A
profissionalização do jornalismo no Brasil
Ricardo
Fontes Mendes *
1.
Introdução
As
particularidades do exercício do jornalismo em
um país que vive o amadurecimento da
experiência democrática definiram caminhos
próprios para os indivíduos que compõem o
campo de atividade. Aqui, esta dinâmica será
apresentada mostrando quais as estratégias de
profissionalização usadas por esta categoria e
os contrastes com os modelos analíticos da
Sociologia das Profissões. Através do
desenvolvimento de uma tipologia, explicitam-se
aspectos relevantes para a compreensão do
processo de profissionalização, de
fortalecimento da identidade dos jornalistas e
dos avanços obtidos pelo campo.
O processo de
profissionalização (como se verá) demonstra
que, apesar de o perfil da profissão de
jornalista fazer com que ela tenha dificuldades
em se definir como autônoma e garantir o seu
monopólio, não há uma trajetória de
enfraquecimento deste campo, de
"proletarização" ou de
"desprofissionalização". Mesmo com o
desequilíbrio de poder entre os diversos
segmentos que compõem internamente o campo
profissional, existem conquistas inegáveis desta
atividade no Brasil.
2.
Argumentos
Crescer, se
profissionalizar, ainda que com uma certa
desordem interna, em parte é resultado de uma
estratégia específica dos jornalistas: a
capitalização, a seu favor, de eventos externos
à profissão. Chamo de eventos externos todos os
fatores de motivação de força profissional
gerados por agentes não pertencentes ao campo.
Em contrapartida, são eventos internos os
fatores de motivação gerados por iniciativa de
pelo menos um dos segmentos internos à
profissão.
Recorro a três
principais vertentes dentro da Sociologia das
Profissões. É a partir delas que faço
determinadas opções, buscando articular
elementos de uma e de outra afim de obter mais e
melhores respostas. A primeira vertente afirma a
importância das profissões, demonstrando que a
configuração de novos campos, por meio de uma
dinâmica própria, é positiva. A segunda,
aponta a desprofissionalização de certas
atividades, ou a proletarização das
profissões. Argumenta-se que ocupações antes
consideradas liberais, hoje são assalariadas.
Assim, seus praticantes estariam perdendo
autonomia sobre o trabalho. O papel que a
tecnologia estaria assumindo nestas atividades
contribuiria para que muitas das práticas
profissionais passem às mãos de outros
indivíduos.
Por último, há
a que critica os mecanismos de preservação das
profissões, assinalando uma luta corporativa,
mantendo interesses que não são os do mercado.
Para essa vertente, a luta a se desenvolver
deveria ser aquela que permitisse que os mais
competentes se estabelecessem, e não os mais
protegidos.
Para melhor
entender o campo profissional do jornalismo é
preciso observar os modelos analíticos de
Freidson (1986 e 1995), Abbott (1988), Collins
(1990), Murphy (1986) e Selander (1990).
3.
As abordagens da Sociologia das Profissões e sua
crítica
Segundo
Freidson, as profissões estão divididas
internamente em segmentos que disputam a
autoridade sobre a sua área de atuação. Estes
segmentos são o de praticantes, o de
administradores e o de acadêmicos. O primeiro,
exerce influência direta sobre os seus clientes
ou consumidores. Os administradores controlam os
mecanismos de exercício da atividade, como
credenciamento em ordens, entidades associativas
ou conselhos de classe. E, por último, o
segmento acadêmico é formado pelos que possuem
o controle sobre o conhecimento formal,
necessário ao exercício profissional. Assim,
afirma, a profissão pode ser considerada forte,
ou bem estruturada, quanto mais equilibrada for a
distribuição de poder entre estes três
segmentos.
O tipo ideal
construído por Freidson possui como
características:
A. A aplicação
de um corpo especializado de conhecimento na
prática da atividade, dentro do mercado de
trabalho formal, para o sustento dos praticantes
, requerendo familiaridade com conceitos
abstratos e teorias, o que lhe confere certo
status.
