Elementos
para compreender
o jornalismo informativo
Rosa
Nívea Pedroso *
RESUMO:
Este ensaio faz uma reflexão sobre os
conceitos de jornalismo e de notícia e
seus efeitos de sentido. Tem como
objetivo entender o processo de
produção de sentido no jornalismo
informativo. ABSTRACT: This essay
presents an analysis about journalism and
news concepts and also about news meaning
effects. It tries to understand the
meaning production process which takes
place in the informative journalism. RESUMEN:
Este ensayo hace una reflexión sobre los
conceptos de periodismo y de noticia y
sus efectos de sentido. Tiene como
objetivo entender el proceso de
producción de sentido en el periodismo
informativo.
1.
PARA INICIAR: UMA ATIVIDADE COMPLEXA
A
idéia deste ensaio é de situar o jornalismo
como atividade. O jornalismo como uma
atividade que transforma o acontecimento em
notícia (e a notícia em meta-acontecimento,
isto é, o fato reacontece ao ser
relatado/narrado. Reacontece de acordo com as
leis do mundo simbólico), em reportagem, em
entrevista, em artigo, em fotonotícia , em
fotorreportagem, em infografia. Isto é,
transforma o acontecimento do mundo natural ou do
mundo simbólico em acontecimento
jornalístico, entendido como acontecimento
do gênero informativo(notícia, entrevista), do
gênero interpretativo (reportagem), do gênero
de opinião (artigo e editorial) e do gênero
ilustrativo (fotonotícia, fotorreportagem,
infografia). A essa atividade chamamos de atividade
de transformação informativa. Então
definiríamos, primeiramente, o jornalismo como
uma atividade de transformação informativa.
2.
A IDEOLOGIA DA NOTÍCIA NA PRODUÇÃO DE SENTIDO
E DE TEXTO
O jornalismo
como uma atividade de transformação informativa
possui uma dimensão prática e comunicativa(lingüística).
Prática no sentido de ser uma atividade
racional, empresarial e industrial rigorosamente
periódica, regular, repetitiva (controlada,
definida pelas rotinas de produção).
Comunicativa porque é naturalmente humana,
social, ideológica e efemêra, isto é, mediada
pelo sujeito da produção e da
interpretação(indivíduo, empresa e suas
relações, interesses e valores individuais,
corporativos e empresariais).
Essa atividade
comunicativa é traduzida também pela função
histórica de informar (opinar e
interpretar), educar e entreter. Informar
no sentido de tornar público e de interpretar
aquilo que acontece (e se conhece) na Sociedade. In-formar
seria também como dar forma à realidade
circundante, organizando-a, interpretando-a .
Educar no sentido de que toda informação é
cultura. Educa-se, civiliza-se pela
informação. Entreter no sentido de
apresentar a realidade de forma amena,
prazeirosa, glamurosa ou espetacular. O caráter
de show e de espetáculo no jornalismo avaliamos
como uma distorção e/ou aberração da função
de entretenimento.
O jornalismo
como atividade intrinsicamente humana, social
e ideológica ( por isso subjetiva,
arbitrária e coletiva) transforma a
realidade apreensível em relato. Então, para
nós, toda concepção sobre o jornalismo passa
por essas duas dimensões inseparáveis de
atividade e de relato. Pois, o jornalismo é,
em primeira e última instância, uma
atividade de produção incessante de sentido e
de texto. É uma atividade ininterrupta de
tessitura de texto (para ser lido, ouvido, visto,
visto-e-ouvido).
Vamos brevemente
refletir neste ensaio sobre a natureza do relato
no jornalismo. Que relato seria esse? De acordo
com a ideologia da noticia seria um relato
efêmero, imediato, inesperado, relevante e
superficial. A notícia está centrada sobre o
factual, é sempre um relato superficial e
singular sobre a realidade. Cabe à reportagem o
relato da problemática, da particularização e
da contextualização dos acontecimentos.É
pertinente à reportagem (e ao livro-reportagem)
a ampliação-e-particularização do relato.
Poderíamos
dizer também que esses relatos (superficiais e
ampliados) se transformariam em conhecimentos
típicos sobre a realidade. A realidade seria
conhecida dominantemente de forma singular e
secundariamente de forma particular (pois o
conhecimento típico da reportagem demanda mais
tempo, mais espaço e mais gastos na sua
produção). É próprio da natureza da notícia
produzir um conhecimento superficial sobre a
realidade. A identidade com o efêmero e o
imediato constitui a ideologia da notícia. O
jornalismo existe como notícia e a notícia
constitui a existência do jornalismo.
Mas o jornalismo
como uma atividade empresarial e industrial
reflete uma relativa racionalidade no seu fazer
periódico, no sentido de diminuir o grau de
incertezas (erros e críticas) acerca dos
procedimentos de acesso aos fatos e da
conseqüente produção , reprodução e
transformação dos fatos inesperados e previstos
(isto é, dos fatos importantes e dos fatos
inusitados (ou de interesse humano ou do
interesse do público).
O jornalismo se
faz com fatos, fontes (críveis e oficiais),
citações(depoimentos) e senso crítico. E esse
fazer reproduz a dimensão social do interesse
comum da Sociedade. O jornalismo pode ainda ser
entendido como um sistema de reprodução simbólica
do Estado, do Capital, do Mercado, da Cultura (do
Povo) e dos Partidos Políticos. Essa
reprodução simbólica do caráter
social/coletivo da Nação apresenta-se
cristalizada no tipo de conteúdo
produzido e veiculado. O jornalismo diário e
semanal de prestígio constrói um conteúdo
reconhecido na recepção como político e
econômico, isto é, que se refere às esferas
políticas e econômicas dominantes da Sociedade.
Esse conteúdo prioritariamente do campo
político e econômico produz um efeito de
diversidade mostrando a variedade, diversidade,
complexidade, multiplicidade do mundo econômico,
social e cultural porque reflete/ mostra a
dinâmica da vida produzindo um efeito de
familiaridade porque sempre refere-se às
mutabilidades do mundo real, visível,
verificável (nas ruas, nos shoppings, nos
noticiários, nas coisas, nas pessoas, nas
vitrines).
O jornalismo
seria uma forma de representação simbólica
da diversidade complexa do mundo real.
