Dez
impasses para uma
efetiva crítica de mídia no Brasil
Rogério
Christofoletti *
"Uma sociedade sem
crítica é uma sociedade morta"
Ciro Marcondes Filho
Mediacriticism ou o dilema do espetáculo
das massas
Eram
pouco mais de seis horas da tarde, quando a
televisão começou a repetir uma, duas, três
vezes as imagens de um policial em desespero,
ameaçando suicídio. Com o rosto transtornado, a
testa franzida e os lábios trêmulos sob o
tímido bigode, o soldado da Polícia Militar
paulista apontava o revólver calibre 38 contra a
própria fronte. Reinaldo Antônio Domingues, de
32 anos, gritava com os colegas que o cercavam e
com o repórter do Cidade Alerta, da Rede Record,
que cobria o fato. Todos tentavam impedi-lo de
puxar o gatilho. Em vão. A quilômetros dali, na
sede da Record, ninguém impediu que a emissora
mostrasse exaustivamente a crônica daquela morte
anunciada. Foram quase duas horas de repetições
desnecessárias, de comentários desimportantes,
de exploração do sofrimento alheio em cadeia
nacional. Tudo para conquistar o terceiro lugar
na audiência daquela quinta-feira, 10 de abril
de 2003.
Esta não foi a
primeira vez que o interesse público ficou
atrás da curiosidade mórbida. Também não foi
a última vez que os meios de comunicação
fizeram um carnaval com a miséria humana. Embora
deslizes como este irritem camadas cada vez mais
numerosas da sociedade, ainda não vigora no
país uma cultura de crítica dos media, que
avalia a qualidade dos conteúdos veiculados e
que cobra posturas mais dignas e cidadãs das
empresas jornalísticas.
Até se observa
que alguns esforços neste sentido começam a
ganhar mais evidência na vida social brasileira,
mas um efetivo ambiente de crítica dos meios
ainda está longe de se experimentar no país.
Campanhas exigindo qualidade na programação da
televisão, organizações não-governamentais
que defendem os direitos do consumidor de
informação e iniciativas análogas são
respostas da comunidade frente às derrapagens
éticas dos meios de comunicação.
Entretanto,
paralelamente à construção dessas práticas
cidadãs e ao fortalecimento de uma consciência
mais proativa (e não reativa) no consumo de
jornalismo e entretenimento, devem ser também
atacadas as causas do atual cenário da
comunicação no país. Problemas estruturais
mantêm o atual estado, congelando ações de
resposta e causando um torpor que indisponibiliza
qualquer mudança transformadora. A
identificação desses empecilhos para uma
efetiva crítica dos media é uma etapa
importante para uma reconfiguração do panorama
comunicacional no país.
Concentração
e oligopólio
O mais nítido
dos impasses para um sistema de comunicação
mais democrático e ético no país está na
superfície da sua estruturação como negócio:
o mercado fica concentrado em poucas redes,
controladas por escassos grupos empresariais. Com
uma agravante: grande parte desses grupos são
familiares, fato que faz prevalecer uma gerência
do negócio público (comunicar) muito mais
próximo do regime privado.
Calcula-se,
hoje, que sete grupos controlem 80% de tudo o que
é visto, ouvido e lido nos media brasileiros:
- A família
Marinho detém a líder isolada na TV
aberta (Rede Globo), o terceiro jornal em
tiragem no país (O Globo), a maior
operadora e distribuidora de TV a cabo
(NET), um dos portais mais acessados da
internet (Globo.com), uma importante
produtora e distribuidora de cinema
(Globofilmes), dezenas de emissoras de
rádio FM e AM (incluindo a rede CBN) e
um sistema de produção de canais para
TV a Cabo (GloboSat).
- A família
Civita detém a maior editora de
revistas, fascículos e periódicos do
país, com ramificações na América
Latina (Abril), uma divisão de
distribuição e produção de vídeos
(Abril Vídeo), uma emissora de
televisão (MTV), uma operadora do
sistema de TV a cabo (TVA), além de
participação na DirecTV. São sócios
do maior portal de conteúdo de língua
não-inglesa do mundo (UOL).
