Sala de Prensa


6
Abril 1999
Año II, Vol. 2

WEB PARA PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS

A R T I C U L O S

   
   


A profissionalização do jornalismo no Brasil

Ricardo Fontes Mendes *

(continuación)

8. Tipologia e Classificação dos entrevistados

Os entrevistados estão identificados no quadro a seguir por letras e números. Os números indicam a quantidade de indivíduos qualificados no mesmo macro-grupo. As letras são as iniciais dos macro-grupos. ad1, por exemplo, é do segmento administrativo da profissão, onde a há dois entrevistados classificados. Ele pertence ao sub-grupo denominado Mantenedor.

PALCO

acadêmico Reflexivo Crítica à Indústria Integração
  a1 a2 a3
  - - a4
  - - a5
Administrativo Mantenedor Transformador -
  ad1 ad2  
Prático Jornalistas Invasores Excluídos
  p1 p3 p5
  p2 p4 p6
  - - p7
  - - p8

AUDIÊNCIA

Negação da Identidade Em casa Longe do Palco
n1 c1 Lo1
- - Lo2
- - Lo3
- - Lo4

a1 é professor universitário. Faz parte da geração mais velha do jornalismo. Participou da discussão para reforma curricular no curso da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Embora hoje trabalhe essencialmente com pesquisa, sua experiência profissional e o discurso sindical lhe serviram para formar aliança com um grupo eminentemente teórico, o da Crítica à Indústria, que encontra grande representação na Intercom (Sociedade de Estudos Interdisciplinares de Comunicação).

a2 ajudou no trabalho de reformulação curricular do curso de jornalismo da Fundação Cásper Libero. Nela se observa uma divisão básica, entre os que acreditam que é a universidade que dita as regras do mercado, ou o mercado que dita as regras da universidade. a2 se enquadra no primeiro caso. Não é jornalista por formação, mas se profissionalizou ao longo dos anos. Seu ingresso neste mercado de trabalho aconteceu de uma maneira bastante particular: Com conhecimentos expressivos de línguas estrangeiras, prestava serviço para outros jornalistas que queriam ver suas reportagens traduzidas para o inglês afim de enviá-las para o exterior.

a3 é ex-funcionário do Banco do Brasil. Deixou a carreira de bancário para seguir a de jornalista. Formou-se pela ECA/USP, onde também fez mestrado. Presta consultoria para entidade governamental afim de ajudar no credenciamento (ou não) de novos cursos de jornalismo no país. Acredita na necessidade de unir a prática do jornalismo a um conhecimento já sistematizado. Condena as empresas que não se aliam à universidade para o desenvolvimento de um novo profissional.

a4, embora pertença à academia, reivindica para si a identidade de prático do jornalismo, em oposição a de teórico. Isso dá margem a que seja classificado pelos colegas pesquisadores como parte do "SENAI" da universidade. a5 acredita em uma parceria entre as escolas de jornalismo e as empresas de comunicação para "salvar" o modelo profissional existente. Ao contrário de a2, pensa que é o mercado que dita as regras.

ad1 não se diz totalmente a favor da obrigatoriedade do diploma, mas age como tal : "Enquanto a lei existir deve ser cumprida", afirma, justificando a censura aos profissionais de outras áreas, inclusive da área médica, que fazem carreira na profissão. É a favor de mudanças na legislação, mas teme uma queda no status da profissão.

ad2 representa os que são contra o diploma no segmento administrativo. É a favor da criação da Ordem dos Jornalistas do Brasil. Esta informante acredita na mudança de relações entre as empresas e o movimento sindical jornalista, "elevando-a" para o nível das observadas entre os Conselhos de Profissões como engenharia, medicina, odontologia (CREA, CRM, CRO).

