A
profissionalização do jornalismo no Brasil
Ricardo
Fontes Mendes *
(continuación)
8.
Tipologia e Classificação dos entrevistados
Os entrevistados
estão identificados no quadro a seguir por
letras e números. Os números indicam a
quantidade de indivíduos qualificados no mesmo
macro-grupo. As letras são as iniciais dos
macro-grupos. ad1, por exemplo, é do
segmento administrativo da profissão,
onde a há dois entrevistados classificados. Ele
pertence ao sub-grupo denominado Mantenedor.
PALCO
| acadêmico |
Reflexivo |
Crítica
à Indústria |
Integração |
| |
a1 |
a2 |
a3 |
| |
- |
- |
a4 |
| |
- |
- |
a5 |
| Administrativo |
Mantenedor |
Transformador |
- |
| |
ad1 |
ad2 |
|
| Prático |
Jornalistas |
Invasores |
Excluídos |
| |
p1 |
p3 |
p5 |
| |
p2 |
p4 |
p6 |
| |
- |
- |
p7 |
| |
- |
- |
p8 |
AUDIÊNCIA
| Negação da Identidade |
Em casa |
Longe do Palco |
| n1 |
c1 |
Lo1 |
| - |
- |
Lo2 |
| - |
- |
Lo3 |
| - |
- |
Lo4 |
a1
é professor universitário. Faz parte da
geração mais velha do jornalismo. Participou da
discussão para reforma curricular no curso da
Escola de Comunicações e Artes da Universidade
de São Paulo. Embora hoje trabalhe
essencialmente com pesquisa, sua experiência
profissional e o discurso sindical lhe serviram
para formar aliança com um grupo eminentemente
teórico, o da Crítica à Indústria, que
encontra grande representação na Intercom
(Sociedade de Estudos Interdisciplinares de
Comunicação).
a2 ajudou no
trabalho de reformulação curricular do curso de
jornalismo da Fundação Cásper Libero. Nela se
observa uma divisão básica, entre os que
acreditam que é a universidade que dita as
regras do mercado, ou o mercado que dita as
regras da universidade. a2 se enquadra no
primeiro caso. Não é jornalista por formação,
mas se profissionalizou ao longo dos anos. Seu
ingresso neste mercado de trabalho aconteceu de
uma maneira bastante particular: Com
conhecimentos expressivos de línguas
estrangeiras, prestava serviço para outros
jornalistas que queriam ver suas reportagens
traduzidas para o inglês afim de enviá-las para
o exterior.
a3 é
ex-funcionário do Banco do Brasil. Deixou a
carreira de bancário para seguir a de
jornalista. Formou-se pela ECA/USP, onde também
fez mestrado. Presta consultoria para entidade
governamental afim de ajudar no credenciamento
(ou não) de novos cursos de jornalismo no país.
Acredita na necessidade de unir a prática do
jornalismo a um conhecimento já sistematizado.
Condena as empresas que não se aliam à
universidade para o desenvolvimento de um novo
profissional.
a4, embora
pertença à academia, reivindica para si a
identidade de prático do jornalismo, em
oposição a de teórico. Isso dá margem a que
seja classificado pelos colegas pesquisadores
como parte do "SENAI" da universidade.
a5 acredita em uma parceria entre as escolas de
jornalismo e as empresas de comunicação para
"salvar" o modelo profissional
existente. Ao contrário de a2, pensa que é o
mercado que dita as regras.
ad1 não se
diz totalmente a favor da obrigatoriedade do
diploma, mas age como tal : "Enquanto a lei
existir deve ser cumprida", afirma,
justificando a censura aos profissionais de
outras áreas, inclusive da área médica, que
fazem carreira na profissão. É a favor de
mudanças na legislação, mas teme uma queda no
status da profissão.
ad2 representa
os que são contra o diploma no segmento
administrativo. É a favor da criação da Ordem
dos Jornalistas do Brasil. Esta informante
acredita na mudança de relações entre as
empresas e o movimento sindical jornalista,
"elevando-a" para o nível das
observadas entre os Conselhos de Profissões como
engenharia, medicina, odontologia (CREA, CRM,
CRO).
A profissão é dividida por
todos os entrevistados em dois grandes grupos .
