Produção
científica cresce no Brasil;
resultado econômico não aparece
Flamínio
Araripe *
O
Brasil ocupa a 15a posição no
ranking das publicações científicas indexadas
pelo Institute for Scientific Information
em 2000, com 714.171 pesquisas, 1,33% da
produção mundial. Nos últimos três anos, o
País foi o que mais cresceu em volume de
pesquisas ali registradas, depois da Coréia.
Todavia, o número de pedidos de patentes no
Brasil, que não reflete esta produção
científica, está estagnado desde o início da
década de 90, 12 mil por ano, e ficou em 16 mil,
em 1999.
O diagnóstico
é feito pelo presidente do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNpQ), Evandro Mirra. "A informação que
trafega dentro da sociedade está
encalhada", afirma. A produção científica
se concentra 80% nas Universidades, 10% em
institutos do governo e 10% nas empresas. A
produção da Universidade ainda é insuficiente,
avalia.
O Brasil investe
0,2% do PIB na área de ciência e tecnologia -
90% pelo governo e 10% pelas empresas. A lacuna
da participação das empresas na pesquisa
constitui a raiz da dependência da
transferência de tecnologia. Enquanto o País
importou US$ 80 milhões de tecnologia em 1999,
passou a importar US$ 500 milhões em 1995 e US$
2 bilhões em 2000. "Numa relação
assimétrica, a exportação de tecnologia é
muito baixa", aponta Mirra.
O parco
resultado econômico da produção científica
nacional, desproporcional ao investimento
público no setor, é uma das principais
questões do sistema de ciência e tecnologia do
Brasil, conclui a secretária nacional de
Política de Informática, Vanda Scartezini. Esta
preocupação ocupará o foco central nas
discussões da Conferência Nacional de Ciência,
Tecnologia e Inovação, a ser realizada pelo
Ministério da Ciência e Tecnologia em
Brasília, dias 18 a 21 de setembro, para
discutir os rumos do setor.
Um dos
mecanismos a serem buscados para melhorar os
resultados é a facilitação para o registro de
patentes, com interação maior entre
universidades e empresas, antecipa a secretária.
Em paralelo à preocupação com os resultados
econômicos da pesquisa nacional, há também um
despertar para ampliar os pequenos oásis de
divulgação científica.
O deserto de
incomunicabilidade isola da sociedade parte da
produção acadêmica e as políticas públicas
do setor. Ciência e tecnologia não ocupam lugar
de destaque na pauta nacional. A pesquisa, que
não chega a tornar-se produto, tem ainda menor
probabilidade de virar notícia.
Na sua gênese,
a ciência veio ao Brasil antes da divulgação
científica. Com o tempo, as duas áreas
distanciaram-se ainda mais. Como primeiro
registro do fazer ciência no Brasil, Mirra
menciona a vinda da Família Real de Portugal em
1808. Foram criados o Real Horto (hoje Horto
Florestal) e a Academia Militar, no Rio de
Janeiro, e a Academia de Medicina da Bahia. Em
Salvador, a "Gazeta Médica" publica o
primeiro número, em 1867.
Hoje, diversas
iniciativas buscam aproximar a ciência da
divulgação, esforços na conquista de espaço e
visibilidade para o setor. O objetivo deste
artigo é informar sobre experiências em
andamento, algumas delas discutidas na 53a
Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência (SBPC), realizada em
Salvador (BA), de 13 a 18 de julho. No evento,
três painéis reuniram jornalistas,
pesquisadores e agências oficiais de fomento
para debater a divulgação científica.
Este relato
enfoca as realizações discutidas no evento.
Não tratamos das revistas de divulgação
científica ou publicações especializadas do
mercado editorial, nem das editorias de Ciência
em alguns jornais e revistas.
