Ciberespaço
e mutações comunicacionais
Dênis
de Moraes *
El texto analiza las
mutaciones que se establecen en los procesos
de comunicación con la expansión de
Internet y de las tecnologías digitales. La
virtual hace posible el desarollo de un nuevo
modelo de expressión y difusión,
descentralizado y sin hierarquías. En el
ciberespacio, el flujo de mensajes y
contenidos es fundado en principios de
cooperación y intercambio entre los emisores
y los receptores, rompiendo la estructura
vertical que caracteriza los medios masivos.
En la nueva dinámica multimedia, la prensa
escrita, el radio y la televisión coexisten
con Internet y se complementan entre sí. El
autor subraya que Internet estimula una
ética comunicacional más interactiva y
participativa, que posibilita espacios de
divulgación para los movimientos sociales
que luchan por los derechos humanos y por la
ciudadanía.
1.
O furacão multimídia
Vivemos na era
dos fluxos infoeletrônicos. A força invisível
dos sistemas tecnológicos encurta a imensidão
da Terra e subverte toda e qualquer barreira. Os
modos de comunicação alteram-se bruscamente,
propagando um volume incalculável de conteúdos.
A própria vida social se encontra imersa numa
rotação incessante. O que me faz lembrar do que
Marshall McLuhan escreveu no estranhamente
próximo ano de 1964: "O mundo todo, passado
e presente, agora se desvenda aos nossos olhos
como uma planta a crescer num filme
extraordinariamente acelerado."1
A busca voraz
por fluidez baseia-se na evolução galopante das
redes digitais, que a todo instante
disponibilizam informações de acesso imediato,
em uma ambiência de usos partilhados e
interatividades.2 A revolução
multimídia chegou mais cedo do que
imaginávamos, deixou de ser uma imagem
futurista. Ela se concretiza a partir de uma
linguagem digital única, habilitada a integrar
processos, redes, plataformas e sistemas,
multiplicando a geração de produtos e
serviços. A digitalização forja a base
material para a hibridação das infra-estruturas
indispensáveis à transmissão de dados, sons e
imagens.
O cerne das
mutações desloca-se cada vez mais para a
convergência entre tecnologias digitais,
multimídia e realidade virtual. Os sinais de
áudio, vídeo e dados, antigamente processados
de forma independente, passaram a ser tratados do
mesmo modo, depois de digitalizados, compondo um
imensurável conjunto de bits, com amplo
espectro de difusão. Segundo pesquisa da
Universidade da Califórnia em Berkeley,
divulgada em maio de 2001, se o volume de
materiais informativos digitais produzidos a cada
ano no mundo fosse armazenado em disquetes,
seriam necessários 3,2 milhões de quilômetros
de comprimento para colocá-los lado a lado.3
A Internet está
no olho do furacão multimídia. Com mais de 550
bilhões de documentos disponíveis, a mega-rede
precipita mudanças de paradigmas. A veiculação
imediata e abundante não somente delineia modos
singulares de produção e consumo de dados,
imagens e sons, como propicia um realinhamento
nas relações dos indivíduos com os canais de
enunciação. A imagem clássica dos aparelhos de
divulgação no topo da pirâmide e dos
receptores confinados na base está se rompendo
na arquitetura dos espaços descentralizados da
Web. Em sua artérias labirínticas, os usuários
têm a chance de assumir-se como atores
comunicantes, ou, se preferirmos a bela metáfora
de Joël de Rosnay, como "neurônios de um
cérebro planetário", que nunca pára de
produzir, de pensar, de analisar e de combinar.4
O ciberespaço
funda uma ecologia comunicacional: todos dividem
um colossal hipertexto, formado por
interconexões generalizadas, que se
auto-organiza e se retroalimenta continuamente.
Trata-se de um conjunto vivo de significações,
no qual tudo está em contato com tudo: os
hiperdocumentos entre si, as pessoas entre si e
os hiperdocumentos com as pessoas. A partir da
hipertextualidade, a Web põe a memória de tudo
dentro da memória de todos.
Nos
encadeamentos do hipertexto, cada ator inscreve
sua identidade na rede à medida que elabora sua
presença no trabalho de seleção e de
articulação com as áreas de sentidos. O
princípio subjacente é o de que qualquer parte
de um texto armazenado no formato digital
(caracteres por softwares específicos) pode ser
associada automaticamente a unidades textuais
armazenadas do mesmo modo. O clique sobre as
palavras sublinhadas instrui o computador a
ativar o acesso oculto por trás do link,
projetando na tela o assunto requerido, quer ele
esteja no mesmo documento ou em outras bases de
dados. O usuário tem a alternativa de saltar de
uma fonte a outra, em um itinerário sem começo
nem fim. Os textos deslizam pelo monitor, em
ritmo seqüencial, numa colagem de
interferências individuais e coletivas.
O hipertexto
afigura-se, pois, como um texto modular, lido de
maneira não-seqüencial, composto por fragmentos
de informação, que compreendem links
vinculados a nós. O percurso não-linear faculta
novos gabaritos de intervenção por parte dos
leitores. Conforme seus interesses, a pessoa
segue caminhos próprios e extrai sentidos dos
dados localizados. Pierre Lévy observa que, na
comunicação escrita tradicional, os recursos de
montagem são utilizados no momento da redação.
"Uma vez impresso, o texto material mantém
uma certa estabilidade... à espera das
desmontagens e remontagens de sentido a que o
leitor se irá entregar."