Os que trabalham dentro das redações de TVs,
rádios e Jornais são chamados Jornalistas
sempre. Mas os profissionais de outras áreas
são tratados por denominações diferentes. É
claro que isso se deve a alta exposição que os
jornalistas da imprensa cotidiana são
submetidos, o que dá ao público e ao mercado
uma maior visibilidade deles. O grupo chamado de
Jornalistas é, assim, a própria representação
da profissão, a síntese do que nela mais se
valoriza tanto interna como externamente.
p1 é um
profissional de sucesso que atua em um jornal
popular, depois de ter passado por uma grande
empresa jornalística onde trabalhou por mais de
10 anos. p2 é profissional da Folha de São
Paulo e professor universitário. Também ocupa
posição de destaque no mercado. Se alia ao
grupo acadêmico de Integração em busca de um
novo caminho para o ensino de jornalismo no
Brasil. Acredita no surgimento de um "novo
profissional" e se diz contra a
obrigatoriedade do diploma.
p3 é
ex-estudante de Educação Física. Teve acesso
ao mercado por conta da rede de relações que
dispunha a época e a fatores circunstanciais de
expansão do mercado para o interior do Estado de
São Paulo. Hoje é profissional da Folha de S.
Paulo. Teme deixar este emprego com medo de não
conseguir trabalho em outra empresa, por conta da
obrigatoriedade do diploma de jornalista para o
exercício da profissão. p4 atua em uma revista
de mineração. É formado pela USP, fez
mobilidade social com o jornalismo e trabalhava
na Sadia como técnico antes de mudar de área.
Se prepara para deixar a profissão em troca de
uma carreira como funcionário público na
Receita Federal.
p5 é
arquivista de um outro grande jornal paulista,
está na periferia da profissão. Seleciona
textos e fotos para editores e repórteres da
redação. Tem mestrado em jornalismo e se
prepara para o doutorado. p6, p7 e p8 têm
empresas de assessoria de imprensa. O primeiro
informante está no limite da profissão com a
Publicidade & Propaganda e as Relações
Públicas. Presta serviço para instituição
governamental. Não tem experiência de
jornalismo diário. A assessoria foi a
alternativa que encontrou para sobreviver no
mercado, depois da faculdade.
p7 e p8
tiveram uma trajetória dentro de revistas e
jornais de circulação nacional. Optaram pela
assessoria de imprensa como um estilo de vida
melhor do que o proporcionado pelo trabalho
dentro das redações.
Já na audiência da
profissão, estão três grupos de acordo com a
amostra analisada. O dos que negam a identidade
de jornalista apesar de serem formados em
comunicação e de alguma maneira atuarem na
área, o das que se tornaram donas-de-casa, e os
que mudaram de área:
n1 trabalha
para uma empresa que faz avaliação de imagem de
pessoas ou instituições na mídia. Ele é
responsável pela preparação dos relatórios
finais. Entre os clientes desta empresa estão,
por exemplo, o ex-presidente Fernando Collor e o
atual, Fernando Henrique Cardoso. c1 deixou a
área logo depois de se formar. Ela casou seis
meses antes da conclusão do curso, em 1990. Hoje
tem 29 anos e três filhos. Lo1 e Lo2 são
casados. Os jornalistas se conheceram dentro da
mesma redação de um jornal. Deixaram a
profissão para abrir uma floricultura. Lo3 é
dona de uma loja de roupas. Lo4 é pequeno
empresário, proprietário de uma empresa de
editoração eletrônica: vende lay-outs de
publicações para assessorias de imprensa.
Embora atue em um segmento estreitamente
relacionado ao jornalismo, sua atividade é mais
bem definida como de artista gráfico.
8.1
O segmento acadêmico
De acordo com as
entrevistas realizadas e o trabalho de campo,
tanto interna, quanto externamente, o jornalismo
vive uma competição profissional intensa. No
segmento acadêmico ela se configura através dos
três grupos indicados na tabela do palco. O da
Crítica à indústria Cultural é ligado à
teoria da Escola de Frankfurt e analisa os mass
media como instrumentos de manipulação da
opinião pública, fazendo críticas à
indústria cultural. Dele resultam, por exemplo,
trabalhos que acusam os erros da imprensa e
criticam a falta de controle dos meios de
comunicação. Os indivíduos que formam este
grupo afirmam que o principal papel da
universidade não é preparar profissionais, mas
sim dar subsídios para que os graduados tenham
condições de se desenvolver no mercado.
"Em
91,(...) partimos do pressuposto de que
quem decide o que o mercado vai fazer é
efetivamente a universidade, e não o
contrário. Quer dizer, aí a gente
radicalizou mesmo".
O grupo da
Integração é constituído pelos que afirmam
que o papel da prática é tão importante quanto
a teoria no aprendizado da profissão. Para o
grupo da Crítica à Indústria Cultural ele age
como se fosse um SENAI, formando técnicos em
jornalismo. Seus integrantes, no entanto, afirmam
que se preocupam em preparar profissionais
prontos para atuarem no mercado de trabalho,
respondendo assim às demandas do segmento
cognitivo da profissão. A resposta que o
"SENAI" procura dar aos seus críticos
é a quantidade de profissionais bem colocados no
mercado egressos de seus bancos escolares.