B. Os
integrantes do campo profissional possuem a
jurisdição sobre o corpo do conhecimento
necessário a sua prática e sobre a
organização da forma particular de divisão do
trabalho que a atividade possui.
C. Os
integrantes possuem mecanismos de proteção dos
praticantes no mercado de trabalho, através da
concessão de credenciais que afirmem a sua
competência para exercer tarefas.
D. A profissão
possui programas de treinamento, ou cursos, que
têm lugar fora do mercado de trabalho, em
faculdades associadas a universidades. Seus
currículos são estabelecidos e controlados
pelos membros da profissão.
Para ele, a
presença dessas características fora do modelo
varia conforme o tipo de organização do Estado,
a composição e estruturação da profissão, as
ideologias compartilhadas ou não; e o tipo de
conhecimento predominantemente exigido para o
trabalho (científico, moral ou cultural).
Murphy diz
que no século passado a relação entre o
profissional e o cliente dava maior autonomia à
profissão. Hoje, afirma, os indivíduos
submetem-se a um sistema burocrático, recebem
salários e perderam o controle sobre suas
tarefas. Para ele esta seria a razão de
profissionais estarem demonstrando insatisfação
no que se refere ao seu trabalho, porque cada vez
ele se parece mais com o dos outros. Suas
associações representativas usam táticas de
movimentos, formando alianças. É o que Selander
chama de alianças estratégicas:
Abbott aborda a
questão das disputas acentuando a luta entre
campos profissionais distintos. Ele acredita que
a análise das tensões entre os segmentos que
constituem o universo profissional, e entre a
profissão e suas concorrentes no mercado,
oferece condições para se extrair um
diagnóstico: um quadro geral dentro de um
contexto significativo, que ajude a compreender
como e porque estas tensões ocorrem. A abordagem
que ele proporciona leva em conta as conquistas
obtidas pela profissão nos aspectos jurídicos,
ou quanto à regulamentação da atividade.
Já Collins
afirma que as profissões extraem seu poder e
força da combinação de dois fatores:
A) da capacidade
de criar seus próprios problemas para depois
desenvolverem o conhecimento abstrato para
solucioná-los ;
B) da capacidade
de monopolizar o desempenho de uma atividade
especializada, para a qual há uma demanda
externa vinda da sociedade.
Freidson oferece
melhores elementos para discutir aspectos
relacionados não só à dinâmica profissional
interna ao universo da profissão, mas também a
uma tipificação de grupos. Ele estratifica o
campo profissional, procurando evitar uma
análise dentro da lógica altruísta. A lógica
que apresenta é a da correlação de forças, em
que o objetivo final é a manutenção,
definição ou ampliação de determinada
autonomia. A configuração de um poder que
defina a profissão como forte ou fraca.
Seu ponto de
vista se opõe ao de Murphy, que atribui à
burocratização e ao assalariamento a principal
responsabilidade pela dinâmica profissional.
Murphy coloca em um plano inferior a discussão a
respeito do desenvolvimento de segmentos internos
à atividade especializada, ele acredita no
declínio do profissionalismo. Em compensação,
assim como Selander, trata de aspectos
importantes como as formas de alianças e
estratégias usadas por determinadas categorias.
Quanto a Abbott,
sua atenção centra-se muito mais na
competição interprofissional. E a análise dos
avanços institucionalizados de uma profissão em
relação a outra não é suficiente para
retratar uma realidade que pode estar
dissimulada. É neste sentido que procuro
reelaborar a sua perspectiva de discussão.
Observo-a a partir de quem se apropria de algo
que não criou e luta com outras áreas de
atividade pela propriedade e pelo mérito
inventados.
4.
A imprensa brasileira
A imprensa
brasileira surgiu na primeira década do século
XIX. Um prelo chegou ao país dentro do porão do
navio que transportou a corte portuguesa em fuga
para a colônia. O equipamento era da Secretaria
da Guerra e foi utilizado por Dom João VI na
produção de A Gazeta do Rio de Janeiro. Antes
desse jornal, em 1808, Hipólito José da Costa
produzia em Londres a edição de lançamento do
Correio Braziliense.
