somente informações com
estes conteúdos têm utilidade capaz de
contribuir para a minimização de riscos. A
teoria e técnica do pensamento sistêmico,
enfim, certamente cooperam para modificar,
ampliando e aperfeiçoando, formas de percepção
de fatos, decidindo, por isso, a validade de
reportagens e notícias. Daí sua importância
para o jornalismo.
5.
Conclusões
Procuramos
sistematizar, neste trabalho, alguns pontos da
informação jornalística, através de métodos
científicos que consideramos importantes para a
pesquisa e que podem contribuir para um maior
desenvolvimento da atividade
acadêmico-profissional do jornalismo. Salvo
raras exceções, os métodos expostos não são
abordados no ensino, o que é uma falha, pois
embasam, cientificamente, inúmeros estudos na
área. Em conseqüência, a profissão carece
deste tipo de conhecimento. Nosso objetivo, por
isso, foi, articular, em nível introdutório,
conceitos e métodos de análise com enfoque no
papel que a informação jornalística pode
desempenhar em tomadas de decisões. Processo
decisório, por definição, é dinamizado por
informações.
O jornalismo
atua oferecendo seu produto para decisores, mas
também pode ser um deles, participando daquele
processo. A Teoria dos Jogos é um instrumental
adequado para o exame desta atuação e
envolvimento. A continuidade e simetria da
informação, por exemplo, são conceitos
relacionados a disputas, onde o primeiro
proporciona o desenvolvimento de um jogo, e o
segundo, conhecimento mútuo de interesses e
estratégias. Um grande jogador é o Estado,
detentor de informações buscadas pelo
jornalismo para distribuição pública. Em casos
de impedimentos o que significa
dificuldades de conexão de jornalistas com
decisões de agentes políticos forma-se a
assimetria de informação, resultando em
jogadores menos informados. A investigação
jornalística é um efeito que tem como objetivo
extrair as informações sonegadas por aquele
jogador mais informado, compensando ou, ainda,
equilibrando, as condições de conhecimento
entre público e o Estado.
Para que tenha
maior eficiência, a informação jornalística
deve ser precisa, e o Jornalismo de Precisão é
capaz de quantificá-la através do emprego de
estatística e de recursos de informática. Esta
especialização baseia-se no método
sociológico funcionalista, pois tem a meta de
medir variáveis. Evidenciamos o uso exaustivo de
números e estatísticas por sociólogos
clássicos para enfatizar que a precisão,
expressa em valores numéricos, é um componente
necessário do conhecimento científico. Neste
sentido, como integrante das Ciências Sociais
Aplicadas, o ensino e a profissão do jornalismo
devem, também, absorver com intensidade a
prática de quantificar variáveis, via
aprendizado de matemática e estatística. Na
nota 27 exemplificamos com uma quantificação
nossa baseada em conceitos e método marxistas, e
o leitor poderá discordar, por qualquer motivo.
Nossa intenção, porém, foi demonstrar a
aplicação de um método para a busca de
informações. Se fossem aplicados conceitos e
método de uma outra escola de economia
política, certamente os resultados não seriam
muito diferentes.
A completude da
informação jornalística é um ponto abrangido
pela técnica do Pensamento Sistêmico. Os fatos
que comportam interesse são efeitos que devem
ser explicados através das conexões causais que
concorrem para sua existência. Sempre haverá
maior compreensão, e, portanto, mais
conhecimento, quando é desvendado o
mecanismo interno destes
sub-sistemas. Isto significa descobrir e
descrever suas causas subjacentes, avançando
além do aparente, ou aspectos sobrejacentes. É
um trabalho assemelhado ao da ciência, que exige
método, mas que produz como resultado um
conhecimento novo, e extremamente mais próximo
da realidade. O jornalismo, porém, necessita,
cada vez mais, para sua sobrevivência e
expansão, estabelecer relações fortes com a
ciência. Este vínculo são os métodos
científicos, técnicas para se produzir
informação jornalística.
______________________________
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] BINMORE, Ken Fun
and Games. Lexington, Massachusetts, D. C.
Heath, 1992.
[2] CANUTO, Otaviano e FERREIRA Junior,
Reynaldo R. Assimetrias de informação e
ciclos econômicos: Stiglitz é Keynesiano? Ensaios
FEE, ano 20, no 2, Porto Alegre,
Fundação de Economia e Estatística Siegfried
Emanuel Heuser, 1999.
[3] CASTELLS, Manuel A Era da
Informação: Economia, Sociedade e Cultura. Três
vols. São Paulo, Editora Paz e Terra, 1999.