Realmente em uma só edição de um jornal
diário ou de uma revista semanal de
informação, ou de um telejornal ou de um
radiojornal apresenta uma multiplicidade de
assuntos e problemáticas que se referem à
dinâmica da vida cotidiana dos Cidadãos. Essa
representação do dinamismo da vida em sociedade
possui uma sintaxe que se entrecruza entre a
ideologia da notícia e a ideologia da
publicidade porque visa um destino certo a
opinião pública, isto é, o
cidadão/leitor/telespectador/ouvinte (isto é,
audiência) que se transforma em consumidor de
alienações e de necessidades criadas. Esse
efeito de variedade, na verdade, refere-se apenas
aos discursos do mundo dominante, do poder
político e econômico hegemônicos. E o
jornalismo é o modo e a prática de
representação simbólica dos poderes sociais
instituídos legitima e hegemonicamente.
Essa rede de
sentidos entre notícia, publicidade e poder vai
constituir as relações ideológicas/simbólicas
entre jornalismo e verdade, jornalismo e
realidade e entre mundo natural e mundo
simbólico. Isto é, o entrecruzamento entre
ideologia dominante e mundo dos fatos. Esse
processo de produção faz da notícia um
produto cultural, ideológico, subjetivo,
coletivo e arbitrário.
O jornalismo
como uma atividade técnica e empresarial
coleta, seleciona, organiza, hierarquiza e
apresenta informações e imagens, entendidas
pelos editores, como socialmente relevantes. Esse
trabalho de preenchimento lingüístico e
ideológico no tempo e no espaço jornalísticos,
no entanto, pode ser traduzido como um forma
especial e específica de organização, própria
do jornalismo que poderíamos chamar de um trabalho
essencialmente subjetivo e arbitrário de
hierarquização. Hierarquização das
informações (e das imagens) no texto, nos
títulos, na página, na tela e etc.
O jornalismo
como atividade de natureza informativa faz da exatidão
a sua qualidade essencial, juntamente com a
agilidade. Agilidade em fazer o produto mais
informativo e mais reduzido e fragmentado (
reproduzindo a ideologia da alienação e do
consumismo traduzida pelo enunciado repetido nas
redações e nos cursos de jornalismo de que o
leitor pós-moderno não lê mais que 20 linhas)
ou mais analítico (contextualizado e rigoroso)
no menor tempo possível. Essas duas qualidades exatidão
e agilidade compõem o
sentimento/reconhecimento de credibilidade do
meio informativo.
Ainda como
atividade informativa, o jornalismo
trabalha com matérias-prima de duas naturezas:
matéria-prima objetiva (fatos, dados, fontes,
declarações) e matéria-prima subjetiva
(conceitos, idéias, versões, isto é, aquilo
que irá se constituir em opinião, versão,
ideologia, verdade, realidade. Que irá se
constituir em conteúdo da notícia, da
reportagem, da entrevista, do artigo).A notícia,
entendida como aquilo que foi
divulgado/publicado, envolve relações entre
fatos e valores, entre fatos, pessoas e idéias.
Artisticamente (
através das imagens e enredos do cinema), o
jornalismo é representado como uma atividade
heróica. A notícia é mostrada como resultado
de um homem só (ou de uma dupla). Mas, como
atividade institucional e empresarial,
sabemos que o jornalismo é uma atividade individual
em primeira instância e coletiva em
última instância. O sujeito da notícia implica
nas questões relativas ao indivíduo , à
corporação e às relações que se estabelecem
no meio social.
Múltiplas
determinações atravessam o produto/resultado
notícia. Determinações individuais e
profissionais, determinações organizacionais,
institucionais e sociais ao mesmo tempo. Neste
composto, atravessam-se as influências
ideológicas do meio informativo como
organização, as influências pessoais dos
jornalistas, dos editores, dos anunciantes e do
mercado (mercado também entendido como opinião
pública produzida/audiência/tiragem).
O jornalismo
como atividade informativa tem a
atribuição de interpretar a realidade, para
isto se vale de uma relativa racionalidade
através da aplicação de rotinas produtivas,
profissionais e ideológicas que se traduzem na
intenção de separar informação de opinião,
fatos de sentimentos, realidade de imaginação,
fantasia, desejo e ficção.
Então, o
jornalismo ético tem como princípio a busca da
exatidão (exatidão significa verdade para o
jornalismo) e da realidade, a busca do interesse
social, a revelação dos conflitos e o
distanciamento dos interesses parciais. No
entanto, esses pressupostos éticos realizam um
movimento pendular do jornalismo ora entre senso
comum e senso crítico, formando o fermento da
coesão social e, por conseguinte, garantindo o
status quo. E ora entre superficialidade,
efemeridade, alienação e consciência crítica.
Esse movimento pendular realiza uma síntese
social ( resultado de múltiplas determinações
profissionais, organizacionais e sociais) que
projeta e constitui o sentimento comum, o senso
comum e diz daquilo que todos já pressupõem: o
efeito de dejà-vi em algum lugar, em
algum momento.
O jornalismo
informativo atual não se constitui como uma
atividade simbólica transformadora, libertária
mas conservadora, reparadora e confirmadora dos
ideais capitalistas.Assim que o jornalismo vai
diferir da publicidade por não buscar interesses
totalitários, através do convencimento, da
sedução e do simulacro. Vai diferir das
relações públicas por não buscar interesses
particulares, por não ocultar a verdade, por
não amenizar conflitos e por não se reduzir ao
discurso da boa vizinhança. Apesar dos três,
jornalismo, publicidade e relações públicas,
estarem a serviço da coesão social e da coesão
do capital.
A rotina
profissional de coleta, seleção,
hierarquização e apresentação constituem o
continuum no processo de produção da notícia.
Sem notícias não existem narrativas sobre a
realidade, sobre o cotidiano, sobre o mundo. As
notícias são as narrativas efêmeras e
superficiais , as representações simbólicas
do mundo pós-moderno eletronicamente interligado
pela televisão via satélite e pela rede de
computadores (internet).
