Impasses do
jornalismo
na virada do milênio
José
Marques de Melo *
1.
Preâmbulo
Há
311 anos, exatamente em 8 de março de 1690, na
Universidade de Leipzig, Alemanha, era defendida
a primeira tese doutoral sobre Jornalismo. Seu
protagonista foi o estudante Tobias Peucer, tendo
como orientador o próprio reitor daquela
universidade, Prof. Dr. L. Adam Rechenberg.
O trabalho,
publicado pela tipografia de Wittigau, foi
escrito em latim (exigência generalizada nas
universidades européias da época), tendo como
título "De relationibus novellis". O
tradutor brasileiro Paulo da Rocha Dias, com base
no texto latino original, bem como nas versões
prévias para o alemão e o catalão, adaptou
esse título para "os relatos
jornalísticos", na nova versão em língua
portuguesa.
Se ainda não
constitui uma disciplina acadêmica plenamente
legitimada, o Jornalismo encontra-se em fase de
consolidação e fortalecimento em todo o mundo.
A pesquisa dos fenômenos jornalísticos adquire
intensidade nesta conjuntura de transição
milenar.
Evidência disso
é o aparecimento de novos livros e revistas
acadêmicas especificamente dedicadas ao estudo
do Jornalismo, em língua inglesa, no ano
passado. Eles traduzem o interesse conquistado
pela pesquisa científica do jornalismo,
especialmente naquelas sociedades onde a
democracia se robustece, tanto no campo político
(declínio dos regimes autoritários, no ocidente
e no oriente) quanto no setor econômico
(privatização das empresas midiáticas).
A criação do
Curso de Pós-Graduação em Jornalismo na
Universidade Federal de Santa Catarina constitui
um sinal iluminador da revitalização dessa
disciplina na universidade brasileira. Por isso
mesmo, quero fazer justiça ao Grupo de
Florianópolis. Trata-se de uma equipe que vem
lutando para salvaguardar a especificidade do
Jornalismo no âmbito dos estudos comunicacionais
em nosso país.
Essa ofensiva se
impôs numa conjuntura em que o legado dos
estudos jornalísticos parecia condenado ao
desaparecimento. Ela representa um marco
histórico na trajetória do Jornalismo dentro da
universidade brasileira. Depois de meio século
de existência nos muros acadêmicos, o
Jornalismo ressurge com intensidade.
2.
Cenários
Ingressamos
neste novo milênio sob o signo da perplexidade,
do desencanto e do pessimismo. Alguns proclamam
genericamente o "fim da História"
(Fukuyama), outros o "choque das
civilizações" (Huntington). Há também
aqueles que, por tabela, vislumbram o fim do
Jornalismo ou a sua desagregação acelerada.
Trata-se de um
tipo de atitude recorrente nas encruzilhadas
históricas. Ela inevitavelmente se instalou no
âmago desta conjuntura que Hobsbawm prefere
chamar a "era dos extremos".
No que tange, de
modo específico, ao nosso campo de interesse, ou
seja, ao Jornalismo, escolhi três obras
paradigmáticas para ilustrar seu perfil em
diferentes geografias.
A mais
contundente é a coletânea do jornalista
espanhol Martínez Albertos - "El Ocaso del
Periodismo".
Na mesma linha
de inventário crítico situa-se o livro do
jornalista norte-americano William A Hachten -
"The Troubles of Journalism", que em
português coloquial poderíamos traduzir por
"As encrencas do jornalismo".
Percorre trilha
semelhante o jovem jornalista brasileiro Juremir
Machado, autor do ensaio denominado "A
miséria do Jornalismo Brasileiro - as
(in)certezas da mídia".
O terreno comum
aos três autores corresponde ao pântano em que
está imerso o jornalismo contemporâneo.
Transitando de um modelo erigido no século XIX,
que se esgotou em meados do século XX, ele
protagoniza um novo padrão, ainda furtivo, neste
liminar do século XXI.
Vamos examinar
as teses e os vaticínios desses exegetas
midiáticos.
a) Ocaso do
Jornalismo
Martínez
Albertos, catedrático insigne da Universidade
Complutense de Madrid (Espanha), constrói
argumentação embasada no determinismo
tecnológico que avassala a produção
jornalística contemporânea.
Sua tese
principal é a seguinte:
"A
galáxia Marconi está derrotando em todas as
frentes a galáxia Gutenberg. E nesse
enfrentamento com derrota anunciada, os jornais
impressos não constituem uma exceção. (p.
