O
telejornalismo ao alcance de todos
Com a edição
digital não linear, a produção de
video-reportagens será tão fácil quanto, hoje,
a produção de reportagens em texto - para quem
souber fazer.
Nilson
Lage *
O
computador finalmente chegou à indústria da
televisão e, a começar pelos telejornais, deve
desempenhar aí o mesmo papel transformador que
teve na indústria de impressos. Estamos
estudando isso na Universidade Federal de Santa
Catarina e nossa estimativa é que, em poucos
anos, será mais fácil encontrar um cinegrafista
cego em um departamento de telejornalismo do que
um operador de mesa de edição.
Nos últimos 30
anos, uma revolução varreu os jornais.
Primeiro, com a combinação de equipamentos
óticos e impressão offset; depois com a
avassaladora entrada em cena dos computadores de
pequeno porte, desapareceu toda uma categoria de
trabalhadores com larga tradição os
gráficos.
Já há muito
não há mais linotipistas, que compunham as
linhas de chumbo-antimônio, uma a uma, na
estante de suas pesadas máquinas negras, para
montar as matrizes da matéria gráfica. Os
paginadores de rama, que dispunham os paquês em
blocos, entre brancos e fios das colunas,
desapareceram. Seus sucessores, que montavam provas
de papel couchê em folhas de pest-up,
tiveram existência efêmera.
Tudo agora se
faz em computador: a composição, a disposição
dos elementos gráficos, o tratamento e corte de
fotos. A facilidade operacional pode ter
sacrificado um pouco o produto: nem sempre os
editores têm o bom gosto detalhista dos
gráficos antigos, que executavam o layout
das páginas; nem sempre o texto dos repórteres
é cuidado com o zelo gramatical dos bons
revisores de outro tempo. Revisão em tela de
vídeo é sempre problema.
Mas nada disso
impediu a mudança, que teve muitas vantagens.
Pequenos jornais podem dispor agora de qualidade
gráfica comparável com os grandes e produtos
menos pretensiosos, como boletins e folders,
estão alcance de qualquer microempresa. A arte
gráfica é quase uma arte doméstica, onde tudo
aquilo que não é criação texto, coleta
de imagens e projeto visual tornou-se
automático.
É o que se
espera para a televisão ao menos, para o
telejornalismo.
A
mudança tecnológica
Sistemas
analógicos de edição de vídeo trabalham
copiando trechos da fita de take a
que foi gravada originalmente para a fita
de programa. Ilhas de edição convencionais são
compostas por dois gravadores: um, grava e
comanda a operação; o outro, subordinado ou
escravo, funciona como player.
Qualquer pessoa
que tenha trabalhado com uma ilha de edição
analógica sabe o quanto demora localizar a deixa
o ponto exato da fita de take em
que se quer iniciar a inserção. Por mais exata
que seja a marcação a decupagem
e por mais rápido que funcione o
equipamento o motorzinnho que gira a fita
são interrupções incômodas, porque
interferem na lógica humana de construção do
discurso visual, isto é, no imediatismo com que
imaginamos previamente como o vídeo será
estruturado.
Além disso, a
copiagem implica perda de qualidade da imagem,
que, na prática do telejornalismo, é mais
notável no caso de fitas em formato VHS ou
Super-VHS do que nas fitas Beta.
A edição
analógica parte do registro sobre uma base
a fita ou tape de movimentos
mecânicos ou sinais elétricos correspondentes
aos da informação original, da mesma forma que
a vibração da agulha representa e
permite reproduzir no fonógrafo a melodia
registrada nas ranhuras de um disco de vinil.
Somam-se, agora,
de três inovações:
- substituição
da informação analógica por
informação digital, isto é, do
registro mecânico ou elétrico por
valores expressos em números binários
ou bits, de modo que a
reprodução se faz a partir de uma
leitura que, nos discos rígidos usados
para gravação de vídeo, chega a mais
ou menos quatro megabytes milhões
de bytes, ou seqüências de oito bits
por segundo;
- a
não-linearidade, isto é, a
substituição das fitas, onde cada ponto
tem que ser buscado linearmente, por
outra base o disco digital, por
exemplo em que a localização é
imediata. Desaparece o tempo de espera
pela localização da deixa ou ponto de
inserção;
- o
processamento computacional da
informação numérica, tornada
possível pelo rápido desenvolvimento
dos microcomputadores. Isso era
simplesmente impensável há poucos anos,
quando a velocidade dos processadores
não passava de alguns megahertz, a
capacidade dos discos rígidos andava
pelos 20 ou 40 Megabytes e as telas mal
conseguiam reproduzir caracteres
bruxoleantes em fundo de fósforo verde.