Durante todo o
século XIX, a imprensa teve características
mais pessoais. Os fundadores dos "papéis e
folhetos" de discussão política imprimiram
suas críticas ao sistema. Estes pasquins,
produzidos entre os períodos Regencial e o da
Proclamação da República , experimentaram uma
linguagem mais agressiva. A maneira como se
produzia e disseminava a informação
jornalística, o contexto policialesco com que se
reprimia estas publicações, conferiram um ar de
romantismo à atividade. Na virada do século,
"(...)nos jornais mais lidos, os
anúncios invadem a primeira página, transbordam
de todos os lados, o espaço deixado a redação
torna-se restrito".
Leuenroth define
a primeira década do período como a do
surgimento do movimento associativo dos
jornalistas, dividindo-o em duas categorias: o
civil e o sindical. Entre 1908 e 1951 foram
criadas mais de 80 entidades corporativas em todo
país, o que coloca esta fase como a da
formação de uma identidade de grupo dos
profissionais.
O século
começou com a agitação do operariado e o
jornalismo teve papel tão importante neste
movimento que alguns autores não conseguem
dissociá-los. Não por acaso, o surgimento da
ABI (Associação Brasileira de Imprensa)
aconteceu no ano seguinte ao do Congresso
Operário Brasileiro, em 1908.
No dia 7 de
abril do mesmo ano, quando a ABI foi criada na
Caixa Beneficente dos Empregados do jornal O
País, no Rio de Janeiro, apenas oito jornalistas
compareceram. Com a dificuldade de difundir a
idéia que pregava a necessidade dessa entidade
com um perfil unificador, a Associação
Brasileira de Imprensa que nasceu tinha caráter
meramente assistencialista, pretendendo manter
uma caixa de pensões, assistência médica e um
Retiro da Imprensa para velhos profissionais.
Na décadade 30,
durante a Ditadura Getulista, a ABI encontra
certo amparo institucional, depois de ter passado
34 anos mudando de sedes, existindo graças a
favores, inclusive da Polícia Militar quando
funcionou dentro de um quartel. Em 1931, a
entidade recebeu quatro milhões de cruzeiros
para a construção de sua sede. Em 1934,
Getúlio foi proclamado o presidente de honra da
ABI e discursou qualificando a classe de
"desprotegida, relegada e esquecida",.
Foi ele quem baixou decreto para a criação da
Ordem dos Jornalistas do Brasil, que nunca chegou
a existir.
Foi ainda o
governo getulista que burocratizou a relação
com a mídia através do DIP (Departamento de
Imprensa e Propaganda), criado em 1937 nos moldes
dos aparelhos de repressão nazistas. Num dos
momentos mais marcantes da história da imprensa
brasileira, o DIP representou o cerceamento da
liberdade de expressão e censores dentro dos
jornais. O romantismo da prática profissional
fez-se presente aí também, na luta dos
jornalistas por denunciar, esse um aspecto
agregador dos indivíduos que formam a categoria
e fundamental na construção da identidade
profissional.
No mesmo ano em
que foi criado o DIP, era fundado o Sindicato dos
Jornalistas Profissionais do Estado de São
Paulo. O movimento sindical dos jornalistas
paulistas teve três momentos marcantes: em 1961,
uma greve conquistou o primeiro piso salarial da
categoria. Em 1975, a morte do jornalista
Vladimir Herzog - pela ditadura militar -
provocou indignação geral e diversas
manifestações. Em 1979, outra greve mobilizou
grande parte da categoria, embora não tenha
alcançado êxito quanto às reivindicações.
Dentro das
redações, a década de 70 foi a do chamado
Jornalismo de Resistência. A ditadura militar e
o AI-5 (Ato Institucional 5) impuseram
estratégias de sobrevivência das publicações.
Os pasquins e o jornalismo alternativo, de
porão, foram mais uma vez o grito de negação
da realidade político-social existente.
