Revisão do livro /
Reseña
O
planeta mídia e a sociedade parabólica
Sergio
de Souza
Vivemos
em uma era da info-tele-computocracia onde um
novo jogo de saberes e relações produz sistemas
econômico-sociais muito singulares. As
relações entre o homem e seu entorno, por
exemplo -- outrora objeto das querelas de uma
filosofia da História --, foram reduzidas ao par
progresso-futuro fundado na militância
iluminista de que a concepção de Ciência deve
se restringir a um utilitarismo de resultados. É
bom observar que Marx, no Manifesto Comunista,
já assinalara que o pensamento burguês --
urdido nos propósitos da racionalidade
instrumental -- havia profanado os valores
éticos e engendrava um mercado que, em expansão
contínua, invadia todos os espaços geográficos
e culturais. Assim, as crenças do século XIX de
que o progresso material emanciparia o Humano e
de que a Razão iria liberar o pensamento de
qualquer obscurantismo transmutaram-se em
efetivos agentes da dominação. A essência
desta instrumentalização do progresso está
hoje espelhada na internacionalização crescente
dos aparatos tecnológicos, sobretudo os
compromissados com os sistemas informacionais e
de teletransmissão. Estamos, na verdade, em uma
civilização dos recursos técnico-operacionais
sob a condição imperativa da máxima
acumulação capitalista. E o senso comum vive
então o otimismo de um mundo orientado pela
ideologia da Grande Sociedade, organizada na
abundância e na livre-troca, ratificando a farsa
neoliberal do mundo único das múltiplas
oportunidades. As técnicas, a cultura
tecnológica e os modos de internacionalização
do capital nos colocam, agora mais do que antes,
frente a uma nova cartografia política.
O mais recente
livro de Dênis de Moraes, O Planeta Mídia:
tendências da comunicação na era global
(Letra Livre Editora, 1998), pretende refletir,
como pano de fundo, a essencialidade de tais
questões, mas também oferece ao leitor uma rica
investigação sobre os jogos de poder e as
relações de intimidade existentes entre os
pouco diferenciados senhores das enunciações
mediáticas. Aliás, como pesquisador sequioso de
ver reveladas as farsas montadas pelos novos
impérios da informação, Dênis já havia
observado, com preocupação, a multiplicação
das fusões e concentrações que subscrevem a
chamada sociedade da informação global. Na
coletânea de ensaios que organizou faz pouco
tempo, Globalização, mídia e cultura
contemporânea (Letra Livre Editora, 1997),
Dênis já antecipava que as profundas mutações
ocorridas nas infosociedades indicavam que a
sociedade tardocapitalista se reformulava para --
através das próteses produzidas pelo avanço
das tecnologias de teletransmissão -- otimizar
as suas performances sob o domínio do princípio
da velocidade. Princípio transformado que foi na
diretriz-chave da remuneração e acumulação do
capital. Agora, em O Planeta Mídia, o
autor retorna ao tema nos oferecendo um quase (o
princípio da velocidade altera a cada segundo a
face dos "territórios" diagnosticados)
completo mapa sobre a nova ordenação dos
setores tecnológicos -- informática, telefonia
e televisão -- que se amalgamam na multimídia e
na Internet. Essa mutação do capitalismo, a
logística das alianças, o modo como se pode
explorar o conhecimento e os embates competitivos
das empresas gigantes convertidas em
"senhoras do mundo" fazem dos nove
capítulos do livro, segmentados em duas partes,
um documento indispensável a qualquer leitor
desejoso de compreender o que se passa nas
esferas de um poder propalado como invisível.
Para tanto,
Dênis nos faz ver que os atuais
megaconglomerados se dispõem a nos arrastar para
uma enervante espiral de sobreinformação
produzida por empreendimentos comerciais que se
entrelaçam internacionalmente, ao ponto de
confundir cada um de nós e, portanto,
obscurecendo a análise crítica. "A
própria noção de informação", escreve
Dênis, "não se cinge mais à idéia de
notícia e embute concepções distintas:
informação de base (base de dados, acervos
digitais, arquivos multimídias), informação
cultural (filmes, vídeos, jornais, programas
televisivos, livros etc.) e know-how
(invenções, patentes, protótipos etc.)".
Vivemos, pois, numa complexa teia de relações
cuja trama está em produzir uma rede de fluxos
fundados em um conhecimento que só se torna
possível através das tecnologias da
informação. Estamos operando pela
externalidade, pelo outro maquínico, o que nos
obriga a repensar a própria natureza do saber
contemporâneo.
Ao encerrarmos a
leitura do livro de Dênis de Moraes, pelo qual
se constata que a oligopolização da mídia e a
concentração do entretenimento passam a ser os
norteadores da atual "sociedade
parabólica", fica uma grande indagação:
pode-se ainda estabelecer a sempre desejada
relação entre informação e objetividade num
mundo onde os conglomerados mediáticos nos
ofertam uma superabundância não controlada de
dados e imagens? O autor indica que as
desigualdades entre países industrializados,
emergentes e subdesenvolvidos determinarão uma
redefinição no interior das redes mundiais, com
evidentes ganhos para a questão democrática, e
que só através de efetivas pressões sociais
será possível o controle dos conglomerados
existentes. A solução está, pois, na
formulação de um novo projeto de luta política
que não nos deixe à sombra destes poderes tão
sedutores e persuasivos. Quem lutar poderá
então responder.
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