[4] DADER, José Luis
Introducción. In: MEYER, Philip - Periodismo
de Precision. Barcelona, Casa Editorial,
1993. (De onde se retirou a frase epígrafe do
capítulo 3).
[5] DURKHEIM, Émile O Suicídio.
Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1982.
(primeira edição em 1897).
[6] DURKEIM, Émile Julgamentos
de Valor e Julgamentos de Realidade.
Coleção Grandes Cientistas Sociais. São
Paulo, Editora Ática, 1981.
[7] GENRO FILHO, Adelmo O
Segredo da Pirâmide; Para uma teoria marxista do
jornalismo. Porto Alegre, Tchê! Editora,
1987.
[8] KOVACH, Bill e ROSENSTIEL, Tom Os
Elementos do Jornalismo. São Paulo,
Geração Editorial, 2003.
[9] KREPS, David M. Teoria de
juegos y modelación económica. México
(DF), Fondo de Cultura Económica, 1994.
[10] KUNCZIK, Michael Conceitos
de Jornalismo. São Paulo, Editora da
Universidade de São Paulo (Edusp), 1997.
[11] MARTINS, Fernando Comentários
relativos ao ano de 2002. Brasília (DF),
Associação Nacional de Jornais,
http://www.anj.org.br Acessado em 12/5/2003.
[12] MARX, Karl O Capital
(Crítica da Economia Política). Livro 3,
Vol. 4. O Processo Global de Produção
Capitalista. Rio de Janeiro, Editora
Civilização Brasileira, 1980. (primeira
edição em 1894).
[13] MARX, Karl O Capital
(Crítica da Economia Política). Livro 1,
Vol. 1, O Processo de Produção do Capital. São
Paulo, Difel, 1982. (primeira edição em1867).
[14] MARX, Karl O Capital
(Crítica da Economia Política). Livro 1,
Vol. 2, O Processo de Produção do Capital. São
Paulo, Difel, 1982 A (primeira edição em 1867).
[15] MEYER, Philip Periodismo de
Precision. Barcelona, Casa Editorial, 1993.
[16] MEYER, Philip Precision
Journalism. Maryland, Rowman &
Littlefield Publishers, 2002.
[17] NOBLAT, Ricardo A arte de
fazer um jornal diário. São Paulo, Editora
Contexto, 2002.
[18] RASMUSEN, Eric Games &
Information. Malden, Massachussets,
Blackwell Publishers, 2001. (De onde se
retirou a frase epígrafe do capítulo 2).
[19] REVISTA CONSULTOR JURÍDICO Fiscalização
pública. http://www.conjur.com.br Acessado
em 19/5/2003.
[20] SCHUCH, H. A. Produção de
Valor na Pequena Produção Agrícola (Rio Grande
do Sul). Dissertação de Mestrado em
Sociologia Rural. Porto Alegre, Centro de Estudos
e Pesquisas Econômicas (IEPE), Faculdade de
Ciências Econômicas da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS), 1985.
[21] SCHUCH, H. A. Jornalismo e
Ambiente Econômico Competitivo. Paper
apresentado no Congresso Brasileiro de Ciências
da Comunicação Intercom, 1997.
http://www.jornalismo.ufsc.br/bancodedados/helio-jornambiente.html
[22] SCHUCH, H. A. Informação
Jornalística: uma Abordagem Através de Jogos.
In: HAUSSEN, Doris Fagundes (org.) Mídia
Imagem & Cultura. Porto Alegre, Edipucrs,
2000.
[23] SCHUCH, H. A. Adequação
do ensino na formação de jornalistas. São
Paulo, Revista Brasileira de Ciências da
Comunicação. Vol. XXV, no 1,
janeiro/junho de 2002.
http://www.jornalismo.ufsc.br/bancodedados/artigo.pdf
[24] SCHUCH, H. A. Projeto de
pós-doutorado Teoria dos Jogos e
Jornalismo de Precisão: Uma Introdução
Experimental. 2003.
http://www.jornalismo.ufsc.br/bancodedados/helioprojetojogos.pdf
[25] SELLTIZ, Claire e outros Métodos
de Pesquisa nas Relações Sociais. São
Paulo, Editora Pedagógica e Universitária, s/d.
[26] SENGE, Peter M. e outros A
Quinta Disciplina; Caderno de Campo. Rio de
Janeiro, Qualitymark Editora, 1997.
[27] SENGE, Peter M. A Quinta
Disciplina. São Paulo, Editora Best Seller,
1998.
[28] SHIMIZU, Tamio Decisão nas
Organizações. São Paulo, Editora Atlas,
2001.