"A
gente tem que achar um meio termo entre a
ditadura da teoria e a ditadura da
prática. Nas minhas disciplinas eu
procuro integrar as duas coisas, mas é
difícil esse processo entre os
professores.(...) O pessoal da teoria
critica essa integração, mas vai ver
quantos eles conseguiram colocar dentro
das redações de jornais, de rádios, de
TV por aí."
Já o Reflexivo
é composto por profissionais que atuam nas
redações dos meios de comunicação e também
pelos que tiveram uma sólida trajetória dentro
da imprensa, mas optaram mais tarde pela
academia. Eles iniciam a construção de um
espaço, de reconhecimento do papel relevante da
imprensa, dentro da universidade. Este grupo,
hoje valoriza mais a prática do que a teoria,
defendendo explicitamente o fim da
obrigatoriedade do diploma para o exercício da
profissão.
"A
gente precisa parar com isso de só
criticar os jornalistas, a mídia. Não
se pode negar o valor do episódio do
impeachment do Collor. Foi a derrubada de
um presidente de forma legal e a imprensa
teve um comportamento exemplar. (...)
Acho que a profissão devia ter usado
mais este episódio a seu favor. A
situação da profissão hoje é tão
ruim que ela não capitalizou tanto
quanto devia. Onde estão os jornalistas,
os grandes que fizeram a cobertura do
impeachment?(...). Nós fizemos uma
mudança curricular que já aponta para o
fim do diploma (...)"
8.2
Segmento Prático
O segmento
cognitivo, ou prático, organiza-se em três
grupos distintos:
1) Excluídos:
Dentro deste grupo estão todos os que não
são chamados de Jornalistas pelos seus pares,
todos os que não fazem o trabalho diário da
redação ou estão na periferia da profissão.
É o caso de assessores de imprensa,
diagramadores, arquivistas. O número de
assessores de imprensa vem crescendo
significativamente, permitindo a criação de
espaços dentro do segmento administrativo, como
associações e grupos de trabalho para
discussão de problemas comuns. Por isso é
particularmente interessante notar como se dá a
sua relação com os colegas de profissão.
Sobretudo a imagem de que se venderam, deixando o
lado "missionário do trabalho" de
lado.
"O
pessoal de jornal que já trabalhei agora
me encontra na rua, toda arrumada, e fica
mexendo, dizendo "Vida boa, hem!
Como você se deu bem!". Eles não
entendem que quando eu ia para o jornal
não sabia se a pauta do dia era na
favela ou na FIESP."
"Antes
eu fazia reportagem. Agora eu estou do outro lado
do balcão...."
"Jornalismo
não é só edição e reportagem. Estou
desde 1985 no arquivo e agora é que
dominei. Tem que ter uma visão
segmentada, aprender a ler diferente. Eu
leio sete jornais em duas horas(...) Os
repórteres e editores são mal
informados (...) Para subir na carreira
tem que fazer parte de panelinhas. Quer
dizer: é panela quando a gente não
está dentro, quando está é equipe de
trabalho."
2) Jornalistas:
é composto pelos que trabalham dentro das
redações em funções que têm maior
visibilidade para o público e o mercado. Os que
ocupam posições de comando dentro das empresas
de comunicação, acabam sendo potenciais
integrantes do grupo Reflexivo do segmento
acadêmico, porque compartilham do mesmo
ideário.
"Eu
não sou exatamente um desconhecido (...)
Quando fui contrato pela faculdade, tinha
consciência de que estava sendo usado
para reforçar o lado mais modernizante,
mais desligado de um ensino muito preso
ao estudo bastardo das ciências da
comunicação, abastardado das teorias da
Escola de Frankfurt e dessa adulteração
que foi feita por professores e
profissionais durante muitos anos (...)Acho que a
obrigatoriedade do diploma vai deixar de
existir, mas não arriscaria dizer
quando. Eu sou a favor da
desregulamentação, contra a exigência
do diploma. Acho que deveria manter,
talvez, a exigência de diploma de nível
superior, mas não vejo razão para que
só pessoas formadas nas escolas de
jornalismo possam exercer a profissão.
Aliás isso já é uma realidade
hoje."
Dentro do grupo
dos Jornalistas há uma polarização, um corte
entre os que "carregam pedra" no
dia-a-dia da notícia e o profissional que está
em posição de comando, com alguma autoridade e
autonomia maior sobre o resultado final do seu
trabalho.