23)
Os corolários
da equação construída pelo autor convergem
para a dupla necrose da atividade jornalística.
Ele preconiza a
morte do meio, ou seja, da imprensa:
"Não é
necessário ser profeta para aventurar que a
morte dos jornais impressos em papel não
resistirá além do ano 2020". (p. 24) "Estamos
provavelmente na iminência de uma sublime
paradoxo na História do Jornalismo: os jornais
convergem progressivamente para se tornar guias
especializados em navegar nas autopistas da
informação, de tal modo que não serão mais
utilizados como suportes noticiosos, mas como
instrumentos de ajuste para saber movimentar-se
no ciberespaço e nele localizar (...) os
conteúdos informativos, de opinião ou de
diversão demandado pelo usuário" (p.
30).
Mas também
vaticina a morte da mensagem, ou seja, do jornalismo:
"Não
apenas desaparecerão os diários impressos, os
jornais convencionais que conhecemos e amamos.
Provavelmente também desaparecerá com êles o
jornalismo. E com o jornalismo pode desaparecer
também a concepção vigente sobre a liberdade
de imprensa e o respeito sagrado pelo direito dos
cidadãos a uma informação tecnicamente
correta... " (p. 31) "Não há
informação tecnicamente correta se os
jornalistas e os meios devotados à informação
de atualidade não respeitam a norma básica que
estabelece uma radical diferença entre os
gêneros jornalísticos, com a finalidade de
garantir aos leitores que os fatos sejam
apresentados como dados indiscutíveis do mesmo
modo que os comentários sejam formulação
pessoais absolutamente livres"(p. 41).
Na esteira de
tão mórbido panorama, ele antevê a morte do jornalista,
ou seja, dos produtores de notícias:
"O
jornalismo é uma técnica social em perigo de
extinção. (...) A tecnologia eletrônica põe
em perigo a sobrevivência do diário impresso e
consequentemente do próprio jornal. A
mentalidade pós-moderna está solapando
seriamente os fundamentos ideológicos que
fizeram possível tanto o o nascimento como o
desenvolvimento e avanço posterior dessa
modalidade de trabalho social que denominamos
jornalismo. (...) O jornalismo
configurou-se até mesmo como uma verdadeira
profissão nas sociedades modernas. (p. 42). "O
jornalista vem atuando como um profissional
legitimado por uma espécie de delegação da
sociedade para a consecução de um direito
coletivo da comunidade política: o direito a
receber uma informação tecnicamente
correta."(p. 45) "Ironicamente
poderíamos dizer que o jornalista é um ser para
a notícia"(p. 46). "A
comunicação jornalística é (...) uma das
modalidades relevantes da comunicação de
massas: o jornalismo é fundamentalmente,
comomunicação para públicos massivos..."(p.
52) "Os cibernautas, os provedores de
informação não são jornalistas: trabalham com
mentalidade radicalmente distinta. E seus
paradigmas para a coleta e a seleção dos dados
não obedecem à lei do interesse geral do
público massivo. Seus instrumentos de trbalho
são a especialização temática dos serviços e
a acumulação praticamente indiscriminada de
todos os dados disponíveis" (p. 54/55).
Ao concluir a
previsão, o mestre espanhol explica que seu
aparente pessimismo, da mesma forma que o
catastrofismo, correspondem a uma estratégia de
natureza pedagógica.
"Pretendi
fundamentalmente chamar a atenção para a
encruzilhada com que nos deparamos. O que nos
espera, ao dobrar a esquina da História, não
deve ser necessariamente caótico ou penoso para
os indivíduos. Creio na capacidade inata do ser
humano pra enfrentar as inclemências históricas
de cada conjuntura e para prosseguir na caminhada
em direção a melhoria coletiva dos povos. É
provável que desapareça, como eu o vejo, o
modelo de jornalismo de jornalismo que nós temos
vivido, submergidos como estamos no ocaso da
modernidade. Mas surgirão outras instituições,
outras técnicas, outros métodos destinados a
substituir vantajosamente os valores
descritos." (p. 57)
b) Encrencas
do Jornalismo
O diagnóstico
do mestre William Hachten tem as marcas
explícitas do pragmatismo norte-americano. O que
significa dizer: aguçada consciência crítica
da realidade, sem perder de perspectiva os
caminhos para superar problemas, crises,
cataclismas. Isso fica evidente no título do
capítulo final do seu recente livro:
"Jornalismo em tempo de mudança".