Exatidão,
correção, concisão, clareza e atualidade com
agilidade constituem as qualidades essenciais do
processo produtivo informativo rotineiro do texto
jornalístico. Esse processo, no entanto, contém
em si o seu reverso quando se dirige a outros
modos de produção, a outros modos de tratamento
e divulgação da informação. Isto é, quando
existe a intencionalidade de atingir a massa ou
de entreter as audiências/públicos os efeitos
de sentido ao invés de apontarem para a
exatidão e para o equilíbrio editoriais, podem
apontar para a inexatidão, imprecisão,
distorção, denuncismo, sensacionalismo,
morbidez, preconceito, estereotipação,
caricaturização ou escracho.
Exatidão,
correção e equilíbrio apontam para a
produção de sentidos lingüísticos apropriados
e adequados e não impróprios, inadequados e
incorretos, isto é, indicam uma intencionalidade
informativa que produz um efeito de
distanciamento em relação aos fatos e às
fontes. A exatidão e a correção indicam
também uma intencionalidade positiva para o
bom senso e não para a exacerbação ou
exagero. Dependendo da intenção editorial
, os efeitos de produção podem ainda apontar
para a concisão ou para a superficialidade, para
a descontextualização ou fragmentação. Ou
podem apontar para a atualidade ou para o
oportunismo, espetacularização, frivolidade ou
entretenimento. Ou podem apontar para a clareza
ou para o pedantismo ou subestimação, para o
reducionismo ou generalização. Entendemos aqui
que simplicidade não é simplificação.
As fontes, o
conteúdo e o significado social dos
acontecimentos, a audiência (opinião pública
ou mercado?) e o jogo de interesses de
jornalistas, editores, anunciantes e
proprietários constituem-se no que denominamos
como condições de seleção e de hierarquização
no jornalismo. Seleciona-se e hierarquiza-se
por interesses e por importâncias a priori
subentendidas, preestabelecidas, instituídas ou
apreendidas. As condições de seleção,
hierarquização e de existência no jornalismo
estabelecem-se a priori.
A seleção é
definida pelo conjunto de critérios individuais,
profissionais, organizacionais, políticos e de
mercado. Da convergência desse conjunto de
critérios é que são estabelecidas as políticas
informativas, editoriais e de mercado
(audiência). As políticas de mercado referem-se
basicamente aos grandes temas para atrair
público (audiência, tiragem, venda de
dicionários, enciclopédias, mapas, panelas
etc). Chamar público, atrair público tem uma
intenção mais profunda: a de afetar,
influenciar, formar a opinião pública, isto é,
o que chamamos de efeitos cognitivos que são
condições de predisposição favoráveis às
campanhas de agendamento (ou desagendamento) de
idéias e opiniões promovidas pelo jornalismo de
marketing.
2.1
IDEOLOGIA DO OBJETIVISMO INFORMATIVO
A notícia
supõe objetividade, primazia dos fatos, fontes e
declarações. Supõe primazia da informação
sobre o estilo. A reportagem entendida como o
reverso do noticiarismo supõe informação e
originalidade. Originalidade supõe estilo,
supõe interpretação, impregnação do
sujeito. Aqui não estamos nos referindo às
reportagens informativas (de fatos e
citações).O articulismo é o reverso do
jornalismo informativo, postula explicitamente a
subjetividade sobre a informação. Os
editoriais, por exemplo, postulam apenas a
subjetividade da organização (e das
instituições socialmente legitimadas) e dos
interesses políticos e econômicos hegemônicos.
Subjetividade editorial em jornalismo hoje
significa a consagração da lógica hegemônica
do mercado.
Objetividade
para o jornalismo não é só a capacidade de
permanecer impessoal diante de ações e
decisões imediatas mas é também os métodos de
trabalho,os procedimentos operativos,
estratégicos, impessoais, ritualizados para
minimizar as incertezas impostas pelos prazos de
fechamento da edição, pelos acontecimentos
imprevistos, pelos desmentidos e etc.
Esses
procedimentos objetivos Gaye Tuchman (1993,p.74)
os denominou de "rituais estratégicos"
de proteção contra erros, críticas, processos
(e falsidades). Então, pode-se entender a
objetividade como invocação da perspicácia
profissional que alerta para o distanciamento
entre jornalista e fatos, jornalista e fontes (e
versões). Proximidade demasiada significa correr
riscos do ocultamento de interesses (pessoais,
organizacionais e institucionais).
Gaye Tuchman (
1993, p.90) também refere-se à objetividade
como "atributos formais"da notícia e
do meio (jornal, revista, rádio, televisão,
internet). Atributos esses que se referem ao
manejo apropriado de estratégias profissionais
de defesa tais como: apresentação de fontes,
provas, citações (uso de aspas ou do discurso
indireto); hierarquização das informações e a
separação formal e textual entre informação e
opinião.
O objetivismo,
portanto, é o discurso que vai marcar o
noticiarismo pela ênfase nas fontes, citações
e provas, ocultando assim o
sujeito-redator-jornalista. O objetivismo oculta
que o jornalista fala pelos fatos (no sentido de
que faz a medição entre fatos e público). Ele,
jornalista, é responsável pelo título, pelo
lead, pelo enfoque, pelas citações e por todas
as escolhas feitas (e difundidas):"O
jornalista tem um papel social institucionalizado
e legitimado na transmissão do saber cotidiano e
como tradutor do saber dos especialistas para o
grande público"(Alsina, 1996).
Em suma, a
reificação da objetividade na prática
informativa reverte-se em "instrumento de
descrédito e um meio do jornalista fazer passar
a sua opinião"(Tuchman, 1983). Além de dar
a entender ao leitor que fatos e versões são
convincentes e definitivos. Escolhas e seleções
que se naturalizam na página do jornal, na tela
do computador. Por isso, o senso comum é uma
noção-chave no jornalismo pois ele constitui
"um convite à percepção seletiva". O
senso comum entendido como "base de
avaliação do conteúdo noticioso"
determinando se uma "informação pode ser
aceita como fato".
Vemos assim que
objetividade (aqui entendida como uso do senso
comum) é uma "noção operativa".
Exclusivamente pragmática. Primeiro: para
reduzir o grau de incertezas e de imprevistos nas
rotinas da profissão. Segundo: para demonstrar
que "eu sou objetivo porque usei aspas"
que "separo aquilo que penso daquilo que
relato". O noticiarista não reflete sobre
os fatos. A notícia não é uma reflexão sobre
os fatos.
