Faça o que
digo, mas não o que faço...
Márcia
Régis *
Certo
dia checo minha caixa de correio e me deparo com
um convite para participar de um workshop, que
pretende discutir o potencial dos meios de
comunicação em influenciar os hábitos de
consumo e direcionar o estilo de vida das
pessoas.
A proposta é
reunir representantes da mídia e especialistas
em comunicação social para refletir sobre o
tema, gerando subsídios para que a Comissão de
Consumo Sustentável do Mansfield College Oxford
(Inglaterra) possa elaborar um Plano de Ação a
ser apresentado em junho de 2002 na África do
Sul, durante a conferência das Nações Unidas
em Meio Ambiente e Desenvolvimento - a
"Rio+10".
Por que discutir
formas mais equilibradas de consumir?
Especialistas afirmam que, em se mantendo os
níveis de produção industrial e consumo que
vemos hoje, junto com a expansão econômica
global e o crescimento da população mundial, o
gradativo esgotamento de recursos naturais e da
biodiversidade do planeta poderá ser uma
realidade não muito distante. Entende-se que a
indústria precisará passar por mudanças de
modo a produzir de modo mais eficiente. E a
sociedade deverá passar por uma reeducação
para o consumo, aceitando os novos tipos de
produtos que poderão nascer de um modelo de
produção que melhor preserve os recursos do
planeta, sem desperdícios.
Tal
reeducação, tanto da indústria, quanto da
sociedade, é hoje uma das mais fortes bandeiras
do movimento ambientalista. E os meios de
comunicacão passaram a ser cobiçados aliados.
Leia-se aqui rádio, TV, imprensa e propaganda.
Se por um lado somos considerados vilões por
incentivarmos o consumo desenfreado e ditarmos
estilos de vida que servem ao interesse da
propaganda da indústria, de outro somos parte da
solução do problema pela nossa imensa inegável
junto ao público. Mas representamos um desafio:
as redações ainda são vislumbradas como as
trincheiras de um mundo arbitrário e parcial;
nós, jornalistas, como peças de uma fábrica de
notícias.
É interessante
observar no fóro dessa discussão quem são
aqueles que se dedicam a explorar o universo dos
meios de comunicação e a discutir novos modelos
de conduta politicamente correta de jornalistas e
publicitários para com o público
consumidor.
No workshop de
Oxford, estavam representantes de organizações
internacionais (Conselho par o Desenvolvimento
Sustentável da Presidência dos Estados Unidos,
Academia Real Nepalesa de Ciência e Tecnologia),
importantes universidades (Universidade de
Indiana/Estados Unidos, Universidade
Aberta/Inglaterra, Universidade de
Hohenheim/Alemanha), Programa de Meio Ambiente
das Nações Unidas (UNEP), ONGs (Amigos da
Terra), empresas privadas (SHELL e Unilever),
escritores e jornalistas (BBC e Canal Discovery),
citando alguns. Ao todo, 38 pessoas. Meus dois
companheiros do programa Lead e eu éramos os
únicos representantes do mundo em
desenvolvimento.
Assim que eu,
marinheira de primeira viagem em este tipo de
evento, vejo sentar-se ao meu lado o chairman
(presidente) da Comissão de Consumo
Sustentável. Cumprimento o senhor inglês
elegante e checo meu arquivo para ver de quem se
trata. Para meu espanto, o presidente de uma
comissão que trata de consumo sustentável é
John Gummer, ex-ministro de Agricultura de
Margaret Thatcher, famoso por aparecer nos
jornais alimentando sua filha com um hambúrguer
e afirmando que a carne bovina inglesa era
segura. Isso foi há cerca de 10 anos, quando
(assim como hoje) pouco se sabia sobre a forma de
contágio da forma humana do mal da vaca louca e
qualquer afirmativa sobre a segurança absoluta
da carne inglesa era (e ainda é) totalmente
irresponsável, afirmam diversos cientistas. A
atitude do então ministro da Agricultura até
hoje é motivo de piada na imprensa britânica,
que cunhou o termo "Método Gummer"
para designar tudo de ruim que os políticos
tentam enfiar goela abaixo dos contribuintes
ingleses.
Alguém diria
que o político em questão veio a tornar-se
Secretário de Estado para o Meio Ambiente, como
o apresentam as brochuras editadas pela comissão
que ele hoje preside. Isso talvez desse alguma
coerência aos fatos. Ainda assim, sentada ao seu
lado, lembrei-me das imagens da garota inglesa de
14 anos que morreu em outubro do ano passado,
vítima do mal da vaca louca. A forma humana da
doença pode ter o tempo médio de incubação de
10 anos.