Já o hipertexto
digital aumenta consideravelmente o alcance das
operações de leitura: "Sempre num processo
de reorganização, ele [o hipertexto] propõe
uma reserva, uma matriz dinâmica a partir da
qual um navegador-leitor-usuário pode criar um
texto em função das necessidades do momento. As
bases de dados, sistemas periciais, folhas de
cálculo, hiperdocumentos, simulações
interativas e outros mundos virtuais constituem
potenciais de textos, de imagens, de sons, ou
mesmo de qualidades tácteis que as situações
particulares atualizam de mil maneiras. O digital
recupera assim a sensibilidade no contexto das
tecnologias somáticas [voz, gestos, dança...],
mantendo o poder de registro e de difusão dos
meios de comunicação."5
A relação
entre o discurso e outras expressões
não-verbais flexibiliza e valoriza a
estruturação dos textos. A articulação do
discurso a imagens, mapas, diagramas e sons
processa-se tão facilmente quanto sua ligação
com outro fragmento verbal. George Landow entende
que se deve abandonar os atuais sistemas apegados
a noções como centro, margem, hierarquia e
linearidade, substituindo-as pelas de
multilinearidade, nós, nexos e redes. A leitura
linear conquanto não tenha sido
suprimida, nem possa vir a sê-lo por simples
pretensão do emissor converte-se "em
uma faceta da experiência do leitor
individual", no curso de uma trama agora
multidimensional e, em tese, infinita. Com a
possibilidade de firmar nexos, sejam eles bem
programados, fixos ou aleatórios, ou uma
combinação de ambos.6 Não existem mais
percursos únicos e definitivos para a leitura.
2.
Um ecossistema interativo
Na teia
cibernética, os sites afiguram-se como
infomídias interativas: estocam, processam e
distribuem dados e imagens oriundos de diversos
ramos do conhecimento. A pragmática da Internet
desfaz a polaridade entre um centro emissor ativo
e receptores passivos. As interfaces
tecnológicas instituem um espaço de
transação, cujo suporte técnico, em
processamento constante, proporciona
comunicações intermitentes, precisas e
ultra-rápidas, numa interação entre todos e
todos, e não mais entre um e todos. No
ciberespaço, cada um é potencialmente emissor e
receptor num espaço qualitativamente distinto.
Não é por seus nomes, posições geográficas
ou sociais que as pessoas se agregam, mas de
acordo com blocos de interesses, numa paisagem
comum de sentido e de saber.7
Philippe Quéau
sublinha que essa relação de síntese entre o
texto que provém do real e a sua
reconfiguração hipertextual convalida "uma
nova escrita que modificará profundamente nossos
métodos de representação, nossos hábitos
visuais, nossos modos de trabalhar e criar".
E completa: "Não se trata de um gadget,
nem de uma moda passageira, e sim de uma
revolução escrita profunda. Com ela surge uma
nova relação entre imagem e literatura. Agora,
o legível pode engendrar o visível."8
Por outro lado,
o caráter descentralizado da Internet generaliza
a circulação de conteúdos, sem submissão a
estruturas hierárquicas. Antigas
intermediações, pretensamente válidas para
todo o tecido sociocultural, não representam
mais escalas inevitáveis. No ambiente virtual,
com um mínimo de competência técnica, os
usuários podem atuar, a um só tempo, como
produtores, editores e distribuidores de
informações.
Sob tal prisma,
a Internet seria um viveiro de infomídias,
diferenciadas dos macro-sistemas mediáticos
pelos seguintes quesitos:
1) Ao menos até
o presente, não há centros diretivos nem
comandos decisórios na Web;
2) A
comunicação na Internet é fundada numa
reciprocidade com dimensão comunitária (o
telefone é recíproco, mas não fornece uma
visão do que ocorre no conjunto da rede). As
emissoras de televisão e de rádio são pólos
de onde as informações partem e são
distribuídas. Mesmo tomando-se em consideração
o despontar de soluções interativas, existe uma
separação nítida entre os núcleos emissores e
os destinatários, isolados uns dos outros. Na
Internet, há a prerrogativa de participação
dos receptores, inclusive, em coletividades
desterritorializadas;
3) O caráter
interativo e multipolar da comunicação virtual
rompe com limites demarcados por instituições
hegemônicas e pela mídia. Textos, sons e
imagens trafegam em grande quantidade pela
Internet, sem a obrigação de serem submetidos a
filtros de avaliação (conselhos consultivos,
editores). Com a diversificação dos pólos de
enunciação, produz-se uma redistribuição de
dados menos condicionados pelo peso histórico da
imprensa e das indústrias culturais;
4) Na Internet,
entra em parafuso a concepção de reservar a
exposição pública a nomes sacramentados pelo
mercado, pela mídia ou pelas instâncias
acadêmicas. O princípio motriz do ciberespaço
a disponibilização em linha
contraria a lógica da contração,
diversificando as matrizes enunciadoras. Os sites
perfilam-se lado a lado, numa corrente horizontal
e ilimitada de nós. Eles atravessam nossas
retinas em pé de igualdade, do ponto de vista da
logística dos acessos. De qualquer lugar, podem
ser conectados, 24 horas por dia. O que se altera
são a parcela individual de identificação com
o índice temático, os enfoques adotados e a
programação visual.
4) Inexistem, na
Web, grades de programação ou rotas
preestabelecidas de leitura. O indivíduo escolhe
e consome o que quiser nos horários, nas
freqüências e nos ângulos de abordagem de sua
preferência. Enquanto a televisão, o rádio e o
jornal ordenam o noticiário em função de suas
diretrizes editoriais e ideológicas, as redes
computadorizadas impelem-nos a procurar os dados
ambicionados;
5) A navegação
geralmente norteia-se por motores de buscas que
localizam, na incrível diversidade da rede, sites
afins com as palavras-chaves indicadas. Cabe aos
internautas a postura ativa e crítica de
peneirar os materiais brutos resultantes das
pesquisas, atrás de seus focos de interesse;
6) As relações
entre as fontes informativas e os usuários na
Internet são móveis, interrompidas, retomadas e
atualizadas. A ação pode ser contínua, apesar
da duração descontínua, como na comunicação
por secretária eletrônica ou e-mail. A
fruição depende do agenciamento de entradas e
de saídas, embora os fluxos sejam ininterruptos
e deslocalizados.
A cibercultura
mundializa modos de organização social
contrastantes, sem beneficiar pensamentos
únicos.9 Congrega forças,
ímpetos e desejos contraditórios, com a
peculiaridade fundamental apontada por
Pierre Lévy de universalizar sem
totalizar. Na direção aqui indicada, a
totalidade tem a ver com a descontextualização
dos discursos, que permite o domínio dos
significados, o anseio pelo todo, a tentativa de
instaurar em cada lugar unidades de sentido
idênticas. A noção de totalidade busca
bloquear a variedade de contextos e os múltiplos
segmentos que neles deveriam intervir.