2.2 EVIDENTE
INTENÇÃO DE INFORMAR
As
especificidades do jornalismo informativo se
constituem entre o estilo direto e as
estratégias operacionais e rotineiras sobre as
pressões dos imprevistos e dos prazos de tempo
de edição e de fechamento. O jornalista opta
por um tipo de postura profissional: a do
"distanciamento crítico"(Brecht).
O jornalismo
informativo (e de análise) contempla e reproduz
a visão dominante sobre a sociedade. A
intenção de isenção que caracteriza o
jornalismo de elite não visa a transformação
da sociedade mas a legitimação da dominação
cultural ( e econômica). Visa formar uma
consciência coletiva homogênea (como se isso
fosse possível) através do ideal do jornalismo
de democratização da informação. A posse da
informação, decorrente do conhecimento da
informação só aparentemente reflete uma
disposição crítica porque o pressuposto da
produção industrial é não fazer uma forma
engajada de jornalismo (nem de Comunicação).
A intenção de
isenção e a "atitude psicológica
informativa" (Suarez,1988) qualificam o
noticiarismo como relato inteligível voltado
simplesmente para a divulgação
(comunicação?).No entanto, é preciso
reconhecer que é possível encontrar na
reportagem uma forma engajada de fazer
jornalismo. A reportagem seria uma espécie de
reduto onde sobrevive o espírito de aventura do
jornalismo político e ideológico.Reportagem
entendida como gênero jornalístico
informativo-intepretativo prima pelo
estabelecimento de conexões e articulações
entre fatos, acontecimentos, fontes e
informações. Como gênero que opta pelos
processos complexos e contraditórios de ver o
mundo dos fatos, a reportagem reflete uma disposição
psicológica crítica.
No articulismo
existe uma evidente intencionalidade autoral e
ideológica que tem como único imperativo
transformar-se em relato inteligente (original?)
e inteligível voltado exclusivamente para a
propagação e debate. Estas características
definidoras dispensam elocubrações sobre o
jornalismo de opinião já que ele tem como
propósito a priori a exposição de idéias e a
conseqüente argumentação ideológica que visa
influir, persuadir, predominar e abafar outras
vozes. O combate aí acontece entre informação
e desinformação. O articulismo como artilharia
dos intelectuais deveria, a priori, refletir uma
disposição psicológica crítica, uma evidente
intenção de mudança (o que na realidade
não é isso o que se vê ou lê).
Nesta
exposição já é possível vislumbrar que o
paradigma do jornalismo é construído por
gêneros, por fronteiras, por categorias. Ora
está entre informação e emoção, ora entre
isenção e compromisso (engajamento) , ora entre
simplificação (noticiarismo) e
contextualização (análise e reportagem), ora
entre conformismo e mudança, ora entre
pessoalismo (ou personalismo?) e impessoalismo.
No jornalismo
sensacionalista e no jornalismo assistencialista
existe a evidente intenção de explorar e
exacerbar a condição marginal do povo( o
imaginário). Neste encontro entre imaginário
(do povo) e condição (cultural do povo)
acontece a expansão das práticas políticas
populistas e clientelistas.
Em síntese, o
paradigma do jornalismo como atividade informativa
e de difusão é constituído na
articulação entre "atitude psicológica
informativa" (ou intenção de isenção) e
evidente intenção de pessoalidade. Nessa
imbricação psicológica intencional dormem
sobre o paradoxo da existência da neutralidade
os empíricos e os utópicos da verdade e da
imparcialidade.
Assim, pelo
paradigma do jornalismo informativo, sob a evidente
intenção de informar, os erros,
distorções e abusos editoriais raramente são
intencionais ou premeditados. São decursos,
decorrem do processo psicológico individual e
coletivo. Superficialidade, pessimismo e etc são
decorrências psicológicas de quem faz o
jornalismo. Porque antes de ser uma atividade
industrial ou empresarial é uma atividade
pessoal-coletiva-e-humana e por isto, subjetiva e
arbitrária.
Vale ainda dizer
que o jornalismo é uma atividade que se inicia
naturalmente pessoal, coletiva e ideológica
desde o momento da coleta e da seleção aos
momentos da hierarquização e da divulgação.
Selecionar e hierarquizar é opinar. O jornalismo
é uma atividade naturalmente de seleção (e de
opinião). Quando seleciona inclui, exclui,
amplia ou não amplia. Como não existe meio
termo, entre incluir e excluir, o jornalismo é
uma atividade radicalmente de opinião porque
existe uma evidente intencionalidade de
selecionar e de hierarquizar. A diferença
entre isto e aquilo (entre informativo e de
opinião) está na intenção. Na intenção
de informar, na intenção de analisar,
na intenção de convencer (argumentar). A
disposição de informar, comentar, argumentar
etc. A diferença, então, é uma questão de
grau, disposição (de acordo com o formato) de
aprofundar, analisar; a disposição (de acordo
com o formato informativo) de divulgação
imediata (superficial e efêmera).
Vale ainda dizer
que o jornalismo sensacionalista e o
assistencialista não se constituem sobre o
paradigma da impessoalidade e do distanciamento
(da intenção de isenção). Tanto um quanto
outro se constituem sobre a evidente
intenção de representar uma das parcelas
da sociedade, no caso, da sociedade
desorganizada, marginal, excluída. Existe aí
uma relação de representação simbólica,
ideológica e lingüística do povo e
dos marginais. Enquanto que no jornalismo
diário informativo e no jornalismo semanal de
informação existe uma evidente disposição
de distanciamento das classes inferiores
cultural e economicamente. Isto é, o
jornalismo
informativo de prestígio delega ao jornais
popularescos a tarefa de representar as classes
populares. Paradoxalmente, o jornalismo
informativo de prestígio representa as classes
dominantes com a contínua construção de um
paradigma de distanciamento lingüístico
das classes populares. O paradigma entre a
constituição informativa hegemômica e o
paradigma da constituição popularesca é de
ordem unicamente lingüística. No modo de
produção informativo o paradigma é o do
distanciamento lingüístico construído e no
modo de produção popularesco, o paradigma é o
da proximidade lingüística construída.
Através das
rotinas profissionais, o jornalismo informativo
separa intencionalmente matéria-prima objetiva
(informações, dados, fatos, acontecimentos etc)
de matéria-prima subjetiva (idéias, opiniões),
através de operações lingüísticas (e
ideológicas) que transformam o referente (o
real, o fato) em texto reconhecido como
informativo (estilo direto do noticiarismo) e
como de opinião ( o texto livre quanto à
seleção e tratamento dos fatos e do texto do
articulismo, cronismo etc, regido pelo ângulo
pessoal).