A profissão é dividida por todos os entrevistados em dois grandes grupos . Os que trabalham dentro das redações de TVs, rádios e Jornais são chamados Jornalistas sempre. Mas os profissionais de outras áreas são tratados por denominações diferentes. É claro que isso se deve a alta exposição que os jornalistas da imprensa cotidiana são submetidos, o que dá ao público e ao mercado uma maior visibilidade deles. O grupo chamado de Jornalistas é, assim, a própria representação da profissão, a síntese do que nela mais se valoriza tanto interna como externamente.

p1 é um profissional de sucesso que atua em um jornal popular, depois de ter passado por uma grande empresa jornalística onde trabalhou por mais de 10 anos. p2 é profissional da Folha de São Paulo e professor universitário. Também ocupa posição de destaque no mercado. Se alia ao grupo acadêmico de Integração em busca de um novo caminho para o ensino de jornalismo no Brasil. Acredita no surgimento de um "novo profissional" e se diz contra a obrigatoriedade do diploma.

p3 é ex-estudante de Educação Física. Teve acesso ao mercado por conta da rede de relações que dispunha a época e a fatores circunstanciais de expansão do mercado para o interior do Estado de São Paulo. Hoje é profissional da Folha de S. Paulo. Teme deixar este emprego com medo de não conseguir trabalho em outra empresa, por conta da obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão. p4 atua em uma revista de mineração. É formado pela USP, fez mobilidade social com o jornalismo e trabalhava na Sadia como técnico antes de mudar de área. Se prepara para deixar a profissão em troca de uma carreira como funcionário público na Receita Federal.

p5 é arquivista de um outro grande jornal paulista, está na periferia da profissão. Seleciona textos e fotos para editores e repórteres da redação. Tem mestrado em jornalismo e se prepara para o doutorado. p6, p7 e p8 têm empresas de assessoria de imprensa. O primeiro informante está no limite da profissão com a Publicidade & Propaganda e as Relações Públicas. Presta serviço para instituição governamental. Não tem experiência de jornalismo diário. A assessoria foi a alternativa que encontrou para sobreviver no mercado, depois da faculdade.

p7 e p8 tiveram uma trajetória dentro de revistas e jornais de circulação nacional. Optaram pela assessoria de imprensa como um estilo de vida melhor do que o proporcionado pelo trabalho dentro das redações.

Já na audiência da profissão, estão três grupos de acordo com a amostra analisada. O dos que negam a identidade de jornalista apesar de serem formados em comunicação e de alguma maneira atuarem na área, o das que se tornaram donas-de-casa, e os que mudaram de área:

n1 trabalha para uma empresa que faz avaliação de imagem de pessoas ou instituições na mídia. Ele é responsável pela preparação dos relatórios finais. Entre os clientes desta empresa estão, por exemplo, o ex-presidente Fernando Collor e o atual, Fernando Henrique Cardoso. c1 deixou a área logo depois de se formar. Ela casou seis meses antes da conclusão do curso, em 1990. Hoje tem 29 anos e três filhos. Lo1 e Lo2 são casados. Os jornalistas se conheceram dentro da mesma redação de um jornal. Deixaram a profissão para abrir uma floricultura. Lo3 é dona de uma loja de roupas. Lo4 é pequeno empresário, proprietário de uma empresa de editoração eletrônica: vende lay-outs de publicações para assessorias de imprensa. Embora atue em um segmento estreitamente relacionado ao jornalismo, sua atividade é mais bem definida como de artista gráfico.

8.1 O segmento acadêmico

De acordo com as entrevistas realizadas e o trabalho de campo, tanto interna, quanto externamente, o jornalismo vive uma competição profissional intensa. No segmento acadêmico ela se configura através dos três grupos indicados na tabela do palco. O da Crítica à indústria Cultural é ligado à teoria da Escola de Frankfurt e analisa os mass media como instrumentos de manipulação da opinião pública, fazendo críticas à indústria cultural. Dele resultam, por exemplo, trabalhos que acusam os erros da imprensa e criticam a falta de controle dos meios de comunicação. Os indivíduos que formam este grupo afirmam que o principal papel da universidade não é preparar profissionais, mas sim dar subsídios para que os graduados tenham condições de se desenvolver no mercado.

  • "Em 91,(...) partimos do pressuposto de que quem decide o que o mercado vai fazer é efetivamente a universidade, e não o contrário. Quer dizer, aí a gente radicalizou mesmo".
  • O grupo da Integração é constituído pelos que afirmam que o papel da prática é tão importante quanto a teoria no aprendizado da profissão. Para o grupo da Crítica à Indústria Cultural ele age como se fosse um SENAI, formando técnicos em jornalismo. Seus integrantes, no entanto, afirmam que se preocupam em preparar profissionais prontos para atuarem no mercado de trabalho, respondendo assim às demandas do segmento cognitivo da profissão. A resposta que o "SENAI" procura dar aos seus críticos é a quantidade de profissionais bem colocados no mercado egressos de seus bancos escolares.

