2000-2001: Estudo comparativo
entre os jornais o Estado de S. Paulo e o Estado
de Minas
Quando
a ciência é notícia
Rosângela
Aparecida Reis Machado *
Quando
a ciência é notícia 2000-2001 configura-se
como pesquisa comparativa sobre o tratamento dado
à ciência pelos jornais brasileiros, a saber:
Estado de S. Paulo, de prestígio nacional, e o
Estado de Minas, de importância regional.
Realizada entre 24 a 30 de setembro de 2000,
avalia o impacto das Olimpíadas e eleições
municipais nos conteúdos então noticiados.
Objetiva avaliar o quanto de ciência é
divulgado e de que forma as matérias são
veiculadas. Como decorrência, é possível
identificar como a ciência se configura na
mídia com a influência desses fatos e como se
faz presente nas duas situações. Os resultados
preliminares mostram o crescimento do número de
matérias sobre ciência, no contexto brasileiro.
INTRODUÇÃO
O
jornalismo científico constitui campo de estudo
ainda pouco desenvolvido no Brasil. Sua
emergência ocorreu no início da década de 70,
quando o Departamento de Jornalismo e
Editoração da Escola de Comunicação e Artes
da Universidade de São Paulo (USP) promoveu a
vinda de Manuel de Calvo Hernando ao País, com a
finalidade de ministrar curso de extensão
universitária sobre o tema. Desde então,
algumas iniciativas se verificaram no âmbito da
pesquisa ou da reflexão teórica. No que se
refere particularmente à pesquisa científica
brasileira, como observa Melo (1986), ela não
tem sido acompanhada, nos últimos 30 anos, pela
intensificação, na mesma proporção, das
atividades de divulgação de seus resultados.
Particularmente notável é o nível de
desconhecimento por parte da sociedade sobre as
atividades de pesquisa desenvolvidas no Brasil.
O objetivo da
pesquisa Quando a ciência é notícia
2000-2001... é acompanhar a prática da
informação científica processada nos meios de
comunicação impressos, que permitem realizar a
ligação entre cidadãos e cientistas.
Verificando que o jornal diário é um dos
veículos privilegiados da relação entre os
cidadãos e os diversos organismos e
acontecimentos de escala mundial, decidimo-nos a
pesquisar o noticiário científico no espaço do
jornal diário, apreendendo sua significação
jornalística e sua forma de expressão, com o
objetivo de apontar o quanto de abordagem ou
aprofundamento científico é utilizado na
imprensa diária.
Essa pesquisa é
fundamental para a nossa formação profissional,
enquanto cientista social, pois possibilita
observar como essa área do conhecimento é
pautada pelos veículos de comunicação e sua
freqüência. Nesse sentido, contribui para nossa
reflexão, já realizada por grandes pensadores,
se as Humanas são consideradas ciência ou não.
As conclusões,
embora parciais, desta primeira parte da
pesquisa, apontam um aumento do espaço editorial
(centrimetragem) dedicado à área de ciência em
r elação ao estudo realizado na década de 80,
em todos os jornais pesquisados. A área de
Humanas é a mais pautada em relação às outras
áreas do conhecimento. Além disso, foi
possível avaliar que os assuntos relacionados à
área de ciência estão diluídos em todo o
jornal, não estando necessariamente presentes na
editoria de ciência, ao contrário da nossa
hipótese inicial, de que a ciência estaria
presente em uma editoria exclusiva. A pesquisa
teve como proposta investigar de forma
sistêmica, os jornais brasileiros e sua
abordagem com a ciência. Tratou de entender,
qualitativamente, a questão do conhecimento
científico e de que forma essas informações
foram veiculadas na mídia nacional.
METODOLOGIA
O estudo foi
realizado segundo os pressupostos metodológicos
oferecidos pela pesquisa: Quando a Ciência é
notícia, produzida pelo Departamento de
Jornalismo e Editoração da ECA/USP, no período
de 1984/86, sob a coordenação do Prof. José
Marques de Melo. Foi utilizada a técnica de
mapeamento, realizada pela centrimentragem,
(altura x número de colunas) para a
mensuração, interpretação e análise das
edições e a pesquisa comparativa. Deste modo,
foi possível identificar onde e de que modo a
divulgação científica acontece na mídia
impressa brasileira e verificar as
características dos diferentes jornais. Nesse
sentido, podemos aferir qual é a imagem que a
imprensa faz da ciência e como o conhecimento
científico é colocado ao alcance do público
leigo através dos textos jornalísticos.
