Jornais
eletrônicos feitos "a chumbo"
Toni
André Scharlau Vieira *
Os
sites de jornais impressos tradicionais (como a
Folha de S.Paulo, O Globo, Estadão e até a Zero
Hora) parecem estar refletindo a crise de
identidade por que passa a imprensa brasileira.
Crise que, em geral, afeta a imprensa escrita de
toda o mundo. Como "clones
eletrônicos" dos jornais impressos, os
sites dos principais jornais do País se mostram
lentos, não são práticos e pouco se diferem do
conteúdo disponibilizado com antecedência pela
televisão e rádios (o que aliás é um problema
de algumas décadas no casos dos impressos).
Mesmo que se
registre a juventude deste tipo de mídia, o que
acaba ficando patente é a falta de estratégia e
planejamento diante do novo meio. Claro que
existem esforços consideráveis e avanços
interessantes (o site do Estadão, por exemplo,
é rápido e possui poucas ilustrações que
demoram para carregar). Mas o grande problema
não é o software, a linguagem java ou o uso de
imagens em tiff, gif, jpg, htm, e sim a perda de
leitores e de credibilidade/ rentabilidade.
Uma pesquisa da Pew
Research Center for People and Press,
divulgada em janeiro deste ano, em Londres,
revela que os jornais online não são a
principal fonte de notícias de grande parte dos
usuários de Internet. Entre 3 mil internautas
adultos, 41% afirmam que procuram na rede
informações mais detalhadas sobre assuntos que
já viram em outros veículos, principalmente na
televisão a cabo. Outros 44% crêem que a
Internet oferece um noticiário mais detalhado do
que os jornais diários. Os usuários que
perfazem este percentual (em torno de 40%
levando-se em conta os dois resultados)
certamente pouco lêem as edições impressas dos
jornais e visitam muito esporadicamente os sites
mantidos pelos "jornalões".
As empresas
jornalísticas, no entanto, não parecem estar se
preocupando com a opinião manifestada pelos
leitores (pesquisas informais realizadas no
Brasil indicaram resultados semelhantes aos do
Reino Unido). Ainda que vivamos um período de
crise econômica (mesmo que os jornais não
reconheçam isto), as quedas de circulação ou
mesmo o congelamento do número de exemplares
vendidos, revelam que algo deveria ser alterado.
Conforme
informação do Instituto de Verificação de
Circulação (IVC) entre agosto e dezembro
de 1998 a circulação dos principais jornais do
Rio, São Paulo e Porto Alegre permaneceram
rigorosamente iguais. Os dados foram divulgados
na revista Mídia, Propaganda e Negócios
de janeiro/fevereiro e de março/abril de 1999.
Os donos dos
jornais sabem que é bem mais difícil mudar os
leitores, alguns até prefeririam importar
"exemplares suecos" (que estão entre
os que mais lêem jornais no mundo), mas isto
ficaria muito caro. O que parece estar fora de
propósito mesmo é mudar o perfil editorial
gráfico dos jornais. Conservadorismo ou
teimosia, o fato é que os jornais vão perdendo
leitores e os que consegue ganhar são atraídos
apenas pelos "brindes", colecionáveis
e outras ofertas e concursos. Muitos jornaleiros
comentam, estupefatos, que alguns leitores
compram o jornal mas só levam o
"brinde", por sinal, um diário de
Porto Alegre já está vendendo o seu
colecionável diretamente, sem necessidade de
adquirir o jornal. Mudaram de ramo (ou estão
mudando!).
No caso das Home
Page (ou da versão eletrônica ou ainda da
versão online dos diários) se reproduzem
vários problemas vividos pelo produto original,
o impresso, acrescido das dificuldades de
trabalhar com uma mídia diferenciada. Para
começar, os jornais que se auto intitulam online,
na maioria, não são. Isto é, a versão
eletrônica da publicação só é
disponibilizada de três a quatro horas após o
fechamento da impressa e, muitas vezes, é
liberada aos pedaços, a conta gotas.