Visões
de jornalismo científico: oásis no deserto da
incomunicação
1. O
Labjor
O coordenador do
Laboratório de Estudos Avançados de Jornalismo
(Labjor) da Universidade de Campinas (Unicamp),
Carlos Vogt, no painel sobre "Os Desafios da
Divulgação Científica", anunciou as 10
propostas que encaminhou à Conferencia Nacional
de Ciência e Tecnologia. A primeira visa a
criação de um Programa Nacional de Divulgação
da Ciência e Tecnologia, com apoio das agências
de fomento e dos fundos setoriais, como a Mídia
Ciência da Fundação de Amparo à Pesquisa de
São Paulo (Fapesp). [Leia a seguir sobre a
experiência da Fapesp]
Voght propõe
ainda a inclusão de pelo menos uma disciplina de
jornalismo científico nas graduações em
jornalismo e de uma disciplina optativa sobre
jornalismo, aplicada a cada uma das diferentes
graduações. Propõe o estimulo à criação de
cursos de pós-graduação em jornalismo
científico, de caráter multidisciplinar e
multi-institucional, para jornalistas e
cientistas, como vem sendo feito pelo Labjor.
Pleiteia ainda a multiplicação da experiência
da revista ComCiência, publicada na Internet em
parceria com a SBPC (com apoio do CNPq e Fapesp),
como laboratório para os alunos. <
http://www.comciencia.br/>
"Dar à
atividade de divulgação o mesmo status da
produção científica e tecnológica para
cômputo do desempenho acadêmico do
pesquisador" é proposta de Vogt, entre
outras, como a de incentivar a implantação de
editorias de Ciência e Tecnologia nos grandes
jornais, revistas e na imprensa regional. Leia a
íntegra das indicações, no artigo de Carlos
Vogt, "Os Desafios da Divulgação
Científica", publicado em julho na
Newletter do Labjor:
<http://www.uniemp.br/labjor/news5.htm>
O Labjor realiza
um curso de Especialização em Jornalismo
Científico, de um ano e meio de aula, que
pretende ampliar para Mestrado em 2002, informou
Vogt. A primeira turma (1999-2000), de 40 alunos
- 50% jornalistas e 50% cientistas de diversas
áreas, teve demanda de 145 candidatos. A segunda
turma, iniciada em março deste ano, teve demanda
de 240 pretendentes para selecionar 46 alunos.
<http://www.uniemp.br/labjor/> ou
<http://www.observatoriodaimprensa.com.br/ofjor/ofc210320011.htm>
A revista mensal
ComCiência, lançada em agosto de 1999, cobre
ciência e tecnologia pelos alunos do Labjor e em
agosto de 2000 firmou parceria com a SBPC.
Divulga o resultado de pesquisas, história da
ciência, política científica e crítica da
mídia. Conta com seções, uma delas, o OfJor
Ciência, de crítica à cobertura científica da
mídia, em consonância com o projeto do
Observatório da Imprensa, de media watching.
<http://www.observatoriodaimprensa.com.br>
Pesquisa do
Labjor aponta crescimento do espaço editorial
dedicado à pesquisa, nos nove jornais de maior
circulação no Brasil, numa comparação entre
os anos 80 e os anos 2000 e 2001.
2.
ABJC x analfabetismo científico
Para o
jornalista Ulisses Capozoli, presidente da
Associação Brasileira de Jornalismo Científico
(ABJC) e assessor da SBPC, em vez de desencontro
entre jornalistas e cientistas, existe um
"analfabetismo científico" das duas
partes. O diálogo de ambos é dificultado pela
formação precária em história e em filosofia
da ciência, o que chamou de analfabetismo
científico, uma incapacidade de generalizar
princípios.
" O
jornalista precisa urgentemente investir na sua
formação", recomendou, como requisito para
a prática do jornalismo interpretativo, que faz
a contextualização histórica dos fatos. Diante
da enxurrada de informações da Internet,
Ulisses disse que o jornalismo impresso tem
espaço para dar sentido aos fatos.
Ulisses apontou
como desafios dos jornalistas a necessidade de
uma base razoável de física, química, biologia
e matemática, e a transformação na relação
de poder nas redações. Como exemplo, citou que
um bom repórter, capaz de escrever matérias que
se expliquem por si próprias, pode ser a base
para outra relação de poder nas redações, em
que o pauteiro que indica o que deve ser
coberto - torna-se uma coisa do passado.
Em países como
o Brasil, Ulisses defendeu que o jornalista da
área de ciência e tecnologia tem a obrigação
de fazer a aproximação entre o saber
científico para trazer ao público um
entendimento, uma inteligibilidade do mundo. Veja
artigo de Ulisses Capozoli, "ABJC ampliará
discussões entre jornalistas e cientistas".