"Que
eu saiba, nós ocidentais, ainda lemos da
esquerda para a direita! Isso é que dá
colocar quem não entende do assunto para
editar. A melhor coisa que eu já fiz foi
sair da editoria, estou trabalhando com o
Sérgio e aprendendo todo dia uma coisa
nova. A gente evolui mais (...)"Enquanto
eles ficam aí fazendo pose, nós estamos
carregando pedras todos os dias."
3) Invasores:
composto pelos elementos que são de outras
áreas e fazem carreira no jornalismo. É
importante notar o seguinte: não são meros
colaboradores de TV, jornais, rádios e revistas.
São profissionais de fora do campo do jornalismo
que fazem carreira na profissão, trabalham de
repórter, ou já trabalharam, querem ser
editores. Têm uma perspectiva dentro do
jornalismo
"Eu
já pensei em sair daqui, mas para onde
é que eu vou. Ninguém além da Folha
aceita gente de outra área. O que eu
acho um absurdo...esse negócio de
obrigatoriedade do diploma"
Na audiência, o
grupo da negação da identidade não se
reconhece como pertencente ao mundo do
jornalismo, apesar de ter a formação e, em
alguns casos, ainda estar exercendo atividade
jornalística.
"Eu
entrei na profissão para ganhar a vida,
como um meio de vida qualquer. Não foi
por outra coisa. Mas hoje eu não sou
mais jornalista. Eu trabalho
fazendo" relatórios de avaliação
de imagem".
Os que mudam de
atividade e estão longe do mercado alegam que os
conhecimentos do jornalismo são aplicáveis em
todas as áreas, são multidisciplinares. Eles
ainda se reconhecem como jornalistas.
"O
fato de eu ter aberto estas lojas não
significa que não esteja usando os
conhecimento do jornalismo. Tem muita
coisa que eu uso ainda, porque a
profissão é muito aberta. Tem que
pensar, por exemplo, no marketing das
lojas.""Eu vou prestar
vestibular para direito porque preciso
sobreviver. Eu adoro a minha profissão,
mas do jeito que está não dá."
8.3.
O segmento administrativo
O segmento
administrativo organiza-se em dois grandes
grupos. Eles são o da Crítica Mantenedora
e o Crítica Transformadora. O primeiro,
defende a obrigatoriedade do diploma para o
exercício da profissão, se aliando a Outros e
ao grupo da Crítica à Indústria. Ele busca
manter as conquistas legais obtidas pela
profissão, para ampliar sua autonomia.
"A
Folha mente descaradamente ao afirmar,
por exemplo, que a lei que regulamenta
nossa profissão é um produto da Junta
Militar que usurpou o poder em 1969.
Nenhuma regulamentação foi tão
debatida publicamente quanto a dos
jornalistas."
O segundo, é
contra a obrigatoriedade do diploma. Luta por
mudanças nas formas de organização
profissional e na legislação, com o objetivo de
redefinir a autonomia deste campo,
estabelecendo-a de forma mais ampla. Ele se alia
com os chefes, no segmento cognitivo; e com o
grupo Reflexivo e o da Integração, dentro da
academia.
"O
diploma deve ser mantido, mas acho que se
deve permitir profissionais de outras
áreas com nível superior exercer a
profissão. Isso fará com que as
faculdades revejam os seus cursos."
Embora os
segmentos internos em disputa atuem na busca de
profissionalizar a atividade - cada um usando um
discurso que se adequa às suas necessidades -
predomina no campo estudado o sentimento de que a
obrigatoriedade do diploma tende a cair. Isto
poderia parecer contraditório porque cria
obstáculos para que os jornalistas mantenham ou
ampliem o seu monopólio. Porém, formas
alternativas de controle profissional devem
surgir caso isso aconteça, dentro de um
movimento que tem ganhado força no segmento
administrativo da profissão.
A lógica
interna parece ser: diante do inevitável e da
falta de argumentos que convençam, é preciso
criar alternativas caso não seja possível
manter posição. É, portanto, preciso formar
alianças. Neste ponto, o que está no centro da
questão não é "a obrigatoriedade do
diploma", mas o que dela decorre: o controle
ao acesso para a prática profissional, o
monopólio. Além disso, está em jogo também o
papel dos formadores de novos jornalistas.
Assim, nota-se
um esforço na criação de um novo segmento
acadêmico que legitime a profissionalização da
atividade - não através da crítica, mas do
reconhecimento do seu papel para a sociedade
moderna e a democracia. Essa dinâmica é uma
forma de o campo profissional reagir às
transformações que a atividade jornalística
vem sofrendo ao longo dos anos. Trata-se de uma
reação que busca garantir e ampliar o grau de
autonomia já existente.