  • "A gente tem que achar um meio termo entre a ditadura da teoria e a ditadura da prática. Nas minhas disciplinas eu procuro integrar as duas coisas, mas é difícil esse processo entre os professores.(...) O pessoal da teoria critica essa integração, mas vai ver quantos eles conseguiram colocar dentro das redações de jornais, de rádios, de TV por aí."
  • Já o Reflexivo é composto por profissionais que atuam nas redações dos meios de comunicação e também pelos que tiveram uma sólida trajetória dentro da imprensa, mas optaram mais tarde pela academia. Eles iniciam a construção de um espaço, de reconhecimento do papel relevante da imprensa, dentro da universidade. Este grupo, hoje valoriza mais a prática do que a teoria, defendendo explicitamente o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão.

  • "A gente precisa parar com isso de só criticar os jornalistas, a mídia. Não se pode negar o valor do episódio do impeachment do Collor. Foi a derrubada de um presidente de forma legal e a imprensa teve um comportamento exemplar. (...) Acho que a profissão devia ter usado mais este episódio a seu favor. A situação da profissão hoje é tão ruim que ela não capitalizou tanto quanto devia. Onde estão os jornalistas, os grandes que fizeram a cobertura do impeachment?(...). Nós fizemos uma mudança curricular que já aponta para o fim do diploma (...)"
  • 8.2 Segmento Prático

    O segmento cognitivo, ou prático, organiza-se em três grupos distintos:

    1) Excluídos: Dentro deste grupo estão todos os que não são chamados de Jornalistas pelos seus pares, todos os que não fazem o trabalho diário da redação ou estão na periferia da profissão. É o caso de assessores de imprensa, diagramadores, arquivistas. O número de assessores de imprensa vem crescendo significativamente, permitindo a criação de espaços dentro do segmento administrativo, como associações e grupos de trabalho para discussão de problemas comuns. Por isso é particularmente interessante notar como se dá a sua relação com os colegas de profissão. Sobretudo a imagem de que se venderam, deixando o lado "missionário do trabalho" de lado.

  • "O pessoal de jornal que já trabalhei agora me encontra na rua, toda arrumada, e fica mexendo, dizendo "Vida boa, hem! Como você se deu bem!". Eles não entendem que quando eu ia para o jornal não sabia se a pauta do dia era na favela ou na FIESP."
  • "Antes eu fazia reportagem. Agora eu estou do outro lado do balcão...."

  • "Jornalismo não é só edição e reportagem. Estou desde 1985 no arquivo e agora é que dominei. Tem que ter uma visão segmentada, aprender a ler diferente. Eu leio sete jornais em duas horas(...) Os repórteres e editores são mal informados (...) Para subir na carreira tem que fazer parte de panelinhas. Quer dizer: é panela quando a gente não está dentro, quando está é equipe de trabalho."
  • 2) Jornalistas: é composto pelos que trabalham dentro das redações em funções que têm maior visibilidade para o público e o mercado. Os que ocupam posições de comando dentro das empresas de comunicação, acabam sendo potenciais integrantes do grupo Reflexivo do segmento acadêmico, porque compartilham do mesmo ideário.

  • "Eu não sou exatamente um desconhecido (...) Quando fui contrato pela faculdade, tinha consciência de que estava sendo usado para reforçar o lado mais modernizante, mais desligado de um ensino muito preso ao estudo bastardo das ciências da comunicação, abastardado das teorias da Escola de Frankfurt e dessa adulteração que foi feita por professores e profissionais durante muitos anos (...)

    Acho que a obrigatoriedade do diploma vai deixar de existir, mas não arriscaria dizer quando. Eu sou a favor da desregulamentação, contra a exigência do diploma. Acho que deveria manter, talvez, a exigência de diploma de nível superior, mas não vejo razão para que só pessoas formadas nas escolas de jornalismo possam exercer a profissão. Aliás isso já é uma realidade hoje."

  • Dentro do grupo dos Jornalistas há uma polarização, um corte entre os que "carregam pedra" no dia-a-dia da notícia e o profissional que está em posição de comando, com alguma autoridade e autonomia maior sobre o resultado final do seu trabalho.

  • "Que eu saiba, nós ocidentais, ainda lemos da esquerda para a direita! Isso é que dá colocar quem não entende do assunto para editar. A melhor coisa que eu já fiz foi sair da editoria, estou trabalhando com o Sérgio e aprendendo todo dia uma coisa nova. A gente evolui mais (...)

