A ouvidoria
de imprensa no Brasil
Jairo
Faria Mendes *
Os
profissionais responsáveis por ouvir o público
e criticar os meios de comunicação, no Brasil,
são denominados ombudsmans. A mídia brasileira
segue o modelo do ombudsman norte-americano, que
tem seu melhor exemplo no diário The Washington
Post. Por isso, adotou o nome
"ombudsman", tão pouco sonoro, e que
até hoje causa muita estranheza no público
brasileiro, em vez de outras nomeclaturas como
"defensor do leitor", "provedor
dos leitores" e "mediador",
utilizadas em outros países.
No modelo
norte-americano, o ombudsman tem um papel muito
crítico, criando uma polaridade entre
público-jornalistas. A fiscalização e a
denúncia são muito valorizadas, e o ombudsman
se coloca como um advogado do cidadão. Já nos
outros dois principais modelos, o francês(
mediador) e o japonês( comitês de atendimento
aos leitores), evita-se criar essa relação de
conflito entre público e profissional de
imprensa. Ao contrário, busca-se uma relação
de harmonia entre esses dois personagens do
processo comunicativo mediático.
As várias tentativas
No Brasil, houve
algumas experiências de ombudsmans em meios de
comunicação, mas a maioria teve vida curta. O
jornal pioneiro foi a Folha de S. Paulo, em 1989,
e até hoje é a grande referência para se
discutir o trabalho do ombudsman de imprensa no
país.
Depois da
iniciativa da Folha de S. Paulo, inúmeros meios
de comunicação adotaram a função, como os
jornais Folha da Tarde(SP), A Notícia
Capital(SC), O Povo(CE), Folha do Povo(MS),
Diário do Povo(Campinas-SP) e Correio da
Paraíba(PB); a revistas Imprensa; as rádios
Bandeirantes(SP) e O Povo AM(CE); a PUC TV(MG) e
Agência Nacional(propriedade do Governo
Federal). Alguns jornais-laboratório de cursos
de Jornalismo também criaram o cargo, e
trouxeram um grande exemplo para a mídia
brasileira, como o Campus(UnB), o
Entrevista(Universidade Católica de Santos) e o
Portal(PUCMinas/Arcos).
Folha de S. Paulo
A criação do
cargo nesse jornal foi o resultado de um longo
processo. A decisão de implantar a função
surgiu por o diário espanhol El País (que era
considerado como um modelo de jornalismo para a
Folha) ter nomeado um "defensor del
lector". Em 1986, uma sala na redação do
jornal trazia a inscrição
"ombudsman", mas só em 1989 Caio
Túlio Costa foi empossado como o primeiro
ouvidor de imprensa do Brasil.
A demora da
nomeação do ombudsman ocorreu por que o jornal
teve muita dificuldade em encontrar algum
jornalista que fosse bastante corajoso para a
assumir a função. Grandes jornalistas
brasileiros recusaram a oferta, como: Luís
Nassif, Joemir Beting, Carlos Eduardo Lins da
Silva e Augusto Nunes. Até que, ironicamente, um
jornalista propôs o nome do secretário de
redação Caio Túlio, que era considerado
genioso e agressivo. "Ele tem um enorme
talento para prever problemas, mas exercia essa
capacidade de um jeito extremamente antipático,
sempre provocativo, a tal ponto que, quando
irritado, chegava a ser violento."(OLIVEIRA
SANTOS: 2000)
E foi só
alguém com esse perfil tão pouco afável que
possibilitou a experiência inovadora do
ombudsman no Brasil. Caio Túlio tem sido
considerado por muitos como o melhor ombudsman da
história da imprensa brasileira. Em seu mandato,
ele trouxe importantes críticas e reflexões
sobre o jornalismo brasileiro, e, por isso, foi
vítima de violentos ataques.
Depois dele
passaram vários outros jornalistas pela
função, mas algumas vezes a direção do jornal
teve novamente dificuldade de encontrar
profissionais que aceitassem assumir o cargo. A
partir da Folha de S. Paulo surgiram várias
outras experiências de ouvidoria de imprensa,
sendo a que mais se destacou a do jornal O
Povo(CE).