O ciberespaço
configura-se como um universal indeterminado, sem
controles aparentes, sem local nem tempo
claramente assinaláveis. Conceituando totalidade
como "unidade estabilizada de sentido",
Lévy a ela contrapõe a vitalidade da
cibercultura, que "inventa uma forma de
suscitar uma presença virtual da humanidade
diante de si mesma, diversa da imposição de uma
unidade de sentido". O monolitismo
semântico dilui-se na medida em que a
universalidade do ciberespaço favorece a
aproximação dos seres humanos, em um meio
ubíquo, paradoxalmente operado por uma
tecnologia real. O filósofo francês acentua que
a cibercultura, ao preservar a universalidade
dissolvendo a totalidade, corresponde à época
em que nossa espécie se inclina a formar, pela
globalização econômica e pelo adensamento das
redes de comunicação e transporte, uma única
comunidade mundial, ainda que desigual e
conflituosa. Esta megacomunidade, conquanto tenha
forte dose de globalismos, prospera por
interação, e não por homogeneização e
massificação.10
Descobrimos um
estiramento na noção de totalidade: no
ciberespaço, as partes são fragmentos
não-totalizáveis, isto é, não-sujeitas a um
todo uniformizador de linguagens e concentrador
de poderes, que anula inevitáveis disparidades
de interpretação. As relações entre as partes
reinventam-se, em densidade e em extensão, sem
que umas se sobreponham ou subjuguem as demais.
Diante dessa dinâmica de micrototalidades
emergentes, a imanência mítica e autoritária
do todo conhece a variável da tensão. Cabe à
capacidade cognitiva dos indivíduos determinar
como se vão rearticular as conexões nos acervos
digitais. A Web inverte a lei das mídias
convencionais: o valor de uso é obtido na
relevância de cada ligação, e não pelo
consumo de denominadores comuns, indispensáveis
à coesão da audiência de massa.
3.
Por uma dialética entre real e virtual
Importante
ressaltar que não concebemos o ciberespaço como
uma esfera autônoma, divorciada das realidades
socioculturais. Embora a práxis virtual seja
pautada por especificidades, há uma relação de
complementaridade com o real, viabilizada pela
progressiva convergência tecnológica. O virtual
é uma existência potencial, que tende a
atualizar-se. A atualização envolve criação,
o que implica produção inovadora de uma idéia
ou de uma forma. O real, por sua vez, corresponde
à realização de possíveis estabelecidos e que
em nada mudarão em sua determinação ou em sua
natureza. A virtualização deve ser entendida
como "uma mutação de identidade, um
deslocamento do centro de gravidade
ontológico". O sujeito evolui da situação
atual para um campo de interrogação que o
obriga a imaginar coordenadas como resposta a uma
questão particular.11
Marc Guillaume
salienta as confluências possíveis entre os
padrões clássicos de interação social e as
redes eletrônicas: "A rede social
preexistente pode melhorar seu desempenho
através da rede técnica, mas esta última não
pode por si mesma criar uma rede social. Está
claro também que o bom uso das mídias
comutativas passa pelas complementaridades e
hibridações, permitindo combinar automatismos e
inteligência humana, rapidez de informação e
vagar na assimilação e na formação."12
A Internet
situa-se na base de criação de uma fronteira a
um só tempo física e abstrata. Física e
tangível, porque sua infra-estrutura operacional
é feita de interfaces gráficas, de modems
e de discos rígidos. Abstrata e intangível,
pois os conteúdos remetem à ordem da
representação, da cognição e da emoção. Sem
atributos físicos e existindo independentemente
deles, o ciberespaço reveste-se de carga
simbólica apta a ampliar as percepções da
realidade.
O mundo on
line, segundo Derrick de Kerckhove, herdeiro
de McLuhan, apresenta-se como "uma realidade
que se pode tocar e sentir, ouvir e ver através
dos sentidos reais não só com ouvidos ou
olhos imaginários".13 As tecnologias do
virtual prolongam as propriedades de envio e
recepção de mensagens, penetram e modificam a
consciência de seus utilizadores,
transformando-se em "extensões quase
orgânicas do nosso ser mais íntimo".14
Os processos de
significação não se anulam, eles se
acrescentam e muitas vezes se mesclam. O
jornalismo impresso coexiste com a televisão, a
multimídia e a realidade virtual. Assim como a
imprensa não suprimiu os manuscritos. O livro
foi combatido pelos epígonos da cultura elitista
da Idade Média. Os benefícios da impressão
mecânica não se impuseram de imediato. Durante
muito tempo ela dividiu a cena com os
pergaminhos, até se consolidar como meio que
possibilita uma circulação social rápida,
barata e abrangente. As sociedades valem-se de
distintas tecnologias, a um só tempo. Uma forma
de comunicação existente ou emergente não
subsiste sem a outra; a tendência é a
convergência de processos e práticas, a partir
de inovações que desencadeiam um realinhamento
do sistema, a fim de garantir a sobrevivência em
ambientes de constantes modificações e
reciclagens.15
Os suportes são
empregados em função de seu uso social. A
escrita manual relaciona-se à comunicação
pessoal, enquanto o computador é utilizado com
freqüência no trabalho, de diversas maneiras, e
para a informação e o entretenimento, através
das redes informáticas, do CD-ROM e de jogos
eletrônicos. Para o contato instantâneo à
distância, o telefone continua insuperável.
Outras circunstâncias pedem o fax, o correio
eletrônico, o pager ou a carta
registrada.
Não será outra
a lógica tecnocultural que, mais cedo do que se
espera, presidirá a coexistência entre as
mídias impressa e digital. Em plena ascensão do
ciberjornalismo, com notícias por segundo e
recursos audiovisuais para atrair usuários aos
noticiários em tempo real, o jornalismo impresso
continua competitivo no mercado da informação.