    "Enquanto eles ficam aí fazendo pose, nós estamos carregando pedras todos os dias."

  • 3) Invasores: composto pelos elementos que são de outras áreas e fazem carreira no jornalismo. É importante notar o seguinte: não são meros colaboradores de TV, jornais, rádios e revistas. São profissionais de fora do campo do jornalismo que fazem carreira na profissão, trabalham de repórter, ou já trabalharam, querem ser editores. Têm uma perspectiva dentro do jornalismo

  • "Eu já pensei em sair daqui, mas para onde é que eu vou. Ninguém além da Folha aceita gente de outra área. O que eu acho um absurdo...esse negócio de obrigatoriedade do diploma"
  • Na audiência, o grupo da negação da identidade não se reconhece como pertencente ao mundo do jornalismo, apesar de ter a formação e, em alguns casos, ainda estar exercendo atividade jornalística.

  • "Eu entrei na profissão para ganhar a vida, como um meio de vida qualquer. Não foi por outra coisa. Mas hoje eu não sou mais jornalista. Eu trabalho fazendo" relatórios de avaliação de imagem"

    .

  • Os que mudam de atividade e estão longe do mercado alegam que os conhecimentos do jornalismo são aplicáveis em todas as áreas, são multidisciplinares. Eles ainda se reconhecem como jornalistas.

  • "O fato de eu ter aberto estas lojas não significa que não esteja usando os conhecimento do jornalismo. Tem muita coisa que eu uso ainda, porque a profissão é muito aberta. Tem que pensar, por exemplo, no marketing das lojas."

    "Eu vou prestar vestibular para direito porque preciso sobreviver. Eu adoro a minha profissão, mas do jeito que está não dá."

  • 8.3. O segmento administrativo

    O segmento administrativo organiza-se em dois grandes grupos. Eles são o da Crítica Mantenedora e o Crítica Transformadora. O primeiro, defende a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão, se aliando a Outros e ao grupo da Crítica à Indústria. Ele busca manter as conquistas legais obtidas pela profissão, para ampliar sua autonomia.

  • "A Folha mente descaradamente ao afirmar, por exemplo, que a lei que regulamenta nossa profissão é um produto da Junta Militar que usurpou o poder em 1969. Nenhuma regulamentação foi tão debatida publicamente quanto a dos jornalistas."
  • O segundo, é contra a obrigatoriedade do diploma. Luta por mudanças nas formas de organização profissional e na legislação, com o objetivo de redefinir a autonomia deste campo, estabelecendo-a de forma mais ampla. Ele se alia com os chefes, no segmento cognitivo; e com o grupo Reflexivo e o da Integração, dentro da academia.

  • "O diploma deve ser mantido, mas acho que se deve permitir profissionais de outras áreas com nível superior exercer a profissão. Isso fará com que as faculdades revejam os seus cursos."
  • Embora os segmentos internos em disputa atuem na busca de profissionalizar a atividade - cada um usando um discurso que se adequa às suas necessidades - predomina no campo estudado o sentimento de que a obrigatoriedade do diploma tende a cair. Isto poderia parecer contraditório porque cria obstáculos para que os jornalistas mantenham ou ampliem o seu monopólio. Porém, formas alternativas de controle profissional devem surgir caso isso aconteça, dentro de um movimento que tem ganhado força no segmento administrativo da profissão.

    A lógica interna parece ser: diante do inevitável e da falta de argumentos que convençam, é preciso criar alternativas caso não seja possível manter posição. É, portanto, preciso formar alianças. Neste ponto, o que está no centro da questão não é "a obrigatoriedade do diploma", mas o que dela decorre: o controle ao acesso para a prática profissional, o monopólio. Além disso, está em jogo também o papel dos formadores de novos jornalistas.

    Assim, nota-se um esforço na criação de um novo segmento acadêmico que legitime a profissionalização da atividade - não através da crítica, mas do reconhecimento do seu papel para a sociedade moderna e a democracia. Essa dinâmica é uma forma de o campo profissional reagir às transformações que a atividade jornalística vem sofrendo ao longo dos anos. Trata-se de uma reação que busca garantir e ampliar o grau de autonomia já existente.