<http://www.radiobras.gov.br/abrn/ciência
e tecnologia/artigos/2001/artigo_290101.htm>
A ABJC
encaminhou à Conferência Nacional de Ciência,
Tecnologia e Inovação, o anteprojeto do
Programa Nacional de Formação em Jornalismo
Científico. A idéia, conforme o Boletim da
ABJC, é fazer um diagnóstico nacional sobre os
cursos de graduação e pós-graduação que
estão formando jornalistas científicos.
"Não ficaremos apenas no mapeamento.
Queremos estabelecer parâmetros mínimos de
metodologia para a oferta de cursos com conteúdo
programático, bibliografia e perfil de
professores adequados. Pensamos, também, em
montar palestras, workshops e cursos nas
diferentes regiões do país, com a colaboração
dos colegas jornalistas e professores que já
atuam na área". Para receber o Boletim da
ABJC, escrever para Fabíola de Oliveira.
<fabi@univap.br>
3.
Núcleo José Reis e Agência Brasil
O Núcleo José
Reis de Divulgação Científica da Escola de
Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de
São Paulo (USP) promove o curso de
Especialização "Divulgação Científica:
Conceitos e Praxis", em conjunto com a
Associação Brasileira de Divulgação
Científica. Consta de seis módulos bimestrais,
um curso de um ano e meio, destinado a
jornalistas, cientistas, pesquisadores,
educadores e comunicadores envolvidos ou
interessados em comunicação científica.
<http://www.eca.usp.br/nucleos/jnr/cursos.htm>
A Agência
Brasil da Radiobras, do governo brasileiro,
mantém um serviço de notícias semanais sobre
Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente, criado em
1989, que tem por objetivo divulgar pesquisas com
linguagem de fácil entendimento. "Na
época, o espaço para divulgar as pesquisas
científicas-tecnológicas eram praticamente
nenhum, e ainda é exíguo, diz o editor
Ubirajara Júnior. O noticiário já teve uma
rede de correspondentes e foi distribuído por
uma lista de 1.500 assinantes, mas agora é
mantido na Internet:
<http://www.radiobras.gov.br>
4.
"Pesquisa Fapesp"
A editora-chefe
da revista "Pesquisa Fapesp", Mariluce
Moura, anuncia que já está no ar a versão
eletrônica da publicação, impressa desde 1996,
com as 62 edições, em
<http://www.pesquisafapesp.fapesp.br>. Com
tiragem de 44 páginas em cores, a revista mensal
nasceu de uma estratégia para dar visibilidade a
como eram utilizados os recursos da fundação
que aplica 1% do Imposto sobre Consumo de
Mercadorias e Serviços de São Paulo. "Em
2000, a Fapesp investiu R$ 550,7 milhões no
fomento à atividade científica e tecnológica
em São Paulo", diz a edição de junho.
O embrião da
revista foi um boletim de quatro páginas, em
1995, dentro de uma gerência de comunicação
que inclui relações com a imprensa, área de
eventos e a de publicações, o carro-chefe.
"Um projeto como este parece mais fácil em
um ambiente como São Paulo, que tem massa
critica e um sistema de ciência e tecnologia bem
desenvolvido, apoiado com recursos humanos e
financeiros, com entendimento político do que é
um sistema de ciência e tecnologia",
afirmou.
"Para
outros estados, permanece um desafio criar estes
instrumentos", disse a editora, ao ressalvar
que a Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas
Gerais (Fapemig) também tem a sua revista
<http://revista.fapemig.br>. Mariluce
observou que "a revista é resultado de um
diálogo fecundo - até com certo grau de tensão
como é próprio de todos os bons diálogos -
entre um claro projeto jornalístico e um
discurso institucional. Este diálogo é
alimentado pela comunidade científica de São
Paulo. O resultado é uma revista elegante,
limpa, bonita, que convidasse o leitor a
percorrer suas páginas".
A revista conta
com editorias fixas de Política Científica, de
Ciência, que cobre resultados dos projetos
financiados pela Fapesp, de Tecnologia e
Humanidade, que engloba cultura e ciências
humanas. De acordo com Mariluce, os artigos são
redigidos por jornalistas com experiência na
grande imprensa e têm a qualidade para ser
publicados por qualquer veículo nacional. A
publicação faz divulgação científica e
cumpre um papel de marketing institucional,
pontuou.