- A família
Abravanel controla a segunda rede de
emissoras de televisão do país (SBT),
mantém parcerias com produtoras e
estúdios de cinema multinacionais, além
de ter empreendimentos em outros setores
da economia.
- Os Frias
possuem o jornal mais lido do país
(Folha de S.Paulo), um instituto de
pesquisas de opinião pública
(DataFolha), outros jornais menores,
parte de um dos maiores provedores de
acesso e informação do mundo (UOL), uma
agência de notícias (Agência Folha) e
parte de um dos mais influentes jornais
de economia (Valor Econômico), em
parceria com O Globo.
- A Igreja
Universal é proprietária da terceira
maior rede de TV do país (Record) e de
outras emissoras menores, como a Rede
Mulher e a Rede Família.
- A família
Saad controla a Rede Bandeirantes, as
emissoras da Rádio Bandeirantes AM e FM
e detém ainda o Canal 21, de grande
penetração e alcance na capital
paulista.
- Os
Mesquitas são proprietários da segunda
maior circulação em jornais no país (O
Estado de S.Paulo), dos tradicionais
Jornal da Tarde e Rádio Eldorado FM, da
Agência Estado e de uma emissora de
televisão no Maranhão.
O alcance desses
grupos impressiona. Para se ter uma noção do
poder envolvido, notem-se alguns números
relativos apenas ao negócio Televisão. No
país, há 41,1 milhões de domicílios com
aparelhos de TV, número superior aos lares com
refrigeradores. Em média, há 1,25 televisor por
domicílio, e o brasileiro fica cerca de 3 horas
por dia em frente ao aparelho, de segunda a
sábado, conforme apurou o DataFolha em setembro
de 2000, quando do cinqüentenário da TV no
país.1 Em 1999, números das
próprias emissoras deram conta de que o
faturamento bruto da TV de sinal aberto foi de R$
4,4 bilhões.
A concentração
em poucas mãos dificulta a entrada de novas
empresas, estilos e conteúdos no mercado. Pior:
padroniza o noticiário e estandardiza o
entretenimento. Poderosos, os controladores são
avessos à crítica e à contestação de seus
procedimentos. No caso das emissoras de rádio e
TV, que dependem de concessões públicas para
operar, o caso é pior, já que a condição
pública, os compromissos decorrentes da
permissão de exploração e as contrapartidas
sociais são simplesmente esquecidos.
Propriedade
cruzada e domínio de conteúdo
Brechas na
legislação acentuam a concentração dos meios
de comunicação em poucas mãos e tornam mais
aguda a situação no sistema: a possibilidade de
propriedade cruzada. Isto é, grupos que
controlam emissoras de televisão podem muito bem
ser proprietárias de jornais e revistas e de
portais na internet.
Essa permissão
proibida em muitos países e limitada em
outros faz com que o noticiário produzido
em um veículo seja apenas reproduzido em outro
da mesma cadeia, muitas vezes, ignorando as
características do próprio meio. Possibilita
ainda que opiniões, valores, símbolos e
versões de fatos que interessem aos grupos
empresariais detentores sejam distribuídos de
maneira perene e uniforme por diversas vias,
dando mais força à difusão de tais idéias,
aumentando seu alcance e sua penetração.
A propriedade
cruzada é um catalisador do processo de
concentração, facilitando a expansão desses
negócios e dando ao consumidor uma impressão de
poderio financeiro, onipresença e credibilidade
informativa. É uma estratégia de
multiocupação de espaços no imaginário do
cidadão, uma tentativa de preenchimento dos
tempos do consumidor de informação e
entretenimento.
Coronelismo
eletrônico
Para além de
grupos empresariais e familiares, as maiores
empresas de comunicação no país concentram-se
também nas mãos da classe política. Deputados
e senadores, governadores e prefeitos detêm
concessões públicas de emissoras de rádio e
TV, controlam jornais e não poucas vezes usam
esses meios para amplificar suas vozes junto ao
eleitorado, ampliar seu poder na sua zona de
influência.
Levantamento da
Folha de S.Paulo, de 2001, revelou que 24% das
empresas de radiodifusão são de políticos.
