A
comunicação sob domínio
dos conglomerados multimídias
Dênis
de Moraes *
A
formação de oligopólios constitui o eixo
preponderante do atual modelo organizacional das
corporações de mídia e entretenimento. As
empresas com especializações únicas definham.
Elas correspondiam a um outro espaço-tempo, em
que as tecnologias não encurtavam mapas,
calendários e fusos horários; os fluxos de
informações eram infinitamente menos
convulsivos; e não vigorava o mandamento
competitivo de gerar demandas em mercados de
abrangência ilimitada. O equilíbrio de forças
alterou-se por completo. Vivemos a era dos
conglomerados multimídias, estruturados para
exercer hegemonia em todas as pontas da
revolução digital.
A
oligopolização insere-se no painel de forte
concentração de comandos estratégicos e de
mundialização de conteúdos, mercadorias e
serviços, facilitada pelas desregulamentações
neoliberais, pela supressão de barreiras
fiscais, pela acumulação de capital nos países
industrializados, pela deslocalização das bases
de produção e por redes tecnológicas de
múltiplos usos. Na base da chamada
"flexibilização dos investimentos
empresariais" eufemismo para o
processo de concentração multinacionalizada de
bens e serviços , a realização de lucros
implica maior acumulação de capital ao menor
custo possível. O que pressupõe: a) amplos
mercados consumidores; b) concorrência intensa
entre um número cada vez menor de megagrupos,
graças a fusões e incorporações; c)
centralização das decisões fundamentais e dos
planos de inovação nas matrizes dos grupos
transnacionais, que também supervisionam as
operações no exterior.
Os blocos
interempresariais buscam competir em posição de
força. Os acordos mesclam estoques de munição
financeira e know-how tecnológico que nenhuma
firma, isoladamente, teria condições de
mobilizar e garantir. A opção por joint
ventures traduz o propósito de diluir os
aportes financeiros entre os participantes,
reduzindo as margens de risco. Trata-se da
aplicação de capitais em investimentos
industriais de longo alcance geográfico, com
expectativa de polpudos retornos em função da
economia de escala. Lester Turrow alude ao
fenômeno das "famílias
tecnológicas": elas evoluem de um produto a
outro com tamanha rapidez que quase não sobram
chances, para firmas ainda fora do ramo, de nele
entrarem em condições reais de competitividade.
(1) As companhias de médio
porte que não se vinculam a conglomerados ou
não descobrem nichos rentáveis estão
condenadas a desaparecer. Estudo da consultoria
norte-americana McKinsey sobre fusões e
alianças conclui que a competição mundial nos
próximos anos tende a envolver apenas cinco
grandes empresas por setor. "Estamos em meio
a uma corrida para ver quem sobreviverá",
diz Heinz-Peter Elstrodt, sócio da McKinsey. (2) Raj Sisodia, professor
de marketing da George Mason University, é
taxativo: Numa economia madura, três
companhias gigantes, invariavelmente, acabam com
70% do mercado. E cita exemplos:
McDonalds, Burger King e Wendy dominam o fast-food;
Nike, Adidas e Reebok são as maiorais dos
tênis; Michelin, Goodyear e Bridgestone dão as
cartas nos pneus. (3)
Na avaliação
abalizada do professor e pesquisador
norte-americano Robert W. McChesney, da
Universidade de Wiscosin, o mercado global de
mídia gira em torno de cinco a oito
conglomerados, "com uma ou duas dúzias de
empresas consideravelmente grandes ocupando os
segmentos regionais de mercado e tendo acordos
operacionais com um ou mais gigantes". (4) A previsão é idêntica
à feita em 1989 pelo então presidente da Time
Incorporated, Nick Nicolas, quando da fusão com
a Warner Communications: até 2000, de seis a
oito megacompanhias controlariam a comunicação
no planeta. As dez primeiras no ranking de mídia
e entretenimento figuram entre as 500 maiores
companhias do mundo, com receitas anuais entre
US$ 6 bilhões e US$ 25 bilhões. Por ordem de
faturamento, as líderes são: Time Warner,
Disney, Bertelsmann, News Corporation, Viacom,
Seagram (proprietária da Polygram e da
Universal), Sony, TCI, Thomson e NBC. Apenas
quatro não estão baseadas nos EUA: a alemã
Bertelsmann, as canadenses Seagram e Thomson e a
japonesa Sony. Juntas, as dez majors
arrecadaram cerca de US$ 135 bilhões em 1998.