O chairman, que
hoje é também um MP (Membro do Parlamento
Inglês), abriu seu laptop último tipo, fez um
discurso brilhante e iniciou o workshop em
Oxford. Tudo bem, pensei, tentando acalmar o
espírito, as pessoas mudam e nós, que almejamos
um mundo mais coerente, aprendemos que a
tolerância é boa amiga nesta cruzada....
embora, francamente, algumas vezes seja dificil
tolerar. Enfim, pelo menos se tratava de alguém
com alguma experiência em manipular a mídia .
As discussões
se iniciam. E surgem questões interessantes. De
cara, aprendo que um sexto da população do
mundo consome o que há de melhor. Reflito sobre
o impacto que haveria caso os meios de
comunicação confrontassem esses consumidores
com as consequências do seu consumo. Talvez a
visão de trabalhadores chineses confeccionando
roupas em um ritmo alucinante e um salário
abaixo do mínimo possa fazer um cidadão pensar
duas vezes antes de comprar seu cardigã na Gap.
Vejo que o
chairman digita seu teclado sem parar, enquanto a
representante do governo dos Estados Unidos
lembra que as estações do ano não são mais
dimensionadas pelo público na hora de comprar
comida. Isto é importante, porque os
consumidores acabam pagando mais por produtos
fora de estação, cujo cultivo é obtido com o
uso de produtos químicos indesejados tanto pela
natureza como por seres humanos. As pessoas
desconhecem o que está por trás das etapas de
produção e distribuição desses alimentos.
A discussão
alcança ótimo nível. O chairman escreve sem
parar... um poema de amor à Inglaterra! Sei da
imensa falta de educação que é bisbilhotar os
escritos alheios, mas uma tela de computador
aberta ao seu lado, com um texto escrito em
letras maiúsculas em fontes garrafais, não tem
condições de passar desapercebida.
Talvez o assunto
em discussão já fosse do seu amplo
conhecimento. Talvez aquele senhor possuísse
imensa capacidade de escrever, ouvir e construir
teses interessantes a um só tempo. Mas o fato é
que sua atitude me fez divergir o pensamento e
lembrar da velha máxima: a mídia pode até
representar o quarto poder, mas sua boa parceria
para a mudança de percepções sociais
enfraquece na ausência de genuína vontade
política. É mais fácil ter o desejo de mudar
paradigmas em busca de um mundo mais igualitário
e eficiente. Já vontade política é outra
coisa. E vontade política tem algo a ver com
descompromisso?
Observando a
atitude do chairman, percebo que estou sendo
invadida por uma onda de revolta e sentimentos de
auto-piedade terceiro mundista. Que aumentam com
os rumos da discussão. Ora, como podemos pedir
aos mais pobres que consumam melhor se os
produtos eco-eficientes costumam ser os mais
caros do mercado? Ou como pedir às sociedades
mais ricas que consumam menos quando a escassez
não é vista? Ou que consumam menos, mas paguem
mais?
Meu desconforto
cresce a cada verso que ganha o poema do senhor
inglês. Enfim, me explicam que consumir de modo
sustentável não significa consumir menos: o
desafio é convencer os mais ricos do planeta que
é possível manter sua riqueza e seu padrão de
vida consumindo de modo sustentável. Mas é
preciso buscar meios atrativos de mostrar isso,
mostrando as boas soluções, e não os problemas
a serem enfrentados. Exemplo: na Holanda casas
construídas com sistema de isolamento térmico
custam até 5% a mais na fase de obra, mas para
compensar o proprietário gasta depois até 50%
menos na conta de aquecimento. Para a causa, vale
mais a pena difundir 50% de lucro, que 5% de
gasto. A discussão avança, assim como o poema
do chairman.
Jornalistas
ingleses chamam a atenção para o fato de que os
meios de comunicação têm uma cultura
corporativa, uma identidade institucional que
necessita ser mudada; ou educada para adotar a
causa urgente do consumo sustentável. A UNEP
informa que começa a promover reuniões com
publicitários em vários países do mundo, para
difundir o novo conceito. Também refletimos que
a necessidade dos diferentes públicos nos
países deve ser considerada não mais por
diferenças culturais ou regionais, mas por
diferenças entre grupos de indivíduos. Há
necessidade de os meios trabalharem para grupos
cada vez menores e localizados. O jornalismo de
antigamente, mais enfocado em reportagens e
personagens que em análise de fatos, parece ser
o retorno esperado.
O workshop chega
ao fim. O chairman levanta os olhos do laptop e
faz o seu resumo do encontro: coexistem no mundo
uma crescente elite super-informada e uma massa
totalmente desinformada; o desafio é ensinar aos
dois lados que consumam melhor, e não menos. A
sessão termina, o poema do chairman não chega
ao ponto final e eu saio convencida de que
vivemos num mundo de contradições. Acho que
disso ninguém mais duvida.
*
Márcia Régis é
jornalista, colaboradora de Proceso (México) e IstoÉ (Brasil); Fellow do Programa Lead
International (Lideranças
para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento
Sustentável). Esta es su primera colaboración
para Sala
de Prensa.
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