Profissionais continuaram a conviver com os
censores e exercitaram a criatividade para tentar
publicar o que acontecia realmente, apesar das
limitações.
Na segunda
metade dos anos 70, surge o jornalismo denúncia,
já dentro do processo de reabertura democrática
dos presidentes Ernesto Geisel e João Batista
Figueiredo. Buscando uma identidade com a
imprensa investigativa norte-americana, o
Jornalismo Denúncia caminhou nos anos 80, e
principalmente nos anos 90, para o que hoje é
conhecido como Denuncismo: a notícia surgida de
uma indignação moral fundamentada até mesmo em
boatos sem comprovação..
A variante desta
categoria é o Jornalismo de Dossiê. O exemplo
mais clássico e o mais reverenciado pelos
próprios profissionais é o do Impeachment do
ex-presidente Fernando Collor de Mello.
5.
O ensino de jornalismo
O primeiro curso
universitário de jornalismo nas américas surgiu
em Missouri, nos EUA, em 1908. Além da
formação humanística havia uma preocupação
com a prática, demonstrada em atividades
laboratoriais onde o processo de produção de um
jornal era reproduzido de ponta a ponta. No
Brasil, em 1918, um congresso organizado pela ABI
decidiu pela criação de um curso que acabou
ficando apenas no projeto.
A primeira
formação na área só foi funcionar mesmo em
1935, na Universidade do Distrito Federal. Tinha
um perfil europeu, concentrado em disciplinas
como Ciências Sociais e Ética. Mas com o Estado
Novo, a Universidade foi fechada e a iniciativa
frustrada. Em maio de 1943, o Decreto-Lei 5.480
finalmente criou o ensino de comunicação social
em nível superior. Ele atendia a
reivindicações feitas no início do século
pelos atuantes no jornalismo impresso. Porém,
foi graças a ação da ABI junto ao governo
Getulista, que se iniciou na Faculdade Nacional
de Filosofia, na Universidade do Brasil, a
formação superior para a área. Os primeiros
alunos ingressaram na instituição em 1948, com
apoio da multinacional fabricante de cigarros
Souza Cruz e contra a vontade dos empresários de
comunicação.
Em 1956, era
criada em São Paulo a Faculdade de Jornalismo
Cásper Líbero, com influência curricular
norte-americana, voltada para a prática.
"Na década de 60, há o grande boom
dos cursos de comunicação no país, sobretudo
depois de 1968. Neste ano, o número de cursos
que estavam em funcionamento chegava a 20, para
saltar, em 1972, a 46. O crescimento se deu muito
em razão da regulamentação da profissão, em
1969, a partir de quando passou-se a exigir
diploma dos que iniciassem a carreira."
Segundo Vieira,
três fases marcaram o ensino de comunicação no
Brasil. A primeira delas, clássico-humanística,
foi do início dos cursos até a segunda metade
da década de 60. A principal característica foi
a adoção de um modelo clássico europeu que se
limitava a analisar a atividade dos pontos de
vista literário, ético-jurídico e histórico,
com ênfase para o jornalismo gráfico. As fases
seguintes são:
"Científico-técnica:
Caracteriza-se pela introdução de uma
orientação calcada no modelo
norte-americano. A ênfase recai no
tratamento científico e teórico do
fenômeno da comunicação.(...)Crítico-reflexiva:
(...)Graças à experiência adquirida
pelas escolas e pelo surgimento dos
primeiros cursos de pós-graduação em
nível de mestrado, pôde-se avaliar o
significado da área e sua importância
dentro da sociedade."
Durante a
segunda metade da década de 80 e começo dos
anos 90, foram criados e consolidaram-se os
cursos oferecidos pelas próprias empresas de
comunicação, como o Estado de S. Paulo, Rede
Globo, Folha de S. Paulo e Editora Abril. O
bacharelado não atendia às exigências do
mercado. Os cursos universitários mal
aparelhados não acompanharam a evolução
tecnológica que se processou dentro das
redações. Os laboratórios das escolas ainda
usavam máquinas de escrever quando a
comunicação avançava para a informatização e
a multimídia.