Significa dizer que a cada quatro emissoras, uma
está sob as asas de algum detentor de mandato.
Os números impressionam mais ainda com os dados
de um estudo empreendido pelo Partido dos
Trabalhadores (PT), divulgado há dois anos.
Segundo a pesquisa, de 1999 a 2001, foram
outorgadas 3315 concessões para exploração de
sinal no país e 77,6% delas beneficiaram
políticos: 37,5% para filiados ao PFL, 17,5%
para os do PMDB, 12,5% para o PPB, 6,3% para o
PSDB e 3,8% para o PDT. A distribuição indica
que as concessões foram mais uma vez
usadas como moeda de barganha política
entre os partidos que davam sustentação ao
governo no Legislativo. Para obter os dados,
foram cruzadas mais de 33 mil informações do
Ministério das Comunicações, da Agência
Nacional de Telecomunicações e do Tribunal
Superior Eleitoral. A pesquisa revelou que cinco
governadores e que 47 dos 513 deputados federais
eram proprietários diretos de emissoras de
rádio e TV.
Em algumas
regiões do país, o domínio político dos meios
de comunicação é condição fundamental para
manter a hegemonia de grupos e de oligarquias.
Isso se dá com nitidez no Norte e Nordeste:
- Na Bahia,
Antonio Carlos Magalhões tem emissoras
de televisão que retransmitem a
programação da Rede Globo, estações
de rádio e jornais na capital e no
interior do estado.
- No Ceará,
Tasso Jereissati detém participação
majoritária na afiliada à Rede
Bandeirantes.
- Em Alagoas,
os Collor de Mello têm a retransmissora
da Globo, rádios em Maceió e interior e
o maior jornal.
- No Pará,
Jader Barbalho retransmite a
programação da Band em sua emissora de
TV, além de controlar jornais e rádios.
- Em Sergipe,
Albano Franco domina o cenário
mediático.
- No
Maranhão, a situação mais grave:
Edison Lobão tem nas mãos a afiliada do
SBT, jornais e emissoras de rádio. Os
Sarney detêm o maior jornal, além da TV
Mirante (Globo) e mais 38 concessões de
rádio e TV em cinco cidades.
Num terreno
minado como este, o espaço para a crítica é
ínfimo, quase inexistente. A política
coronelística, que impunha o chamado "voto
de cabresto" nas primeiras décadas do
século 20, agora se reedita apoiada em mais
tecnologia: via satélite, pela internet ou em
publicações de qualidade gráfica e técnica.
Através do simbolismo e do imaginário, as
consciências são conquistadas e a autonomia de
pensamento e por conseguinte a crítica -
é anulada.
Dial
restrito
A concentração
dos meios e quase nenhuma brecha para a entrada
de novos grupos na exploração do negócio da
comunicação tem outro fator restritivo no
modelo nacional: a inexistência de uma política
para as rádios livres e comunitárias. Com
debilidades na legislação, ineficiência na
fiscalização dos padrões técnicos e dos
conteúdos, e lobbies de grandes e médias
emissoras, o dial torna-se um terreno reservado
quase que exclusivamente para as rádios
comerciais.
Tradicionalmente
o meio de maior penetração e alcance no
território nacional, o rádio se converte num
clube de poucos associados, com verbas
publicitárias magras, programação pasteurizada
e o que é pior muito mais próximo
dos interesses dos grupos controladores, em
detrimento dos das comunidades.
Concessões
infinitas
Embora as
concessões de radiodifusão sejam figuras de
caráter público, com prazos definidos para a
exploração e com contrapartidas sociais de seus
beneficiários, a sua cassação é um evento
raríssimo no sistema nacional, quase
inexistente.2 A regra geral aplicada
é a renovação automática das concessões para
as emissoras, gerando períodos infinitos de
domínio de algumas redes no espaço audiovisual.