Sua
preocupação principal ancora-se nos desvios
mercadológicos do jornalismo contemporâneo,
sobretudo a tendência de guiar-se
predominantemente pelos impulsos do mercado
consumidor.
Ao traçar um
perfil do jornalismo norte-americano no final do
século XX, Hachten utiliza a metáfora da moeda
com duas caras.
Cara
"edificante" - "Mesmo em tempo
de crises ou em momentos convencionais, a mídia
jornalística tem cumprido papel prodigioso ao
relatar os fatos corretamente, com a rapidez
necessária, acrescentando sua necessária
interpretação e explanação no sentido de
informar e tranquilizar o público". (p.
174)
Cara
"desalentadora" - "Lamentavelmente
a mídia de qualidade desafina ao pautar e
destacar fatos triviais que alternam ou combinam
variáveis como celebridade, sexo, crime ou
escândalo para competir com os tablóides
sensacionalistas". (p. 174)
Desta maneira,
ele separa o "joio do trigo" no campo
da produção jornalística dos EUA, proclamando
aos quatro ventos:
"Este
livro preocupa-se fundamentalmente com a
falência da mídia confiável e da informação
pública, numa conjuntura em que a engrenagem da
cultura popularesca vem tragando o jornalismo de
qualidade, ao fabricar uma mescla de
entretenimento, endeusamento, sensacionalismo,
auto-ajuda e promoção de vendas - misturando
coisas que estão situadas em espaços devotados
à publicidade, promoção, relações públicas,
marketing, orientadas sobretudo pelo
mau-gosto." (p. 175)
O cerne da
questão está na evidência de que as novas
gerações da sociedade norte-americana começam
a desvalorizar o "jornalismo de
qualidade", enfraquecendo-o como instância
do "conhecimento público". Em
consequência dessa crise de "identidade do
jornalismo", cria-se uma
"animosidade" crescente e uma
"irritação" constante da população
em relação aos jornalistas.
Em poucas
palavras: o jornalismo perde credibilidade,
prestígio, reconhecimento público.
"O
jornalismo de interesse público - o ingrediente
vital da democracia - tem sido prticularmente
trivializado e corrompido. Fabricantes de
opiniões e previsões, acantonados nos
"talk-shows"televisivos ou nas colunas
assinadas dos jornais e revistas, tem invadido o
espaço da reportagem cuidadosa e da
itnerpretação cautelosa, especialmente durante
as campanhas políticas. O jornalismo da fama tem
sido julgado pelo público como cínico,
arrogante e distanciado dos desejos e
aspirações do cidadão comum". (p.
176)
O xis da
questão, segundo a análise do professor
Hachten, está na administração do conflito
entre os dois principais agentes do jornalismo.
De um lado, o mega-corporativismo das empresas
jornalísticas (hoje controladas por grandes
corporações capitalistas, excessivamente
preocupadas com o lucro fácil, imediato e
abundante). De outro, o micro-corporativismo dos
jornalistas profissionais, outrora baluartes da
"liberdade de imprensa" e do
"jornalismo como serviço público".
c) Miséria
do Jornalismo
As perplexidades
do professor brasileiro Juremir Machado englobam
as variantes privilegiadas pelos exegetas do
jornalismo no chamado primeiro mundo (Comunidade
Européia e América do Norte). A diferença é
que ele as expõe num estilo "aberto à
vertigem panfletária", denotando a um só
tempo ironia e mordacidade.
Na sua ótica, o
conflito entre empresários e jornalistas é
insolúvel no Brasil, por culpa dos próprios
jornalistas, que padecem de dupla idiotice:
ideológica e tecnológica. Por isso mesmo, os
jornalistas fazem o jogo dos patrões imaginando
atuar em oposição a eles.
"A
premissa básica deste ensaio é banal: a mídia
funciona com uma rede. (...) Antes de tudo, como
uma rede de favores trocados, rede de
conivência. Não se trata tampouco de salientar
novamente, em exclusividade, o tráfico de
influência entre empresários e poder - real,
violento e imoral -, mas de assinalar o lugar
consentido, ou inconsciente, de muitos
jornalistas (a maioria?) nesse sistema que,
convertido em engrenagem, constitui uma máquina
capaz de girar quase por conta própria. (...)
