O fetiche
da velocidade
no jornalismo do "tempo real"
Sylvia
Moretzsohn *
RESUMO: O
trabalho utiliza um conceito básico da
teoria marxista para procurar demonstrar o
papel do jornalismo na fetichização da
velocidade. Para isso, apresenta sumariamente
o contexto no qual a imprensa se constitui
como atividade industrial e sua interação
no processo de percepção de
"aceleração do tempo" que marcou
a entrada na modernidade. A seguir, analisa a
transformação que se opera na prática
jornalística na era do "tempo
real", em que a contradição estrutural
entre informar com precisão e rapidez tende
a ser "resolvida" pela eliminação
de um de seus termos, pois a instantaneidade
se erige como valor absoluto. Conclui pela
necessidade de se retomar o exercício da
crítica na busca de um jornalismo capaz de
assumir seu papel na formação da cidadania.
A
imagem recorrente foi sintetizada nos filmes
policiais americanos dos anos 30: rotativas
trabalhando freneticamente, despejando jornais
que rodopiam até o close fechado sobre a
manchete, a informação chegando veloz e
simultânea aos quatro cantos do mundo, isto é,
dos Estados Unidos - imagens superpostas de
jornais de Nova Iorque, Chicago, Boston,
Baltimore, noticiando um assalto espetacular, uma
chacina estarrecedora, e finalmente o alívio
pela prisão dos criminosos. Forma de arte
própria da "era da reprodutibilidade
técnica", significativamente inaugurada com
uma cena emblemática dos tempos modernos - a
locomotiva chegando à estação, ameaçando
romper a tela e invadir a sala escura -, o cinema
ajudou a fixar a idéia de que a imprensa
trabalha sob o signo da velocidade. Ou melhor, de
que a velocidade é uma característica da
imprensa.
A competição
pela busca da "notícia em primeira
mão" ajudou a compor essa idéia de
dinamismo: meninos jornaleiros saem às ruas
apregoando edições extras, efeitos sonoros
vibrantes despertam o ouvinte para notícias
curtas e rápidas, vinhetas alertam o espectador
para o bombardeio de imagens. Notícias de
última hora: tudo é urgência. É a ideologia
da velocidade e do progresso, que, no dizer de
François Brune, nos leva a aceitar como positivo
tudo que anda depressa1.
De fato, a
velocidade é uma característica do capitalismo,
o que pode ser entendido através da conhecida
definição de Marx: "economia de tempo: a
isto se reduz finalmente toda economia".
Desse modo, tornam-se claros não apenas a
importância da consideração do tempo do
trabalho social para a definição do valor, mas
também o caráter central do significado social
do tempo no estudo das atividades humanas.
A lógica do
capital tende a ser estendida a todos os aspectos
da vida social, num processo de naturalização
que lhes retira o sentido histórico. A
perspectiva marxista procura recuperar esse
sentido buscando a materialidade das relações
sociais. No caso que aqui nos interessa, permite
esclarecer o vínculo quase automático que se
estabelece entre jornalismo e velocidade,
através da reconstituição do caminho de
formação da imprensa como atividade industrial,
sua afirmação como produto de massa e sua
interação no processo de percepção de
"aceleração do tempo" que marcou a
entrada na modernidade. De acordo com a mesma
fundamentação teórica, procuraremos demonstrar
que o jornalismo expressa exemplarmente o fetiche
da velocidade sob o qual vivemos: o principal
"valor notícia" é chegar na frente do
concorrente, e alimentar o sistema com dados
novos, num continuum vertiginoso a pautar
o trabalho nas grandes empresas de comunicação.
Essa abordagem
permite ainda apontar o quanto se altera o
sentido da prática jornalística, que,
empresarialmente, sempre viveu a contradição de
tentar conciliar velocidade e precisão, de
acordo com a promessa tradicional de dar "a
verdade em primeira mão": o grito de
"parem as máquinas!" resumia a idéia
de subordinação da rotina industrial à força
da notícia, tomada como valor supremo e única
justificativa para a existência da imprensa.
Agora, na era do "tempo real", essa
contradição tende a se agravar, e a se
"resolver" pela eliminação de um dos
termos do problema - a necessidade de veicular
informações corretas e contextualizadas -, pois
"qualquer explicação serve" para
sustentar a notícia transmitida
instantaneamente.
A
imprensa nos trilhos do capital
O conceito de
fetichismo da mercadoria é suficientemente
conhecido: Marx o definiu como o processo
através do qual os bens produzidos pelo homem,
uma vez postos no mercado, parecem existir por
si, como se ganhassem vida própria, escondendo a
relação social que lhes deu origem2. Na base desse processo
está a reificação operada pelo capital, que se
condensa na definição do valor de troca da
mercadoria, no qual a relação entre o trabalho
necessário para a produção de um bem e esse
mesmo bem se torna qualidade objetiva do produto.
Assim, uma relação social estabelecida entre
seres humanos aparece como uma fantasmagórica
relação entre coisas. Daí o fetiche, que leva
a perceber como naturais, objetificadas, as
relações sociais.
Vários estudos
demonstram o caráter de mercadoria que a
notícia assumiu desde os primórdios do
capitalismo. Marcos Dantas lembra que
[o] fato de
Marx ter baseado sua análise da acumulação
capitalista na apropriação da mais-valia da
força de trabalho simples obscureceu a
importância - logo, o valor - que o
capital sempre deu à informação. Já no
século XIII, os banqueiros e grandes
comerciantes sustentavam redatores
profissionais nas diferentes capitais
européias e mediterrâneas para que
periodicamente lhes enviassem relatórios
sobre fatos políticos, bélicos ou
comerciais que pudessem afetar, positiva ou
negativamente, os negócios. Nesses
relatórios encontra-se a origem remota do
moderno jornalismo3.