A resolução
002/84 do MEC determina, por exemplo, que um
curso de jornalismo tenha no mínimo 45 máquinas
de escrever/computadores por Laboratório de
Redação, além de acesso aos serviços de
agências noticiosas, o que não acontece na
grande maioria das vezes.
Para atender as
expectativas do mercado, dos discentes e da
própria instituição, com cerca de 180 alunos
na graduação de jornalismo, a Escola de
Comunicação e Artes da Universidade de São
Paulo viveu o esforço da reforma curricular.
Implantada em 1993, ela dividiu o curso em três
partes. A fase introdutória, que cobre várias
áreas do conhecimento; a da formação
jornalística e, por último, a complementar.
Mas, segundo
Dulcília Helena Schoerder Buitoni, ex-chefe do
Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA,
um dos problemas da proposta implantada é que a
convivência entre os alunos foi pulverizada. O
depoimento de uma aluna da ECA da turma de 1980,
explica bem o que isso significa na prática:
"Conheci
pessoas no curso da ECA que eu reputo
hoje como gente muito importante no
processo da minha formação
profissional. O que faz o curso da USP
ser bom não são os professores, mas a
convivência com pessoas tão diferentes.
"
De acordo com
outro professor que participou da reforma
curricular na ECA, para vencer a dispersão dos
alunos seria necessário reforçar o lado
laboratorial do curso. Porém, fatores
circunstanciais impediriam isso. Eles seriam
resultado de uma crise interna do departamento. A
falta de recursos limitava a contratação de
novos professores, ou até mesmo a substituição
de alguns. "Se produz pouco nos
laboratórios e a tendência é piorar, não há
dinheiro", disse.
Em 1995, a
Executiva Nacional dos Estudantes de
Comunicação Social realizou um levantamento de
dados, durante um ano, no qual aponta que as 36
faculdades de jornalismo pesquisadas (metade das
que existiam a época do levantamento) não
cumprem a resolução 002/84 do MEC.
Convivendo com
esta realidade, ressentidas pela falta de
profissionais bem-preparados, as empresas de
comunicação combateram sistematicamente a
obrigatoriedade do diploma. A resposta dos
jornalistas à posição adotada pelo
empresariado do setor tem sido campanhas
permanentes a favor do diploma.
No levantamento
realizado em 1992 pela Organização Mundial do
Trabalho e a Associação dos Correspondentes de
Imprensa Estrangeira em 35 países, 26% deles tem
o acesso à profissão regulamentado. A
formação dos jornalistas nos países onde há
regulamentação é realizada através de
faculdades de comunicação (34,6%), faculdades
de outras especialidades (23,1%) ou via
aprendizado prático (42,3%). Segundo a FENAJ
(Federação nacional dos Jornalistas), embora
não haja requisitos legais estabelecidos em
contrato coletivo, nos EUA 85% dos jornalistas
têm formação universitária, conforme dados da
Associação de Editores daquele país.
6.
O Contigente profissional
Os números
sobre a situação do quadro de jornalistas no
Brasil e no Estado de São Paulo não são
muitos. A maioria dos dados são estimativas com
base no total de sindicalizados, por exemplo. O
levantamento que pode ser considerado mais fiel
à realidade é o da subseção do
Dieese/Sindicato dos Jornalistas do Estado de
São Paulo. A base do levantamento é a RAIS -
Relação Anual de Informações Sociais - e o
Cadastro Geral de Admissão e Dispensa (Caged).