É este novo
grupo acadêmico, formando alianças, que
no tocante à competição inter-profissional
também se empenha para afirmar a importância do
jornalismo através da capitalização de eventos
externos. Faz isso ainda usando a crítica a
áreas de domínio conexo ao do jornalismo,
tentando criar uma tipologia própria interna à
profissão.
"O
jornalismo se tornou uma profissão muito
genérica em relação à antigamente. O
jornalista vira um monte de coisas. É
como eram as escolas de direito,
formadora de quadros. O cara tornava-se
advogado, mas a maioria virara político.
Jornalista hoje é um monte de coisas no
campo da comunicação, das relações
públicas, da política. Isso está
errado. Em outros países,
tradicionalmente, jornalista é mais como
um médico: quanto mais velho melhor. No
Brasil não. Existe aqui uma espécie de
office-boy do jornalismo, que é o
repórter, e depois de um tempo ele pode
virar chefe. Virou uma profissão de
passagem, porque os salários são muito
baixos."
A luta é para
definir quais grupos vão ter o poder de
determinar quem é, ou não, jornalista e
consequentemente a representação pública da
profissão, que se alimenta de episódios que
permitam superdimensionar a atuação da
imprensa.
De uma maneira
geral as tensões mais evidentes relacionam-se
com a busca de um controle maior sobre o campo. O
acesso à prática profissional e a sua forma
peculiar de regulamentação no Brasil, que
inclui a proibição de estágio para estudantes,
tem confrontado representantes dos segmentos
prático, administrativo e acadêmico, onde
também há indivíduos defendendo a não
obrigatoriedade do diploma para o exercício
profissional.
As empresas de
comunicação que defendem essa tese se espelham
no modelo norte-americano. Nos EUA, durante o ano
de 1993, havia 139.520 estudantes de
comunicação nas universidades. 11.153 na pós
graduação. Cerca de 500 instituições
ofereceram cursos de nível superior na área,
porém apenas 96 delas eram credenciadas no
Comitê de Credenciamento de Ensino de
Jornalismo, entidade independente que estabelece
critérios mínimos de qualidade. Naquele país
não há obrigatoriedade do diploma para a
prática profissional.
9.
Conflitos interprofissionais
A maneira como a
atividade jornalística se desenvolveu no Brasil,
deu a ela características eminentemente
"românticas" durante determinado
período, posteriormente suplantadas - ainda que
parcialmente - por uma forma dita mais
pragmática de se trabalhar.
A
burocratização no processo de produção da
notícia, no fazer do jornal, também contribuiu
para uma polarização de opiniões, em que o uso
da tecnologia teve papel fundamental. Os
computadores afastaram as máquinas de escrever
das redações, tornaram o processo mais
dinâmico. Acabaram com situações como a dos
novatos, os focas, sendo ajudados por
profissionais-mestres - agora com dificuldades
maiores que os jovens para se adequar às
inovações tecnológicas.
A maneira de
pensar a notícia foi mudada e surgiram
estratégias de competição diferenciadas para
as empresas jornalísticas: a luta por fazer o
jornal chegar mais cedo nas bancas acirrou-se, a
criação de suplementos regionais foi possível.
Perderam-se as características artesanais que
ainda restavam e as relações de trabalho se
distanciaram, como retratam os depoimentos a
seguir:
"(...)no
jornalismo, existe um problema
específico de relações trabalho, as
relações são autoritárias, o modo de
controle social é autoritário...
demissões, cooptações, é um modo
anticivilizatório que predomina nas
redações."
"(...)
aqui, qualquer redação, mas
especialmente a da Folha, se caracteriza
por ser um universo muito instável,
dinâmico, impalpável...pantanoso!"
Assim, houve
mudanças nas demandas tanto dos jornalistas como
das empresas. Quase sempre, umas motivadas pelas
outras. O que era chamado de jornalismo
romântico, ganhou a inferência de
incompetência. A passionalidade no lidar com a
profissão foi condenada e a objetividade,
proclamada a meta principal, afim de conquistar
mentes e corações do público em um novo
momento histórico que se firmava: o da abertura
democrática.
Houve uma
espécie de ruptura entre um padrão de
comportamento disseminado desde o Brasil colônia
e outro que se auto-proclama mais jornalístico
ou profissional, surgido no começo da década de
80. Porém, como elementos tanto de um, como de
outro modelo se mantiveram apesar das
transformações, os conflitos se estabelecem na
caracterização do que é o novo e o velho, o
ultrapassado e o modernizante, numa forma
equivocada, linear de perceber a trajetória da
profissão.