Hoje, os processadores trabalham com
velocidades acima de 400 Megahertz (o
Pentium III, lançado recentemente com
vistas à produção multimídia, opera a
partir de 550 Megahertz), são comuns
discos rígidos com uma dezena ou mais de
gigabytes (bilhões de bytes) e um vídeo
comum atinge a definição de 1152 por
964 pontos, com cores verdadeiras
(true colors).
A
experiência da UFSC
Dispomos na
UFSC, há cerca de dois anos, de uma estação de
trabalho digital não-linear com programa Avid
montado em computador MacIntosh. O modelo é
antigo, mas corresponde aproximadamente ao atual
MCX-M4CRT, que é vendido por 50 mil dólares;
gera vídeos de excelente definição. Ele nos
chegou com recursos destinados a vídeos
educativos; ao contrário de utilizá-lo
essencialmente para pós-produção, como é
comum na indústria, passamos a editar toda nossa
produção nesse sistema. Isto significa que não
integramos a nova unidade com o processamento
analógico (em nosso caso, ilhas de ¾ de
polegada e Super-VHS), mas a utilizamos
independentemente.
De agosto de
1998 a fevereiro de 1999, produzimos,
exclusivamente nesse equipamento, um programa
diário de cinco minutos, veiculado pela TV
Cultura de Santa Catarina (que inicialmente
se chamava, com muito mais bom gosto, TV
Anhatomirim); cerca de 350 programas de um
minuto, da série "Minuto no Campus",
destinada aos intervalos da emissora; editamos o
programa inaugural, de perto de uma hora, e os
intervalos da TV UFSC, que opera por cabo
(Net), formando rede com a TV Senac;
toda a produção de vídeos do programa de
trabalhos de conclusão de curso ou Projetos
Experimentais; e mais vídeos de disciplinas de
graduação relacionadas com telejornalismo.
Ainda sobrou tempo para o treinamento operacional
de professores e estudantes.
Uma vantagem
evidente é a pouca manutenção exigida pelo
equipamento, embora o hardware seja
MacIntosh máquina para a qual, nas
condições brasileiras e numa cidade como
Florianópolis, o atendimento técnico é
precário e peças difíceis de conseguir.
Recentemente,
adquirimos outra ilha digital não-linear, com
programa Adobe Premiere montado em
microcomputador PC. Nossa intenção era,
essencialmente, produzir vídeos para a Internet
2, que começará a ser experimentada nos
próximos meses no circuito interno da
Universidade, em um programa liderado pelo
Departamento de Engenharia Elétrica, do qual
participa o Curso de Jornalismo.
Nossa
experiência, nesse campo, resulta do projeto
Universidade Aberta, site noticioso de
Internet (http://www.unaberta.ufsc.br/)
atualizado diariamente e que interrompeu suas
atividades em fevereiro de 1999, depois de mais
de um ano de atuação intensa (o projeto, que
inclui os programas de televisão, rádio e
impressos, existe há oito anos, coordenado pelo
Professor Doutor Eduardo Meditsch, e obteve, em
1998, o maior prêmio da última Expocom,
exposição de trabalhos de cursos de
comunicação) e deverá sofrer, agora,
reformulação, para adaptar-se à
disponibilidade de recursos.
As primeiras
experiências feitas com a nova unidade
demonstraram que ela é perfeitamente capaz de
produzir vídeos com qualidade compatível com o
formato DVCAM um pouco melhor do que o
SuperVHS , de toda sorte bastante para
satisfazer às exigências de qualidade de
emissoras que operam por cabo ou DHT (direct
home television).
A boa notícia
é seu custo: menos de cinco mil dólares
tão pouco que o player acoplado para
rodar as fitas de take é mais caro do que
a ilha de edição inteira.
Descrição
e possibilidades do sistema
Vamos concentrar
a descrição no sistema PC-Adobe Premiere. O
motivo da preferência é, a partir da nossa
realidade, um cálculo simples de
custo-benefício:
- os
computadores MacIntosh especializaram-se
em usos industriais e têm bom histórico
em matéria de processamento gráfico.
São, geralmente, preferidos da
indústria. O sistema montado em PC tem
as desvantagens do Windows, com seus
travamentos e avisos policiais de que tal
ou qual programa "realizou uma
operação ilegal e será fechado".
- a
diferença de custo, no entanto, é muito
grande. Um editor montado em equipamento
PC custa entre 4, 5 mil dólares
(qualidade Super VHS) e 25 mil dólares
(estação broadcast com qualidade
Betacam, compressão 3 por 1, para
programas de até 60 minutos), enquanto
sistemas Avid MacIntosh variam entre 40 e
70 mil dólares.