A legislação
contribui para este estado de coisas, bem como a
ineficiência do estado na fiscalização e
controle dos concessionários. Não há cobrança
governamental pela qualidade da produção e do
conteúdo. A sociedade pouco se manifesta sobre
isso. Um exemplo recente que destoa é a campanha
"Quem financia a baixaria é contra a
cidadania", da Comissão de Direitos Humanos
da Câmara dos Deputados, que vem se preocupando
com o acompanhamento de programas televisivos de
sinal aberto. Embora ainda incipiente na
abrangência e de pouca visibilidade junto ao
grande público, a campanha já tem elaborado um
conjunto de pareceres sobre a grade de algumas
emissoras, com base em denúncias de cidadãos e
instituições. Até 13 de abril de 2003, mais de
800 manifestações haviam chegado à Comissão
de Direitos Humanos, queixando-se de abuso na
exibição de cenas consideradas impróprias para
o horário, de sensacionalismo, apelo sexual e
incitação à violência.3 Apoiado no trabalho da
campanha, o Ministério Público de São Paulo
entrou com representação no Ministério da
Justiça contra o Programa do João Kleber (Rede
TV) pedindo a mudança do seu horário de
exibição.
A campanha faz o
levantamento dos piores programas televisivos
para depois desestimular os anunciantes a
patrocinarem tais iniciativas. A idéia é secar
as fontes de financiamento de certos conteúdos,
impondo novos padrões de qualidade para a
programação. A iniciativa pode se converter num
eficiente indicador para uma reavaliação das
concessões na TV brasileira.
Lei
de imprensa caduca
Em vigor desde
1967, a Lei nº 5250, que trata dos ditos abusos
no exercício da liberdade de manifestação do
pensamento, há décadas é contestada na sua
necessidade e na sua atualidade. Primeiro porque
os chamados "crimes de imprensa"
por calúnia, infâmia ou injúria já
estão previstos no Código Penal, o que
dispensaria um dispositivo legal específico para
disciplinar as práticas de jornalistas e afins.
Depois porque a ação do tempo corroeu algumas
referências financeiras, morais e de contexto
histórico que sustentavam a lei na época de sua
edição, em pleno regime militar.
Embora
contestada, a lei não foi revogada, nem
substituída. Diversos projetos de lei tramitam
no Congresso Nacional para dar roupagem mais
atual à legislação, mas sempre emperram nas
comissões internas ou nos interesses intestinais
de lobbies empresariais e mesmo de
políticos-proprietários de meios.
Com uma
legislação deficiente na área, o setor de
comunicação encontra poucas condições de
normatização interna e raras brechas para um
debate mais amplo. Quiçá espaço para crítica
e autocrítica.
Inoperância
dos conselhos de comunicação
Mesmo previsto
na Constituição Federal desde 1988, e
regulamentado por lei em 1991 (nº 8389), o
Conselho de Comunicação Social só foi composto
e passou a operar em 2002. Funciona como um
órgão auxiliar do Congresso Nacional e,
portanto, é consultivo, não delibera, não
define políticas para o setor. Esta natureza
fragiliza o órgão, limitando seu alcance e seu
poder de atuação. A sociedade, representada
pelos 13 membros constituintes do Conselho e seus
respectivos suplentes, encontra poucas
condições reais de intervir no sistema de
comunicação e de apontar novas orientações
para uma reestruturação.
Nos estados
exceto em Alagoas -, não há iniciativas
semelhantes. Com isso, políticas públicas de
comunicação são abstrações ainda. Nos
municípios - também unidades da federação e,
portanto, passíveis de comportar esses órgãos
-, sequer são conhecidos os mecanismos para a
instalação de conselhos locais de
comunicação.
A pouca
efetividade dos conselhos de comunicação
contribui para a manutenção de uma camada
impermeável a críticas na estrutura
comunicacional brasileira.
Arcaísmo
no empresariado
No ramo das
comunicações, paralelo ao apego às inovações
tecnológicas e à implementação de modernas
técnicas de reengenharia, ainda impera o
anacronismo na concepção de uma nova natureza e
papel para o empresariado na sociedade. Assim,
uma cultura de responsabilidade social ainda é
muito incipiente. Poucos são os setores que
despertaram para esta necessidade com iniciativas
ainda distantes do ideal.