As pretensões
de auto-suficiência desfazem-se diante da
exigência de vultosos recursos para sustentar a
capacitação tecnológica, a diversificação
produtiva, a pesquisa sistemática, a acirrada
concorrência em mercados internacionalizados e o
marketing global. Estes itens requerem
integração de circuitos e equipamentos, de
métodos de gestão e de interconexões de
sistemas operativos. Fusões e parcerias deixam
entrever perspectivas para o intercâmbio e o
acréscimo de competências gerenciais e
especializações produtivas. É a
interpenetração de aparatos tecnológicos, com
valor-de-uso complementar, que introduz
circunstâncias e fatores sinergéticos. Os
conglomerados formalizam estratégias de
cooperação, explicitadas em alianças nacionais
ou transnacionais. René Armand Dreifuss salienta
que acordos e sinergias transcendem a busca de
conhecimento inovador e se fixam no seu entorno:
"Elas procuram alcançar a magnitude e
qualidade dos recursos (humanos, materiais e de infra-estrutura social)
necessários à pesquisa e para assegurar
condições de produção (incluindo o controle
de componentes e insumos), já que, a cada nova
geração, os custos sobem de forma geométrica,
enquanto cresce a complexidade do processo e do
produto. São razões, mais do que suficientes,
para estabelecer alianças que objetivam reduzir,
partilhar e distribuir custos e perdas (e
minimizar riscos) na pesquisa científica e na
sua "tradução" tecnológica, no
desenho de projeto, no desenvolvimento de novos
produtos (...) e na produção de produtos de
ponta." (5)
As alianças
podem ser de curta ou longa duração ou
duradoura, conforme o teor de seus objetivos e
desdobramentos. O raio de incidência também
varia. As alianças transnacionais realizam-se
através das fronteiras dos países, entre
corporações complementares, suplementares e às
vezes concorrentes, com vistas à plena
utilização de infra-estruturas e ao
aprimoramento das condições de produção e
comercialização, estando subjacentes os
princípios de redução ou minimização de
fatores adversos e de risco. Já as alianças
setoriais que envolvem empresas de
diferentes ramos mas com base operacional em um
mesmo país visam ao aproveitamento de
interfaces nas áreas de conhecimento e de
produção, inclusive entre competidores. (6)
As combinações
de ativos surgem para viabilizar interesses
recíprocos ou conciliáveis, reduzindo o espaço
de manobra dos concorrentes. Como esclarece
Philippe Natag, diretor-executivo da consultoria
Regent Associates: "O mercado de tempo real
impele grandes empresas a um movimento para fora
de si mesmas, atrás de integração societária.
Por outro lado, esta integração não pode mais
se circunscrever a blocos regionais; ela precisa
se reforçar no plano internacional, se quiser
ampliar seus serviços e penetrar fortemente em
outros segmentos de mercado." (7) Foi
exatamente o que fizeram as norte-americanas Dow
Jones e General Electric (proprietária da rede
NBC) ao unificarem suas operações de TV e
Internet na Ásia e Europa, em fins de 1998.