    É este novo grupo acadêmico, formando alianças, que no tocante à competição inter-profissional também se empenha para afirmar a importância do jornalismo através da capitalização de eventos externos. Faz isso ainda usando a crítica a áreas de domínio conexo ao do jornalismo, tentando criar uma tipologia própria interna à profissão.

  • "O jornalismo se tornou uma profissão muito genérica em relação à antigamente. O jornalista vira um monte de coisas. É como eram as escolas de direito, formadora de quadros. O cara tornava-se advogado, mas a maioria virara político. Jornalista hoje é um monte de coisas no campo da comunicação, das relações públicas, da política. Isso está errado. Em outros países, tradicionalmente, jornalista é mais como um médico: quanto mais velho melhor. No Brasil não. Existe aqui uma espécie de office-boy do jornalismo, que é o repórter, e depois de um tempo ele pode virar chefe. Virou uma profissão de passagem, porque os salários são muito baixos."
  • A luta é para definir quais grupos vão ter o poder de determinar quem é, ou não, jornalista e consequentemente a representação pública da profissão, que se alimenta de episódios que permitam superdimensionar a atuação da imprensa.

    De uma maneira geral as tensões mais evidentes relacionam-se com a busca de um controle maior sobre o campo. O acesso à prática profissional e a sua forma peculiar de regulamentação no Brasil, que inclui a proibição de estágio para estudantes, tem confrontado representantes dos segmentos prático, administrativo e acadêmico, onde também há indivíduos defendendo a não obrigatoriedade do diploma para o exercício profissional.

    As empresas de comunicação que defendem essa tese se espelham no modelo norte-americano. Nos EUA, durante o ano de 1993, havia 139.520 estudantes de comunicação nas universidades. 11.153 na pós graduação. Cerca de 500 instituições ofereceram cursos de nível superior na área, porém apenas 96 delas eram credenciadas no Comitê de Credenciamento de Ensino de Jornalismo, entidade independente que estabelece critérios mínimos de qualidade. Naquele país não há obrigatoriedade do diploma para a prática profissional.

    9. Conflitos interprofissionais

    A maneira como a atividade jornalística se desenvolveu no Brasil, deu a ela características eminentemente "românticas" durante determinado período, posteriormente suplantadas - ainda que parcialmente - por uma forma dita mais pragmática de se trabalhar.

    A burocratização no processo de produção da notícia, no fazer do jornal, também contribuiu para uma polarização de opiniões, em que o uso da tecnologia teve papel fundamental. Os computadores afastaram as máquinas de escrever das redações, tornaram o processo mais dinâmico. Acabaram com situações como a dos novatos, os focas, sendo ajudados por profissionais-mestres - agora com dificuldades maiores que os jovens para se adequar às inovações tecnológicas.

    A maneira de pensar a notícia foi mudada e surgiram estratégias de competição diferenciadas para as empresas jornalísticas: a luta por fazer o jornal chegar mais cedo nas bancas acirrou-se, a criação de suplementos regionais foi possível. Perderam-se as características artesanais que ainda restavam e as relações de trabalho se distanciaram, como retratam os depoimentos a seguir:

  • "(...)no jornalismo, existe um problema específico de relações trabalho, as relações são autoritárias, o modo de controle social é autoritário... demissões, cooptações, é um modo anticivilizatório que predomina nas redações."
  • "(...) aqui, qualquer redação, mas especialmente a da Folha, se caracteriza por ser um universo muito instável, dinâmico, impalpável...pantanoso!"
  • Assim, houve mudanças nas demandas tanto dos jornalistas como das empresas. Quase sempre, umas motivadas pelas outras. O que era chamado de jornalismo romântico, ganhou a inferência de incompetência. A passionalidade no lidar com a profissão foi condenada e a objetividade, proclamada a meta principal, afim de conquistar mentes e corações do público em um novo momento histórico que se firmava: o da abertura democrática.

    Houve uma espécie de ruptura entre um padrão de comportamento disseminado desde o Brasil colônia e outro que se auto-proclama mais jornalístico ou profissional, surgido no começo da década de 80. Porém, como elementos tanto de um, como de outro modelo se mantiveram apesar das transformações, os conflitos se estabelecem na caracterização do que é o novo e o velho, o ultrapassado e o modernizante, numa forma equivocada, linear de perceber a trajetória da profissão.