O Povo
No Brasil,
somente três experiências de ombudsman podem
ser chamadas de consolidadas, com caráter
duradouro, são a da Folha de S. Paulo, do
diário O Povo e da rádio O Povo. Os outros
meios de comunicação que investiram na
criação do cargo não o mantiveram por muito
tempo.
O ombudsman foi
implantado em 1994 em O Povo, e teve a frente a
jornalista Adísia Sá, que se tornou uma
referência para todos aqueles que querem
discutir a função no Brasil. A implantação
seguiu o modelo da Folha de S. Paulo, e passaram
pelo cargo ombudsmans bastante críticos, como
Lira Neto.
Os ouvidores de
O Povo trouxeram importantes análises e fizeram
denúncias e críticas fortes, que serviram para
trazer maior transparência ao periódico. No
entanto, foram alvos de muitas pressões. Lira
Neto, por exemplo, sofreu uma campanha de seus
colegas de redação que fizeram um
abaixo-assinado em solidariedade de um jornalista
que havia sido criticado pelo ombudsman.
Adísia Sá
recebeu retaliações mais fortes ainda. Ela foi
vítima de um atentado em que jogaram ácido no
seu veículo. Mas o pior foram as ameaças,
Adísia recebeu telefonemas assustadores como:
"vai explodir uma bomba em seu
prédio...", "cuidado você vai ser
atropelada...", "seu carro vai pegar
fogo...".
A rádio O Povo,
da empresa proprietária do jornal que tem o
mesmo nome, também teve uma experiência de
ombudsman enriquecedora. Foi a segunda rádio
brasileira com ombudsman, a primeira foi a rádio
Bandeirantes, que também investiu bastante na
função, mas acabou extinguindo o cargo, em
1998, quando o então ouvidor de imprensa recebeu
uma boa proposta de trabalho e saiu da emissora.
A crítica
pública é feita na rádio O Povo é através de
um programa de 30 minutos chamado "Com a
palavra o ouvinte". No programa não só o
ouvidor fala, também opinam o editor executivo,
o âncora do horário e pessoas convidadas.
Revista Imprensa
A revista
Imprensa, uma publicação mensal especializada
em jornalismo, criou a figura do
leitor/ombudsman. O primeiro a ocupar o cargo foi
Juvêncio Mazzarollo, em outubro de 2000. Em sua
primeira coluna ele descreveu o motivo por que
foi convidado.
Mazzarollo havia
enviado um e-mail para a revista reclamando de
erros gramaticais na publicação. O então
editor Tão Gomes Pinto respondeu agressivamente
às críticas: "Eu aqui preocupado com os
destinos da humanidade e da civilização
ocidental, fazendo o diabo para manter a revista
em pé, e vem esse cara falar de vírgula e
crase!?". Mas, depois, o editor voltou
atrás, aceitou as críticas, e chamou esse
leitor para ser ombudsman da revista.
O sucessor de
Mazzarollo no cargo foi o próprio Tão Gomes,
que criou o Caderno do Ombudsman, com oito
páginas, em que fazia uma ampla análise da
mídia. No entanto, na edição de junho de 2002,
a revista informava que o então ombudsman estava
abandonando o cargo para trabalhar em uma
campanha eleitoral, e a função foi extinta.
Os pequenos
Quase todos os
meios de comunicação brasileiros se recusaram a
adotar ombudsmans, mas alguns pequenos jornais
deram exemplo de cidadania mostrando que
"tamanho não é documento"(expressão
popular utilizada no país). São exemplos disso
jornais de cidades de porte médio ou pequeno:
como o Nosso Bairro (Campos RJ) e o
Pergaminho (Formiga MG).
Alguns
jornais-laboratório também têm criado o cargo,
buscando conscientizar os estudantes de
jornalismo da importância de meios de
comunicação mais democráticos. Em alguns casos
a função é ocupada por um professor( como no
jornal Entrevista, da Universidade Católica de
Santos), outros por alunos( como o Portal, da
PUCMinas/Arcos, e o Campus, da Universidade de
Brasília.