Objetivo: minimizar os custos de expansão. O
canal a cabo CNBC perdia US$ 25 milhões por ano
na Ásia e US$ 15 milhões na Europa. A Dow Jones
registrava prejuízo de US$ 48 milhões por ano
em projetos de TV. Com o acordo, a Dow Jones vai
fundir o Asia Business News e o European Business
News com a CNBC. Os novos canais atingirão nove
milhões de domicílios na Ásia e 15 milhões na
Europa. As empresas poderão fazer marketing
cruzado de marcas como o Wall Street Journal
e outros serviços de notícias da Dow Jones, o
CNBC e o site de informações MSNBC (joint
venture entre a NBC e a Microsoft). "A
parceria não tornará os canais lucrativos em
seis meses, mas eles vão sair do vermelho mais
rapidamente", esclareceu Peter Kann,
executivo-chefe da Dow Jones. (8)
Os complexos
industriais administram empreendimentos paralelos
ou convergentes, ao mesmo tempo as sinergias
evitam disparidades de orçamentos e concatenam
suas atividades. Os portfólios podem até
variar, mas as corporações seguem variantes
comuns para globalizar os bens culturais:
confluência tecnológica e internacionalização
de mercados. A concentração de capital nessas
superestruturas intercambia-se com o
contraditório movimento de deslocalização
operacional, em face da exigência de extrair
rentabilidade no maior número possível de bases
consumidoras. Cabe aos pólos de enunciação e
difusão harmonizar os elementos aparentemente
desconexos na verdade, partes do sistema
cultural global. As unidades locais e regionais
subordinam-se à lógica estratégica dos boards
corporativos, com autonomia para articular as
proposições mercadológicas a especificidades
socioculturais. Como esclarece James Oates,
presidente da Leo Burnett, uma das dez maiores
agências de publicidade do mundo, sediada em
Chicago, com 77 subsidiárias em 68 países e
responsável pelas contas de clientes blue-chips
como Walt Disney, Procter & Gamble,
Mercedes-Benz e McDonalds:
"Acredita-se que cada vez mais as
estratégias ficarão centralizadas e será
possível criar mais a partir de um só
escritório, deixando a compra de mídia e
ações como promoção para serem desenvolvidas
localmente. Mas os escritórios regionais
continuarão responsáveis pela linha básica das
marcas." (9)
Assim,
aprofunda-se a aglomeração de empresas de um
mesmo grupo em torno de holdings que implementam
diretrizes de atuação compartilhada em âmbito
planetário. Estruturadas mundialmente, essas
holdings dispõem de suportes operacionais e
capacidade instalada para gerenciar o
desenvolvimento de produtos, marcas e serviços
em larga escala. Elas formulam e coordenam as
estratégias das filiais; alinham e integram as
variantes locais e regionais às diretivas
mundiais; monitoram as operações de cada
unidade em função dos objetivos totais de
desempenho; criam uma cultura de administração
corporativa comum entre as várias organizações
espalhadas pelo exterior; identificam e
transferem casos de sucesso e práticas criativas
eficientes; e comandam as aquisições e fusões
de agências, em suas jurisdições.
Os planejamentos
corporativos obedecem a estratégias semelhantes:
a) ofensividade máxima nas guerras industrial e
mercadológica em qualquer hemisfério; b)
centralização decisória e tecnoprodutiva,
conglomeração setorial e desterritorialização
das unidades de consumo; c) dispersão
transcontinental dos negócios, com ênfase na
Europa e nos mercados emergentes da Ásia e da
América Latina; d) investimentos maciços em
tecnologias digitais que estimulem a
convergência em infotelecomunicações; e)
acordos e joint ventures de amplo
espectro, inclusive com grupos regionais, visando
à otimização comercial de programações, bens
e serviços.
Tal modelo de
concentração multinacionalizada impõe-se como
paradigma, alinhando a indústria da
comunicação aos setores mais dinâmicos do
capitalismo global, sob efetiva hegemonia dos EUA
como pólo de produção e distribuição de
conteúdos. As disparidades tecnológicas e os
frágeis mecanismos de regulação dos fluxos
internacionais de dados e imagens favorecem cada
vez mais as corporações norte-americanas.
Os mastodontes
da difusão movem-se pela Terra a partir de um
modelo de gestão que se vai afirmando como
paradigma universal, e cuja voracidade por ganhos
de capital não conhece qualquer limite. Com
alianças e fusões, a concorrência praticamente
restringe-se ao clube de players, dotados
de fortes reservas de capital, de know-how
tecnológico e de capacidade de articular
consórcios transoceânicos. Essas inversões
afastam ainda mais empresas de menor porte das
arenas competitivas e sedimentas uma
industrialização em torno de complexos
empresariais. A palavra de ordem é otimizar as
performances do sistema produtivo, sobretudo a
partir da convergência de tecnologias e de
reengenharias operacionais, para maximizar
vantagens e lucros.