Basta verificar o que aconteceu no Brasil em
2000. A circulação dos jornais diários
aumentou 8,81%, com apreciável crescimento em
relação aos 1,15% registrado no ano anterior. A
média diária dos jornais brasileiros passou de
7,245 milhões de exemplares em 1999 para 7,883
milhões em 2000. Foi o quarto ano consecutivo de
aumento de tiragens.16
O bom desempenho
dos jornais convive com as transformações que
se operam no setor de comunicação. As antigas
empresas jornalísticas cada vez mais se
reestruturam como organizações multimídias. Os
megagrupos seguem agora o figurino multissetorial
da corporação-rede, isto é, exploram, sozinhas
ou em alianças estratégicas, ramos conexos de
informação e entretenimento. Eles recorrem a
sinergias capazes de assegurar diversidade
produtiva, conjugar know how, renovar
continuamente os parques tecnológicos e
internacionalizar as bases consumidoras. Com
economia de escala, racionalizam custos, reduzem
riscos e perdas, aumentando suas margens de
rentabilidade e lucratividade.
Entram em
declínio as empresas com especializações
únicas e circunscritas a bases regionais. Elas
correspondiam a um outro espaço-tempo, em que as
tecnologias não se sobrepunham a mapas,
calendários e fusos horários; os fluxos de
informações eram infinitamente menos
convulsivos; os mercados não se interconectavam
em tempo real; os estilos de vida não
esgarçavam identidades socioculturais; a
competição não se reduzia a corporações
globais; e não vigorava o imperativo radical de
gerar, a qualquer preço, demandas de consumo
pelo planeta afora.
A hora,
portanto, é de hibridações tecnológicas,
investimentos compartilhados e flexibilidade
operacional. As empresas adaptam-se rapidamente
à digitalização, procurando aproveitar as
oportunidades abertas pela convergência
multimídia e, em especial, pela Internet. Não
será por outra razão que o Fórum Mundial dos
Editores, promovido pela Associação Mundial de
Jornais, indicou, entre os pressupostos que
nortearão os planejamentos na área de mídia
impressa, os seguintes itens: a) predominância
da tecnologia digital em todo o processo de
produção (captação, processamento,
distribuição e armazenamento) de conteúdos; b)
geração de novos conteúdos e serviços
informativos digitais; c) parcerias e alianças
em projetos que explorem comércio eletrônico a
partir de ativos criados pela mídia (bases de
dados de serviços comunitários e diretórios
temáticos, para consultas pagas); d)
utilização de novas ferramentas digitais que
facilitem o fluxo de produção de conteúdos que
combinem diferentes tecnologias (por exemplo,
softwares de automação do processo editorial
para as linguagens digitais).17 Nota-se a preocupação
com sinergias entre sistemas e circuitos, como
também a prioridade por investimentos em
atividades correlatas.
Apesar de todo
esse realinhamento tecnológico, não precisamos
abrir mão do agradável ritual da leitura de
páginas impressas para navegar por homepages
e publicações eletrônicas são viagens
sensíveis distintas, cada qual com seus
percursos e fruições, com a vantagem adicional
de uma complementar a outra. Isto é, podemos
desfrutar, simultaneamente, de experiências no
real e no virtual experiências, vale
insistir, que nenhuma das modalidades sozinha
proporcionaria. Por exemplo, ler textos de Ernest
Hemingway com janelas simultâneas para consultas
a estudos críticos sobre seu legado ou para
conhecer fotos de suas estadas em Paris e Havana.
A cibercultura
não se superpõe às culturas preexistentes, nem
as aniquila. A dialética ativa desdobramentos e
remissões; no lugar de divisões e estacas
demarcatórias, estabelecem-se os nexos, as
bricolagens e as hibridações. É exatamente o
que testemunhamos na Internet. O seu ecossistema
multimídia revela alto grau de adaptação a um
tipo de comunicação que, combinando modelos da
imprensa escrita (jornais, revistas) com a
dinâmica audiovisual (sons, vinhetas, animação
eletrônica), delineia configurações
peculiares. Um portal pode somar e
disponibilizar, ao mesmo tempo, televisão,
rádio, vídeo, DVD, música, cinema, noticiário
em tempo real, arquivos sonoros, jogos, livros,
revistas, jornais, fotografias, arte interativa,
museus, cartões em 3D, publicidade on line
e comércio eletrônico. Praticamente todas as
mídias numa única plataforma digital.
Na vertigem dos
nós, um número cada vez maior de informações
será produzido, veiculado, lido e analisado,
numa prova eloqüente das interseções
possíveis entre real e virtual, dentro de um
conjunto de ambientes integrados e
auto-ajustáveis, sob a primazia da inteligência
humana. Por que isolar as variáveis eletrônicas
dos tesouros impressos? Esqueçamos as
referências imutáveis, o apego a crenças
enrijecidas que geralmente conduzem a
dogmatismos. Optemos por uma dialética de
fertilizações mútuas entre o real e o virtual.
Seria, afinal,
um equívoco encarar a Internet como um mercado
paralelo e estanque, dissociado das demais
mídias e das conjunturas sociais. Não
interligá-la àquelas instâncias equivaleria a
entendê-la como fim e não como um meio para se
atingir metas maiores. Haveria o risco de,
paulatinamente, ela perder significado histórico
e importância cultural. A sua pujança provém
de cooperações de toda ordem.
4.
A ética por interações
Uma das pedras
angulares da Internet reside no fato de
constituir uma esfera pública não-sujeita a
regulamentações externas. Os estatutos éticos
das comunidades virtuais se esboçam no interior
de seus cosmos produtivos, por motivações
cooperativas e coordenações de qualidades e
vocações individuais. Os códigos informais de
conduta não provêm de fora, das instâncias de
poder; devem ser aceitos por consenso e adaptados
às práticas e tradições dos grupos.
A inexistência
de um comando central não impede que as
coletividades construam suas estruturas de
conhecimento.18 Perde vigência aquilo
que conceituamos como o universal totalizante: o
mundo da produção massiva e da distribuição
estandartizada, onde cada indivíduo é percebido
como unidade consumidora, sob a mira de pesquisas
mercadológicas, sondagens de opinião e curvas
estatísticas. As comunidades virtuais
reorganizam, a todo instante, as massas de dados
disponíveis on line, por conexões
transversais e interativas.