[29] SHUBIK, Martin Teoría de
juegos en las Ciencias sociales. México
(DF), Fondo de Cultura Económica. 1992.
[30] TSEBELIS, George Jogos
Ocultos. São Paulo, Editora da Universidade
de São Paulo, 1998.
[31] TRAGTENBERG, Maurício
Introdução à Edição Brasileira. In: WEBER,
Max Metodologia das Ciências Sociais.
Parte 1. São Paulo, Cortez Editora; Campinas
(SP) Editora da Unicamp, 1992. (De onde se
retirou a frase epígrafe do capítulo 4).
[32] WEBER, Max A Ética
Protestante e o Espírito do Capitalismo.
São Paulo, Pioneira Editora e Brasília (DF),
Editora Universidade de Brasília, 1981.
(primeira edição em 1904 e 1905).
[33] WEBER, Max Metodologia das
Ciências Sociais. Parte 1. São Paulo,
Cortez Editora; Campinas (SP), Editora da
Unicamp, 1992. (primeira edição em 1904 e
1905).
_______
NOTAS:
1) O autor agradece ao
Departamento de Jornalismo da UFSC pela
concessão de tempo que permitiu este trabalho e
ao colega e amigo prof. Orlando Tambosi, exímio
no idioma de Eça e Pessoa, pela sua revisão.
2) Vide CASTELLS, Manuel (1999).
3) Agente político ou econômico,
ou jogador, é o tomador de decisão. Como
a política e a economia são campos imbricados
da sociedade, as decisões também terão causas
e efeitos imbricados.
4) O estudo, análise e aplicação de
fundamentos do Pensamento Sistêmico, como
também da Teoria dos Jogos, no jornalismo, são
ainda incipientes no ensino. Abordamos este
assunto na disciplina Jornalismo em
Processos Decisórios do Curso de
Especialização em Estudos de Jornalismo
(Departamento de Jornalismo UFSC).
5) O pôquer tem várias
modalidades. Estamos aqui nos referindo, em
resumo, ao jogo praticado da seguinte forma: cada
jogador recebe cinco cartas, podendo descartar
até três, recebendo de volta a mesma
quantidade. Aí termina o movimento de cartas e
inicia-se o do cacife, valor apostado. As regras
para decisão do jogo são, entre outras: um par
é o menor trunfo e o maior é a seqüência
completa de 10 de ouros ao ás deste mesmo naipe.
6) Entre outras, uma forma típica
de blefe se dá via aparência do próprio
jogador, simulando segurança.
7) Na Teoria dos Jogos, um suporte
definitivo é informação. Os veículos
jornalísticos não apenas produzem e difundem
informação como também podem se posicionar
como jogadores. Daí a possibilidade real de
associação desta teoria com o jornalismo.
Interessados nisto, procuramos introduzir e
pesquisar o assunto em SCHUCH (1997, 2000 e
2003), onde se indica bibliografia sobre a
teoria.
8) Como diz BINMORE (1992:219),
o teorema minimax de Von Neumann é talvez
o mais celebrado resultado da Teoria dos
Jogos. O autor refere-se a John Von Neumann
que, junto com Oskar Morgenstern, escreveu o
livro Teoria dos Jogos e Comportamento
Econômico, clássico na matéria, editado
em 1944. Minimax e maximin são estratégias
escolhidas pelos jogadores, conforme suas
capacidades de informação e racionalidade.
Usando um jogo como exemplo, SHUBIK (
1992:214-215) analisa seu resultado dizendo que
estes dois fundamentos,
equilíbrio e segurança,
refletem princípios opostos de competição.
(...). Seguindo o primeiro princípio, um busca
tomar o quanto seja possível de um oponente
previsível e passivo. Seguindo o segundo, um
busca salvar o quanto seja possível diante de um
oponente não previsível e ativo. (...).Quando
os dois princípios conduzem ao mesmo resultado
(...), na realidade temos um poderoso argumento
em favor da racionalidade da
solução.
9) Se bem que a racionalidade de
cada pessoa possa levar à conclusão de que, em
determinadas situações, perder pode
ser um ganho, e inversamente.
10) Um caso recente é o de Carlos
Menem, que, candidato à presidência da
Argentina, desistiu de sua candidatura diante de
pesquisas que indicavam vitória do oponente por
larga diferença, apesar de sua vitória no
primeiro turno (mesmo com pouca vantagem).