Patrões e jornlistas rezam, enfim, pela mesma
cartilha técnica, mesma quando professam
ideologias opostas". (p. 13)
Como explicar a
idiotice ideológica ?
"Houve
um tempo, real ou mítico, em que o jornalista de
esquerda (...) saía para a rua, com uma pauta,
consciente da tensão entre mercado e
regras do bom jornalismo. Trata-se,
para ele, de ampliar a cada dia a margem de
manobra contra os imperativos ideológicos e
comerciais do patrão. O jornalista de esquerda e
o profissional independente acreditavam (ou
queriam, acreditar) na objetividade, na
imparcialidade e no compromisso com a verdade
(mitologias do jornalismo). Aos poucos a esquerda
denunciou o caráter ideológico dessa mitologia.
Mas nada colocou de consistente no luar dela, a
não ser uma vaga, dissimulada ou mesmo agressiva
crença na sua própria verdade." (p. 9)
E a idiotice
tecnológica ?
"O
idiota tecnológico, recém-chegado na paisagem
midiática brasileira, acredita que a democracia
virtual já começou e que o mundo inteiro está
ligado na Internet. A progressão é tão grande
que em poucos anos nenhuma pessoa viverá sem um
computador. (...) Tudo caminha para o bem no
melhor dos mundos. Questão de anos, de meses, de
dias, de horas..." (p. 11)
Embora deixe de
propor soluções para equacionar a
"miséria do jornalismo brasileiro",
Machado isenta o "mercado" de
responsabilidade na sua emergência.
"Na
atualidade, com o triunfo (...) do neoliberalismo
ou simplesmente com a crise (...) da utopia
marxista, o mercado comanda, o manual de
redação adapta-se a ele e o jornalista, mesmo
convencido de seguir rigorosamente a norma,
limita-se a fazer a vontade do consumidor. O
mercado, porém, não é necessariamente um
monstro. Contraditório, ainda mais em tempo de
explosão das novas tecnologias da comunicação,
serve a todos." (p. 10)
Na sua opinião,
o "mercado" atende às expectativas dos
próprios jornalistas, independentemente das
posições que venham a ocupar na constelação
midiática.
"A
questão é saber o que traz mais prejuízos: o
mercado ou a ausência dele ? O democrata
razoável, interessado em melhorar o mundo, não
hesitará: melhor conviver com Faustão, ao lado
da Folha de S. Paulo, do que ter em exclusividade
sete horas de discurso de Fidel Castro. O
problema do esquerdista esclarecido é que o
mercado atende também ao gosto dos seus
adversários. Ponto para o mercado. O drama do
idiota tecnológico é tornar visível o que faz;
(...) o do esquerdista esclarecido, tornar
invisível o seu oponente." (p.. 12)
3.
Perspectivas
Os cenários
descritos pelos três analistas refletem
naturalmente diferenças de observação,
motivadas pelos ambientes em que estão imersos
seus autores. Como disse o filosófo espanhol
Ortega y Gasset o ser humano é produto da sua
circunstância. Ou seja, do espaço em que vive e
da sua história de vida.
Há, contudo,
traços comuns que as identificam, refletindo
aquele "espírito do tempo" vislumbrado
pelo sociólogo francês Edgar Morin como marca
registrada da cultura de massa. Perpassam pelos
seus diagnósticos três elementos
inconfundíveis: saudosismo, ceticismo, elitismo.
Evidentemente
eles se manifestam com intensidade variável em
cada um dos textos, mas estão presentes, todo o
tempo, na linha de argumentação dos escritores.
O saudosismo
fica bem visível na reflexão de Martínez
Albertos, cuja concepção de jornalismo está
alicerçada na experiência histórica da mídia
impressa, assimilada inicialmente pela mídia
audiovisual, mas da qual se distancia a
embrionária mídia digitalizada.