No mercado, por
exemplo, o comportamento padrão é o empresário
considerar que não deve satisfações públicas
do seu negócio. Dessa forma, no ramo da
radiodifusão, o permissionário simplesmente
ignora a natureza pública da concessão que
detém e os compromissos sociais decorrentes
desta situação. No ramo impresso e na internet,
mesmo que independentemente da legislação
exigir tais preocupações, o entendimento geral
é de que os assuntos são sempre corporativos,
desinteressantes a outras camadas da sociedade, e
desnecessários de um debate público.
Uma
preocupação com a crítica dos media e
práticas semelhantes são impensáveis num
ambiente tão refratário.
Categoria
não pode cassar profissionais faltosos
Também
resistentes a uma discussão mais ampla do papel
dos meios de comunicação e da qualidade dos
conteúdos veiculados, os profissionais da área4 mesmo que
quisessem têm limitações para
regulação do próprio mercado de trabalho.
Diante dessa porosidade, chegam às redações,
estúdios e bastidores toda sorte de indivíduos,
muitas vezes desabilitados a exercer a profissão
e sem qualquer formação deontológica.
Diferente dos
médicos, engenheiros e advogados, os jornalistas
não podem cassar os registros dos maus
profissionais, zelando assim pela qualidade
mínima dos que estão atuando no mercado. Quem
fornece os registros é o Ministério do
Trabalho, instância que pode também
suspendê-los, fato raro. A categoria tenta
reverter esta situação passando a prerrogativa
a um órgão classista legítimo, como a Ordem
dos Advogados do Brasil para os causídicos. Para
isso, foi elaborado projeto de lei para criação
do Conselho Federal de Jornalismo, cuja agilidade
na tramitação congressual depende de
articulação dos jornalistas e de camadas
sociais que se preocupam com o assunto.
Com flancos por
onde bons e maus profissionais podem penetrar
indistintamente, o mercado de trabalho
jornalístico segue quase sem regras. Sem
regulação, essa terra-de-ninguém não tem
estabilidade para permitir o desenvolvimento de
qualquer crítica ou avaliação mais
consistente.
Autismo
na sociedade
De olho ainda
nos impasses que impedem a criação e
disseminação de uma cultura preocupada com a
crítica dos media, falta apontar o papel da
sociedade consumidora de informação. E neste
aspecto, o que se percebe de imediato é que
em largos setores não há uma
cultura de controle e fiscalização pública.
Isto é, o cidadão pouco cobra seus direitos,
porque muitas vezes os desconhece.5 O contribuinte não tem
o entendimento de que a coisa pública não é do
Estado, mas pertence à coletividade. O
consumidor ainda se movimenta pouco para exigir o
cumprimento das normas que o defendem de abusos,
de injunções e de omissões deliberadas.
O telespectador
brasileiro como qualquer outro no planeta
- se queixa da programação da televisão, mas
apenas em âmbito doméstico. O eco de suas
reclamações chega rouco às autoridades
competentes, que, por conseguinte, pouco acionam
de seu poder constituído. É raro o leitor
nacional cancelar sua assinatura em protesto à
queda de qualidade da publicação a que ajuda a
sustentar. A crítica aos media é frágil e
generalizada. Sem endereçamento, cai no rol das
demais queixas, dilui-se.
Recentemente,
num relato sobre a terceira edição do Fórum
Social Mundial, a professora Regina Festa
(Universidade de S.Paulo) apontava a necessidade
imediata de se criar uma discussão internacional
sobre os meios de comunicação e aquilo que
chamou de "limites da mercantilização da
vida humana por intermédio dos sistemas de
comunicação". A idéia não é nova e
mesmo em Porto Alegre, onde se deu o FSM, o
editor do Le Monde Diplomatique Ignácio
Ramonet conclamava os interessados a constituir
um Media Watch Global, instância lançada na
ocasião. Todos os esforços focados na direção
da ampliação de um canal maior de discussão
sobre os media são bem-vindos, dada a carência
nacional.