Marcondes Filho
aponta a importância do jornal como instrumento
do capitalismo para a circulação mais rápida
de mercadorias e para que "as informações
sobre exportações, importações e movimento do
capital chegassem mais depressa e mais
diretamente aos componentes do circuito
comercial"4. Assim, como nota
Habermas, "a circulação de notícias
desenvolve-se não somente em conexão com as
necessidades da circulação de mercadorias, as
próprias notícias tornam-se mercadorias"5. Desde a origem,
portanto, a produção de notícias estará
sujeita às leis do mercado. Habermas considera,
porém, que só se pode falar propriamente de
jornalismo quando as notícias passam a ser
produzidas empresarialmente, quando "o
noticiário regular torna-se público e, melhor:
acessível ao público em geral", o que
ocorre apenas em fins do século XVII.
A definição da
notícia como mercadoria permite a aplicação do
conceito marxista de fetiche em dois sentidos
principais. Primeiro, no aspecto mais visível,
relacionado à idéia de que "os fatos falam
por si", tais como aparecem no jornal,
ocultando o processo de produção de sentido.
Depois, na relação que a imprensa estabelece
com o público, conferindo à notícia aquilo que
Marcondes Filho chamou de "aparência de
valor de uso"6. O caráter
fragmentário da informação jornalística seria
um dos aspectos dessa fetichização. Genro
Filho, porém, considera este um lugar-comum da
crítica, pois a percepção do mundo jamais se
dá de forma integrada: é o processo de
conhecimento que realiza esse trabalho7. Portanto, o problema
não estaria na fragmentação, mas nas maneiras
pelas quais esses fragmentos são reunidos.
No entanto, o
autor aparentemente esquece por um momento a
concepção dialética na qual baseia toda a sua
formulação teórica, ao argumentar que a idéia
de fragmentação e reificação diz respeito ao
conteúdo e não apenas à forma, pois forma e
conteúdo não existem separadamente. Além
disso, parece conferir uma excessiva ênfase às
potencialidades das novas técnicas do jornalismo
e à força esclarecedora dos fatos que são
dados à luz.
A idéia de
fluxo, de um movimento no qual os atores
aparecem diretamente em ação, muitas vezes
instantaneamente, as infinitas possibilidades
de combinação das informações
jornalísticas que saturam o meio social,
tudo isso oferece enormes possibilidades para
a negação da reificação ao invés de
reforçá-la inexoravelmente8.
Certamente as
"infinitas possibilidades de combinação
das informações jornalísticas" permitem
pensar em igualmente infinitas interpretações
dos fatos noticiados, mas valorizar por si a
irrupção dos atores sociais na cena
jornalística é esquecer todo o processo de
construção da notícia; particularmente,
valorizar a instantaneidade colabora para
reforçar um outro fetiche, exatamente o que
criticamos aqui: o fetiche da velocidade.
A
aceleração do tempo
No início do
século XIX a imprensa incorpora as novidades
técnicas que surgem no campo das comunicações
para a produção maciça de jornais9. É um processo que
corre paralelo às transformações provocadas
pela revolução industrial, criando o ambiente
no qual se desenvolverá a percepção de
aceleração do tempo e, consequentemente, a
formulação do conceito de "compressão
espaço-temporal", ou "efeito de
encolhimento", tantas vezes referido pelos
estudiosos da cultura contemporânea.
Esse
"encolhimento" progressivo, resultante
da superação de barreiras espaciais em graus
cada vez maiores, significaria a própria
"supressão" do espaço, em
conseqüência do processo que torna possível a
transmissão de informações em "tempo
real". A imagem recorrente é a de McLuhan e
sua triunfalista "aldeia global",
celebrizada em meados dos anos 60, embora, pelo
menos desde a invenção do telégrafo ótico, em
fins do século XVIII, a idéia de compressão
espacial esteja presente10.
Radicalizada na
era das redes, a percepção de aceleração do
tempo dá margem à formulação do conceito de
"tempo real", ou "tempo
intemporal", como prefere Castells11, semelhante ao
"tempo instantâneo" ou "tempo sem
tempo" explorado num dos workshops do
NTC (Centro de Estudos e Pesquisas em Novas
Tecnologias, Comunicação e Cultura) da USP,
sobre "tempo real e espaço virtual":
tempo que, segundo conceituação de Edmond
Couchot, tem outra natureza e não se refere à
noção clássica do tempo que passa, da vida
prática, mas existe numa relação quase
instantânea com a máquina12.
Pierre Lévy
ressalta que esse tempo, instaurado pela
informática, baseia-se no funcionamento de uma
estrutura de banco de dados que não está
programada para acumular informações, e sim
para disponibilizar a versão mais atual "a
um cliente com crédito". Assim, "não
se trata tanto de difundir as luzes junto a um
público indeterminado, mas sim de colocar uma
informação operacional à disposição dos
especialistas".
A noção de
tempo real, inventada pelos informatas,
resume bem a característica principal, o
espírito da informática: a condensação no
presente, na operação em andamento. O
conhecimento de tipo operacional oferecido
pela informática está em tempo real13.
Trata-se,
portanto, de um tempo "técnico",
plenamente adequado ao "cassino global"
da "sociedade em rede" de que fala
Castells, ajustado à volatilidade do capital
financeiro, e que procura ditar o ritmo de todas
as atividades humanas. É o que Marcos Dantas
chama de "lógica do capital
informação", que exige uma fluidez cada
vez maior (pois "informação não se
estoca") e se viabiliza pelas tecnologias
digitais, que reduzem a informação a
sequências de zero e um.