O corpusda
pesquisa foi formado pelas edições dos jornais
da semana de 24 a 30 de setembro de 2000 por ser
uma semana atípica, influenciada pelos Jogos
Olímpicos e pelas eleições municipais.
A observação
recaiu sobre as unidades redacionais que relatam
fatos vinculados ao mundo da ciência. Adotamos
um conceito abrangente de jornalismo científico,
não restrito às ciências exatas ou
biológicas, mas a todas as áreas que divulguem
suas pesquisas, tais bem como centros de pesquisa
e universidades.
As indagações
fundamentais que nortearam a pesquisa foram:
Qual a natureza
da notícia científica?
Que
protagonistas dão sentido ao noticiário
científico?
Quais as fontes
que nutrem o noticiário científico?
Através de que
gêneros jornalísticos a ciência se torna
notícia?
Quais os limites
entre a informação e a opinião no noticiário
que privilegia os fatos científicos?
O ESTUDO
PROJETADO: ANÁLISE COMPARATIVA DOS JORNAIS O
ESTADO DE SÃO PAULO E O ESTADO DE MINAS
Escolhemos esses
dois jornais O Estado de São Paulo e o Estado
de Minas para análise comparativa porque ambos
são expressivos nas suas respectivas cidades e,
principalmente, porque o primeiro é um jornal de
prestígio nacional e o segundo é representativo
de uma região geográfica brasileira.
Pretendemos, dessa forma, verificar o que os
diferencia na abordagem científica, quando
inseridos num projeto maior.
O Estado de
São Paulo
O Estado de S.
Paulo destaca-se como jornal de porte nacional
devido a sua significativa capacidade de
captação de notícias e ao seu alto nível de
circulação. Fundado em 4 de janeiro de 1875,
pelos jornalistas Américo de Campos e Francisco
Rangel Pestana, com o nome de A província de
São Paulo, tinha como objetivo enfrentar o
regime monárquico e a escravidão, a favor da
liberdade e da justiça. Essa proposta ganhou
novas dimensões, quando o advogado Júlio de
Mesquita passou a integrar a redação do Jornal
disseminando suas idéias sobre as grandes
questões nacionais.
Com a
proclamação da República, passou a se chamar O
Estado de SãoPauloe, em 1891, Júlio Mesquita
tornou-se seu diretor. No final da primeira
década do século 20, chegou a uma tiragem de 30
mil exemplares. Durante a gestão de Mesquita,
passou por modificações profundas, que
incluíram desde a montagem de uma rede nacional
de notícias, da qual surgiu a Agência Estado,
até as reformas gráficas que deram uma face
mais moderna às páginas. Além disto, em 1988,
sua redação foi totalmente informatizada. De
acordo com pesquisa realizada nos Estados Unidos
da América do Norte (EUA), publicada pela
Universidade de Columbia, O Estado de São
Paulofoi apontado como um dos 20 melhores jornais
do mundo.
Atualmente, é
composto por seis cadernos: Caderno 1
(Principal), que corresponde à parte de
notícias internacionais e política; Caderno 2,
que abrange a área de Cultura; Caderno Cidades,
que discute os acontecimentos cotidianos de São
Paulo e região, Caderno de Economia; Caderno de
Esportes e Caderno de Classificados, que circula
três vezes por semana. Excepcionalmente, pelo
fato de a pesquisa ter sido realizada na última
semana anterior às eleições municipais, O
Estado de São Pauloelaborou o Caderno de
Eleições, com os dados das pesquisas de
opinião de todo o País e os principais pontos e
questões levantados pelos candidatos ou pela
agenda política. O Estado de São Pauloapresenta
12 suplementos semanais, a maior parte, no
formato tablóide.
Os resultados da
pesquisa indicam que ciência e tecnologia
(C&T) ocupam um total de 7,28% do total da
superfície impressa do Jornal. Trata-se de um
espaço ainda pequeno em comparação à
superfície total do jornal, totalizando, durante
a semana pesquisada, 195.056cm, enquanto o
espaço ocupado pelo jornalismo científico é de
15.132cm.