O Dieese fez um
cruzamento dos dados da RAIS de 1992 com os do
Caged de 1993, 1994 e 1995. A RAIS adotada foi a
de 1992, porque a partir daquele ano ela deixou
de ser feita. A mando do Ministro do Trabalho
Antônio Rogério Magri, o levantamento foi
suspenso até a sua exoneração. Porém, mesmo
depois de deixar o governo, os dados dos anos que
ficaram prejudicados não foram divulgados sendo
que os aqui apresentados são os disponíveis. Os
números a partir do cruzamento realizado pela
subseção do Dieese e o Sindicato Profissional
dos Jornalistas do Estado de São Paulo são os
seguintes:
? O
contingente de jornalistas com carteira
assinada no Estado de São Paulo seria de
7.692 profissionais em 1992. Do total,
33,36% (2.587) são jornalistas mulheres
e o restante, 66,37% (5.105) são do sexo
masculino. 7.558 ou 80,26% eram
registrados sob regime da CLT e 134
(1,74%) estatutários, ou seja,
funcionários públicos. Segundo o
levantamento, a explicação possível
para o número reduzido de estatutários
é que as empresas públicas não
costumam mandar a RAIS com regularidade
para o Ministério do Trabalho, além
disso muitas vezes os jornalistas são
contratados com outras denominação,
como técnico em comunicação.? Entre os
grandes setores da economia, Serviços
apresentou a maior quantidade de
jornalistas com vínculo empregatício:
4.532 profissionais, seguido pelo setor
da Indústria com 2.577 jornalistas,
totalizando 92,42%. No setor
Agropecuário, não havia nenhum
jornalista trabalhando. A Construção
Civil, por sua vez, apresentou sete
jornalistas com carteira assinada.
Considerando as funções, Outros
Jornalistas e Redatores constituiu o
maior grupo, com 2.033 profissionais
(26,43%), seguido de Locutor em geral com
1.509 jornalistas e, em terceiro,
Repórteres com 1.839 (18,06%).
? No
Estado, existem 2.088 profissionais em
jornais e revistas. O setor representa
27,15% da totalidade dos que trabalham
com carteira assinada. Outros jornalistas
e Redatores formam o maior grupo do
segmento, com 812 jornalistas (38,89%) em
segundo lugar, Repórteres com 610
registros (29,21%) Há 105 repórteres
fotográficos (5,03%) em todo o Estado de
São Paulo trabalhando em jornais e
revistas. As mulheres contribuem com
37,36% (780) do efetivo no setor,
enquanto os homens são 62,64% (1.308)
dos profissionais. Em números absolutos,
o grupo Outros Jornalistas e Redatores
possui o maior número de mulheres: 273
profissionais. Em seguida, com 257
mulheres, encontra-se Repórteres e, em
terceiro lugar, Jornalistas em Geral, com
108 mulheres. Na função Secretário de
Redação as mulheres são maioria, com
37 entre 59 jornalistas.
? O
número de jornalistas no setor Rádio e
Televisão (2.654) representa 34,5% do
total de jornalistas existentes no Estado
e é maior 27,11% que Jornais e Revistas.
O total de jornalistas no Brasil com
carteira assinada, segundo os dados do
Dieese, é 29.683.
JORNALISTAS NO ESTADO DE
SÃO PAULO (Tabela 1)
Quadro Resumo
| Setores |
masculino
Qtde
............. %
Setor
|
feminino
Qtde
............. %
Setor
|
total
Qtde
............. %
Setor
|
Jornais
/Revistas
Rádio e Televisão |
1.308
2.101 |
62,64
79,16 |
780
533 |
37,36
20,84 |
2.088
2.654 |
27,15
34,50 |
| SUB-TOTAL |
3.409 |
71,89 |
1.333 |
28,11 |
4.742 |
61,65 |
| Estatutários |
87 |
65,41 |
46 |
34,59 |
133 |
1,73 |
| SUB-TOTAL |
3.496 |
73,14 |
1.379 |
26,86 |
4.875 |
63,38 |
Outras
redações
e empresas |
1.609 |
57,12 |
1.208 |
42,88 |
2.817 |
36,62 |
| TOTAL |
5.105 |
66,37 |
2.587 |
22,63 |
7.692 |
100 |
EVOLUÇÃO NO
NÚMERO DE JORNALISTAS NO ESTADO DE SP (Tabela 2)
| Setores |
Qtde
31.12.92 |
%
Geral |
Saldo
Movim. |
Qtde
31.12.95 |
% Evol. |
% Geral |
Jornais
e Revistas
Rádio e Televisão |
2.088
2.654 |
27,15
34,50 |
25
156 |
2.063
2.810 |
1,20
5,88 |
25,61
34,89 |
| SUB-TOTAL |
4.742 |
61,65 |
131 |
4.873 |
2,76 |
60,50 |
| Estatutários |
133 |
1,73 |
- |
133 |
- |
1,65 |
| SUB-TOTAL |
4.875 |
63,38 |
131 |
5.006 |
2,89 |
62,16 |
Outras
redações
e empresas |
2.817 |
36,63 |
231 |
3.048 |
8,20 |
37,84 |
| TOTAL |
7.692 |
100 |
362 |
8.054 |
4,71 |
100 |
Obs.