Assim, o tempo
do mercado financeiro dita a regra que pode ser
sintetizada na expressão rush or perish -
a rapidez é a condição da sobrevivência, sem
que, entretanto, se saiba em que sentido é
preciso ser rápido. O abalo provocado pelo jogo
especulativo de um operador do banco Barings, em
95, e a chamada "crise asiática" de
97, são dois exemplos recentes das
consequências a que pode chegar um sistema em
que num segundo fortunas são feitas ou perdidas.
A
velocidade auto-valorizada
No campo da
comunicação, essa "irracionalidade"
aparente passa a fazer sentido se tomarmos a
análise de Mattelart, para quem "a
comunicação serve, antes de mais nada, para
fazer a guerra"14. E é fundamentalmente a
guerra o tema de estudo de Virilio: a guerra e
sua lógica, suas relações com a política e a
velocidade. O tom de seus textos é claramente
apocalíptico, o que justifica críticas como a
de Negri, condenando o que chama de
"concepção terrorista da mídia",
associada à imagem "de uma rajada de
metralhadora que se abate sobre o espectador -
alvo miserável de um poder onipresente - e o
aniquila". A consequência seria o
imobilismo diante de uma situação sem saída,
"uma visão reificada e intransitiva da vida
política que se traduz por: não se pode fazer
nada! Impossível escapar a essa
escravidão!", confirmando-se assim a
sacralidade do poder "nessa novíssima
modernidade"15.
A justeza da
crítica não deve, porém, retirar a
importância de aspectos essenciais dos estudos
em questão, mesmo porque é a partir deles que
será possível contrastar o triunfalismo dos
postulados do "pensamento único"
atualmente vitorioso. Assim, é fundamental
ressaltar a abordagem de Virilio sobre o tempo
real, encarado como um componente essencial do
complexo militar-informacional contemporâneo que
impõe à sociedade uma noção de informação
como algo puramente estatístico16. Assim, a informação
não quer dizer nada, existe por si. O autor
praticamente explicita o conceito de fetiche
páginas adiante, associando-o exatamente à
atividade jornalística:
O
ciberespaço, ou, mais exatamente, o
"espaço-tempo cibernético",
surgirá dessa constatação, cara aos homens
de imprensa: a informação só tem valor
pela rapidez de sua difusão, ou melhor, a
velocidade é a própria informação!
17
Assim, mais do
que notícia, consome-se velocidade:
A velha
fórmula segundo a qual a informação é
praticamente a única mercadoria que não
vale mais nada ao fim de vinte e quatro horas
merece portanto reflexão. No século XIX e
no início do XX, em pleno auge da imprensa,
trata-se (...) menos de "produzir
informação" do que de antecipá-la, de
alcançá-la em movimento, para finalmente
vendê-la antes que seja literalmente
ultrapassada. Os assinantes passam a comprar
menos notícias cotidianas do que adquirir
instantaneidade, ubiquidade ou, em outras
palavras, compram sua participação na
contemporaneidade universal, no movimento da
futura cidade planetária18.
Algumas dessas
precipitações são muito antigas e entraram
para o anedotário do jornalismo. Uma das mais
famosas gerou a ironia de Mark Twain, que, ao ler
seu próprio obituário no jornal, em 2 de junho
de 1897, reclamou à Associated Press:
"A notícia sobre a minha morte foi muito
exagerada".
A
imposição do "tempo real"
Essas
considerações indicam que as contradições
entre, de um lado, uma estrutura que favorece a
precipitação e a aposta em prognósticos como
valor de atualidade e, de outro, o respeito a
regras que exigem um distanciamento (e, portanto,
alguma desaceleração) para a apuração
rigorosa da notícia, é tão antiga quanto a
própria constituição da imprensa como
atividade industrial. Basta citar os slogans do
rádio: bem antes do início da era do
"tempo real", a respeitada Rádio JB
prometia "o fato no ato"; a pequena
Bandeirantes extrapolava, dizendo-se "a
rádio que antecipa o fato". Nos meios
impressos, um experiente editor carioca certa vez
deu a definição cínica: "jornalismo é
pintar de preto papel branco". O que é mais
ou menos a mesma coisa que reiterar uma das
velhas máximas incluídas no folclore da
profissão: notícia é o que se publica entre
anúncios.
O importante
agora será perceber como a lógica do
"tempo real" afeta a prática do
jornalismo como um todo, radicalizando a
"corrida contra o tempo" que sempre
marcou a profissão. Como argumenta Ramonet, a
"nova utopia tecnológica" é a
internet e sua possibilidade de interligar o
mundo com informações em tempo real e fluxo
contínuo, exatamente como opera o mercado
financeiro. E, se a maioria dos grandes jornais,
no mundo todo, já pertence a megagrupos de
comunicação, não há como analisar a prática
do jornalismo fora desse contexto19.
De fato, a
incorporação dos serviços on line pelos
grandes jornais acabou com a vantagem que o
repórter de jornal impresso poderia ter em
relação ao que trabalha em meios eletrônicos:
se antes havia condições de retornar à
redação para redigir a matéria até o horário
de fechamento, hoje é preciso fornecer flashes
para o serviço "em tempo real"
do jornal e, quando for o caso, também para
boletins radiofônicos, como ocorre no jornal
carioca O Globo.
Eric Klinenberg
deu conta do alcance desse processo ao estudar a Tribune
Company, conglomerado midiático de ponta que
opera com as tecnologias de informação mais
avançadas e que, além do Chicago Tribune,
publica três jornais regionais, possui uma rede
de televisão, quatro estações de rádio, uma
editora, investe em jornais on line,
guias, patrocínio de eventos esportivos, etc.