As operações
lingüísticas realizadas pelo jornalismo
transformam o caráter factual, efêmero,
imediato, superficial da notícia em relato
informativo substantivo (reconhecido como
desprovido de apreciações subjetivas e impedido
de utilizações vocabulares adjetivas e regido
pelo ângulo social) e transformam o caráter
temático e atemporal da reportagem em relato
informativo ampliado. A ampliação do relato na
reportagem confere-lhe um status
interpretativo, que no seu processo
lingüístico de expansão e de conhecimento da
realidade transformam-na no embrião da obra
jornalística (literária e histórica) que é o
livro-reportagem e seus similares como as
reportagens biográficas e etc.
São imperativos
das operações lingüísticas no jornalismo
informativo substantivo a clareza de raciocínio
(na forma de estilo nunca rebuscado ou barroco),
o domínio do idioma, agilidade do processo e a
exatidão (semântica das palavras utilizadas).
Assim agilidade e exatidão tornam-se qualidades
essenciais do processo lingüístico, somadas às
qualidades éticas da prática da crítica (do
senso crítico) e do serviço público (como
senso do interesse comum. O caráter de serviço
público pode transmutar-se em assistencialismo).
A ideologia
profissional de agilidade e precisão não
exclui que em um mesmo processo informativo (um
telejornal por exemplo) algum acontecimento ou
protagonista do fato receba um tratamento
inexato, impreciso, superfical ou
sensacionalizado (no sentido de perceber de forma
preconceituosa, estereotipada ou caricata). Aqui
sensacionalismo, estereotipação ou
caricaturização são o reverso da ideologia do
objetivismo ou do distanciamento.
A ideologia do
objetivismo ou do distancimanto neste início de
século XXI continua a defrontar-se fortemente
com a ideologia histórica do espetáculo. Só
que hoje a ideologia do espetáculo (não
mais romano ou nazista ou personalista
[getulismo,peronismo] mas
neoliberal-norte-americano) denomina-se índice
de audiência, tudo em nome do público ( da
audiência, das tiragens, das vendas). Em
nome das massas
do pós-Estado ( isto é, das legiões de
desempregados, idosos, doentes, crianças
abandonadas e refugiados da fome e das guerras) o
jornalismo encontra no sensacionalismo e no
assistencialismo dois modos de se comunicar com
as massas-audiência da televisão aberta e das
emissoras de rádio.
A notícia
convertida em espetáculo transforma-se no mais
sofisticado e devastador produto ideológico
neoliberalglobal já inventado pela
pós-modernidade econômica. Diante de tal
produto a própria publicidade ( o mais
sofisticado instrumento estratégico do
capitalismo tecnológico) perde para a
hiperrealidade que a notícia-espetáculo pode
oferecer às audiências. É devastador o efeito
de hiperrealismo sobre os valores sociais e
humanos em produções-verdade presentes nas
programações da televisão comercial aberta do
Brasil e dos Estados Unidos.
A ideologia do
objetivismo traduz-se na representação do
posicionamento pragmático e apartidário
da atividade e apresenta como imperativos a
impessoalidade do relato, a retórica
referencial, os sentimentos controlados.
(Emoções, só as emoções do fato).
2.3
ARBITRARIEDADE E RACIONALIDADE
O objetivismo
(entendemos como um forma de representação do
pensamento hegemônico capitalista) através de
valores convencionais de notibiciabilidade (como
imprevisibilidade, impacto, proximidade,
ineditismo, conflito, interesse, curiosidade,
politicidade, necessidade e publicidade) organiza
o real social e a realidade das rotinas
profissionais através dos procedimentos formais
que se iniciam no planejamento das pautas, nos
trabalhos de coleta-e-apuração, na redação de
textos, na edição do material disponível e na
divulgação (mas somente esta última dá
existência concreta à notícia).
No entanto, como
instituição social, isto é, como um sistema
de representação simbólica do
Estado, dos Partidos, da Razão Cartesiana, da
Sociedade (civil) e do Capitalismo ( mundial
integrado) funda-se em um paradoxo entre o
reforço do caráter superficial e efêmero dos
acontecimentos e a missão de contribuir para a
consciência crítica da Sociedade, isto é, uma
fundação discursiva-publicitária que apregoa
ao mesmo tempo alienação e consumo ,
consciência e mudança(luta).
Essa fundação
discursiva-publicitária vai constituir a
diversidade do discurso jornalístico
representada na multi/pluri variedade de
informações oferecidas em uma só edição de
um jornal diário, por exemplo, que tanto se
referem ao mercado como à cultura, tanto ao
mundo econômico como político, como social,
como humano.
As rotinas
profissionais, tematização (denominada de
agenda setting, ou teoria da construção do
temário do público e da mídia),
pauta/preparação, apuração/coleta, seleção,
redação, edição e divulgação são
responsáveis pela relativa racionalidade do
trabalho jornalístico. No contínuo e
ininterrupto trabalho de descontextualização
(agendamento e apuração) e recontextualização
e hierarquização (seleção, redação e
edição), as rotinas profissionais impõem uma
certa lógica profissional sobre as ações,
opções e seleções com a finalidade de
diminuir o trabalho arbitrário diário dos
jornalistas.
Então, relativa
racionalidade e permanente arbitrariedade
impulsionam continuamente a atividade
jornalística diante da imprevisibilidade e da
efemeridade dos acontecimentos e dos interesses
internos e externos que entram em jogo e em fuga.
A notícia, como produto essencial e razão do
jornalismo, envolve permanentemente relações
entre certezas e incertezas, fatos e valores;
entre pessoas e idéias; entre conflitos e
interesses; entre bom senso, responsabilidade,
pressa, ousadia, coragem, despreparo e
experiência e idealismo e cinismo.
O jornalismo é
uma atividade individual e interpretativa
em primeira instância e uma atividade coletiva e
interpretativa em última instância. Interpreta
a realidade pela interferência direta,
explícita ou implícita do indivíduo-jornalista
ou através dos processos coletivos das rotinas
de trabalho.