- esse
diferencial cresce quando se considera
que, com a rápida obsolescência, o
tempo útil de um computador não passa
de alguns anos. A superação
tecnológica implica substituição e,
portanto, novo investimento em prazo
curto.
- como a
tecnologia dos PCs é mais difundida e
universal, a facilidade de manutenção
torna-se fator relevante para a escolha.
Em qualquer parte na Universidade,
especificamente existem peças de
reposição, periféricos e
possibilidades de adaptação de placas e
dispositivos sobre a base existente, o
que, de certa forma, prolonga a vida do
equipamento. Pelo mesmo motivo, PCs podem
ser facilmente montados; isso dispensa a
necessidade de comprar a máquina pronta
e, ao mesmo tempo, impede as firmas
montadoras de exorbitar nos preços.
- Nas
condições universitárias, é possível
usar o computador para outros fins
editoração de texto, produção
gráfica etc., integrando laboratórios.
Não é tão fácil, nem tão barato,
fazer o mesmo com computadores MacIntosh.
Uma estação
editora consiste de um computador comum, com
processador de mais de 300 Megahertz (o ideal é
que tenha 400 Megahertz ou mais), 64 Megabytes,
monitor de 15 ou 20 polegadas. O que há de
específico nele é (1) a placa responsável, em
última instância, pela qualidade do produto.
Varia entre a qualidade Super VHS (a marca mais
conhecida é Miro, que custa, hoje, entre mil e
1.500 dólares), e a qualidade Betacam (a marca
mais conhecida é Targa e o preço de até sete
mil dólares); (2) um disco rígido suplementar,
SCSI (traz uma placa e oferece maior velocidade),
no qual se grava o programa. O outro disco pode
ser IDE ou Ultra DMA. No nosso caso, a capacidade
do disco SCSI é de 6,3 Megabytes; (3) o programa
de edição de som e imagem (Adobe Premiere 5.0
ou 6.0). O equipamento, como qualquer computador
doméstico, vem com CD-room 32-x, placa de
vídeo, placa controladora, teclado, mouse e
drive.
O conjunto que
temos é montado em um gabinete maior (full).
Aparentemente, a ventoinha da fonte não dá
conta do tamanho do gabinete; por esse motivo ou
por outro qualquer, o equipamento trava, às
vezes, quando instalado em ambiente sem ar
condicionado, mesmo no verão ameno de
Florianópolis.
Um dispositivo
interessante é a interface - que permite
transferir rapidamente a fita de take para
o disco rígido, facilitando a edição (sem a
chatíssima espera pela localização dos pontos
de deixa). Essa é uma das opções
a recomendável para a edição. A outra
é utilizar o gravador acoplado como escravo e ir
copiando a fita para o disco rígido à medida
que se edita o programa.
Perspectivas
técnicas
A edição
digital não-linear de vídeo já não é, em si,
novidade. Sua banalização é. Estimamos que,
dada a simplicidade do sistema e a tendência de
sua popularização, estará em pouco tempo ao
alcance de qualquer computador doméstico de novo
modelo, desde que se disponha do programa
mais ou menos como acontece com editoração de
produtos gráficos, tratamento de fotos ou
edição de som.
Os professores e
estudantes que trabalham com o programa de
edição principalmente no PC não
o consideram mais complicado do que um programa
de editoração ou de processamento de imagens
fixas. Ele efetua corte, fusão e, dependendo do
programa, qualquer outra operação; edita som
com elevado número de trilhas e sonoriza
programas.
Do ponto de
vista de sua adoção generalizada no meio
profissional, restam problemas relacionados a
três aspectos distintos:
- a esperteza
da indústria de equipamentos para vídeo
Trata-se de setor oligopolizado,
que não tem pressa em substituir as
fitas ou tapes. Os equipamentos
analógicos que fabrica são caríssimos:
um gravador-reprodutor pode custar mais
de 75 mil dólares e é só metade de uma
ilha de edição; uma câmara
profissional com gravador acoplado (camcorder)
chega a até 140 mil dólares. A
indústria abusa do rótulo digital, que
acrescenta a quase tudo que fabrica, sem
informar exatamente o quanto há de
digital na peça. A substituição dos tapes
por discos o qualquer outra base não
linear não apenas implicará a
obsolescência das ilhas analógicas como
permitirá, por vários motivos, custo
menor nas câmaras portáteis: elas são
fabricadas com maior definição prevendo
perdas na copiagem que deixarão de
existir; ficarão mais leves sem os
suportes para fitas etc. Uma série de
outros equipamentos auxiliares (mesas de
efeito, mixers, decodificadores,
geradores de caracteres etc.) terão que
ser reformulados, simplificados ou
deixarão de existir. Para se ter uma
idéia da grandeza dos custos envolvidos,
basta lembrar que a central de jornalismo
da Rede Globo, recém-inaugrada em
São Paulo, foi orçada, segundo a
emissora, em 150 milhões de dólares.