Segundo o pesquisador, "a polivalência
midiática autoriza um modo de produção no qual
cada mídia procura utilizar os produtos das
outras para melhorar sua oferta", e melhorar
também a produtividade: com a contração do
mercado de jornais e a intensificação da
concorrência na televisão e na internet, a Tribune
redefiniu o papel dos repórteres a fim de que
eles pudessem trabalhar em várias mídias ao
mesmo tempo. Resultado:
os
jornalistas trabalham mais; dispõem de menos
tempo para realizar suas entrevistas e para
escrever; produzem informações mais
superficiais. Quando, nos anos 70 e 80,
sociólogos americanos estudaram as
condições de trabalho dos jornalistas,
mostraram que a pressão do tempo pesava
sobre a produção da informação e,
consequentemente, diminuíam a qualidade,
particularmente na televisão. Essas
observações datam de uma época em que os
jornalistas trabalhavam com um objeto
determinado e para uma única mídia20.
A análise
específica do ritmo e dos resultados do trabalho
nos serviços jornalísticos on line
mostra a falácia da promessa de se garantir
agilidade sem se descuidar da precisão. No
minucioso relato sobre sua experiência como
estagiária num desses serviços, Mariana
Mainenti Gomes aponta de saída a questão
fundamental: um repórter de agência de
informações on line é avaliado pelo
número de flashes ou "notas"
que é capaz de passar para a redação - ou,
utilizando o jargão do meio eletrônico, por sua
"capacidade de alimentar o sistema".
A
orientação para o repórter é nunca ficar
com informação parada: ao
receber uma notícia, deve automaticamente
repassá-la. O repórter pode ir atrás dos
detalhes depois mas, antes, deve divulgar o
material que acabou de receber. É muito
frequente, no entanto, que isto [a busca de
detalhes, e mesmo a checagem] não aconteça.
Para se apurar uma notícia é preciso um
mínimo de tempo - e muitas vezes o volume de
releases, balanços de empresas e
documentos que chegam à mesa do repórter, e
cuja divulgação tem de ser feita o mais
rapidamente possível, não permite a
apuração de mais detalhes sobre a notícia
divulgada inicialmente21.
Não é preciso
dizer que esse processo facilita o controle das
fontes sobre o noticiário e as possibilidades de
utilizá-lo para lançar, com mais frequência e
eficácia do que já ocorre nos veículos
impressos, os chamados "balões de
ensaio" - informações fabricadas
especialmente para testar a reação do público
diante da hipótese de ocorrência daquele fato,
apresentado, entretanto, como verdadeiro e até
já consumado.
Além disso, a
imagem de velocidade que o jornalismo on line
carrega consigo sugere a possibilidade de oferta
de informações novas a cada instante. É uma
ilusão fácil de comprovar, como atestou a atual
ombudsman da Folha de S. Paulo, Renata lo
Prete, ao comentar o noticiário sobre a
contusão do jogador Ronaldinho em seu retorno ao
futebol, em Roma: textos praticamente idênticos,
oriundos de basicamente dois tipos de fontes - as
agências internacionais, além da única
brasileira especializada em esporte, "e a
rapinagem pura e simples entre sites e das
reportagens de rádio e TV". Ao fim do
artigo, uma observação que indica a ironia da
promessa de "informação
instantânea": "Um exame atento revela
o segredo de boa parte da internet: despachos da
Reuters, um serviço noticioso de 149 anos de
idade"22.
Essa ironia
tornou-se flagrantemente evidente na comédia de
erros em que se transformou o noticiário sobre
as eleições presidenciais dos Estados Unidos em
2000. Como se sabe, as principais redes
americanas de TV anunciaram apressadamente a
vitória de George Bush, no que foram
acompanhadas por boa parte dos jornais impressos,
que, em sucessivas edições extras, ora
afirmavam o nome do vencedor, ora duvidavam da
informação. Na origem de tantos equívocos
estava o recurso a uma única fonte, a Voter News
Service, à qual se conferia credibilidade
automática. Assim, é falso o título do Jornal
do Brasil que, em 9 de novembro,
afirmava: "Corrida pela notícia gera
confusão nos EUA". Pois, se a fonte era a
mesma para todas as redes, não se tratava de uma
corrida pela notícia, mas de uma corrida pela
corrida, uma corrida pela velocidade.
A
velocidade como "utilidade pública"
É
significativo, porém, que o JB tenha escolhido
aquele título: afinal, tratar-se-ia de um dos
inúmeros "erros" que a imprensa comete
diariamente na luta pela informação. Ossos do
ofício, portanto. É o que indica, aliás, o
argumento contido no projeto editorial da Folha
de S. Paulo: "subordinado a um regime de
pressa que faz parte de sua utilidade pública, o
jornalismo está sujeito a erros e distorções,
raramente premeditados"23.
Em primeiro
lugar, cabe destacar que, se as justificativas
para erros sucessivos são as rotinas de trabalho
(o sempre aludido "regime de pressa"),
e se a cada erro sucede um outro igual, é bem
provável que haja algo errado com as próprias
rotinas. Mas dificilmente o tema é abordado
dessa forma, talvez porque essa abordagem traga
implícita a pergunta: "que fazer?". O
vazio de alternativas imediatamente realizáveis
- pois qualquer uma implicaria uma mudança
estrutural de longo prazo - é convenientemente
tomado como indicativo de que não há saída,
bem ao estilo do "pensamento único"
atualmente vitorioso: ou este mundo ou nenhum
outro. E os erros continuam se sucedendo e, pior,
seguem sendo tomados como tais - erros, portanto
eventualidades corrigíveis, lapsos momentâneos,
descuidos involuntários, desvios de uma rota
segura, e não como parte constitutiva do
processo geral.