Na órbita da
rede mundial de computadores, flutuam
instrumentos privilegiados de inteligência
coletiva, capazes de, gradual e processualmente,
fomentar uma ética por interações, assentada
em princípios de diálogo, de cooperação, de
negociação e de participação. A ciberética
infiltra-se nos grupos e listas de discussão,
conferências eletrônicas e chats. Essas
constelações de células independentes ou
interdependentes ultrapassam fronteiras
institucionais, geográficas e socioculturais,
intercomunicando-se em vários idiomas,
nacionalidades, raças e níveis de escolaridade.19
Na ausência de
uma ordem totalizante, pessoas, grupos ou
entidades movem-se na Web de acordo com seus
valores e conveniências, consignados em escolhas
individuais ou comunitárias. Os usuários formam
comunidades autônomas, de tamanhos substantivos
e predispostas a respostas a estímulos
associativos. Devemos percebê-las como
moléculas e partículas que inscrevem valores,
em um campo aberto à repartição de gostos e
aspirações.
O diferencial da
Internet consiste no fato de que as comunidades
virtuais, enquanto corpos orgânicos, definem e
objetivam valores éticos e códigos informais de
conduta. Tais regras não provêm de fora, das
estruturas de poder; devem ser aceitas por
consenso e adaptadas às práticas e tradições
dos grupos. Paul Mathias refere-se à
"criação ascendente de valores" no
ciberespaço. Coletivos virtuais privilegiam
coexistências regidas não mais por princípios
genéricos, e sim pelo ideal de harmonização de
perspectivas individuais no seio de grupos afins,
favorecendo a reelaboração sistemática de
premissas e competências.20
A singularidade
de disponibilizar, em qualquer espaço-tempo,
variadas atividades e expressões de vida, sem
submetê-las a hierarquias de juízos e
idiossincrasias, gera outro fenômeno
sociocultural. Aprofundam-se na Internet as
experiências de defesa da cidadania e dos
direitos humanos, de promoção de valores
éticos e de revalorização da sociedade civil
como espaço político.
O ciberespaço
veio dinamizar esforços de intervenção de
movimentos sociais e organizações
não-governamentais (ONGs) na cena pública. No
ciberespaço, as ONGs credenciam-se a produzir
manifestações em diferentes momentos e locais
determinados, sem contudo estarem presas a um
lugar ou tempo em particular. Nessa perspectiva,
as entidades compõem redes de organismos
independentes ligados por aparatos tecnológicos,
com o objetivo de repartirem competências,
recursos e custos. As entidades civis valem-se da
Internet enquanto canal público de
comunicação, livre de regulamentações e
controles externos, para disseminar informações
e análises que contribuam para o fortalecimento
da cidadania e para o questionamento de
hegemonias constituídas.
A Internet
oferece ao ativismo social novas ferramentas de
intervenção, como as campanhas virtuais, o
correio eletrônico, grupos de discussão,
fóruns, salas de conversação, boletins,
manifestos on line, murais, anéis de sites
e árvores de links. É uma arena
complementar de mobilização e politização,
somando-se a assembléias, passeatas, atos
públicos e panfletos. Um exemplo dessa junção
de possibilidades: algumas ONGs reproduzem em
seus sites as matérias de seus jornais
impressos, às vezes com traduções em ou dois
idiomas. O veículo convencional continua válido
e necessário; o que se pretende é ampliar a
circulação junto a entidades correlatas do
mundo inteiro, a custo baixo algo
impensável em qualquer outro veículo, pelas
despesas astronômicas.
O Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Brasil,
considera que a Internet proporciona à causa da
reforma agrária "um amplo canal de
comunicação com a sociedade", mas nem por
isso deixou de imprimir, mensalmente, um milhão
de exemplares de seu jornal Sem Terra. O
periódico, com quatro páginas e em cores,
começou a circular em outubro de 2000. É
distribuído nos acampamentos pelo país, onde a
Internet ainda não chegou, e nos meios
sindicais, estudantis, políticos e intelectuais.
A homepage do MST (www.mst.org.br)
registra objetivos, posicionamentos e
comunicados, com rapidez e economia. Recebe de
300 a 400 visitas por dia.
O coordenador do
MST Neuri Rosseto argumenta: "Uma coisa é
ler uma notícia sobre a política de
privatizações em um meio controlado ou
influenciado pelo governo, que tem todo o
interesse em promovê-las. Outra é ler essa
mesma notícia sob a ótica de quem se opõe a
tal política. Uma homepage feita pelas
forças progressistas possibilita, e muito, a
divulgação de seus pontos de vista. Os meios de
comunicação massiva funcionam como uma espécie
de filtro entre o que deve ser noticiado,
destacado, deturpado ou ocultado. A Internet
rompe com essa intermediação. Através dela,
podemos divulgar os acontecimentos junto à
sociedade."21
A organização
em rede aproxima indivíduos e agrupamentos que
compartilham visões de mundo, sentimentos e
desejos. Para Jésus Martín Barbero, as redes se
distinguem como "lugares de encontro"
de múltiplas minorias e comunidades
marginalizadas ou de coletividades de pesquisa e
de trabalho educativo e artístico. "Nas
grandes cidades, o uso de redes eletrônicas
está permitindo construir grupos que, virtuais
em seu nascimento, acabam se territorializando,
passando da conexão ao encontro, e do encontro
à ação".22
Os chamados à
participação individual e coletiva ultrapassam
barreiras geográficas, atropelam fusos horários
e desconhecem grades de programação. Os
intercâmbios tornam-se rápidos e acessíveis. O
ciberativismo alicerça campanhas e aspirações
à distância, no compasso de causas que se
globalizam (combate à fome, defesa do
desenvolvimento sustentável, preservação do
equilíbrio ambiental, direitos humanos, luta por
um sistema de comunicação pluralista).
5.
Cibercidadania e liberdade de expressão
A ausência de
ditames governamentais é decisiva para a
Internet consolidar-se como canal planetário de
informações e idéias. Implica protegê-la de
comandos centrais e de estatutos regulatórios
que afetem a sua autonomia. Significa empenhar
forças para que ela se localize fora do raio de
alcance de direções morais e aprisionamentos de
qualquer espécie, notadamente aqueles
ambicionados pelas estruturas de poder
discricionárias. Significa, em suma, recusar
qualquer camisa-de-força que sufoque a sua
extraordinária gama de diversidades.