5.
"Ciência Hoje" e "Jornal da
Ciência"
O editor do
"Jornal da Ciência", veículo impresso
da SBPC, José Monserrat Filho, recorda que no
período da abertura política, 1980-82,
falava-se no Brasil em analfabetismo,
concentração de renda, mudança do modelo
político e muito pouco de ciência. Era quando
os primeiros exilados políticos começavam a
voltar ao País. "Ninguém pensava em
divulgação científica".
Foi quando um
grupo da Universidade criou há 19 anos uma
revista de divulgação científica a
"Ciência Hoje", da SBPC com
objetivo de levar informações de ciência para
o grande público, qualificada, avaliada pelos
pares. A experiência implicou em fazer um
modelo, no qual cientistas precisaram da
capacidade de escrever e jornalistas colaboravam
para a clareza da linguagem.
A "Ciência
Hoje" chegou a ter 90 mil assinantes, numa
fase em que a "Ciência Ilustrada", uma
publicação comercial, deixou de circular em
bancas. "O mercado não foi levado em conta
porque não é o problema. Nós temos que fazer o
mercado", assegurou. A revista, hoje, está
no número 173. A versão na WEB, a cargo do
jornalista Bernardo Esteves, tem atualização
diária, média de mil visitantes por dia.
<http://www.uol.com.br/cienciahoje/>
A experiência
foi como uma escola, relata Monserrat. Foi
preciso descobrir uma relação do editor com o
cientista. Para o cientista, mostrou como
escrever para um público que não é a tribo
dele. Para o jornalista, ensinou como fazer um
texto, que não seja o dele, para tornar
palatável. "É uma historia que precisa ser
conhecida, trazendo as lições que tem a
dar".
Depois, veio a
"Ciência Hoje para Crianças", única
no Brasil, hoje em 133 edições. O cientista
escreve para o público infantil e o texto passa
pela avaliação da área com o máximo rigor
possível, explicou.
Em seguida,
circulou o "Jornal da Ciência", que
discute a política científica e tecnológica
federal e dos Estados, das Fundações estaduais
de Amparo à Pesquisa, do Ministério da Ciência
e Tecnologia, as funções políticas da
comunidade cientifica. Tem 16 páginas que
veiculam as lutas políticas para aprovação de
projetos e lobby junto ao Congresso Nacional. A
versão distribuída por e-mail, o JC E-Mail, que
surgiu em 1993, circula de segunda a sexta-feira.
Tem mais de 10 mil assinantes, sobretudo leitores
da área de ciência e tecnologia, do governo,
imprensa e academia.
<http://www.sbpcnet.org.br>
A tiragem média
da revista "Ciência Hoje" é de 14 mil
exemplares. No período entre julho de 2000 a
julho de 2001, a revista "Ciência Hoje das
Crianças" publicou mais de 200 mil
exemplares. Já editou livros 10 em parceria com
empresas e governo para distribuição nas
escolas, com previsão de mais 12 este ano, sobre
temas em evidência com interesse científico,
para o público escolar. É o movimento de uma
pequena editora.
O Projeto
Ciência Hoje, desde 1999, já recebeu 15
estagiários de escolas de Comunicação, com
bolsas de Iniciação Científica da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj),
que em 2001 patrocina mais 8 bolsas. O acervo
acumulado motivou a criação de um Centro de
Produção de Conteúdo Científico para atender
a outros veículos e até educação a
distância.
Ennio Candotti,
um dos fundadores da revista, fez um apelo para
que os cientistas comuniquem as suas dúvidas, se
eduquem para aprender a escrever para o público.
Aziz AbSaber, conselheiro da SBPC, defendeu
a importância de fazer chegar aos políticos, na
Câmara e Senado, o conhecimento científico que
é útil ao País. "São insensíveis",
criticou. Crodovaldo Pavan, ex-presidente da
SBPC, disse que o problema do cientista "é
o complexo de rigor científico".
Divulgação
científica vai formar operadores ou criar
pensadores?