Em segundo lugar
- e naturalmente abrindo mão de discutir se algo
que é por definição involuntário (o erro)
pode ser premeditado, ou de sugerir que o erro
faz parte da atividade humana em geral, submetida
ou não ao "regime de pressa" -, seria
muito saudável perguntar por que esse
"regime de pressa" faz parte da
utilidade pública do jornalismo.
Schudson diria
falaciosa uma afirmação desse tipo. Ao
perguntar-se "por que essa ênfase em obter
a matéria minutos ou segundos mais rápido que o
concorrente deveria ser tão engrandecedor do
jornalismo", ele indica que os jornais,
antes de se preocuparem com o seu público,
preocupam-se com os concorrentes24. Daí o "fetichismo
do presente" em que vivem os jornalistas. No
entanto, o autor avalia ser esta uma situação
típica do jornalismo americano, que não se
reproduziria obrigatoriamente, nem com a mesma
intensidade, em outros modelos de jornalismo.
A ressalva
desconsidera, portanto, que a busca do
instantâneo é a regra da atividade
jornalística empresarial, pela própria lógica
do sistema. E não apenas um "valor
cultural" construído no contexto de uma
determinada sociedade, um cânone estabelecido
por uma categoria profissional inserida nessa
determinada sociedade e regida por "um
relógio cultural, um sutil e não declarado
acordo (...) a respeito do que é oportuno e
sobre o que é genuinamente novo"25.
Especialmente
nesses tempos globalizados, em que a velocidade
parece adquirir um valor em si, seria mais
apropriado dizer que essa noção de urgência é
o grande fetiche da vida (pós) moderna. Um
exemplo é o conflito entre o tempo da justiça e
a pressão (especialmente da mídia) por uma
rapidez confundida com eficiência, que traduz
necessariamente o tempo lento como morosidade
relacionada à incompetência ou à má fé26. A situação pode ser
ilustrada por uma tira humorística de Wiley na
série Non sequitur, republicada pelo Globo,
que mostra o réu perplexo no tribunal,
paralisado diante de uma roleta na qual se
alternam as sentenças "culpado" ou
"inocente". Observando a cena, o juiz
comenta: "Qual é o problema? Não foi você
mesmo quem fez questão de um julgamento
rápido?"
Bem a
propósito, Janio de Freitas consegue levantar o
véu da dúvida e apontar o descalabro ali onde
outros só viam obviedades ou positividades,
mostrando o quanto de absurdo havia na rapidez
com que, num dado momento da política
brasileira, os parlamentares estavam votando os
projetos no Congresso. A imprensa era quase
unânime em saudar aquele ritmo de trabalho,
aparentemente revelador do grande esforço dos
deputados, mas que significava algo profundamente
negativo: que projetos decisivos para a vida do
país estavam sendo apreciados com total
ligeireza.
"Sem
tempo para pensar"
A associação
automática entre o fazer (a prática
jornalística) e o modo de fazer (correndo contra
o relógio) encerra um paradoxo. Pois é o
"regime de pressa" que torna natural a
afirmação, recorrente no meio profissional, de
que o jornalista "não tem tempo para
pensar". Ora, se considerarmos o argumento
de que o "regime de pressa" faz parte
da "utilidade pública" do jornalismo,
e se por utilidade pública entendermos a tarefa
de "tornar a notícia mais compreensível em
seus nexos e articulações" (como também
consta do projeto editorial da Folha), é
inevitável concluir que a "utilidade
pública" é sistematicamente desatendida
pelo "regime de pressa".
Uma propaganda
do Globo veiculada pela TV em meados dos
anos 80 exibe exemplarmente esse sentido de
utilidade pública, apresentada por um ator que
vai se transformando em vários personagens
(executivo, jovem hippie, piloto de
automóveis, cantor, atleta, etc.) conforme a
alteração computadorizada das roupas e do
cabelo que usa, a indicar a diversidade do
público do jornal:
Um jornal
não pode se limitar à publicação das
principais notícias. Tem que ver, mostrar
tudo. Mais do que isso, tem que analisar as
causas e consequências de cada notícia.
Pensando bem, um jornal não se faz só de
notícia. Se faz de pensamento. Registra
diariamente a evolução das idéias,
hábitos e costumes. Um jornal é a história
de seu tempo.
Um jornal se faz
de pensamento, é a história de seu tempo, mas
os jornalistas não têm tempo para pensar.
Na verdade, esse
"não pensar" revela uma forma muito
particular de um "pensar automatizado",
perfeitamente coerente com o objetivo de
"alimentar o sistema" e associado à
lógica das tecnologias digitais, que reduzem a
informação a sequências de zero e um.
Isto é o
que a imprensa realiza melhor: matérias adequadas,
que têm antecipadamente seus pontos finais,
e cujos pontos finais resultam de
possibilidades simples, binárias - a
eleição ou o jogo será ganho ou perdido, o
índice Dow-Jones vai subir ou descer, o
acusado será julgado culpado ou inocente, o
criminoso foi preso ou está à solta, o
paciente sobrevive ou morre, a criança está
desaparecida ou foi encontrada. Temas mais
complexos do que estes - o orçamento, por
exemplo -, se devem ser cobertos com
eficiência, são traduzidos em oposições
binárias do tipo: o presidente vai sair
vitorioso ou será derrotado pelo Congresso27.
O que significa
uma outra alternância binária em termos de
valor: se é veloz, é bom; se é lento, é mau.