Se uma das
principais vantagens da Internet é a sua
agilidade e a possibilidade de uma imediata
consulta ao que está ocorrendo (online),
qual o motivo para atrasar a oferta das
informações via Rede? Há um custo muito alto
poderão dizer alguns. Bem existem certos
investimentos a fazer, mas nada de tão grandioso
que não permita, pelo menos, disponibilizar os
textos dos repórteres já aprovados pelos
editores e, portanto, digitados no sistema.
Calcula-se que
até 2006 o número de pessoas conectadas à
Internet será superior ao de usuários de
telefone. Para 2003 é possível prever uma
movimentação financeira perto dos 3,2 trilhões
de Dólares em termos de comércio eletrônico.
São números nada desprezíveis, apesar da
projeção que aponta 300 milhões de pessoas
conectadas à Rede no ano 2000, o que representa
apenas 5% da população mundial. De qualquer
modo, estes internautas podem ser considerados
como uma camada privilegiada de consumidores com
poder aquisitivo e padrões de consumo acima da
média geral.
As pessoas que
estão pesquisando a Internet como fenômeno
social ou ainda como uma das principais
inovações tecnológicas da contemporaneidade,
têm apontado a necessidade de se investir numa
linguagem dirigida para o novo meio. Não se
trata da criação de mais um manual, uma nova
gramática do tipo "como escrever para a
Internet em 30 lições", pelo contrário. A
maioria das pessoas que estão se dedicando ao
estudo do impacto da Internet sobre a sociedade
se dão conta que o espaço possui
características específicas muito mais no plano
estético (como qualquer outra mídia) do que no
teórico.
A questão é
muito mais como apresentar a informação de
qualidade que possuímos do que como obter
beleza estética na apresentação do que temos
para oferecer. Em poucas palavras: não se
trata de "reinventar a roda". Mas não
se pode perder de vista que, em muitos casos, a
melhor solução é utilizar recursos antigos
reorientados para a comunicação em um novo
espaço.
Foi um pouco
nesta direção que o presidente da Intel
Corporation, Andy Grove, se manifestou aos
membros e da Sociedade Americana de Editores de
Jornais. Segundo ele os veículos estariam
sucumbindo à avalanche de informações
disponíveis na Internet. Os leitores/internautas
já possuem condições de produzirem os
próprios "furos jornalísticos"
através da crescente democratização do acesso
às fontes de informação. O presidente da Intel
acredita que a saída é concentrar esforços e
ampliar as coberturas
"interpretativas", onde os fatos são
trabalhados para que se mostre o contexto em que
eles ocorreram ou estão ocorrendo.
É bem possível
que os donos dos jornais não tenham gostado do
que ouviram, nem mesmo Andy Grove (caso fosse um
editor) gostaria de saber que (na interpretação
de um empresário da informática) precisará
investir ainda mais na qualidade profissional.
Andy ficou rico e poderoso vendendo o que se pode
chamar de capacidade artificial de processamento
de informações, os processadores, que em certa
escala substituem o trabalho humano e as despesas
sociais que eles acarretam.
Para os donos de
jornais não vai ser tão fácil. Como não
inventaram o repórter robô e, ao que tudo
indica, o super homem não existe, só resta a
eles investir na contratação de bons
profissionais que possam dar conta de
"interpretar" os fatos contemporâneos
e contextualizá-los. Este será o diferencial de
qualidade que não só os milhões de internautas
vão procurar, mas todos os membros da sociedade
que consomem jornalismo, seja impresso ou
eletrônico. Alguém pode dizer que isto é
excesso de otimismo. Bem, esperemos que não
seja.
* Toni
André Scharlau Vieira é nascido em Sapucaia do Sul, RS,
graduou-se em Comunicação Social -
habilitação em Jornalismo pela Universidade do Vale do
Rio do Sinos (Unisinos -
São Leopoldo, RS). Mestre e doutorando pela Escola de Comunicações
e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Leciona na Universidade Luterana do
Brasil (ULBRA - Canoas, RS)
como professor adjunto do Curso de Comunicação
Social. (Esta es su primera colaboración para Sala de Prensa.)
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