Há indícios de
uma tímida, embora crescente, disposição
pública para pensar o impacto dos veículos de
comunicação na sociabilidade contemporânea. A
retomada do Fórum Nacional pela Democratização
da Comunicação e websites como o Monitor de
Mídia, Observatório da Imprensa, Instituto
Gutenberg e S.O.S. Imprensa6 são alguns sintomas
claros desta preocupação.
A crítica dos
media precisa ser entendida não como pichação
deliberada, censura, mutilação ou depredação
de conteúdos e programações. A crítica não
é modelo, é método, instrumento. Conjunto de
dispositivos sem os quais se dissolvem os
critérios para uma leitura mais aprofundada da
realidade. Se os meios de comunicação refletem
a vida contemporânea e dela fazem parte,
criticá-los é focar a própria vitrine das
atividades humanas.
_____
Notas:
1 TV
Brasileira: 50 anos mudar para não mudar.
Folha de S.Paulo, 16 de setembro de 2000.
2 O caso mais recente é o
que envolveu o apresentador Gugu Liberato em
outubro de 2002. Gugu teria comprado canal em
Cuiabá antes do prazo legal. Talvez a
transação passasse despercebida caso o
apresentador não fosse o âncora do programa
eleitoral gratuito do candidato governista à
presidência da república, José Serra. À
época, reportagem da Folha de S.Paulo trouxe a
denúncia, causando alarde e quase que obrigando
o ministro das Comunicações, Juarez Quadros, a
anular a concessão de Tv à Pantanal Som e
Imagem, empresa adquirida por Gugu.
3 Com base nas denúncias,
foram escolhidos onze programas: Domingo Legal
(SBT), Canal Aberto e Eu vi na TV (Rede TV),
Programa do Ratinho (SBT), Big Brother Brasil
(Rede Globo), Domingão do Faustão (Rede Globo),
Sérgio Malandro (Rede TV), Hora da Verdade
(Band), Cidade Alerta (Record), Sabadaço (Band)
e Noite Afora (Rede TV).
4 Partindo de um caso
isolado de reflexão pública sobre a conduta do
jornalista, Muniz Sodré se pergunta se existe
uma consciência ética na imprensa. "... o
jornalismo, embora alardeando por meio de seus
representantes institucionais a defasa dos
antigos valores da liberdade de expressão,
assiste ao desaparecimento do interesse público
e do horizonte ético" (2002: 196).
5 Prova disso é a geral
ignorância da Lei nº 10359, de 27 de dezembro
de 2001, que obriga os novos aparelhos de
televisão a conter dispositivo que possibilite o
bloqueio temporário da recepção de
programação inadequada. Aprovada durante o
segundo mandato do presidente Fernando Henrique
Cardoso, a lei tem ainda pouca visibilidade para
o cidadão comum. E a partir disso, pouca
vigência na vida pública nacional.
6
http://www.cehcom.univali.br/monitordemidia ,
http://www.observatoriodaimprensa.com.br,
http://www.igutenberg.org e
http://www.unb.br/fac/sos , respectivamente.
______________________
Referências Bibliográficas:
- TV Brasileira: 50 anos. Mudar
para não mudar. Folha de S.Paulo, 16 de setembro
de 2000.
- LOBATO, Elvira. Gugu obtém concessão de TV
durante 1º turno. Folha de S.Paulo, 20 de
outubro de 2002.
- MARCONDES FILHO, Ciro. Mediacriticism ou o
dilema do espetáculo de massas. IN: PRADO, José
Luiz Aidar (org.) Crítica das práticas
midiáticas: da sociedade de massa às
ciberculturas. Hacker Editores: São Paulo, 2002.
- SODRÉ, Muniz. Existe uma consciência ética
na imprensa? IN: PAIVA, Raquel. Ética, cidadania
e imprensa. Mauad: Rio de Janeiro, 2002.
* Rogério
Christofoletti.
Jornalista, colaborador da SdP e professor do curso de Comunicação
Social Jornalismo da Universidade do Vale do
Itajaí (UNIVALI). Texto
apresentado no 26º Congresso Brasileiro de
Ciências da Comunicação em setembro de 2003,
Belo Horizonte (MG), Brasil. Enviado a SdP por el autor.
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