Críticos
moralistas agarram-se à convicção de que o
caos da Internet dispensa responsabilidades
individuais e grupais, estimulando a
permissividade. Mas é o caso de indagar: como
esperar uma pureza infinita, se a sociedade
contemporânea está permeada de abusos
insuportáveis por metro quadrado (desemprego
estrutural, brutal concentração de renda,
iniqüidades sociais, corrupção)? Por que a
Internet, sendo uma projeção da inteligência
humana, com interfaces cada vez mais próximas
entre as mentes e as tecnologias, deveria ser
exceção?
É claro que
eventuais abusos, atitudes deletérias (insultos,
pornografias e intromissões descabidas) e
delitos que comprometem o exercício da
cibercidadania precisam ser barrados e punidos.
Instâncias governamentais, policiais e
judiciárias começam a especializar-se na
investigação e na repressão a práticas
ilícitas e crimes digitais.
Para assegurar a
liberdade na rede, é preciso coibir com rigor as
fraudes e o terrorismo, sem, todavia,
institucionalizar regimes de censura e
desrespeito à privacidade. As legislações
sobre proteção do consumidor e direitos de
propriedade intelectual na Web devem ser
aperfeiçoadas, levando em consideração as
peculiaridades de cada país ou região. Mas, em
nome da repressão a crimes digitais, não se
pode atropelar os fundamentos da cidadania,
especialmente a livre manifestação de idéias.
A Internet
constitui uma vida comunitária regulada por
interações, e não por leis, decretos e
portarias. Longe de dispensar os indivíduos de
deveres éticos, o ciberespaço propõe uma
coexistência auto-regulada. Longe de padronizar
condutas com base numa "maioria moral"
(normas e interdições a serviço das
totalidades dominantes), a ciberética apóia-se
em regras e valores consensuais estabelecidos
pelas células de usuários, respeitando-se a
pluralidade de contextos, os projetos
societários e, acima de tudo, a liberdade de
expressão.
Outra exigência
é combater a infoexclusão de populações de
baixa renda, sobretudo nos países periféricos.
Hoje, o acesso permanece concentrado nas camadas
de maior poder aquisitivo e nos países mais
desenvolvidos o que estende à Internet
desigualdades sociais do mundo concreto. Segundo
a Nua Internet Surveys, 75% dos 407,1 milhões de
internautas existentes em novembro de 2000 viviam
em apenas dez países: Estados Unidos, Japão,
Alemanha, Reino Unido, China, Coréia do Sul,
Itália, Canadá, Brasil e França. A
concentração acentua-se por continentes:
enquanto a América do Norte somava 168 milhões
de usuários, seguida por Europa (114 milhões) e
Ásia-Pacífico (105 milhões), o Oriente Médio
e África limitavam-se a irrisórios 2,4 milhões
e 3,5 milhões, respectivamente. A América
Latina não passava de 17 milhões de
internautas, numa população de quase 500
milhões de habitantes.
O relatório
"Perspectivas Econômicas Globais e Países
em Desenvolvimento", publicado em dezembro
de 2000 pelo Banco Mundial, prevê que a
distância entre países ricos e pobres no acesso
à Internet vai perdurar na próxima década.
Segundo o documento, os dois principais
obstáculos à massificação da Web nas nações
periféricas são o descompasso em
telecomunicações e informática, e a escassez
de "capital humano" e de serviços
complementares necessários ao uso de tecnologias
avançadas.
O Banco Mundial
não se refere uma vez sequer à descomunal
concentração de poder e riqueza nos países
desenvolvidos, nem às graves desigualdades
socio-econômicas que geram o atraso e a pobreza
no Terceiro Mundo. Limita-se a falar nos
desequilíbrios entre ricos e pobres no comércio
eletrônico como se isto acontecesse por
efeito mágico, e não por uma ordem global
perversa e excludente. Para se alcançar a
infoinclusão, o relatório vislumbra a
alternativa dos acessos à Internet por
satélite, cabo e celulares o que, no caso
atual dos países em desenvolvimento, equivale a
uma miragem ou a um simples conto-de-fadas. Pelo
menos o presidente do banco, James Wolfensohn,
reconhece que o acesso à rede mundial de
computadores é tão importante para o futuro dos
países mais pobres quanto os investimentos em
necessidades básicas como habitação e
saneamento. "As comunidades pobres não
querem simplesmente um punhado de dinheiro, mas
sim a chance de acumular conhecimentos a fim de
ficarem aptas a se desenvolver por si mesmas. E
não há veículo mais eficiente para a difusão
de conhecimentos do que a Internet."23
6.
A caminho da consciência planetária
As formas
dialógicas que irrompem no ciberespaço começam
a pôr em xeque a renitente metáfora do Big
Brother, que por décadas dominou a teoria
crítica no campo da comunicação. A mídia
sempre encarnou e ainda encarna
aquela sinistra figura, dado o seu poder quase
absoluto de privilegiar as informações que
julga relevantes. A supremacia dos meios
tradicionais persiste e provavelmente
persistirá, porém não há como negar que
inquietações sociais e resistências à lógica
dominante se propagam pela Internet, sem
ingerência de governos e corporações
empresariais ou militares.
O modelo
comunicacional da Internet contribui para reduzir
a dependência aos meios tradicionais, com a sua
crônica desconfiança dos movimentos
comunitários. O mosaico da Web reforça, assim,
os campos de resistência à concentração da
mídia, permitindo que idéias humanistas se
exprimam no perímetro do espaço político
desterritorializado.