"O
jornalismo é indubitavelmente uma das
instituições básicas do mundo moderno, surgido
daquela mentalidade hierárquica, sequencial e
cronológica típica da etapa alfabética e
livresca, fase importante e chave da evolução
histórica da Humanidade. O discurso
jornalístico é uma modalidade do discurso
moderno. A pergunta que temos reiterado é a
seguinte: uma vez substituída a tecnologia do
alfabeto pela tecnologia eletrônica, poderia
subsistir essa instituição chamada jornalismo
ou terá que submeter-se a uma revisão radical
de sua essência ?" (p. 37)
A resposta
esboçada não deixa margem a dúvidas:
"... o
jornalismo não é compatível com a mentalidade
pós-moderna."(...) "a etapa
eletrônica significa o predomínio completo e
excludente de uma sensibilidade determinada em
que não haverá lugar para os vestígios
arqueológicos da etapa alfabética. O menos
pessimista dos palpites é o de que os vestígios
literários e livrescos poderão sobreviver
durante algum tempo com um certo valor
testemunhal". (p. 37)
O ceticismo mais
aguçado transparece na postura de Juremir
Machado, tanto assim que ele se viu na
contingência de atravessar a fronteira do
jornalismo buscando refúgio nos umbrais da
academia.
"Aprendi
a conviver com as regras do jornalismo,
transgredindo-as aqui e ali, sem, no entanto
assimilar-lhe a mitologia. (...) Expelido do
jornalismo (...), amadureci como sociólogo da
comunicação a reflexão deste ensaio. Sem
nenhuma dúvida trata-se de produto do
ressentimento. Frase bombástica ? Confissão
desesperada ? Apenas uma maneira peculiar de
encarar a palavra ressentimento. Os
jornalistas utilizam-na como escudo contra
qualquer crítica aos seus sacrossantos
bastiões. Cada vez que alguém ssaca o seu
repúdio à mídia poderosa e autocentrada, os
profissionais defendem-se rotulando, suprema
ofensa, o acusador de ressentido. Tradução:
todos sonham em brilhar em mídia. Os fracassados
atacam-na."(p. 17)
O autor
brasileiro pretende ser abolvido do pecado do
elitismo, ao denunciar essa atitude como
característica das lideranças jornalísticas
brasileiras.
"Cada
vez mais, a grande imprensa desliza do shopping
de elite para o mercado público, o que
escandaliza o elitismo esquerdista e confirma o
populismo mercadológico"
Numa postura bem
típica do pragmatismo norte-americano, William
Hachten arregaça as mangas, sai das conjecturas
e pergunta "o que precisa ser feito"
para superar os impasses do jornalismo
contemporâneo. Sua fórmula contém 5
ingredientes, mesclando ética e técnica:
a) Restaurar a
linha divisória entre notícias e
entretenimento, praticando um jornalismo mais
responsável.
b) Resgatar a
imagem pública dos profissionais do jornalismo.
Para tanto, os jornalistas que fazem cobertura
política precisam despolitizar-se, deixando de
lado as paixões e as idiossincrasias, para
voltar a ser legítimos formadores da opinião
pública.
c) Ampliar a
audiência jornalística, recorrendo a
estratégias capazes de motivar os jovens e os
adolescentes para o cultivo cotidiano das
notícias.
d) Redefinir os
formatos jornalísticos para adaptá-los à
natureza peculiar da internet sem abdicar de
valores essenciais como veracidade, precisão,
equidade e contextualização.
e) Restabelecer
e expandir a importância da cobertura
internacional, prestando mais atenção ao que
acontece além das fronteiras nacionais.
Contudo, para
lograr essa mudança sistêmica torna-se
indispensável que os jornalistas resgatem a
auto-estima profissional, nutrindo-se no
entusiasmo e na esperança que foi a marca
registrada da categoria em seus tempos áureos.
4.
Impasses
Restabelecer nos
jornalistas o imaginário que os situa como
agentes do interesse público, mediadores sociais
ou educadores coletivos corresponde a uma missão
irrenunciável da universidade.
Há mais de meio
século, quando ocupou a primeira cátedra de
Jornalismo do Brasil, Costa Rego, o jornalista
paradigmático da sua geração, tinha plena
consciência dessa tarefa. Ela também foi
perseguida por Vitorino Prata Castelo Branco,
quando escreveu o nosso primeiro manual de
jornalismo. E foi sistematizada pelo legendário
Luiz Beltrão, o renovador do ensino de
jornalismo no país.
Infelizmente o
legado desses mestres pioneiros vem correndo o
perigo de incorporar-se às brumas da História.
Se a profissão de jornalista ganhou
reconhecimento e legitimidade, no fim dos anos
60, com a lei de regulamentação profissional,
lamentavelmente o mesmo destino não coube ao
ensino de jornalismo.