Findo o período
da ditadura no Brasil, o jornalismo teve que
mostrar a que veio. Iniciado os governos civis,
com José Sarney, foi preciso reafirmar seu papel
relevante, tanto quanto nos períodos de
resistência política do país. O elemento
fundamental no perceber a profissão como
indispensável foi (é) a sua capacidade de
denunciar. É este o cimento que une indivíduos
diferentes, os grupos distintos nesta mesma
profissão, e que traz questionamentos
individuais e para os sub-grupos caracterizados
na tipologia.
Disso tudo,
resulta que há impasses nos entrevistados e nos
sub-grupos quanto ao lugar que devem ocupar no
mundo como jornalistas e o que precisam
demonstrar aos seus pares e ao campo
profissional. Nas entrevistas é explicita a
percepção negativa que os jornalistas têm, de
um modo geral, do ensino superior da profissão,
que deveria ser uma das bases de fortalecimento
do campo. Essa percepção parece ser
conseqüência de uma expectativa de que a
faculdade pudesse oferecer uma fórmula para a
construção do profissional, independente do
mercado e do fato de a academia não se constitui
em uma alternativa respeitável dentro da
carreira jornalística. Em um dos depoimentos, um
professor da ECA/USP demonstra sua frustração
em ver como o segmento acadêmico percebe o
prático:
"Eu
fui um puta jornalista, fiz e aconteci
pra caralho em tudo que é tipo de
situação e quando cheguei aqui ( na
universidade para dar aulas) só vi gente
falando mal do jornalismo, entende? Só
se falava mal... Se discutia muito se se
formava o jornalista para o mercado, com
gente dizendo que nós não estamos aqui
para formar jornalistas para o mercado,
era isso que se falava."
As críticas dos
entrevistados aos sub-grupos e a si próprios
mostram também um distanciamento geracional:
"Essa
é uma geração aética. A ética tá
ligada a uma missão, não é? Não é
que jornalismo seja uma missão, mas uma
ética está ligada a deveres a cumprir,
e eles não querem este tipo de
papo.(...)"
O entrevistado
faz referência a indivíduos como os que deram
os depoimentos a seguir:
"Não
tinha nenhuma expectativa em relação ao
curso. É estranho isso, porque eu nunca
pensei em ser jornalista. Aliás quando
eu via entrevistas na TV eu achava os
jornalistas todos estúpidos, pelas
perguntas que normalmente fazem. Foi essa
coisa de exclusão. Como eu gostava de
trabalhar com texto, de ler e escrever,
eu achei que era uma possibilidade. Eu
pensei em fazer letras, mas aí você
pensa: poxa eu vou fazer letras e depois
virar professor? Uma profissão até um
pouco mais fodida que a de jornalista.
Embora os jornalistas todos que eu
conversei na época me desaconselhassem
eu fiz minha opção. Todos eles me
falaram: olha, sai dessa...Hoje eu sinto
o jornalismo como uma profissão, é o
que me daria dinheiro se eu estivesse na
área. Mas como uma profissão
qualquer...E eu não sou indiferente a
ela não. Quando você entra na coisa,
você acaba sendo mordido pelo bichinho.
É até interessante, eu gostaria de
voltar para o jornal. Mas é uma idéia
meio romântica, é como voltar para
recuperar alguma coisa que ficou no meio
do caminho"Eu não entrei
com uma visão glamurosa do curso, mas
sim com uma visão mais ou menos prática
que eu iria, de certo modo, transitar -
nos diversos sentidos do verbo - me mover
geograficamente, conhecer mais gente e
outras realidades. Eu tinha muita vontade
desse tipo de interação."
Os chamados
jornalistas mais velhos, ou que viveram a
ditadura e não pertencem ao sub-grupo
JORNALISTAS, são os anti-profissionais para quem
está no palco da profissão. Ao procurar
reafirmar essa idéia, o sub-grupo JORNALISTAS
busca monopolizar a qualificação de
"profissional modelo", num espécie de
violência simbólica. Parte do campo
profissional acaba aceitando, outra não têm nem
força para contestar. Exatamente porque aquele
"cimento" de que falava está presente
e tem maior visibilidade no sub-grupo
JORNALISTAS.
"Eu
considero que esse profissional de hoje
é formado de uma maneira mais universal
e a minha avaliação é que esse
profissional é bem melhor que a média
dos jornalistas de 20 a 30 anos atrás,
em termos de formação, de
conhecimentos, de preocupações de
atitudes diante da profissão. Só como
exemplo: é muito raro você ver hoje em
dia uma redação com muitos
alcoólatras."