Conforme a revista Veja, de 21/5/2003, de
acordo com as pesquisas, caso o segundo turno se
realizasse, seu adversário, Néstor Kirchner,
deveria tornar-se o presidente com a maior
votação do país. Semelhante ao jogo de
pôquer, a estratégia de Menem pode ter sido
esta: uma desistência finaliza o jogo eleitoral,
ficando evidente apenas a vitória no primeiro
turno. Cauteloso, o que ele procurou,
independente de acerto ou não, foi aplicar o
teorema maximin (ou seja, maximizar o mínimo
ganho já obtido, tentando preservar sua imagem e
futuro político). Em outras palavras, buscou
minimizar ao máximo seu arrependimento.
11) Quando ocorre o contrário,
percebe-se a diferença entre os conteúdos das
informações emitidas por interesse ou não.
Como é o caso, também recente, de declarações
do ministro-chefe da Casa Civil, que, em evento
fechado à imprensa, reconheceu que a política
econômica do governo induz à paralisação da
economia. Conforme o jornal Zero Hora, de
24/5/2003, sem saber que seu pronunciamento
estava sendo transmitido ao vivo, (admitiu) que a
política econômica praticada nos cinco
primeiros meses do governo (...) impede o
crescimento econômico (...). Informado da
transmissão, ele engoliu em seco, tomou um
gole de água, respirou fundo e voltou a falar
alguns instantes depois: - Mas eu não vou parar.
Vou continuar falando. Esclarecida a gafe,
assumiu a defesa da política econômica do
governo, dizendo que as medidas amargas têm como
objetivo criar condições para a redução de
juros sem risco de volta da inflação
(...).
12) Esta estratégia significa
tentar formar a opinião pública. Esta e a
decisão se ligam porque o que se pretende é
provocar ações - materialização de opinião,
de juízos de valor. Do contrário, qual seria o
valor de uma opinião apenas internalizada no
indivíduo? O mecanismo procura formar jogadores
para as estratégias de interesse em jogos, e
mesmo opiniões no cotidiano, num efeito
multiplicador.
13) Agentes políticos são
jogadores mais informados porque têm acesso
direto às informações do Estado, o que não
ocorre por parte da população. Como informa a
Revista Consultor Jurídico, de 19/5/2003, uma
minuta de Anteprojeto de Decreto sobre acesso a
informações públicas está em tramitação na
presidência da República e na
Controladoria-Geral da União.
14) Estudos de economia
contemplam o assunto assimetria de informação.
Veja-se, por exemplo, CANUTO e FERREIRA JÚNIOR
(1999). Pela sua pertinência à área
jornalística, o tema deveria ser considerado com
intensidade no ensino de jornalismo.
15) Está se demonstrando apenas a
visualização, por isso, valores, como
pagamentos, são desconsiderados, nesta e na
figura que segue.
16) KREPS (1994:58-59) dá um
exemplo de jogo com informação completa e
perfeita, onde as alternativas de decisão são
conhecidas por todos os jogadores. A assimetria
da informação, entre agentes políticos e
veículos jornalístico, não possibilita este
nível de conhecimento.
17) Analisando os casos de tomadas
de decisão por agentes políticos em dois
espaços, arenas eleitoral (ou política
visível) e parlamentar (ou política
invisível), TSEBELIS (1998:164-165) indica
o fator informação (entre outro) como
parâmetro de atuação nestas duas esferas.
(...) Se os custos da informação são
elevados, as elites dispõem de alto grau de
liberdade em relação ao controle pelas
massas.
18) Da mesma forma que existem
cursos específicos de matemática e estatística
para outras profissões.
19) Como diz KUNCZIK
(1997:104): Podem-se tirar duas conclusões
principais da discussão sobre o jornalismo de
precisão: 1) A investigação sócio-científica
não pode ser tarefa do jornalismo; 2) É preciso
melhorar de forma geral o nível de conhecimentos
sócio-científicos básicos dos
jornalistas. A primeira conclusão é
passível de crítica, mas a segunda é correta.
20) Estamos usando o título do
texto que consta em WEBER (1992). Este texto
também é publicado com o título A
Objetividade do Conhecimento nas Ciências
Sociais.
21) Por exemplo, entre outras, uma
diferença básica entre os três autores é a
unidade de análise: para Marx, é o modo de
produção; para Weber, a organização social; e
para Durkheim são os grupos funcionais.
22) Como diz MARX (1982:243),
a taxa de mais-valia é, por isso, a
expressão precisa do grau de exploração da
força de trabalho pelo capital ou do trabalhador
pelo capitalista. A fórmula (ou seja, a
expressão) da taxa de mais-valia, é a seguinte,
onde M
é trabalho excedente (mais-valia) e V o capital
variável (salário)
Se esta taxa for de 100 por cento,
significa que a jornada de trabalho é assim
dividida: a metade produziu o valor do salário e
a outra metade produziu o volume de mais-valia.