Caberia, porém,
uma ressalva: não são os temas que são simples
ou não; a rigor, todas as notícias poderiam ser
exploradas em sua complexidade. Fatos criminais,
jornalísticos por excelência - pois representam
o desvio mais ou menos violento à norma -
poderiam ser abordados no seu potencial crítico
a essa mesma norma, pois "o desviante não
é aquele que lê a norma diferentemente, mas é
o que lê na norma aquilo que ela quer
ocultar"28. No entanto, os
conflitos são simplificados a partir dos
estereótipos ("bandidos" versus
"cidadãos de bem"), reproduzindo o
senso comum a respeito e deixando ilesa a
estrutura radicalmente segregadora e violenta da
própria sociedade que produz o crime.
Mas o que vale
sublinhar na análise de Schudson é exatamente o
processo de simplificação do mundo operado
todos os dias pela imprensa. Assim, a pretexto de
trazer o novo, o jornalismo acaba reproduzindo o
mesmo. As implicações políticas e ideológicas
são muito claras.
Durante meus
quase 20 anos de trabalho na chamada imprensa
popular - jornal Notícias Populares,
de São Paulo - vi muitos colegas, imbuídos
dos mais nobres propósitos, tentarem
explicar ao trabalhador como seria possível
sustentar uma família ganhando salário
mínimo. Certamente os papéis estavam
trocados nessa relação. Eles aprenderiam
muito mais abrindo seus ouvidos aos
trabalhadores do que dando voz a qualquer
alquimista de plantão em algum órgão
econômico do governo29.
Evidentemente, a
situação não se resolveria com uma simples
mudança de atitude, que certamente confrontaria
os interesses do jornal, solidário a um sistema
que impõe tais níveis de salário. Mas o
importante é perceber como a busca da
informação instantânea ajuda a manter
interesses hegemônicos. Por isso é raro
levantar uma dúvida como a que João Sayad
expôs certa vez, ao comentar os métodos usuais
na cobertura econômica:
Andam
dizendo que tal instituição vai quebrar.
Sim, é verdade, andam dizendo aquilo. Mas
será verdade o que andam dizendo? Ou é
verdade que andam dizendo mentiras?30
Tampouco seria
imaginável uma pergunta como a do então
prefeito Negrão de Lima, relatada com humor por
Carlos Heitor Cony:
Quando
Negrão de Lima tomou posse na prefeitura do
antigo Distrito Federal, despachou com um
apavorado auxiliar da área da saúde:
"Senhor prefeito, o Rio tem atualmente
2,5 milhões de ratos, um para cada
habitante!". Negrão solidarizou-se com
o pavor do secretário. "É muito
rato!" Tirou os óculos e, mais
espantado do que antes: "Como é que
vocês conseguem contar os ratos?"31
O
retrocesso pré-renascentista
Embora aponte a
internet como "a nova utopia
tecnológica", Ramonet considera que o
caminho para o que ele chama de "virada na
história da informação" (substituindo-se
o compromisso histórico de "dizer a
verdade" pela eleição da instantaneidade
como valor supremo) foi preparado nos anos 80,
pelas grandes redes de TV.
Se a
televisão assim se impôs, foi não só
porque ela apresenta um espetáculo, mas
também porque ela se tornou um meio de
informação mais rápido que os outros,
tecnologicamente apta, desde o fim dos anos
80, pelo sinal dos satélites, a transmitir
imagens instantaneamente, à velocidade da
luz32.
De fato, o
resultado pode ser verificado todos os dias nas
redações de jornal: editores colados no vídeo,
sobressaltados a cada chamada do telejornal,
perguntando aos repórteres: "temos
isso?" - e conferindo credibilidade
automática ao que é veiculado ali, a ponto de
alterar o texto produzido originalmente pelo
profissional de sua própria equipe.
Este é um dos
aspectos do que Ramonet chama de "mimetismo
midiático", essa "imitação
delirante" através da qual "os
diferentes meios de comunicação se
auto-estimulam, superexcitam uns aos outros,
multiplicam cada vez mais as ofertas e se deixam
arrastar para a superinformação numa espécie
de espiral vertiginosa, inebriante, até a
náusea33.
Uma
superinformação que leva à cegueira pelo
excesso de luz, como na epidemia que Saramago
imaginou, na qual, aos poucos, todos passavam a
ver "tudo branco"; é o "mito da
transparência" que orienta o trabalho
jornalístico, no dizer de Marcondes Filho:
Tudo deve
ser exposto até se queimar. Como nas antigas
películas de cinema ou nos projetores de slides
sem sistema de refrigeração, a exposição
excessiva de um diagrama queima o filme,
fazendo-o desaparecer. No jornalismo, a
exposição, depois a superexposição de
pessoas, fatos, acontecimentos, provoca um
processo social de "queima" do
fato, na medida em que as notícias
excessivamente veiculadas tornam-se inócuas,
não provocam mais nenhum efeito, conduzem ao
seu total esquecimento. O excesso é a forma
mais eficiente de extermínio da coisa e de
seu total apagamento da memória34.
A exploração
de escândalos e denúncias dá bem a medida da
situação: o trabalho é orientado no sentido de
obter impacto, entrando num círculo vicioso em
que um escândalo abafa o precedente, embora
raramente os fatos ali narrados sejam confirmados
ou tenham outro desdobramento além de prejudicar
os envolvidos. O aluvião de denúncias tem esse
efeito narcotizante: banaliza-se o escândalo, de
modo que já não se distingue o que é
importante e pode ter graves consequências do
que é periférico ou simplesmente exagerado.
A ênfase no
"ao vivo", além de reduzir o tempo da
análise e da reflexão, cria o efeito de que
todos, repórteres e público, são testemunhas
oculares da "história em movimento".
Ramonet aponta aí o retorno à idéia
pré-iluminista (de fato, pré-renascentista) de
que "ver é compreender".