    Findo o período da ditadura no Brasil, o jornalismo teve que mostrar a que veio. Iniciado os governos civis, com José Sarney, foi preciso reafirmar seu papel relevante, tanto quanto nos períodos de resistência política do país. O elemento fundamental no perceber a profissão como indispensável foi (é) a sua capacidade de denunciar. É este o cimento que une indivíduos diferentes, os grupos distintos nesta mesma profissão, e que traz questionamentos individuais e para os sub-grupos caracterizados na tipologia.

    Disso tudo, resulta que há impasses nos entrevistados e nos sub-grupos quanto ao lugar que devem ocupar no mundo como jornalistas e o que precisam demonstrar aos seus pares e ao campo profissional. Nas entrevistas é explicita a percepção negativa que os jornalistas têm, de um modo geral, do ensino superior da profissão, que deveria ser uma das bases de fortalecimento do campo. Essa percepção parece ser conseqüência de uma expectativa de que a faculdade pudesse oferecer uma fórmula para a construção do profissional, independente do mercado e do fato de a academia não se constitui em uma alternativa respeitável dentro da carreira jornalística. Em um dos depoimentos, um professor da ECA/USP demonstra sua frustração em ver como o segmento acadêmico percebe o prático:

  • "Eu fui um puta jornalista, fiz e aconteci pra caralho em tudo que é tipo de situação e quando cheguei aqui ( na universidade para dar aulas) só vi gente falando mal do jornalismo, entende? Só se falava mal... Se discutia muito se se formava o jornalista para o mercado, com gente dizendo que nós não estamos aqui para formar jornalistas para o mercado, era isso que se falava."
  • As críticas dos entrevistados aos sub-grupos e a si próprios mostram também um distanciamento geracional:

  • "Essa é uma geração aética. A ética tá ligada a uma missão, não é? Não é que jornalismo seja uma missão, mas uma ética está ligada a deveres a cumprir, e eles não querem este tipo de papo.(...)"
  • O entrevistado faz referência a indivíduos como os que deram os depoimentos a seguir:

  • "Não tinha nenhuma expectativa em relação ao curso. É estranho isso, porque eu nunca pensei em ser jornalista. Aliás quando eu via entrevistas na TV eu achava os jornalistas todos estúpidos, pelas perguntas que normalmente fazem. Foi essa coisa de exclusão. Como eu gostava de trabalhar com texto, de ler e escrever, eu achei que era uma possibilidade. Eu pensei em fazer letras, mas aí você pensa: poxa eu vou fazer letras e depois virar professor? Uma profissão até um pouco mais fodida que a de jornalista. Embora os jornalistas todos que eu conversei na época me desaconselhassem eu fiz minha opção. Todos eles me falaram: olha, sai dessa...Hoje eu sinto o jornalismo como uma profissão, é o que me daria dinheiro se eu estivesse na área. Mas como uma profissão qualquer...E eu não sou indiferente a ela não. Quando você entra na coisa, você acaba sendo mordido pelo bichinho. É até interessante, eu gostaria de voltar para o jornal. Mas é uma idéia meio romântica, é como voltar para recuperar alguma coisa que ficou no meio do caminho"

    Eu não entrei com uma visão glamurosa do curso, mas sim com uma visão mais ou menos prática que eu iria, de certo modo, transitar - nos diversos sentidos do verbo - me mover geograficamente, conhecer mais gente e outras realidades. Eu tinha muita vontade desse tipo de interação."

  • Os chamados jornalistas mais velhos, ou que viveram a ditadura e não pertencem ao sub-grupo JORNALISTAS, são os anti-profissionais para quem está no palco da profissão. Ao procurar reafirmar essa idéia, o sub-grupo JORNALISTAS busca monopolizar a qualificação de "profissional modelo", num espécie de violência simbólica. Parte do campo profissional acaba aceitando, outra não têm nem força para contestar. Exatamente porque aquele "cimento" de que falava está presente e tem maior visibilidade no sub-grupo JORNALISTAS.