23) Segundo MARX (1980:193) O
capitalista individual, ou o conjunto dos
capitalistas em cada ramo particular, com
horizonte limitado, tem razão em acreditar que
seu lucro não deriva do trabalho empregado por
ele ou em todo o ramo. Isto é absolutamente
exato com referência a seu lucro médio. Até
que ponto esse lucro se deve à exploração
global do trabalho por todo o capital, isto é,
por todos os confrades capitalistas, é uma
conexão para ele submergida em total mistério,
tanto mais quanto os teóricos da burguesia, os
economistas políticos, até hoje não a
desvendaram.
24) Conforme DURKHEIM (1982:23),
cada sociedade está predisposta a fornecer
um contingente determinado de mortes
voluntárias. Essa predisposição pode pois ser
objeto de um estudo especial e que cabe à
sociologia. (...). O sociólogo procura as causas
por meio das quais é possível atuar sobre o
grupo, mas não sobre os indivíduos
isoladamente. Por conseguinte, entre os fatores
dos suicídios, os únicos que o ocupam são os
que exercem influência sobre o conjunto da
sociedade. A taxa de suicídios é produto desses
fatores.
25) Diz DURKHEIM (1982: 22), após
uma tabela com estatísticas, A taxa de
suicídios constitui, portanto, uma ordem de
fatos una e determinada; é o que sua
permanência e variabilidade, simultaneamente,
demonstram. (...) Em resumo, esses dados
estatísticos exprimem a tendência ao suicídio
de que padece cada sociedade coletivamente.
26) Sustenta MARX (1982), no
prefácio da primeira edição de O Capital,
Comparada com a inglesa, é precária a
estatística social da Alemanha e dos demais
países da Europa Ocidental. Apesar disso, chega
para descerrar o véu, o suficiente para que se
pressinta, atrás dele, um rosto de Medusa.
Estremeceríamos diante de nossa própria
situação, se nossos governos e parlamentos,
como ocorre na Inglaterra, constituíssem
comissões de inquérito periódicas sobre as
condições econômicas, dando-lhes plenos
poderes para apurar a verdade, e se se
conseguissem, para esse fim, homens competentes,
imparciais, rigorosos, como os inspetores de
fábrica da Inglaterra (...). Marx está se
referindo a funcionários do Ministério do
Interior que registraram estatísticas das
condições de trabalho nas indústrias em
censos, os famosos livros azuis, amplamente
usados por ele na pesquisa para a elaboração de
O Capital.
27) O texto que segue é um trecho
resumido, com algumas alterações para os fins
deste artigo, de nossa dissertação de mestrado
(SCHUCH, 1985:72-73) e a intenção, aqui, é
apenas ilustrar a possibilidade de se produzir
informação através de um método científico.
Os cálculos são feitos do ponto de vista da
economia política marxista, com alguns conceitos
de O Capital, e se utiliza a moeda da
época (cruzeiro). Usando-se dados
relativos ao ano de 1975 do Censo Agropecuário
do Rio Grande do Sul (FIBGE, 1979) foi possível
uma estimativa do salário mensal
recebido por cada uma das 729.982 pessoas
que trabalhavam em estabelecimentos agrícolas de
até 20 hectares, típicos da pequena propriedade
familiar, um modo de produção não-capitalista
( por isso, inexiste trabalho assalariado entre
os membros da família). A palavra salário está
entre aspas porque não é pagamento na forma
capitalista, através de emprego, mas uma renda
resultante da produção e venda de produtos
agrícolas. São números aproximados porque o
censo não apresentou todas as variáveis
necessárias. O cálculo inicia-se baseado nos
indicadores despesas e
receitas nos estabelecimentos
agrícolas de até menos 20 hectares. A
soma destas despesas é Cr$ 783.513
(em mil cruzeiros). As receitas realizadas no
mesmo ano, com a venda de produtos vegetais, de
produtos da indústria rural, de animais, e de
produtos de origem animal, somam Cr$ 3.933.848
(em mil cruzeiros). As despesas são,
na verdade, meios de produção desgastados,
parte do capital constante. As
receitas são os preços de mercado.
Deduzindo-se das vendas o custo dos meios de
produção, tem-se Cr$ 3.150.335 (em mil
cruzeiros), que é uma estimativa do valor
realmente gerado. Este valor gerado é o valor da
produção total menos o desgaste do capital
constante. Se fosse considerada uma taxa de
trabalho excedente de 100 por cento (isto é, o
|