Não
obstante, a racionalidade moderna, desde o
século XVIII, com as Luzes e a revolução
científica, desenvolveu-se precisamente
contra essa idéia. Não são os olhos e
sentidos que permitem compreender, é a
razão, só ela. Enquanto os sentidos
enganam, o cérebro, o raciocínio, a
inteligência, são mais confiáveis.
Portanto, o sistema atual só pode conduzir
à irracionalidade ou ao erro35.
O autor cita o
programa No comment, da Euronews,
como o mais emblemático dessa nova situação em
que as imagens parecem dizer tudo: ali não há,
de fato, lugar para nenhum comentário. E lembra
o slogan da CNN, "slow news, no
news", para demonstrar que o que importa
é a velocidade.
A verificação
empírica do trabalho da imprensa permite
perceber que o ritmo alucinante de trabalho da
redação não se justifica como tentativa de
apreender o "tempo do mundo",
"naturalmente" veloz. Contardo
Calligaris dá um bom exemplo para mostrar que
não é assim:
A CNN
inventou a cobertura 24 horas. E, em uma
série de circunstâncias, já ficou aparente
o quanto ela é precária. Me lembro, por
exemplo, de Christiane Amanpour em Belgrado,
na noite dos primeiros bombardeios na
Sérvia. De onde ela estava não dava para
ver ou ouvir quase nada. Mas, a cada 20 ou 30
minutos, ela aparecia para repetir o mesmo
nada. A cobertura 24 horas idealmente exige
que as notícias possam ser colocadas em dia
de maneira significativa a cada hora. Às
vezes, o mundo vai mais devagar do que isso
36.
Mas a
concorrência, a necessidade de ser o primeiro e
o mais espetacular - com o consequente aumento de
receita publicitária - leva ao paradoxo apontado
por Bernard Langlois: "quanto mais se
comunica, menos se informa, portanto mais se
desinforma"37.
É o mesmo
paradoxo que está no cerne da preocupação com
a instantaneidade, auto-justificada porque a
transmissão direta cria a "ilusão de
verdade". Daí, diz Langlois, o importante
para o sistema (de radiodifusão) não é tanto o
que vão dizer seus enviados especiais; é que
estejam lá.
Luiz Fernando
Veríssimo sintetizou essa imagem num desenho de
uma série publicitária para a Rede Globo: um
alpinista chegando exausto ao monte Everest, uma
conquista supostamente inédita, salvo pela
presença, já no cume da montanha, de um
cinegrafista e um repórter da emissora,
apontando para ele o microfone e a câmera. O
verdadeiro protagonista, portanto, é a mídia.
Tem-se aí novamente o fetiche: "trata-se de
demonstrar que a máquina comunica, e
não que ela informa".
Conclusão
Bem antes da
interação multimídia, ainda quando as novas
tecnologias estavam sendo consolidadas na
imprensa brasileira, Sérgio Augusto apontou a
irracionalidade desse processo em relação ao
que seriam os objetivos clássicos do jornalismo.
Ao saber que
a Folha havia comprado novos
equipamentos que aumentariam a capacidade e a
velocidade de impressão do jornal, um
repórter perguntou se a redação ganharia
mais tempo para fechar a edição. A resposta
foi não. Moral da história: o último
benefício que a moderna tecnologia trouxe à
redação foi o computador. Cada vez mais o
jornal é um produto que, antes de ser bom,
precisa ser rápido para chegar mais cedo que
os concorrentes às mãos do leitor38.
O fetiche da
velocidade fica mais claro no jornalismo
impresso, porque o "tempo real" seria
inevitavelmente o tempo de ontem. A
distribuição do "jornal de domingo"
às duas da tarde de sábado é o exemplo mais
eloquente e visível dessa tentativa de se
afirmar uma imagem de agilidade que chega a se
antecipar ao próprio tempo. Afinal, a
circulação de um jornal à tarde poderia ser
apenas uma retomada da experiência dos velhos
vespertinos. Mas admiti-lo soaria
insuportavelmente anacrônico. Assim, muda-se a
data no cabeçalho e, magicamente, o presente
passa a ser também o futuro. Hoje já é
amanhã.
Na pesquisa
comparativa que desenvolveram em 1979 sobre a
informatização no jornalismo impresso e a
influência das novas tecnologias na França, na
Grã-Bretanha, nos Estados Unidos e na
Escandinávia, Dominique Wolton e J.-L. Lepigeon
verificaram o entusiasmo da maior parte dos
entrevistados diante do que previam ser uma
revolução na imprensa e na própria
informação. Vinte anos depois, Wolton observa
que essas mudanças técnicas, embora
consideráveis, não representaram a revolução
anunciada, "uma nova concepção da
informação e do jornalismo". Tomando por
base o ideal clássico do jornalismo, o autor
apresenta sua crítica ao discurso que projetava
mudanças positivas no setor:
Hoje, com a
onipresença da informática e de todos os
meios técnicos mais sofisticados, não
parece que a informação e a imprensa tenham
mudado muito do ponto de vista do conteúdo e
de seu papel. Isso demonstra uma vez mais que
uma inovação técnica, por forte que seja,
não leva consigo, mecanicamente, uma
transformação profunda do conteúdo das
atividades. Não apenas o tempo técnico não
é o tempo social, mas sobretudo a mudança
técnica gera problemas novos, inesperados,
que não estavam presentes nos famosos
discursos premonitórios. (...) Todos esses
fracassos deveriam fazer refletir, mas nada
foi feito. (...) Mais que compreender que as
sociedades não evoluem no ritmo das
inovações técnicas, fala-se de
"resistência à mudança" e de
medo do futuro. (...) Tudo menos pôr em
dúvida essa urgência do tempo e essa
confusão entre tempo técnico e tempo social39.