A divulgação e
o jornalismo científico devem preparar o homem
para operar no setor de ciência e tecnologia, ou
devem suscitar uma reflexão crítica sobre a
natureza da ciência a serviço da concentração
da riqueza e destruição do meio ambiente?
As duas
alternativas foram colocadas na Reunião da SBPC
por Henrique Lins de Barros, do Museu de
Astronomia e Ciências Afins, do Rio de Janeiro.
Para ele, se
continua a escalada de destruição, a
divulgação científica não vai dar conta da
crise social que se anuncia nos próximos 20 anos
com ocorrência de colapso na água, atmosfera e
alimentos em algumas partes habitadas do planeta.
Ao lembrar a
foto da Terra feita por satélite à noite, em
que se vêem cidades iluminadas dos Estados
Unidos e Canadá, o Sudeste e parte do Nordeste
do Brasil, em meio à escuridão no resto do
País, ele disse que quem vive no hemisfério Sul
paga a conta da concentração de riqueza.
"Hoje, o
impacto tecnológico do mundo é avassalador. Há
maior exclusão social, que este modelo de
desenvolvimento vai aumentar", disse
Henrique Lins.
O coordenador
fez uma comparação da divulgação científica
com a execução da música Sonata ao Luar, de
Beethoven, cujo primeiro movimento tornou-se
muito popularizado e gerou uma versão que
excluiu a original dissonância de acordes. O
resultado das adaptações, feitas para facilitar
a execução no piano, mudou as notas em dó
sustenido menor, escritas pelo compositor, para
lá menor.
O resultado saiu
uma caricatura, um pastiche, disse Henrique Lins.
Transposto para o terreno da divulgação
científica, em vez de criar um mau executante de
música, ele disse que as instituições de
divulgação cientifica devem criar o ouvinte de
música.
O
poder da TV
O presidente da
Associação Brasileira de Centros e Museus de
Ciência, Ernst Wolgang Hamburger, coordenador do
Espaço de Ciência da Universidade de São Paulo
(USP), recomenda que a divulgação científica
deve cuidar especialmente da TV na
popularização da ciência. A razão é que 88%
dos lares brasileiros têm TV, enquanto 90%
possuem rádio e apenas 10% lêem jornal.
"Quando se
faz popularização da ciência, é necessário
pensar em toda a gama de públicos",
recomenda. Existem outras mídias além dos
veículos de comunicação, como congressos,
eventos, artes em geral, do cinema ao teatro e
música, zoológico, Universidade e escolas,
entre outros, menciona.
Hamburger
relatou a evolução histórica do ensino de
ciências no Brasil, desde 1950 encarado como
decoreba e livresco, aos primeiros investimentos
em mudança como no FBEC-Unesco coordenado por
Isaias Raw em 1955, os grandes projetos
curriculares nos EUA e Europa até a criação
dos Centros de Ciências, em 1965, em Rio de
Janeiro, Bahia, Minas Gerais, São Paulo e
Pernambuco.
No jornalismo
científico, Hamburger disse que depois de José
Reis, pioneiro na "Folha de S. Paulo"
ter ganho o prêmio Kalinga-Unesco, em 1954, o
CNPq criou o prêmio anual com nome do
jornalista, em 1978. Em 19 anos, 680 trabalhos
concorreram aos prêmios de divulgação
científica, jornalismo cientifico e
instituição científica, com a distinção
destinada a jornais, revistas, TV e
instituições de pesquisa.
Há, no Brasil,
113 centros e museus de ciências, dos quais 60
nas Universidades. A maioria está no Sul (37),
seguido de São Paulo (32), Rio de Janeiro e
Espirito Santo (17), Nordeste (15), Centro-Oeste
(9) e Amazônia (3). O público anual estimado é
de 2 milhões de pessoas, o que considera pouco,
uma vez que no EUA, apenas um museu recebe um
milhão de visitantes por ano.
Instituto
do Milênio visa implantar estratégia de
popularização da ciência
O Ministério da
Ciência e Tecnologia pretende induzir a
criação de um Instituto do Milênio sobre o
tema Popularização da Ciência e Divulgação
Científica, com previsão de orçamento de R$ 3
milhões para atividades durante três anos.