Ressaltemos que
o predomínio exacerbado dos oligopólios de
mídia e entretenimento foi estimulado tanto
pelas desregulamentações como pela deliberada
omissão dos poderes públicos em seu papel
regulador e fiscalizador. A concentração e a
conglomeração deitam raízes na América
Latina, onde a ação dos gigantes transnacionais
se intensifica, de olho no potencial
mercadológico de uma região com mais de 480
milhões de consumidores. As corporações
consolidam suas influências no solo
latino-americano, explorando o vácuo aberto
pelas desregulamentações e por deficiências
crônicas observadas na maioria dos países do
continente: inexistência de controles públicos
eficazes sobre os fluxos de programações vindos
do exterior; fragilidade dos sistemas fiscais e
alfandegários diante do trânsito de conteúdos
por satélites e redes eletrônicas; aberrantes
desequilíbrios nas balanças comerciais com os
EUA, sobretudo em relação às produções
audiovisuais. (10)
Por tudo que
vimos, concluímos que a mundialização das
informações e do entretenimento desenrola-se
sob o signo da oligopolização e da
concentração multinacionalizada de suportes,
mercadorias e serviços apesar de os
arautos da globalização insistirem nos
benefícios das novas e abundantes safras de
produtos culturais. À medida que essa
configuração se cristaliza, reduz-se o campo de
manobra para um desenvolvimento equilibrado e
estável dos sistemas, meios e redes de
comunicação, e agravam-se descompassos
estruturais, no contexto da desnacionalização
de áreas estratégicas.
Diante deste
quadro adverso, é fundamental insistir no
estabelecimento de políticas públicas de
comunicação, baseadas em mecanismos
democraticamente instituídos de regulação, de
regulamentação e de fiscalização. É certo
que deverão levar em conta o ritmo acelerado da
convergência multimídia e a irreversível
internacionalização do setor. Mas, acima de
tudo, precisarão refletir as exigências
legítimas de supremacia da vontade coletiva
sobre interesses privados o que pressupõe
regrar contrapartidas e salvaguardas das
soberanias nacionais. O êxito de tais políticas
dependerá de um longo processo de conquistas
cumulativas permanentes de espaços no interior
das esferas públicas, tanto na sociedade civil
como no próprio Estado. A despeito das enormes
dificuldades presentes e futuras para se inverter
gradualmente a atual correlação de forças,
penso que este é o caminho possível para se
tentar redesenhar o estratégico campo
comunicacional numa perspectiva pluralista e
não-oligopolística.
________
Notas:
1. Lester Thurrow. O futuro
do capitalismo: como as forças econômicas
moldam o mundo de amanhã. 2ª ed. Rio de
Janeiro: Rocco, 1997, p. 102.
2. Heinz-Peter Elstrodt, citado
por Eliana Simonetti, "Gigantes na
pista", Veja, 13 de maio de 1998.
3. Raj Sisodia, citado por
Daniela Mendes, "Fusões bilionárias agitam
o mundo", Correio Braziliense, 24 de
maio de 1998.
4. Robert W. McChesney,
"The global struggle for democratic
communication", Monthly Review, 1996.
Ver ainda, do mesmo autor, The global media:
the new missionaires of the corporate capitalism.
Washington/Londres: Cassell, 1997, sobretudo o
capítulo 3.
5. René Armand Dreifuss. A
época das perplexidades: mundialização,
globalização e planetarização novos
desafios. Petrópolis: Vozes, 1996, p.
94-95.
6. Ibidem, p. 118-119.
7. Philippe Nataf, citado em Media
Report, EBN/GNT, 11 de fevereiro de 1998.
8. Peter Kann, citado por Bloomberg
Business News, 9 de dezembro de 1998.
9. James Oates, citado por
Cláudia Penteado, "Leo Burnett reafirma
independência", Meio e Mensagem, 27
de junho de 1998.
10. Sobre as estratégias das
corporações norte-americanas de mídia e
entretenimento na América Latina e no Brasil,
ver Dênis de Moraes. O Planeta Mídia:
tendências da comunicação na era global.
Campo Grande: Letra Livre, 1998, p. 100-133.
* Dênis de
Moraes é doutor em
Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro e professor
do Programa de Pós-Graduação em Comunicação,
Imagem e Informação da Universidade Federal
Fluminense, no Brasil. Seu
mais recente livro é O Planeta Mídia:
tendências da comunicação na era global (Letra
Livre Editora, 1998), no qual se baseia este
artigo para Sala
de Prensa.
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