A percepção
profissional do que vem a ser o fracasso e o
sucesso é outro aspecto importante. Ela é
construída através da oposição entre a
dedicação total e a "preguiça",
estar trabalhando no dia-a-dia da notícia ou em
uma área correlata, estar na universidade dando
aulas, ou dentro da redação de uma empresa
jornalística. Não há meio termo para os
entrevistados:
"Eu
me considerava um profissional sério,
interessado nas causas sociais, enfim, eu
fazia tudo que era possível ao meu
alcance. Mas eu acho que poderia ter me
dedicado muito mais a minha área. Embora
possa não dar muito retorno, como eu
mesmo disse, você tem que dedicar
integralmente já que está dentro da
área e vestir mesmo a camisa. Não ter
preguiça."
Os conflitos
observados estão realcionados a posição que as
pessoas cupam na tipologia apresentada, mas há
também sobreposições de interesses. O
confronto não é gerado apenas sociologicamente.
A oposição entre o romantismo e o pragmatismo
é a materizalização do conflito geracional e
das dificuldades surgidas em decorrência das
inovações no processo de produção da
notícia.
10.
Os modelos analíticos e a realidade
Mas afinal, que
diagnóstico seria possível fazer do processo de
profissionalização dos jornalistas. Ele ainda
está em curso ou já se concluiu. Há, de fato,
um desequilíbrio grande de poder entre os
macro-grupos que compõem a tipologia no palco da
profissão. A prática jornalística, dentro das
redações, é supervalorizada em detrimento da
atividade acadêmica. O segmento administrativo
é "sindical", o que já o coloca com
um status diferenciado em relação a profissões
mais clássicas como o direito e a medicina, onde
as relações entre a categoria, o mercado e os
poderes legalmente constituídos se dão também
através de um Conselho Federal e suas
instâncias inferiores.
Em outras
profissões, a força da academia está na
produção do conhecimento para a prática
profissional. Os médicos pesquisam remédios e
doenças, os advogados estudam a aplicação de
leis e a criação de regras para uma sociedade.
Já os acadêmicos do jornalismo discutem o papel
da imprensa, as relações de poder, a liberdade
de expressão, a ética, mas não produzem o
conhecimento que vá definir o futuro da
atividade jornalística. A ligação da academia
com o mercado é pouca e frágil, numa disputa
por quem tem mais valor e pode ditar as regras da
profissão.
A visibilidade
que os profissionais das redações têm para o
mercado e o público divide o campo profissional
em jornalistas e "mezzo-jornalistas".
As entrevistas revelam um ressentimento de quem
tem a formação profissional, atua - por exemplo
- no ensino, já esteve em redações de grandes
jornais e hoje não é reconhecido pelos seus
pares. A distribuição de poder entre os
segmentos que compõem o campo estudado é
desproporcional a ponto de causar problemas para
o desenvolvimento do mercado.
O jornalismo
brasileiro não pode ser considerado uma
profissão fraca. Sua interferência na realidade
político-social do país não permite isso Mas
sua força está principalmente no segmento
prático. O que coloca o campo em situação de
desvantagem para resolver problemas como a
autonomia e o monopólio. E se confrontarmos o
tipo ideal de profissão forte do modelo
analítico de Friedson e de Collins com o que foi
observado na pesquisa?
Hoje a atividade
não requer, necessariamente, a aplicação de um
corpo especializado de conhecimento na prática
da atividade. Não um conhecimento que diga
respeito exclusivamente ao campo do jornalismo.
Profissionais de outras áreas que passam pela
experiência da redação de um jornal têm
demonstrado condições de exercer a atividade
jornalística com desembaraço em menos de seis
meses . A grande escola de jornalismo no Brasil,
continua sendo a prática: tanto para o mercado,
quanto para a academia, que tem se esforçado em
alterar os currículos dos cursos inserindo mais
atividades laboratoriais que reproduzam o
cotidiano das redações.
A profissão
não garante o sustento da grande maioria de seus
praticantes. De acordo com a Federação Nacional
dos Jornalistas, o Brasil tem hoje cerca de 800
profissionais aposentados. O número é muito
inferior ao total de indivíduos no mercado. E
isso se daria em razão de que a maior parte
deles deixa a atividade em poucos anos, partindo
para outras experiências. A Fenaj alega também
que muitos morrem antes de completar 25 anos de
trabalho, devido às condições estressantes em
que atuam.