estatutários estáveis
A Tabela 1
mostra que o comentário corrente no meio
profissional que o jornalismo se transformou numa
ativiadade feminina não corresponde à
realidade. Apesar de no geral os salários serem
baixos os homens aparecem como maioria absoluta.
A tabela 2 aponta para o aumento da importância
que Outras Redações e Empresas está ganhando
na profissão. Aí estão incluidas as
assessorias de imprensa, atividade que faz limite
com a área de Relações Públicas e Publicidade
& Propaganda.
O Brasil
possuía 20 cursos de graduação em
Comunicação Social (Jornalismo, Publicidade e
Relações Públicas) em 1970, 46 em 1972 e 80 em
1990, além de 10 cursos de pós-graduação. O
país chegou a esta década com 33 grupos de
pesquisa em comunicação, reunindo cerca de 500
pesquisadores.
Havia 31 mil
estudantes de graduação nas escolas de
comunicação e 1 mil na pós-graduação. O
total de professores era 2,5 mil. Ingressavam,
através dos vestibulares, 12,5 mil alunos e
concluiam o curso a cada ano 7,5 mil, dos quais
45% habilitavam-se jornalistas.
O credenciamento
dos cursos é feito pelo Ministério da
Educação, enquanto o Ministério do Trabalho
controla o exercício profissional. Apesar da
regulamentação , manteve-se uma brecha na
legislação para a obtenção do registro
profissional provisionado: pessoas sem formação
de nível superior podem obter autorização para
a prática da profissão.
O
provisionamento deveria ser concedido mediante
cumprimento de certos requisitos pelo
interessado, mas o critério de obtenção tem
sido exclusivamente político. Assim, de 355
"jornalistas" entrevistados nas
redações dos principais jornais e revistas do
país, 83,7% afirmaram possuir curso de
graduação, 7% a pós -graduação e 9,3% nenhum
curso de nível superior. Na tentativa de
reverter esse quadro, a Portaria 548, de 14 de
junho de 1995, do Ministério do Trabalho,
regulamenta a revisão do registro profissional
dos jornalistas
Os últimos 20
anos foram palco também do crescimento da
profissão no segmento administrativo. Foi nesse
período que surgiram organismos como a ABJC
(Associação Brasileira de Jornalismo
Científico) e a Sociedade Brasileira de Estudos
Interdisciplinares de Comunicação (Intercom). A
Intercom, fundada em 1977 e responsável pela
agregação de pesquisadores de comunicação, é
integrante da rede de associações científicas
ligadas à SBPC (Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência). Possuia mais de 600
associados em todo o Brasil, organizados em
núcleos estaduais, coordenados pela diretoria
nacional em São Paulo.
Criada em 1978,
a ABJC reunia cerca de 350 jornalistas
profissionais de todo o país dedicados à
divulgação científica. É reconhecida como
instituição-membro da Associação
Ibero-americana de Periodismo Científico.
Organiza-se em seções estaduais e municipais
coordenadas pela diretoria nacional com sede
também na capital paulista. O então presidente
do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S.
Paulo , Everaldo Gouveia, defendia a criação de
uma nova entidade, a Ordem dos Jornalistas do
Brasil. Ela se encarregaria de exigir o
cumprimento da legislação profissional enquanto
o sindicato cuidaria das questões relativas ao
emprego e ao salário do jornalista.