- a
resistência cultural da engenharia de
televisão Quer se trate de luta
pelo emprego ou de concepção estreita
de qualidade técnica, os técnicos
operacionais de TV olham com
desconfiança a informatização
não-linear da edição de vídeo. Da
mesma forma reagiram os projetistas
gráficos com as máquinas que tornaram
inúteis seus antigos cálculos em
unidades como cícero ou o pica;
muitos ainda resmungam diante de
procedimentos comuns, como a separação
automática de cores ou o espacejamento
automático de letras e linhas. No
entanto, a questão da qualidade e
praticidade tem que ser considerada em
conjunto com os fatores econômicos
e é aí que a mudança tem
sentido e urgência.
- As
condições peculiares da produção
jornalística Como a produção em
telejornalismo é centrada em eventos
reais dispensando, portanto, a
criação de ambientes e a direção e
atores , a participação do item
"equipamentos" é
percentualmente elevada. Trata-se de
produção constante, com o compromisso
de cobertura de áreas onde ocorre a
informação e que exige grande
mobilidade. Esse é o contexto ideal para
a generalização de hardwares de baixo
custo e softwares amigáveis, que é o
caso das tecnologias digitais
não-lineares. Em outras palavras: na
produção de um programa dramático ou
de um show, estimada em centenas de
milhares de dólares, é possível que
pese pouco o custo da parafernália
eletrônica envolvida. Mas isso não
ocorre, em regra, com o telejornalismo.
O
futuro do telejornalismo
Alongamo-nos na
questão tecnológica, entre outros motivos, por
acreditar que o jornalismo moderno não pode
ficar alheio a essa interface com algo que
termina condicionado o desempenho da profissão.
E há um aspecto fascinante: o das mudanças que
ocorrerão na organização e viabilidade do
trabalho por conta das facilidades de operação
da produção em vídeo.
Essa
banalização responde a um mercado que se tornou
fortemente comprador, graças à multiplicação
dos canais de TV a cabo e por satélite (DHTV);
à perspectiva de difusão da Internet 2, que
transita livremente do vídeo à imagem parada,
ao som e ao texto; e, em menor escala, à
proliferação de sistemas datashow,
circuitos fechados e redes de teleconferência.
O Núcleo de
Ensino à Distância da UFSC, vinculado ao
Departamento de Engenharia de Produção,
ministra, por exemplo, dezenas de cursos de
pós-graduação à distância, fortemente
apoiados em teleconferências (com suporte em
vídeos), Internet e outras mídia.
No caso do
jornalismo, abre-se a possibilidade de produção
diversificada, atendendo a novas demandas. Por
exemplo, por informação setorial especializada,
por assunto e por público. Ou pela
documentação de atividades para fim de registro
histórico, facilidade de intervenção futura
(suponhamos, para reparos e ampliação em obras
públicas) ou crítica técnica. Ou pelo registro
de fenômenos e eventos culturais ou
científicos, sejam eles formas de organização
social ou experiências de laboratório.
Existe a
possibilidade de que a produção de
tele-reportagens se distribua em centenas ou
milhares de pequenos produtores, isolados ou em
mini-equipes. A tendência atual, na tradição
do toiotismo, é que se condensem, numa mesma
pessoa, habilidades de cinegrafista, repórter e
editor. De qualquer forma, trabalhando só ou em
pequenas equipes, é provável que o jornalista
de TV se liberte de atual dependência de
emissoras e seus padrões de produção
rotineiros, abrindo novas perspectivas
profissionais.
Como isso vai
acontecer (e se vai) os aspectos éticos,
técnicos, de organização do trabalho, de
ergonomia, de formação profissional etc.
envolvidos na questão é que são objeto
principal da linha de estudos que estamos
iniciando. Dois professores da área de
telejornalismo da UFSC Fernando Antônio
Crocomo e Áureo Mafra de Moraes, ambos com boa
experiência na área planejam fazer desse
tema o ponto central de seus projetos individuais
de mestrado no programa de Pós-graduação em
Engenharia de Produção Área de Mídia e
Conhecimento. E nos propomos a orientá-los,
acreditando que suas conclusões significarão um
passo adiante nas pesquisas de Jornalismo
voltadas para o profissional e, em sentido amplo,
para a empresa brasileira.
*
Nilson Lage es un veterano periodista
brasileño que ha pasado por importantes puestos
en la prensa de su país; actualmente es
profesor-investigador de la Universidade Federal de
Santa Catarina (UFSC). Esta es su
primera colaboración para Sala de Prensa.
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