Manuel Castells
sublinha a importância estratégica de "se
utilizar o enorme potencial da Internet, por
exemplo, para reviver a democracia, não enquanto
substituição da democracia representativa por
meio do voto, e sim para organizar grupos de
conversação, plebiscitos indicativos e
consultas sobre distintos temas, disseminando
informações na sociedade".24 Significa realçar a
sociedade civil como espaço político por
excelência, fazendo-a ressurgir do declínio
imposto pela hegemonia neoliberal,
preferencialmente na trilha proposta por Benjamin
R. Barber: "um domínio cívico republicano
e mediador entre o desmedido setor governamental
e o metastásico poder privado".25
O quadro de
expectativas e esperanças aqui delineado não
deve, entretanto, alimentar ilusões. Em primeiro
lugar, porque necessitamos amadurecer propostas
de comunicação eletrônica e conciliá-las com
demandas do público-alvo. Em segundo, porque nos
deparamos com um fenômeno ao mesmo tempo
hiperveloz (devido à expansão tecnológica) e
lento (por conta de hábitos culturais e
políticos nem sempre fáceis de atualizar). Em
terceiro, porque os usos e apropriações da Web
são diferenciados, não formam um todo coeso e
harmônico, por mais que redes e coletivos
virtuais fortaleçam afinidades.
Não se trata,
por conseguinte, de transformar a Internet em
fonte de todas as virtudes. Muito menos de sonhar
com um Eldorado digital, habilitado a suplantar o
poderio da grande mídia. Seria tolice subestimar
o predomínio das corporações multimídias no
atual cenário de transnacionalização e
oligopolização das indústrias de informação
e entretenimento. Vejamos o caso particular do
Brasil. Embora seja o líder em acessos na
América do Sul, com 10 milhões de usuários
(5,9% da população), a maior parte dos
internautas pertence às classes A e B e se
aglomera nas regiões Sudeste e Sul. Dos mais de
cinco mil municípios brasileiros, pouco mais de
300 estão conectados à Web.26 É a tradição da
concentração das riquezas que se repete na
escalada digital.
Ao ressaltar a
consolidação da Internet, quisemos chamar a
atenção para as potencialidades que se
entreabrem no âmbito virtual, fundadas em
práticas interativas e não submetidas aos
mecanismos de seleção da mídia. Rapidez,
disponibilização ininterrupta e
descentralizada, estímulo à liberdade de
criação, novos percursos de leitura pelos
hipertextos, espaços cooperativos em grupos de
discussão, correio eletrônico e salas de
conversação em tempo real, acessos diretos
conteúdos on line ilimitados eis
alguns diferenciais que caracterizam a
pragmática de expressão e difusão na Web.
Há muito a
fazer para universalizar as conexões e os usos
sociais da Web. É urgente mobilizar a sociedade
civil mundial para a necessidade de se
estabelecerem políticas públicas que contenham
a onda de mercantilização desenfreada que
atinge a Internet. Não será nada fácil, tendo
em vista: a) o poderio dos conglomerados que
exploram a economia digital e tem fortíssimos
lobbies; b) a hegemonia do discurso neoliberal,
que implica, como contrapartida não-declarada, a
sistemática deslegitimação ideológica de
formulações alternativas ou contestadoras à
supremacia do mercado na regulação da vida
contemporânea; c) a dificuldade de estabelecer
marcos regulatórios democráticos em um meio
fluido e multifacetado como a Web.
Outro grande
desafio é tornar determinados websites
mais conhecidos dos internautas, o que implica
expandir alianças e intercâmbios; divulgar
intensivamente as páginas junto a setores da
sociedade, tanto por meios convencionais, quanto
por boletins e eventos eletrônicos; realizar
conferências e seminários sobre estratégias
comunicacionais para a Internet; e aprimorar os
programas de busca e as árvores de links,
para simplificar a localização das
informações desejadas.
Além de uma
maior percepção pública das páginas, pelo
menos três desafios terão ser enfrentados: 1) a
definição de estratégias de comunicação que
aproveitem as vertentes criativas e interativas
das tecnologias multimídias; 2) o aumento
substancial do número de usuários, o que
depende da superação de entraves
econômico-financeiros (custos de computadores, modems,
linhas e tarifas telefônicas, provedores de
acesso); 3) uma melhor formação para
internautas e ativistas, com simplificação de
procedimentos informáticos, cursos e
treinamentos.
Quer dizer, as
competências humanas permanecem essenciais numa
era de acelerado progresso técnico. Nesse
sentido, não há por que discordar de Dominique
Wolton um crítico da comunicação
eletrônica quando ele assinala a
importância de intermediários qualificados para
instruir e capacitar a navegação pelos imensos
continentes de saberes, dados e conhecimentos da
Web.27 Pensar o contrário
seria admitir, ingenuamente, que o ambiente high
tech se sustenta por automatismos ou
fascínios. O aluvião informacional da Internet
não subsiste sem o discernimento crítico da
inteligência humana que o concebeu e não cessa
de renová-lo.
O diferencial da
Internet consiste em veicular livremente
princípios, anseios e pleitos numa escala nunca
antes sonhada. A arena virtual insinua-se, pois,
como âmbito de representação para
contrapoderes cívicos germinarem na direção
apontada por Félix Guattari:
"Precisamos
fomentar com êxito uma nova consciência
planetária, que se apóie em nossa capacidade
coletiva para a criação de sistemas de valores
que escapem aos pressupostos morais,
psicológicos e sociais do capitalismo, os quais
se centram apenas no benefício econômico. A
alegria de viver, a solidariedade e a compaixão
pelos outros são sentimentos em vias de
extinção e que devem ser protegidos, reavivados
e impulsionados em novas direções. Os valores
éticos e estéticos não nascem de imperativos
nem de códigos transcendentais. Exigem uma
participação existencial baseada em uma
imanência que se deve reconquistar
continuamente."28
Sem ignorar os
obstáculos que se interpõem, penso que a
Internet tende a firmar-se como um dos principais
meios para a construção de uma cultura de
solidariedade social, baseada em uma ética de
reciprocidades entre os sujeitos comunicantes.
Digo um dos principais meios para reiterar
que não entendo o ciberespaço como uma esfera
dissociada dos embates sociais concretos. Como
cogitar de transformações radicais sem
referências objetivas às tradições sociais?
Volto a dizer
que percebo uma relação de confluência, de
acréscimo e de sinergia entre o concreto e o
virtual, resultante, de um lado, da progressiva
hibridação tecnológica e, de outro, do
somatório de possibilidades que nenhuma das
partes, isoladamente, alcançaria. Julgo
perfeitamente viável combinar os instrumentos de
ação político-cultural que ambos fornecem, sem
perder de vista que é no território físico,
socialmente reconhecido e vivenciado, que se tece
o imaginário do futuro.