7.
O público
Dados do Centro
Internacional de Jornalismo para a América
Latina (Ciespal) revelam que na década de 80
houve um surto de crescimento dos mass media.
Cerca de 25% das estações de TV que operam
atualmente iniciaram suas transmissões nesse
período. Também a mídia impressa teve
expansão, com o surgimento de 126 jornais
diários na América Latina.
De janeiro de
1988 a dezembro de 1992, houve um salto na
tiragem dos 20 maiores jornais brasileiros, 10%
nas edições de terça-feira a sábado e 6,1%
aos domingos. A Folha foi quem mais cresceu, com
aumento da circulação em 43,8% nos dias úteis
e 40% nas edições de domingo. O Estado de S.
Paulo cresceu 23,17% durante a semana e 4,46% aos
domingos.
As revistas Veja
e Isto É Senhor viveram situação semelhante.
Foi em fins da década de 80 que houve a fusão
da revista ISTO É com a Senhor e o projeto de
torná-la concorrente direta da VEJA, maior
revista semanal de circulação do país e quinta
maior do mundo. As duas publicações ampliaram
suas tiragens e promoveram reformas gráficas e
editoriais para atrair mais leitores, dentro de
um mercado extremamente segmentado. No segundo
semestre de 89, Veja chegou aos 721 mil
assinantes e a 160 mil exemplares vendidos em 20
mil bancas espalhadas pelo país. Em junho de
1995, a tiragem da revista foi de 1.197.644
contra 470.094 da Isto É.
Duas pesquisas
realizadas na Grande São Paulo pelo Instituto
Gallup, com amostragens e metodologias
semelhantes, revelam números interessantes
quanto à credibilidade da mídia entre 1987 e
1994 (datas dos levantamentos). Através delas, o
diretor do Instituto, Carlos Matheus, aponta
lento movimento de mudança da imagem da
imprensa. Nas pesquisas, "as classes
sócio-econômicas mais baixas são as que
creditam maior confiança aos veículos
eletrônicos. Ao mesmo tempo, são responsáveis
pela alta da credibilidade absoluta dos jornais.
Em sete anos, a classe C dobrou sua credibilidade
nos jornais".
Apesar de as
pesquisas do Gallup registrarem pequena
alteração na imagem da imprensa - decorrente
segundo alguns profissionais do seu desempenho na
cobertura da Era Collor -, as condutas das
classes sociais caminham em sentidos opostos.
Não houve uma equalização na opinião dos
entrevistados de 1987 em relação aos de 1994,
mas sim uma inversão, com a classe A passando a
acreditar mais na TV e menos nos jornais, e as
classes C, D, e E passando a acreditar menos na
TV e mais nos Jornais.
Ao mesmo tempo,
uma parcela representativa dos entrevistados,
tanto na pesquisa em 87 como na de 94, têm
consciência que os mass media estão alterando a
realidade dos fatos quando publicam notícias. Em
média, o percentual dos que afirmam que os
jornais sempre distorcem os fatos diminui de
29,8% da primeira pesquisa para 24,3%, na
segunda. Em relação a TV aumentou de 19,6% para
22,3%.
Na resposta às
vezes alteram o fato ao publicar os
índices são ainda maiores, girando em torno de
50% dos entrevistados. Dados complementares da
pesquisa do Gallup nos revelam que cerca de 60%
da amostra acredita que a TV e os jornais estão
mais preocupados em defender interesses do que em
informar.
8. Tipologia
e Classificação dos entrevistados. . .
(Por su extensión y para facilitar
su descarga, este ensayo ha sido dividido en dos
partes. Oprima
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*
Ricardo Fontes Mendes es profesor titular de Lenguaje
Periodístico /Lengua Portuguesa II y
Planificación en Relaciones Públicas en la Universidade Salvador (UNIFACS/BA). Reportero de TV Bahia, Rede Globo de Televisão. Esta es su
primera colaboración para Sala de Prensa.
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