  • "Eu considero que esse profissional de hoje é formado de uma maneira mais universal e a minha avaliação é que esse profissional é bem melhor que a média dos jornalistas de 20 a 30 anos atrás, em termos de formação, de conhecimentos, de preocupações de atitudes diante da profissão. Só como exemplo: é muito raro você ver hoje em dia uma redação com muitos alcoólatras."
  • A percepção profissional do que vem a ser o fracasso e o sucesso é outro aspecto importante. Ela é construída através da oposição entre a dedicação total e a "preguiça", estar trabalhando no dia-a-dia da notícia ou em uma área correlata, estar na universidade dando aulas, ou dentro da redação de uma empresa jornalística. Não há meio termo para os entrevistados:

  • "Eu me considerava um profissional sério, interessado nas causas sociais, enfim, eu fazia tudo que era possível ao meu alcance. Mas eu acho que poderia ter me dedicado muito mais a minha área. Embora possa não dar muito retorno, como eu mesmo disse, você tem que dedicar integralmente já que está dentro da área e vestir mesmo a camisa. Não ter preguiça."
  • Os conflitos observados estão realcionados a posição que as pessoas cupam na tipologia apresentada, mas há também sobreposições de interesses. O confronto não é gerado apenas sociologicamente. A oposição entre o romantismo e o pragmatismo é a materizalização do conflito geracional e das dificuldades surgidas em decorrência das inovações no processo de produção da notícia.

    10. Os modelos analíticos e a realidade

    Mas afinal, que diagnóstico seria possível fazer do processo de profissionalização dos jornalistas. Ele ainda está em curso ou já se concluiu. Há, de fato, um desequilíbrio grande de poder entre os macro-grupos que compõem a tipologia no palco da profissão. A prática jornalística, dentro das redações, é supervalorizada em detrimento da atividade acadêmica. O segmento administrativo é "sindical", o que já o coloca com um status diferenciado em relação a profissões mais clássicas como o direito e a medicina, onde as relações entre a categoria, o mercado e os poderes legalmente constituídos se dão também através de um Conselho Federal e suas instâncias inferiores.

    Em outras profissões, a força da academia está na produção do conhecimento para a prática profissional. Os médicos pesquisam remédios e doenças, os advogados estudam a aplicação de leis e a criação de regras para uma sociedade. Já os acadêmicos do jornalismo discutem o papel da imprensa, as relações de poder, a liberdade de expressão, a ética, mas não produzem o conhecimento que vá definir o futuro da atividade jornalística. A ligação da academia com o mercado é pouca e frágil, numa disputa por quem tem mais valor e pode ditar as regras da profissão.

    A visibilidade que os profissionais das redações têm para o mercado e o público divide o campo profissional em jornalistas e "mezzo-jornalistas". As entrevistas revelam um ressentimento de quem tem a formação profissional, atua - por exemplo - no ensino, já esteve em redações de grandes jornais e hoje não é reconhecido pelos seus pares. A distribuição de poder entre os segmentos que compõem o campo estudado é desproporcional a ponto de causar problemas para o desenvolvimento do mercado.

    O jornalismo brasileiro não pode ser considerado uma profissão fraca. Sua interferência na realidade político-social do país não permite isso Mas sua força está principalmente no segmento prático. O que coloca o campo em situação de desvantagem para resolver problemas como a autonomia e o monopólio. E se confrontarmos o tipo ideal de profissão forte do modelo analítico de Friedson e de Collins com o que foi observado na pesquisa?

    Hoje a atividade não requer, necessariamente, a aplicação de um corpo especializado de conhecimento na prática da atividade. Não um conhecimento que diga respeito exclusivamente ao campo do jornalismo. Profissionais de outras áreas que passam pela experiência da redação de um jornal têm demonstrado condições de exercer a atividade jornalística com desembaraço em menos de seis meses . A grande escola de jornalismo no Brasil, continua sendo a prática: tanto para o mercado, quanto para a academia, que tem se esforçado em alterar os currículos dos cursos inserindo mais atividades laboratoriais que reproduzam o cotidiano das redações.

    A profissão não garante o sustento da grande maioria de seus praticantes. De acordo com a Federação Nacional dos Jornalistas, o Brasil tem hoje cerca de 800 profissionais aposentados. O número é muito inferior ao total de indivíduos no mercado. E isso se daria em razão de que a maior parte deles deixa a atividade em poucos anos, partindo para outras experiências. A Fenaj alega também que muitos morrem antes de completar 25 anos de trabalho, devido às condições estressantes em que atuam.