Nos anos 80, um
endocrinologista espanhol realizou levantamento
entre os jornalistas daquele país e constatou
que a rotina desgastante das redações provoca
impotência e outros distúrbios sexuais, além
de aumentar consideravelmente o risco de enfarto,
derrames e úlceras. Pesquisa do professor
Sílvio Júlio Nassar, da PUC /RJ e da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em
obituários de profissionais da área de
comunicação revelou: em 55 óbitos registrados
entre 1988 e 90, 25 mortes tiveram como causa as
doenças do coração, 10 câncer e cinco mortes
em acidentes. "Ainda segundo a pesquisa,
quatro mortes foram resultado de problemas
cerebrais e outras quatro , doenças do pulmão.
Também foram registrados dois homicídios e dois
suicídios"
Os integrantes
da profissão não possuem "o controle total
da organização da forma particular de divisão
do trabalho" em seu campo. Eles dividem esse
poder com as empresas jornalísticas, que não
devem ser necessariamente dirigidas ou
gerenciadas por profissionais da área. A
legislação prevê que diretor de redação não
precisa ser formado em jornalismo para exercer o
cargo.
A
obrigatoriedade do diploma é o mecanismo de
proteção dos profissionais no mercado de
trabalho. E esse instrumento tem se mostrado
ineficiente para garantir o monopólio, já que
indivíduos de outras áreas têm trabalhado como
jornalistas em grandes jornais, e principalmente
no interior do Estado de São Paulo e do País.
A profissão
possui faculdades associadas a universidades que
oferecem formação, mas o mercado criou o seu
sistema de ensino paralelo. Os cursos
pós-universidade ou pós-falculdade, dentro de
empresas jornalísticas, são a grande porta de
entrada de novos profissionais no mercado.
No caso do
jornalismo brasileiro, os aspectos
contraditórios do mundo profissional a que esta
modalidade de trabalho pertence parecem criar um
clone do que a profissão é para dissimular o
que ela gostaria de ser, onde deseja chegar.
Sobre um palco onde a característica principal
do "texto" encenado é a emoção, a
imprensa lança mão do sensacionalismo, da
tragédia cotidiana, da construção de uma
agenda nacional, do debate comprometido, da
denúncia; e investe-se da condição de porta
voz da insatisfação popular. Assim, estabelece
um papel social e uma identidade para si, o que
coloca a profissão com determinado status no
conjunto das outras .
Para além das
transformações sociais que criaram
oportunidades para o surgimento da imprensa
enquanto indústria, e também dos homens que a
fazem enquanto jornalistas, construiu-se um
imaginário do que deve ser a atividade, da sua
importância. Houve - e há - a necessidade de
manter essa aura em torno da profissão, para que
ela possa solidificar e ampliar seu poder de
interferir na realidade, e não apenas
retratá-la. Eis aí um aspecto interessante
entre o que a atividade mostra e o que ela faz:
mostra uma face de prestadora de serviço, em que
seu principal papel é informar objetivamente. E
subjetivamente, faz o que for capaz de
transformar contextos políticos, econômicos e
sociais.
11.
Considerações finais
O processo de
profissionalização da atividade ainda está em
curso, com conquistas significativas
principalmente ao longo dos últimos 30 anos. A
estratégia de capitalizar eventos não foi usada
apenas pelos indivíduos que estão na elite da
profissão. As entrevistas demonstram que o
discurso valorizador está em todos os níveis :
desde a dona-de-casa que abandonou a profissão
até o professor universitário e o
"profissional de sucesso". Ela é
amplificada pela elite, que tem maior
visibilidade.
A necessidade de
usar esta estratégia é revelada nas
entrevistas. Através do elemento que torna os
indivíduos parte de um grupo, a denúncia. Os
jornalistas exercitam a crença de que ao
denunciarem estão sendo profissionais de
verdade. É como se sem o episódio do
impeachment de Fernando Collor a imprensa fosse
menos jornalística, sem a ditadura militar ela
fosse menos importante, sem a ditadura Getulista
e a proclamação da república não existisse
enquanto instituição necessária e
indispensável.
Para que a
profissionalização se dê por completo é
necessário que o campo seja capaz de demonstrar
mais claramente a importância da
sistematização do conhecimento, da base
teórica que deve dar sustentação à
profissão. A luta por uma entidade corporativa
mais forte, uma Ordem dos Jornalistas do Brasil
ou um Conselho Federal de Jornalismo, é outro
fator que pode determinar um novo perfil da
atividade no país. Não simplesmente pela
criação da entidade, mas pelo que o fato deve
significar dentro de uma trajetória histórica
do campo.
__________
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lectura)
*
Ricardo Fontes Mendes es profesor titular de Lenguaje
Periodístico /Lengua Portuguesa II y
Planificación en Relaciones Públicas en la Universidade Salvador (UNIFACS/BA). Reportero de TV Bahia, Rede Globo de Televisão. Esta es su
primera colaboración para Sala de Prensa.
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