Interessa-nos,
no entanto, desenvolver mais a idéia de
atividade interpretativa. O jornalismo
manifestando-se como atividade interpretativa
pelo fato de se utilizar paradigmaticamente de
dois critérios de percepção: perceber na
realidade algo como importante e perceber na
realidade algo como interessante. Ora seleciona
na realidade pela importância do fato (atributo
próprio do fato) ora seleciona na realidade pelo
interesse que o fato pode despertar (atributo
inerente à estória do fato). O modo de perceber
a realidade pelo aspecto interessante da estória
revela o lado arbitrário do trabalho
jornalístico, contrapondo-se, aqui, à ideologia
do objetivismo quando existe, na notícia
humanizada, mais liberdade na apuração e na
forma de escrever.
Da maior ou
menor ênfase em uma dessas condições de
percepção que o jornalismo constrói o seu status
informativo. Se prevalece a ênfase no modo
de perceber a realidade pelo ângulo do apelo à
curiosidade, à empatia ou à identificação
social, estamos diante de uma produção
informativa reconhecida como sensacionalista.
São os noticiários com ênfase na violência
pessoal ou social e na curiosidade ou interesse
que a estória do acontecimento desperta. Por
outro lado, se prevalecer o critério de
importância e significado social, estamos diante
do noticiarismo informativo que editorialmente
produz um efeito de distanciamento em relação
aos fatos e ao (interesse do) público.No
critério de importância dos fatos e dos
protagonistas (personalidades, autoridades,
celebridades, ídolos e bandidos) o jornalismo
informativo diário constrói as suas condições
de credibilidade e legitimidade junto às classes
dominantes. Por outro lado, o critério de apelo
à curiosidade, através da humanização da
estória do acontecimento ( vedetização ou
execração das personagens ou
espetacularização do acontecimento) costuma
constituir o status informativo sensacionalista
de produções jornalísticas que apelam para as
massas (para os índices de audiência, para
opinião pública, para consumidores ou
cidadãos).
No entanto,
estes dois modos de percepção da realidade,
pelo ângulo da importância social e pelo
interesse da audiência, apontam sucessiva e
alternadamente para outros dois subcritérios: o
da politicidade (referência ao mundo do poder
político e econômico hegemônico) e o da
necessidade (referência aos problemas sociais da
maioria da população entendida como opinião
pública, cidadão ou consumidor). Note-se que a exploração
do critério necessidade incide sobre a
quantidade (povo) portanto tem a capacidade de
estabelecer um pacto interlocutivo com o público
na forma de índice de audiência. O critério
necessidade (interesse do povo) constitui as
condições de produção tanto do jornalismo
sensacionalista quanto do jornalismo de serviço.
Nos critérios
de importância, que constituem o status
informativo do jornalismo sério, de prestígio,
as marcas lingüísticas do jornalista, como
enunciador do discurso do
jornal/revista/rádio/televisão/internet,
costumam estar em segundo plano em relação ao
plano das informações. E nos critérios de
interesse do público, as marcas lingüísticas
do jornalista costumam estar no estilo e nos
meios de observação, na riqueza de detalhes da
descrição que apontam para a perda dos limites
entre realidade factual e ficcionalização. O
estilo rebuscado e o excesso de detalhes em
notícias ou reportagens humanizadas apontam para
o lado opaco, para as fugas do objetivismo, isto
é, para a arbitrariedade sempre presente no
trabalho jornalístico. (Quando não para a
ficcionalização, isto é, para a mentira, para
uma realidade inventada).
O jornalismo de
opinião ou de explicação, diferentemente do
jornalismo informativo, tem como proposta
editorial a difusão de novas tendências, o
debate dos problemas sociais, o debate sobre os
direitos do cidadão, a sustentação da
democracia representativa, o entendimento da
contemporaneidade. O articulismo tem, então,
como projeto editorial a dimensão atemporal e o
estabelecimento de analogias e o apontamento das
contradições e dos novos enfoque, novas
tendências, informações e abordagens mais
sofisticadas e verticais; tendo, no entanto, como
desafios permanentes o estilo original, a
simplicidade da linguagem sem pedantismo, a
análise e a interpretação sem cair no
academicismo, na abstração e na generalização
e a serenidade e a ousadia de posicionar-se de
viva voz diante da defesa do idealismo e do
humanismo.
2.4
CONDIÇÕES IDEÓLIGAS, LINGÜÍSTICAS E
EDITORIAIS
De outro lado o
jornalismo informativo tem como condições
editoriais a atualidade permanente, o culto às
fontes, o culto aos acontecimentos, aos fatos e
às citações, tendo como norte a dimensão
temporal, efêmera e imediata e, como rotina e
ideal a reificação da factualidade, do
periférico, do pitoresco, do inusitado, do
não-contextual e do estilo direto e substantivo.
Nos relatos
ampliados (como reportagens e artigos) predominam
não a síntese mas a análise e,
conseqüentemente o estilo informativo livre.
Na verdade, o jornalismo encontra-se sempre
diante do desafio do fato novo e diante do
interesse
permanente que
existe no tema, no assunto, nas problemáticas.
De qualquer forma, o relato jornalístico é
sempre um trabalho de reconstrução
reducionista da realidade que está sempre
entre duas ordens de interpretação ideológica:
pelo senso comum ou pelo senso crítico.
Do conjunto de
estratégias de linguagem utilizadas para
observar, registrar e comunicar, o jornalismo
constrói seus gêneros notícia, reportagem,
entrevista e artigo, isto é, relatos
reconhecidos como informativos ou analíticos. Informação,
síntese e análise, eis o tripé sobre o qual o
jornalismo se sustenta como prática social.
O jornalismo
como atividade humana, social,
ideológica e industrial está sujeito aos
controles individuais, organizacionais e
institucionais; aos critérios publicitários e
mercadológicos de seleção dos acontecimentos;
ao conteúdo já-dado pelas fontes; à rapidez do
processo; à redução à descartabilidade
enquanto optar por ser reforçadora de
superficialidades, frivolidades, entretenimento,
oficialismo, denuncismo, inexatidão,morbidez,
preconceito e oportunismo; ao senso comum e ao
senso crítico; à democracia, ao pluralismo e
multiculturalismo; ao discurso neoliberal e
pós-moderno dominante que apregoa o consumo,
necessidades, produtividade e agilidade; ao culto
à imagem; à superficialidade e ao espetáculo e
está sujeito às mudanças tecnológicas
incessantes e, por conseguinte, ao tecnicismo e
ao racionalismo.