A experiência
nos jornais-laboratório contribui para a
reflexão sobre o trabalho do ombudsman. Tenho
proposto que é necessário criar projetos de
ombudsmans adaptados às características e o
papel social de cada mídia. Considero que meios
de comunicação populares, estudantis,
comunitários, ecológicos, precisam de
ouvidorias que respeitem suas especificidades.
A linguagem
O texto do
ombudsman apresenta um grande desvio com
relação aos padrões jornalísticos. Uma
análise feita por mim, em colunas publicadas na
Folha de S. Paulo, mostrou que estratégias
proibidas nos demais textos jornalísticos, como
o uso da primeira e segunda pessoa, e o pronome
de tratamento "você" são utilizadas
em grande quantidade nos textos do ombudsman.
Ficou bem claro
com a análise, que o ombudsman tenta criar uma
relação de proximidade com os leitores, e de
distanciamento com os jornalistas.
As colunas de
ombudsman também são muito bem-humoradas e
possuem um texto bem dinâmico(com o uso
constante de frases curtas, trocadilhos,...). Na
coluna de 29/12/96, por exemplo, o ombudsman
Marcelo Leite fala do adiamento da transmissão
de seu cargo para outro profissional de forma bem
irônica: "A alforria fica adiada por
três ou quatro semanas..."
Mas a
característica mais importante do discurso do
ombudsman é o uso de várias estratégias
buscando estimular o diálogo com os leitores.
Para criar uma relação de proximidade com o
público o ombudsman chama diretamente o leitor
para o diálogo. Para isso, ele utiliza a palavra
leitor com uma função semelhante a de um
vocativo. "Chamo a atenção do leitor
para..."(FSP, 3/3/96). Outras vezes o leitor
aparece como "personagem principal".
"O leitor foi teletransportado de um
mundo povoado de anões morais para a imensidão
do cosmos"(FSP, 8/12/96).
Procurando criar
uma relação de identificação com o público
algumas vezes o ombudsman se apresenta como
leitor. "Como leitor, quero saber a
quem interessa..."(FSP, 26/5/96). Também é
interessante observar que ele prefere utilizar o
singular(leitor) para se referir ao público. Ao
usar o singular, é como se ele estivesse falando
particularmente a cada um de nós.
Além da palavra
leitor, o ombudsman algumas vezes utiliza a
segunda pessoa, um recurso mais forte para criar
uma relação íntima com o público(considerando
"você" como um pronome de segunda
pessoa, e não um pronome de tratamento).
"Se você só lê a
Folha..."(FSP, 22/12/96). Outras vezes o
ombudsman faz perguntas ao leitor, uma forma de
estimulá-lo a participar de um diálogo.
"De que lado você está?"(FSP,
11/2/96)
Buscando criar
uma relação informal com o público, ele
utiliza muito a primeira pessoa. "Quando
escrevi a coluna..."(FSP, 29/12/96). Em
algumas situações, o ombudsman se apresenta de
forma bem humilde, deixando claro que suas
opiniões não são inquestionáveis. "Não
tenho competência nem ânimo para
interpretar..."(FSP, 29/12/96). Esta postura
deixa os leitores mais a vontade para o
procurarem.
Com os
jornalistas o ombudsman também dialoga. No
entanto, ao contrário do que ocorre com os
leitores, a interlocução com os profissionais
de imprensa é conflituosa. O "representante
do leitor" descreve os jornalistas como
profissionais sem ética e incompetentes. Nas
colunas analisadas eles são chamados de
"ingênuos", "ignorantes",
"insistentes"(chatos),
"mórbidos", "complicados",
"desconhecedores das normas
gramaticais", "oportunistas",
"incompetentes",
"desrespeitadores", entre outras
coisas.
* Jairo
Faria Mendes é
Doutorando em Comunicação Social pela Universidade Metodista
de São Paulo, e Mestre em
Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro. Ele é
autor do livro "O ombudsman e o
leitor"( Ed. O Lutador, 2002), e
administrador do sítio www.ombudsmaneoleitor.com.br. Também é professor e pesquisador da PUCMinas/Arcos. Esta es su primera colaboración para Sala de Prensa.
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