_____
Notas:
1 Marshall McLuhan. Os
meios de comunicação como extensões do homem.
4ª ed. São Paulo: Cultrix, 1974, p. 395.
2 Ver Milton Santos. A natureza do
espaço: técnica e tempo, razão e emoção.
2ª ed. São Paulo: Hucitec, 1997, p. 218-219.
3 Mirella Domenich, "A era da
obesidade da informação", Valor
Econômico, Rio de Janeiro, 7 de maio de
2001, p. 8.
4 Jöel de Rosnay. Lhomme
symbiotique. Paris: Seuil, 1995, p. 79.
5 Pierre Lévy. A inteligência
coletiva: para uma antropologia do ciberespaço.
Lisboa: Instituto Piaget, 1997, p. 72. Ver, do
mesmo autor, As tecnologias da inteligência:
o futuro do pensamento na era da informática.
Rio de Janeiro: Editora 34, 1993, p. 25-26.
6 Consultar George P. Landow. Hipertexto.
La convergencia de la teoría crítica
contemporánea y la tecnología. Barcelona:
Paidós, 1995, p. 14, 15, 16 e 135. Do mesmo
autor, ler os capítulos 1 e 2 de Hypertext
2.0. The convergence of contemporary critical
theory and technology. Baltimore: The John
Hopkins University Press, 1997.
7 Pierre Lévy. O que é o virtual?
São Paulo: Editora 34, 1996, p. 113.
8 Philippe Quéau. "O tempo do
virtual", em André Parente (org.). Imagem-máquina:
a era das tecnologias do virtual. Rio de
Janeiro: Editora 34, 1993, p. 91-92.
9 Emprego os termos ciberespaço e
cibercultura nas acepções propostas por Pierre
Lévy. Ciberespaço é o novo meio de
comunicação que emerge da interconexão mundial
das redes de computadores. Engloba não somente a
infra-estrutura material da comunicação
digital, como também o oceano de informações
que abriga ao mesmo tempo os seres humanos que
por ele navegam e o alimentam". Cibercultura
designa o conjunto de técnicas materiais e
intelectuais, de práticas, de atitudes, de modos
de pensar e de valores que se desenvolvem
paralelamente ao crescimento do ciberespaço.
Consultar Pierre Lévy. Cyberculture. Rapport
au Conseil de lEurope. Paris: Odile
Jacob, 1997, p. 17.
10 Pierre Lévy. Cyberculture, ob.
cit. p. 129-149. Ler Derrick de Kerckhove. Connected
intelligence: the arrival of the Web society.
Toronto: Somerville House Publishing, 1997,
sobretudo a parte I.
11 Ver Pierre Lévy. O que é o
virtual?, ob. cit., p. 17-18.
12 Marc Guillaume. Lempire des
réseaux. Paris: Descartes & Cie, 1999,
p. 72.
13 Derrick de Kerckhove. A pele da
cultura: uma investigação sobre a nova
realidade eletrônica. Lisboa: Relógio
DÁgua, 1997, p. 80.
14 Ibidem, p. 34 e 142-143.
15 Ver Roger Fidler. Mediamorphosis:
understanding new media. Califórnia: Pine
Forge Press, 1997.
16 Eduardo Brito, "Circulação
aumenta 8,81%. Jornais crescem há quatro anos,
diz IVC", Jornal ANJ, abril de 2001,
p. 3.
17 Consultar Elizabeth Saad Corrêa.
"Arquitetura estratégica no horizonte da
terra cognita da informação digital", em Revista
USP, São Paulo, dezembro de 2000/fevereiro
de 2001, p. 105-106.
18 Ver Pierre Lévy. World philosophie.
Paris: Odile Jacob, 2000, p. 28-38.
19 Sobre grupos de discussão e
comunidades virtuais, ler: Howard Rheingold. Les
communautés virtuelles. Paris: Addison
Wesley-France, 1995; Sherry Turkle. Life on
the screen: identity in the age of Internet. Nova
York: Touchstone, 1997.
20 Paul Mathias. La cité Internet.
Paris: Presses de Sciences Po, 1997, p. 52-53.
21 Entrevista de Neuri Rosseto ao Autor,
13 de agosto de 1998. O MST pretende interligar
seus principais acampamentos, mas depende de
recursos financeiros e de conexões que dispensem
linhas telefônicas fixas (a solução talvez
venha com o aprimoramento da tecnologia wireless,
por celular, satélite ou rádio).
22 Jésus Martín Barbero. Comunicación
y solidariedade en tiempos de globalización. Conferência
no 1º Encontro Internacional de Comunicadores
Católicos, disponível em
www.jmcommunications.com/spanish/barbero.html.
23 O relatório do Banco Mundial está
disponível em
www.worldbank.org/prospects/gep2001/chapt4.pdf.
24 Manuel Castells, em entrevista a René
Lefort, "El nuevo papel del ciudadano ante
la revolución de Internet", Correio da
Unesco, outubro de 1999.
25 Benjamin R. Barber. Un lugar para
todos: cómo fortalecer la sociedad civil y la
democracia. Barcelona: Paidós, 2000, p. 91.
26 Robinson Borges, "Realidade
virtual em xeque", Valor Econômico,
Rio de Janeiro, 24 de novembro de 2001, p. 17.
27 Ler Dominique Wolton. Internet et
après: une théorie critique des nouveaus
médias. Paris: Flammarion, 1999, p. 115 e
206.
28 Félix Guattari, "Pour une
refondation des pratiques sociales", Le
Monde Diplomatique, outubro de 1992.
*
Dênis de Moraes
é doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro e professor
do Programa de Pós-Graduação em Comunicação,
Imagem e Informação da Universidade Federal
Fluminense, no Brasil.
Publicou, entre outros livros, Globalização,
mídia e cultura contemporânea (1997), O
Planeta Mídia: tendências da comunicação na
era global (1998) e O concreto e o
virtual: mídia, cultura e tecnologia (2001).
Es colaborador de Sala de Prensa.
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