As mudanças
legais ocorridas na esfera do Ministério da
Educação, protagonizadas pelas correntes
autoritárias que pretenderam quebrar a espinha
dorsal dos jornalistas durante o regime militar
pós-64, acabaram por reduzir a autonomia
acadêmica do Jornalismo na academia. O
reducionismo imposto ao curso de jornalismo,
rebaixado a mera habilitação do mega-curso de
Comunicação Social, acarretou seu atrelamento
ao universo comunicológico, condenando-o à
perda da identidade profissional e à
descaracterização como campo do conhecimento.
Evidentemente o
Jornalismo constitui um segmento básico da
atividade comunicacional na sociedade
contemporânea, mas seu espaço geográfico é o
da mídia. Desenraizado desse continente, o
ensino de Jornalismo corre o perigo de perder a
sua essência. Ele esteve ameaçado pela corrente
do Pensamento Único (uma espécie de coquetel
culturalista-cibernáutico-frankfurtiano) que
pretendia transformar o campo acadêmico da
comunicação num imenso latifúndio intelectual.
Não fosse a
resistência corajosa do Grupo de Florianópolis,
reivindicando pluralismo, diversidade, autonomia,
e aquela tendência hoje seria hegemônica em
todo o país. Felizmente ela começa a encolher,
aprendendo (às vezes de maneira dolorosa) a
conviver com a diversidade e a praticar o debate
civilizado.
Os cursos de
graduação em Jornalismo começam a se
fortalecer em todo o país, organizando-se
segundo parâmetros que os identificam como
atividade midiáticas, profissionais, ancoradas
na economia de mercado, mas comprometidas com o
interesse público.
A iniciativa da
Universidade Federal de Santa Catarina ao crir um
Curso de Pós-Graduação em Jornalismo,
vocacionado para se converter em Mestrado
Profissional e em Doutorado Acadêmico representa
um passo decisivo na formação de professores e
pesquisadores para atender às demandas da
graduação e também do mercado de trabalho.
O momento é
propício, considerando que o Jornalismo tende a
se revitalizar na emergente Sociedade do
Conhecimento, que se erige nas autopistas
informatizadas da Sociedade da Informação.
Trata-se, agora, de dar sentido àquela idéia
seminal de Robert Park, um dos primeiros
cientistas sociais a reconhecer o jornalismo
enquanto forma de conhecimento.
"Como
forma de conhecimento a notícia não cuida
essencialmente nem do passado nem do futuro,
senão do presente - e por isso foi descrita
pelos psicólogos como o presente
especioso. Pode-se dizer que a
notícia só existe nesse presente. (...) A
notícia só é notícia quando chega às
pessoas... (...) Publicada e reconhecida a sua
significação, o que era notícia se transforma
em História. Essa qualidade transitória e
efêmera é da própria essência da
notícia..." (p. 175)
O jornalismo é
portanto a principal forma de conhecimento que
permite aos cidadãos de qualquer sociedade
acompanhar, participar e influir na História do
seu tempo.
"No
mundo moderno , o papel da notícia assumiu uma
importância antes acrescida que diminuída em
confronto com outras formas de conhecimento, como
a História, por exemplo. Tão rápidas e
drásticas foram as mudanças nos últimos anos
que o mundo moderno parece ter perdido a
perspectiva histórica... (...) Em tais
circunstâncias dir-se-á que a História é lida
ou escrita sobretudo para permitir-nos, pelo
cotejo entre o presente e o passado, compreender
o que está acontecendo à nossa volta, mais do
que saber, como nos disseram os historiadores, o
que realmente aconteceu "(p. 184)
A missão
precípua deste Curso de Pós-Graduação é a de
produzir Conhecimento Jornalístico capaz de
compreender os processos noticiosos que permeiam
os liames da sociedade brasileira, fazendo
avançar a fronteira do jornalismo como forma de
conhecimento.
___________________
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Friedrich Ebert Stuiffung, 1988 ( tradução
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SOUSA, Jorge Pedro - As
notícias e seus efeitos, Coimbra, Minerva,
2000
WEAVER, David, org. - The
Global Journalist, Creskill, New Jerseu,
Hamptom Press, 1998
* José
Marques de Melo,
periodista, es doctor por la USP
de Brasil y ha hecho estudios postdoctorales en
EU y España. Es titular de la Cátedra UNESCO de
Comunicación de Sao Paulo
y ha recibido el premio Wayne Danielson de Ciencias de la Comunicación en 1997
como reconocimiento a su labor docente e
investigadora a lo largo de treinta años de
carrera profesional. Esta es su primera
colaboración para Sala de Prensa.
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