A cobertura
científica realizada não tem caráter
autônomo, no sentido de ocupar um lugar próprio
e definido na superfície impressa. As
informações científicas encontram-se dispersas
nas suas editorias. Noutra perspectiva, a
presença significativa dos suplementos semanais,
que divulgam matérias temáticas, revela que
eles são os que melhor organizam e articulam a
cobertura científica. Tal observação pode ser
confirmada se compararmos a tabela III
(Distribuição de C&T pelo espaço
editorial) e a tabela XII (Distribuição por
áreas de conhecimento). A tabela III mostra que
as matérias sobre C&T estão mais presentes
em outras editorias (31%) do que as de política
(22%), economia (23%), esportes (0,5%) e cultura
(22%), ou seja, não estão agrupadas num caderno
específico, mas espalhadas pelo conjunto da
superfície do Jornal. Como evidencia a tabela
XII, as áreas de conhecimento menos encontradas
nas edições diárias, como é o caso de
agrárias (10%) e computação (2%), são mais
expressivas nos dias em que são abordadas nos
suplementos semanais e, especificamente, na forma
de tablóides, como é o caso do Suplemento
Agrícola, veiculado às quartas-feiras.
A editoria de
Economia é a que mantém um padrão constante de
divulgação científica, principalmente porque
suas matérias são, na maioria das vezes,
fundamentadas em pesquisas de universidades ou
sociedades científicas. A editoria de Política
também manteve uma constância na cobertura
científica, fator influenciado pelas eleições
municipais, pois nela foram divulgadas,
diariamente, as pesquisas de opinião dos
institutos de pesquisa. Em contrapartida, a
editoria de Esportes não apresentou cobertura
científica, mesmo influenciada pelos Jogos
Olímpicos.
Segundo os dados
da pesquisa, no que se refere ao gênero
informativo do Jornal, a notícia (33,31%) e a
reportagem (27,94%) mantêm expressão
quantitativa muito próximas. Nos gêneros
opinativos, embora a resenha (11,68%) se destaque
quantitativamente devido a uma matéria da
edição de Domingo que mereceu três páginas,
é o artigo (10,81%) que vem imediatamente
depois, que melhor representa esse gênero
jornalístico por estar presente em todas as
edições da semana do Jornal.
No que se refere
às fontes da informação científica, é
expressivo o papel da universidade (27,78%),
seguida imediatamente pelas instituições
governamentais (26,5%). Expressiva é a presença
da empresa privada (23,94%), que se destacou
principalmente devido às eleições municipais
com as pesquisas de opinião.
De acordo com os
resultados obtidos, O Estado de São
Pauloenfatiza as personalidades (93,62%) como
protagonistas dos acontecimentos científicos,
notadamente os pesquisadores (73,94%). Os
políticos vêm em seguida (16,96%), dado que
pode ter sido influenciado pelas eleições
municipais. Numa outra perspectiva, observa-se
que os protagonistas institucionais (6,38) que
mais se destacam são os centros de pesquisa
(4,76%), enquanto é inexpressiva a presença dos
órgãos governamentais de fomento/financiamento
de pesquisas.
Em relação às
áreas de conhecimento que mais apresentam
informação científica, as humanidades 62,60%)
predominam, enquanto que a participação das
ciências da vida biológicas (0,7%) e saúde
(4,6%) é reduzida.
No que tange à
origem da informação científica, predominam as
matérias de origem nacional (74,07%) e,
particularmente, o que se nota é a informação
regional, ou seja, a maior proporção do espaço
é ocupada por informações que se originam na
própria área geográfica de São Paulo
(36,17%), onde se edita O Estado de São Paulo. O
resto do Brasil é pouco significativo na
cobertura científica. Também o jornal veicula
maior informação procedente da Europa (12,31%)
e da América do Norte (10,07%), enquanto que a
presença da América Central (0,13%) é
praticamente inexistente.
O Estado de
Minas
O Estado de
Minas, considerado o mais importante jornal de
Minas Gerais por veicular notícias de todo o
Estado mineiro e de âmbito nacional e também
devido ao seu alto nível de circulação, foi
fundado em 7 de março de 1928, pelos jornalistas
Juscelino Barbosa, Álvaro Mendes Pimentel e
Pedro Aleixo. Surgiu com uma proposta política
de oposição ao então prefeito de Belo
Horizonte, Christiano Monteiro Machado. Os
fundadores adquiriram o Diário da Manhã, que
circulou com esse nome até 31 de dezembro de
1927. Desde sua fundação, o Estadoteve três
presidentes: Pedro Aleixo, Pedro Agnaldo
Fulgêncio e Paulo Cabral de Araújo.
O Estado de
Minas é composto por cinco cadernos: Caderno 1
(Principal), que corresponde à seção de
notícias internacionais, política e economia;
Caderno Gerais, que discute os acontecimentos
cotidianos de Belo Horizonte e região, bem como,
assuntos diversos sobre a área de ciência e
saúde; o Caderno Espetáculo, uma publicação
de cunho cultural, e o Caderno de Classificados.