    Nos anos 80, um endocrinologista espanhol realizou levantamento entre os jornalistas daquele país e constatou que a rotina desgastante das redações provoca impotência e outros distúrbios sexuais, além de aumentar consideravelmente o risco de enfarto, derrames e úlceras. Pesquisa do professor Sílvio Júlio Nassar, da PUC /RJ e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em obituários de profissionais da área de comunicação revelou: em 55 óbitos registrados entre 1988 e 90, 25 mortes tiveram como causa as doenças do coração, 10 câncer e cinco mortes em acidentes. "Ainda segundo a pesquisa, quatro mortes foram resultado de problemas cerebrais e outras quatro , doenças do pulmão. Também foram registrados dois homicídios e dois suicídios"

    Os integrantes da profissão não possuem "o controle total da organização da forma particular de divisão do trabalho" em seu campo. Eles dividem esse poder com as empresas jornalísticas, que não devem ser necessariamente dirigidas ou gerenciadas por profissionais da área. A legislação prevê que diretor de redação não precisa ser formado em jornalismo para exercer o cargo.

    A obrigatoriedade do diploma é o mecanismo de proteção dos profissionais no mercado de trabalho. E esse instrumento tem se mostrado ineficiente para garantir o monopólio, já que indivíduos de outras áreas têm trabalhado como jornalistas em grandes jornais, e principalmente no interior do Estado de São Paulo e do País.

    A profissão possui faculdades associadas a universidades que oferecem formação, mas o mercado criou o seu sistema de ensino paralelo. Os cursos pós-universidade ou pós-falculdade, dentro de empresas jornalísticas, são a grande porta de entrada de novos profissionais no mercado.

    No caso do jornalismo brasileiro, os aspectos contraditórios do mundo profissional a que esta modalidade de trabalho pertence parecem criar um clone do que a profissão é para dissimular o que ela gostaria de ser, onde deseja chegar. Sobre um palco onde a característica principal do "texto" encenado é a emoção, a imprensa lança mão do sensacionalismo, da tragédia cotidiana, da construção de uma agenda nacional, do debate comprometido, da denúncia; e investe-se da condição de porta voz da insatisfação popular. Assim, estabelece um papel social e uma identidade para si, o que coloca a profissão com determinado status no conjunto das outras .

    Para além das transformações sociais que criaram oportunidades para o surgimento da imprensa enquanto indústria, e também dos homens que a fazem enquanto jornalistas, construiu-se um imaginário do que deve ser a atividade, da sua importância. Houve - e há - a necessidade de manter essa aura em torno da profissão, para que ela possa solidificar e ampliar seu poder de interferir na realidade, e não apenas retratá-la. Eis aí um aspecto interessante entre o que a atividade mostra e o que ela faz: mostra uma face de prestadora de serviço, em que seu principal papel é informar objetivamente. E subjetivamente, faz o que for capaz de transformar contextos políticos, econômicos e sociais.

    11. Considerações finais

    O processo de profissionalização da atividade ainda está em curso, com conquistas significativas principalmente ao longo dos últimos 30 anos. A estratégia de capitalizar eventos não foi usada apenas pelos indivíduos que estão na elite da profissão. As entrevistas demonstram que o discurso valorizador está em todos os níveis : desde a dona-de-casa que abandonou a profissão até o professor universitário e o "profissional de sucesso". Ela é amplificada pela elite, que tem maior visibilidade.

    A necessidade de usar esta estratégia é revelada nas entrevistas. Através do elemento que torna os indivíduos parte de um grupo, a denúncia. Os jornalistas exercitam a crença de que ao denunciarem estão sendo profissionais de verdade. É como se sem o episódio do impeachment de Fernando Collor a imprensa fosse menos jornalística, sem a ditadura militar ela fosse menos importante, sem a ditadura Getulista e a proclamação da república não existisse enquanto instituição necessária e indispensável.

    Para que a profissionalização se dê por completo é necessário que o campo seja capaz de demonstrar mais claramente a importância da sistematização do conhecimento, da base teórica que deve dar sustentação à profissão. A luta por uma entidade corporativa mais forte, uma Ordem dos Jornalistas do Brasil ou um Conselho Federal de Jornalismo, é outro fator que pode determinar um novo perfil da atividade no país. Não simplesmente pela criação da entidade, mas pelo que o fato deve significar dentro de uma trajetória histórica do campo.

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    * Ricardo Fontes Mendes es profesor titular de Lenguaje Periodístico /Lengua Portuguesa II y Planificación en Relaciones Públicas en la Universidade Salvador (UNIFACS/BA). Reportero de TV Bahia, Rede Globo de Televisão. Esta es su primera colaboración para Sala de Prensa.


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