Estas condições
ideológicas acima expostas constituem hoje
as condições de realização e de funcionamento
do jornalismo informativo sob a ideologia do
capitalismo tecnológico e mercadológico nas
quais determinações a notícia deixa de ser o
reflexo (o espelho, a janela) da realidade (e os
fatos já não falam mais por si mesmos porque
dependem da percepção e valoração humanas)
para ser uma construção
ideológica/mercadológica atravessada por
múltiplas determinações sociais,
institucionais, organizacionais e individuais.
Sobre a atual ideologia
informativa mercadológica (de noticiarismo,
reportarismo ou colunismo) vige/vigora a
ideologia do neoliberalismo mundial que apregoa
liberdade econômica com liberdade política;
mantendo para as empresas jornalísticas
nacionais e internacionais a regra de ouro do pluralismo
mercadológico: ouvir todos os lados (com
espaço e acesso iguais? Perguntamos). A resposta
jornalística para esta pergunta continua sendo
ser justo-e-preciso, isto é,
equilíbrio-e-precisão diante do plural, do
polêmico e da impossibilidade de ser imparcial,
objetivo e neutro (pois como já vimos, o
jornalismo é uma atividade subjetiva e
arbitrária. É impossível controlar/conter os
sentidos e os efeitos que se produzem ao se
divulgar uma notícia. Por isto, a
responsabilidade social é sempre de quem
publica/divulga).
A ideologia
do objetivismo informativo e do profissionalismo
de agilidade e de precisão busca, é
evidente, instrumentos para evitar a
subjetividade, tanto que a notícia exclui a
argumentação, o questionamento. Ela é uma
afirmação. É uma construção lógica. Do
contrário, é outra coisa, menos notícia. É
evidente que na notícia objetividade e
subjetividade coexistem.
Os princípios
lingüísticos articulatórios de objetividade (o
que está fora do sujeito) e de subjetividade que
regem a mediação ideológica no jornalismo,
apresentam-se em forma de texto (isto é, do
relato informativo), refletindo o trabalho
incessante de síntese e análise. O relato
informativo apresenta-se como resultado de dois
desafios: o desafio da apuração e o desafio do
relato.
Na notícia
predomina o relato em ordem direta (e não em
ordem inversa que se presta mais às produções
poéticas ou criativas) que apresenta em primeiro
plano sempre os acontecimentos, os dados, as
fontes, as citações e, evidentemente, a
atualidade. Na verdade, a determinação
ideológica e lingüística que existe sobre a
notícia é o relato em ordem de importância.
Eis ai o epicentro do fenômeno lingüístico:
relatar em ordem de importância.
Prosseguindo na
nossa tentativa de compreender a natureza das
regularidades do processo de produção de
sentido no jornalismo, voltamos ao conceito
nuclear de atividade porque entendemos o
jornalismo como uma prática social que
estabelece relações com o mundo simbólico e
com o mundo material dos indivíduos. Essa
constituição de relações simbólicas e
materiais acontecem enquanto história e linguagem.
História
porque são relações que se constituem a partir
das exterioridades do jornalismo e o jornalismo
encontra-se inserido dentro do processo de
produção, transformação e manutenção da
sociedade tecnológica para a qual a informação
virou mercadoria sofisticada e o jornalismo
transformou-se em atividade pós-industrial. Como
atividade pós-industrial é
impulsionado/transformado pelo avanço
tecnológico que determina mudanças sobre o modo
de fazer, sobre quem faz e sobre as condições
de fazer. Linguagem porque são relações
que se constituem também a partir do modo de
pensar de quem faz. Então, as condições de
produção/reprodução/transformação/manutenção
do jornalismo como prática social são resultado
da constituição de relações que se
estabelecem em torno do movimento dialético atividade
técnica, lingüística e ideológica.
Constituir-se
dialeticamente como atividade técnica(
porque industrial, porque empresarial) ideológica
(porque humana e social e, por isto,
institucional) significa dizer que o modo de
fazer escolhido a priori seja reconhecido
pelos seus efeitos de recepção (atividade
comunicativa, informativa, educativa, de
entretenimento, de opinião, de interpretação).
Poderíamos
assim dizer que o jornalismo é uma atividade
de natureza humana e social
porque é mediado pela subjetividade (interesses
e valores) de cada um de seus
indivíduos-sujeitos-produtores e porque é
sempre resultado do trabalho coletivo de vários
sujeitos enunciadores.
O caráter
ideológico do jornalismo pode traduzir-se
também em atividade informativa
(sob o primado dos fatos e fontes e das
notícias, reportagens, entrevistas), em atividade
interpretativa (sob o prisma da análise e
explicação dos acontecimentos); comunicativa
(porque interliga os indivíduos, torna pública
e comuns as informações selecionadas); educativa
(porque toda informação é cultura); de
opinião (porque permite a expressão
explícita da subjetividade dos sujeitos
emissores e receptores, na forma de artigos,
editoriais, cartas, telefonemas, recursos
interativos etc); de entretenimento
(ao enfatizar a emoção [às vezes, até à
comoção] e não a informação, ao dramatizar
ao invés de informar, ao transformar a notícia
em show e em espetáculo e ao superexplorar o
caráter extraordinário e atípico dos
acontecimentos e ao reforçar a munutenção da
proximidade com o público e ao não fazer uma
opção pela politização nem organização da
sociedade, mas pela manutenção do status quo
e do consenso).
O caráter de atividade
técnica do jornalismo pode ser buscado na
sua dimensão empresarial (como empresa racional
capitalista que visa ao lucro, a hegemonia e o
poder econômico através da transformação das
matérias primas informação e opinião em
mercadoria/produto notícia, reportagem,
entrevista e artigo). Estes seus produtos por
execelência, juntamente com os anúncios
publicitários, mostram/divulgam a diversidade do
mundo material e simbólico para consumo junto
às elites econômicas, políticas e culturais
(ou junto ao povo/massa na forma de anúncios
classificados).