Estão definidas mais três áreas para criação
destes Institutos - para estudos do Semi-Árido,
da Oceanografia e da Amazônia, com a mesma
previsão de recursos.
O Instituto do
Milênio da Amazônia já teve edital lançado
que se encerrou no dia 4 de agosto. O Pantanal
está sendo comentado para ser o quinto tema,
ainda não confirmado.
O secretário de
Coordenação das Unidades de Pesquisa do
Ministério da Ciência e Tecnologia, João
Steiner, disse que a idéia de criação dos
Institutos surgiu na secretária há 1,5 ano. Com
a divulgação, segundo ele, a Academia de
Ciências mostrou-se interessada em concorrer com
as propostas dos Centros e Museus de Ciência,
por considerar o tema estratégico.
No painel sobre
o Plano Nacional de Popularização da Ciência,
Steiner propôs uma articulação da Associação
Brasileira de Centros e Museus de Ciência
(ABCMC) com a Academia de Ciência, em torno de
uma proposta única para o Instituto do Milênio.
Para o
coordenador da Associação, Ernst Wolgang
Hamburger, o secretário prometeu agendar uma
reunião da diretoria da ABCMC com o ministro da
Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg, para
discutir a articulação do programa, e com o
CNPq.
O CNPq vai
lançar um programa nacional de Popularização
da Ciência e Divulgação Científica, visando
incentivar a criação de Museus de Ciências
interativos, como o Estação Ciência, de São
Paulo, e Espaço Ciência, de Recife, com uma
linha para divulgação científica, informou o
secretário.
Steiner
enfatizou não ter informações sobre o programa
do CNPq. "O programa está em fase avançada
de elaboração, mas não me sinto preparado para
adiantar as propostas", justificou.
O Instituto do
Milênio induzido difere das 20 áreas que estão
sendo selecionadas em concorrência. De início,
disputaram 206 propostas, das quais 57 foram
pré-selecionadas, em diversas áreas de saber,
de todas as regiões. Do total, 20 serão
selecionadas. O diferencial do modelo induzido é
que concentra o foco em tema considerado
prioritário pelo Ministério da Ciência e
Tecnologia.
Os cinco
Institutos do Milênio em áreas definidas têm a
função de congregar competências para
desenvolver um programa a ser indicado por termo
de referência para atingir objetivos
determinados. "O edital terá cláusulas
para impedir que tenha uma concentração em
grupos muito localizados no Rio de Janeiro ou
São Paulo", afirmou.
O dinheiro não
será usado para a construção de prédio, mas
para articular uma rede de pesquisadores de
múltiplas origens, com um coordenador e sede
numa instituição, responsável pela gestão dos
recursos. Os recursos poderão ser usados para
compra de equipamentos, informou.
De acordo com
Steiner, terá mais chance no edital a proposta
que se mostrar mais capaz de articular diversas
instituições e atividades de modo a impactar o
País inteiro na sua área de abrangência. Numa
comparação com uma rede de computadores, ele
disse que o Instituto do Milênio será uma
organização virtual.
O presidente da
ABCMC, Ernst Hamburger, da USP, disse que o
público jovem é mais importante para o foco da
entidade, embora saiba de trabalhos com a
terceira idade, professores, jornalistas e
deficientes físicos. Segundo ele, uma boa idéia
a tratar com o CNPq é uma linha de bolsas para
fomentar o trabalho em centros e museus de
ciências.
Steiner disse
ainda que o Nordeste, com população de 24,6
milhões de habitantes, tem apenas um Instituto
de Pesquisa federal, a Embrapa Semi-Árido, em
Petrolina (PE).
O MCT tem duas
iniciativas na região, o programa Xingó, na
Bahia, financiado com 120 bolsas, que em julho
teve lançamento de novo edital de R$ 8 milhões
e agora a proposta do Instituto do Milênio do
Semi-Árido, diz Steiner. "É um
reconhecimento tardio, mas é um esforço que
estamos fazendo", afirmou.
*
Flamínio Araripe,
membro do Conselho Editorial de Sala de Prensa, é jornalista, com predileção em
área de ciência, tecnologia e informática.
Escreve sobre Tecnologia da Informação na Gazeta Mercantil
Ceará, onde assina a
coluna Conectividade, e colabora no Jornal da Ciência, da SBPC.
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