Excepcionalmente,
pela pesquisa ocorrer na semana anterior às
eleições municipais e durante os Jogos
Olímpicos, o Estado de Minaselaborou o Caderno
de Eleições, com os dados das pesquisas de
opinião do País e os principais pontos e
questões levantados pelos candidatos ou pela
agenda política e o Caderno Olimpíadas
noticiando os acontecimentos dos jogos.
Apresenta, ainda, 12 suplementos semanais, no
formato de tablóide e standard.
De acordo com os
dados da pesquisa, C&T ocupam 4,97% do total
da superfície impressa do Jornal. A editoria
exclusiva de C&T apresentou 0,69% desse
total, política 0,72%, esportes 0,03 o que é
praticamente inexistente e, outras temáticas
representa 2,25% desse total, o que evidencia que
a ciência não está articulada num caderno
específico, mas espalhada pela superfície do
Jornal.
Em relação ao
formato jornalístico, a reportagem (27,97%) e a
notícia (27,63%) aparecem igualmente no gênero
informativo, que ocupa 70,43 do espaço de
C&T no Jornal e, no gênero opinativo
(29,57%), destacam-se os artigos (15,93%). A
descrição jornalística convencional (97,74%)
é constante e a autoria é totalmente
jornalística. A universidade (28,77%) destaca-se
como a principal fonte das matérias
científicas. A empresa privada também tem
participação significativa (25,50%), o que tem
influência das pesquisas de opinião
concernentes às eleições municipais. Em
relação aos protagonistas, predominam as
personalidades (96,82%), notadamente os
pesquisadores (72,39%). Entre as instituições
(3,18%), as entidades beneficiárias da pesquisa
(1,47%) são as que mais aparecem.
Como esperado, o
estado que mais articula as matérias é Minas
Gerais (76,03%), localidade onde se edita o
Estado de Minas e a América do Norte (8,57%)
destaca-se nas matérias internacionais. A
participação internacional é de apenas 11,94%
e a nacional, de 88,06%. Esses dados confirmam a
hipótese inicial de que as matérias são, em
sua maioria, de origem nacional e,
principalmente, vinculadas à localidade onde os
jornais são editados.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Os meios de
comunicação são os principais veículos para a
divulgação científica. Assim, é importante
investigar a mídia impressa brasileira, mapeando
o quanto divulga sobre ciência e de que forma
esse conteúdo é veiculado. Para tanto,
empregamos o método comparativo, por sua
eficácia na compreensão das estruturas
midiáticas conjunturais e contextuais.
A pesquisa
mostra que a divulgação científica ainda não
tem lugar privilegiado no conjunto da superfície
impressa. A cobertura científica aparece
espalhada aleatoriamente nas editorias dos
jornais. Os suplementos semanais, em
contrapartida, aparecem como peças fundamentais
para a divulgação da informação científica
de O Estado de São Paulo, porque, ao tratarem de
temas específicos, voltados para um público
particular, apresentam uma abordagem mais
científica dos assuntos, o que permite que o
jornalmantenha certa constância na divulgação
da informação científica.
As eleições
municipais interferiram diretamente em alguns
resultados, como a participação da empresa
privada enquanto fonte da informação
científica e a presença significativa dos
políticos como personalidades protagonistas, que
tiveram uma posição privilegiada devido às
pesquisas de opinião. Ao contrário das
eleições, as Olimpíadas foram inexpressivas no
que tange à informação científica,
limitando-se à descrição das competições.
Constatamos que
oEstado de Minasmantém relação estreita com as
universidades, principalmente com a Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG). Observamos a
divulgação de defesas de teses da universidade,
matérias sobre pesquisas em andamento e,
também, a própria existência do suplemento
semanal Gabarito, que trata de assuntos
universitários, tanto de lazer quanto de
pesquisas. Essa aproximação do Estado de
Minascom a UFMG é fundamental para o jornal
manter certa freqüência na divulgação
científica.
No período
pesquisado, percebemos que houve aumento do
número de matérias cientificas em relação ao
estudo pioneiro realizado na década de 80 pela
equipe da ECA/USP, coordenada pelo Prof. Dr.
José Marques de Melo.
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*
Rosângela Aparecida Reis Machado (UNICAMP/LABJOR). INTERCOM Sociedade Brasileira de
Estudos Interdisciplinares da Comunicação. XXIV Congresso
Brasileiro da Comunicação
Campo Grande /MS setembro 2001.
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