Essas
determinações profissionais (técnicas e
tecnológicas) e ideológicas, acima referidas,
fazem do jornalismo uma prática social
comprometida com a difusão da interpretação
dominante sobre a realidade, pelo trabalho de
organização do trânsito das informações
(construindo as condições da
aceleração/circulação/concentração do
capital); pelo trabalho de
organização/divulgação do pensamento das
instituições: isto é, comprometimentos ao
mesmo tempo mercantis e institucionais que deixam
marcas lingüísticas e ideológicas nos
enunciados produzidos pelo contrato
informativo realizado entre jornal, fontes,
jornalistas, anunciantes, público, mercado,etc.
2.5 CONTROLE
DA PRODUÇÃO DE SENTIDO
O que vai
caracterizar esse contrato informativo é
o discurso relatado, isto é, uma concepção
positiva a priori que procura controlar as bordas
e os excessos de sentido das palavras, como se
buscasse um sentido único, homogêneo, total,
sem restos, caracterizando-se pela função
referencial da linguagem e do sentido denotativo.
O discurso jornalístico assim constitui-se como
de representação do senso comum, do
consenso e do pensamento hegemônico.
A ideologia do
objetivismo nada mais é do que a busca do
sentido único, da redução da ambigüidade, da
polissemia e da heterogeneidade. O efeito
parafrástico (em busca do mesmo), o efeito
literal, a ilusão referencial, o efeito do
já-dito reconhece-se no estilo bem marcado pela
forma de escrever/relatar em ordem direta por
importância, de forma clara, concisa, com
sentido preciso e exato. Clareza, concisão e
exatidão formam assim paradigma, meta e ideal
ético, técnico e profissional a
ser atingido e modelado diariamente pela
produção industrial jornalística. Aqui é
possível estudar a estereotipação e senso
comum como mecanismos de controle dos sentidos
sociais.
Assim, o
noticiarismo se estrutura do fato e do sentido
mais importante aos fatos e sentidos secundários
no modo do discurso relatado/reproduzido/citado.
No entanto, os sentidos escapam, não são
totais, fechados, completos; eles são
heterogêneos, possuem bordas, excessos, pontos
de fuga e intertextos. Daí a notabilidade dos
sentidos nas produções sensacionalistas e
espetaculares onde predominam a inexatidão dos
sentidos e a dramatização das estórias dos
acontecimentos.
Os sentidos
subjacentes (represados pela ideologia do
objetivismo) no discurso informativo referem-se
dialeticamente ao mundo dos conflitos e dos
consensos, das necessidades e dos interesses.
Essa constituição de relações fazem do
jornalismo um sistema de reprodução
simbólica das instituições sociais (do
Estado, do Povo, dos Partidos Políticos, da
Cultura, do Mercado, do Capital, da Televisão,
das Escolas e etc). Daí os funcionamentos das
subjetividades (e da arbitrariedade)
constituírem os principais processos de
significação no jornalismo que vão da
fragmentação exacerbada dos sentidos (à
estigmatização, estereotipação e alienação
sociais) e à(re)contextualização das
problemáticas sociais (os interdiscursos, as
memórias do acontecimento). Isto é, processos
redutores de significação entendidos por
nós como fragmentação, superficialização,
despolitização, oficialismo e
descontextualização.
3.
PARA CONCLUIR: INTECIONALIDADES E
PROFISSIONALISMO
O trabalho de
reprodução parcial da realidade se faz com intencionalidades
e profissionalismo já que sempre
estamos diante do que relatamos e do que
enfatizamos, do que excluímos e do que omitimos
, do que fragmentamos e do que recontextualizamos
e do que ampliamos e do que reduzimos.
O jornalismo,
como prática social, possui as tarefas de
observar, registrar e comunicar, através de
critérios profissionais e políticos, sob
imperativos da imediaticidade/factualidade, da
contextualização e da publicidade para
produzir-e-oferecer informação, serviço e
entretenimento diante da superabundância de
acontecimentos do mundo cotidiano e dos desafios
da democracia, do pluralismo e do mercado e do
dilema contínuo entre reforço da
superficialidade e esvaziamento ou reforço da
consciência crítica. E mais, com uma postura de
distanciamento crítico diante dos interesses
parciais e com uma postura interrogativa, cética
e crítica diante do consenso.
Estas tarefas e
atitudes esperadas a priori do jornalismo também
fazem parte da constituição dos processos e
relações significativas com o mundo material e
simbólico e com as interioridades do sistema
produtivo, isto é, o processo informativo é
constituído por multiplicidades de fatores,
perspectivas, pontos de vista que estão sempre
em pontos de fuga e não sob absoluto controle(
nem de jornalistas nem de editores nem de
proprietários nem de anunciantes nem do
público/Cidadão.
____________________________
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
- ALSINA, Miguel Rodrigo. La
construcción de la noticia. Barcelona:
Paidós, 1996.
- HERNÁNDEZ RAMÍREZ, María Elena. "¿Qué
son las noticias?". Revista
Comunicación y Sociedad n. 14-15,
enero-ago., Universidad de Guadalajara, Mexico,
1992. P. 235-250.
- SUÁREZ SANTAMARÍA, Luisa. "El suelto o
glosa, género editorial menor estudio de cuatro
modelos en los diarios madrilenos" in Revista
de ciencias de la informacion: los mensajes
de la comunicacion periodistica. V.5. Madrid:
Universidad Complutense, 1988. P. 123-135.
- TUCHMAN, Gaye. La produccion de la noticia:
estudio sobre la construccion de la realidad.
Barcelona: Gilli, 1983.
______ "A objetividade como ritual
estratégico: uma análise das noções de
objetividade dos jornalistas" in TRAQUINA,
Nelson, org. Jornalismo: questões, teorias e
estórias. Lisboa: Veja, 1993.
- TRAQUINA, Nelson, org. Jornalismo:
questões, teorias e estórias. Lisboa:
Veja, 1993.
- WOLF, Mauro. Teorias da comunicação.
Lisboa: Presença, 1985.
* Rosa
Nívea Pedroso é
colaboradora da Sala de Prensa. E professora adjunta do Curso de
Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, Brasil. Mestre em
Comunicação pela ECO/UFRJ. Professora de Teoria
do Jornalismo e de Redação Jornalística. Linha
de pesquisa em Jornalismo e Linguagem e Teoria do
Jornalismo Sensacionalista.
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