Desfazer essa
associação parece um bom ponto de partida para
a formulação de alternativas ao jornalismo
dominante hoje. Diante das críticas aqui
expostas, a primeira reação provavelmente será
indagar sobre sua aplicabilidade ao modelo atual;
trata-se de perguntar, porém, se esse modelo
serve para os propósitos que ele próprio
anuncia: fornecer as informações
indispensáveis para a formação de cidadãos.
Do contrário, aquelas rotativas trabalhando
freneticamente nos filmes de gângster dos anos
30 continuarão plasmando a imagem da urgência
como valor fundamental de uma imprensa que
preserva e reproduz o fetiche da velocidade na
era do "tempo real".
_______
NOTAS
1 François Brune. "Lidéologie
daujourdhui", in Manière
de Voir (hors-série), Le Monde diplomatique,
março de 1997, p.11.
2 Cf. Karl Marx e Fredrich Engels. "El
carácter fetichista de la mercancía y su
secreto". El Capital, tomo I,
vol. 1, Mexico, Siglo XXI, 1978.
3 Marcos Dantas. A lógica do
capital-informação. Rio de Janeiro,
Contraponto, 1996, p. 23.
4 Ciro Marcondes Filho. O capital da
notícia - jornalismo como produção social da
segunda natureza. São Paulo, Ática, 1986,
p. 56.
5 Jürgen Habermas. "Do jornalismo
literário aos meios de comunicação de
massa", in Marcondes Filho (org), Imprensa
e capitalismo. São Paulo, Kairós, 1984, p.
13
6 Marcondes Filho. O capital da notícia,
cit., p. 30.
7 Adelmo Genro Filho. O segredo da
pirâmide - para uma teoria marxista do
jornalismo. Porto Alegre, Tchê!, 1987, p.
211-212.
8 Idem, p. 211.
9 Nelson Werneck Sodré. História da
imprensa no Brasil. Rio de Janeiro, Graal,
1977, p. 3.
10 Paul Virilio. A arte do motor.
São Paulo, Estação Liberdade, 1996, p. 42
11 Manuel Castells. A era da
informação: economia, sociedade e cultura, vol.
1 - A sociedade em rede. São Paulo, Paz
& Terra, 1999.
12 Cf. "Tempo real e espaço
virtual". Atrator Estranho nº 17, São
Paulo, NTC/ECA/USP, outubro de 1995.
13 Pierre Lévy. As tecnologias da
inteligência - o futuro do pensamento na era da
informática. Rio de Janeiro, 34, 1993, p.
115.
14 Armand Mattelart. Comunicação-mundo
- história das técnicas e das estratégias.
Petrópolis, Vozes, 1994, p. 10.
15 Antonio Negri. "Infinitude da
comunicação/finitude do desejo", in André
Parente (org.), Imagem-máquina - a era das
tecnologias do virtual. Rio de Janeiro, 34,
1993, p. 173.
16 Virilio, op. cit., p. 109.
17 Idem, p. 122. Grifos do autor.
18 Idem, p. 49.
19 Ignacio Ramonet. A tirania da
comunicação. Petrópolis, Vozes, 1999, p. 7-8.
20 Eric Klinenberg. "Les
journalistes à tout faire de la presse
américaine". Le Monde Diplomatique,
fev. 1999, p. 7.
21 Mariana Mainenti Gomes. A engrenagem
do tempo real - relato de uma experiência no
jornalismo on line. Projeto experimental em
jornalismo. Niterói, IACS/UFF, março de 2000.
22 Renata lo Prete. "Tudo igual ponto
com", Folha de S. Paulo, 16 de abril
de 2000.
23 Cf. Projeto Editorial 97, Folha de
S. Paulo, 17 de agosto de 1997.
24 Michael Schudson. "When?
Deadlines, datelines, and history". in
Robert Karl Manoff e Michael Schudson. Reading
the news. New York, Pantheon Books, 1986, p.
81.
25 Idem, p. 82.
26 Salete Maria Polita Maccalóz. O
Poder Judiciário, os meios de comunicação e a
opinião pública. Tese de doutorado,
ECO-UFRJ, agosto de 2000
27 Schudson, op. cit., p. 99. Grifo nosso.
28 Antonio A. Serra. O desvio nosso de
cada dia - a representação do cotidiano num
jornal popular. Rio de Janeiro, Achiamé,
1980, p. 23.
29 José Luiz Proença, in Claudia
Santiago e Vito Gianotti, Comunicação
Sindical - falando para milhões.
Petrópolis, Vozes, 1997, p. 9
30 João Sayad. "Notas sobre a
imprensa". Folha de S. Paulo, 12 de
fevereiro de 1993
31 Carlos Heitor Cony. "Ratos e
salários". in Folha de S. Paulo, 10
de janeiro de 1998.
32 Ramonet. op.cit., p. 26.
33 idem, p. 21.
34 Marcondes Filho. A saga dos cães
perdidos. São Paulo, Hacker, 2000, p. 21.
35 Ramonet. op. cit., p. 62.
36 Contardo Calligaris. "A mídia
carpideira". Folha de S. Paulo,
caderno Ilustrada, 22 jul 1999, p. 8.
37 Apud Ramonet, op. cit., p. 102.
38 Sérgio Augusto, in Geraldinho Vieira. Complexo
de Clark Kent - são super-homens os jornalistas?
São Paulo, Summus, 1988.
39 Dominque Wolton., op. cit., p. 271-272
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CONY, Carlos Heitor.
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SAYAD, João. "Notas sobre
a imprensa". Folha de S. Paulo, 12 de
fevereiro de 1993.
*
Sylvia Moretzsohn
es maestra en comunicación por la Universidade Federal
Fluminense, donde también
es profesora de periodismo del Departamento de
Comunicación Social. Es colaboradora de Sala de Prensa.
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