A bolha
ideológica e o destino do jornalismo
Nilson
Lage *
Os
primeiros esforços, no final do Século XIX e
início do Século XX, para compreender o
fenômeno do jornalismo informativo que
sucedeu o jornalismo publicístico dos séculos
XVII e XVIII foram levados a confrontar
imensa bolha ideológica que, após cem anos,
agora, aos poucos, se desfaz, deixando bolhas
menores, aqui e ali, no meio acadêmico.
Já não se
tratava, naquela época, de mobilizar o povo
para, sob o comando da burguesia, liquidar os
restos da ordem feudal e submeter, quando não
extinguir, as antigas elites aristocráticas. Os
burgueses eram vitoriosos. É certo que havia as
multidões excluídas mas, para contê-las, a
classe dominante dispunha de meios mais eficazes
do que artigos de jornal: polícias, igrejas
aliadas ou submissas, o aparelho judicial
conformado à nova ordem, e, principalmente, o
constrangimento econômico. A recessão impunha,
por quase toda a Europa, a incerteza, o
desemprego e a solução amarga da diáspora:
multidões vagavam pelo Continente, despertando
ódios e ressentimentos étnicos, migravam para a
América ou a Austrália.
A Revolução
Industrial inseria a imprensa em um quadro
econômico delimitado pela dependência de
financiamentos, tecnologia e publicidade. O
investimento crescia, as tiragens se
multiplicavam, os preços de venda do exemplar
caíam. Nesse contexto, enfim, a censura
desapareceu: os mecanismos de controle da
informação pelos estados nacionais europeus
foram sendo extintos, um a um, na segunda metade
do século XIX.
De que valia, no
entanto, essa liberdade? O rápido avanço da
ciência expunha o anacronismo das formas
políticas e das relações sociais. Como
proclamar esse anacronismo? A quem se dirigir?
Para quê? Havia o sentimento difuso de que a
comunicação do que mais importava era
impossível. Escrevia Wittgenstein (1995):
Aqui se vê
que o solipsismo, quando lhe rigorosamente
são extraídas todas as suas
conseqüências, coincide com o realismo puro
... (5.64). O mundo é independente da minha
vontade (6.373) ... Acerca daquilo de que
não se pode falar, tem que se ficar em
silêncio (6.54).
Contemporâneo
de Wittgeinstein e habitante da mesma Viena, Karl
Kraus tornou-se crítico radical e brilhante da
sociedade e da imprensa de seu tempo, escrevendo,
a partir de 1899 e durante 37 anos, os 922
números de seu Die Fakel, um antijornal
que criticava o sionismo de Theodor Herzl e a
psicanálise de Sigmund Freud, ridicularizava os
discursos heróicos da Primeira Guerra Mundial,
denunciava gerações sucessivas de corruptos e
defendia prostitutas e homossexuais com o
argumento hoje insustentável de que a mulher,
pura sexualidade, é a fonte de toda
irracionalidade e caos do mundo.
"O que
elevou a novas alturas a irritação de Kraus
contra o jornalismo corrente", escrevem
Janik e Tuolmin (1991: 81), em A Viena de
Wittgenstein, "foi a mistura de opinião
e fato envolvida na apresentação de notícias
deturpadas por interesse de classe". Seu
alvo predileto era um tipo de texto o
ensaio cultural do rodapé das páginas
que, a pretexto de somar objetividade e
subjetividade, coloria situações e aspectos da
realidade com uma linguagem repleta de advérbios
e adjetivos; em suma, algo que antecipa, de certa
maneira, o estilo atual da revista Time ou
de Veja.
No entanto,
sobrepondo-se ao lugar comum do discurso oficial,
dos artigos e editoriais tendenciosos, havia um
mundo espantoso a ser descoberto. Entre novelas
em capítulos, caricaturas, desenhos e as
primeiras fotografias, ao lado da interpretação
interesseira dos fatos, impunham-se a reportagem
e a notícia. Esta inicialmente assombrava por
sua aparente inutilidade. Em A cidade e as
serras, José Fernandes, personagem de Eça
de Queiroz, visita em Paris Jacinto de Tormes,
amigo rico e atualizado com a tecnologia da
época. O anfitrião estava ao telefone quando,
...duma
redoma de vidro posta numa coluna e contendo
um aparelho esperto e diligente, escorria
para o tapete, como uma tênia, a longa tira
de papel com caracteres impressos que eu,
homem das serras, apanhei, maravilhado A
linha, traçada em azul, anunciava ao meu
amigo Jacinto que a fragata russa Azoff entrara
em Marselha com avaria. Já ele abandonava o
telefone. Desejei saber, inquieto, se o
prejudicava diretamente aquela avaria da Azoff.
- Da Azoff?...
A avaria? A mim? Não! É uma notícia.
(QUEIROZ, 1950:26)
Na belle
époque, apogeu do imperialismo britânico,
tempo de grandes avanços científicos mas
também de diáspora para milhões de europeus, a
ideologia dominante pensava o jornalismo com duas
funções distintas e até certo ponto
contraditórias: a de manter viva a fantasia
sentimental e aventureira do público, e a de
educá-lo para o trabalho taylorista, a poupança
e o consumo.
A contradição
entre as duas faces a sensacionalista, que
atraía leitores, e a educadora, que os
socializava manifestou-se radicalmente nos
Estados Unidos que, após a Guerra Civil, viveram
a sua Revolução Industrial, importando gente e
dinheiro. Os magnatas da imprensa, Hearst e
Pullitzer, prosperaram, acumulando um poder que
imaginamos tomando como referência as figuras de
Chateaubrand e Roberto Marinho..
Mas foi então,
na América do início do Século XX, que se
descobriu que o jornalismo precisava de algo mais
do que grandes tiragens e narrativas
surpreendentes. Dependia de credibilidade. E se
inventaram técnicas de apuração, tratamento e
apresentação dos fatos inspiradas, dentro do
espírito da época, em procedimentos das
ciências exatas.
Essas técnicas
ajudaram a distinguir o jornalismo das outras
formas de comunicação: a ficção, a
publicidade, o discurso dos púlpitos e tribunas
etc. Adotadas em toda parte, senão como
procedimento, ao menos como objetivo e modelo,
abriram o caminho para algo que viria bem mais
tarde, com o avanço dos processos de transporte,
armazenamento e recuperação de dados: a era da
informação.
No entanto, o
aspecto contraditório do jornalismo não
apenas suas mazelas, mas também seus méritos, o
quanto representou de avanço na difusão do
conhecimento , isso escapa à crítica
acadêmica do Século XX. Algumas razões desse
fenômeno têm que ver com a natureza corporativa
das ciências humanas: seu compromisso com o
estilo hermético que oculta, tantas vezes, a
mediocridade; o desejo de preservar monopólios
de informação; a simulação de poder e de
livre pensamento nas estruturas universitárias;
o temor pânico dos avanços tecnológicos.
Mas o principal
motivo é a bolha ideológica que atravessa todo
o século, empolgando esquerda e direita em
discursos que, ainda quando se opõem, apóiam-se
nas mesmas teses: de que o público é massa
inerte que os meios de comunicação manipulam;
de que os jornais só publicam aquilo que
interessa aos agentes econômicos e políticos
dominantes; que esses agentes controlam
rigidamente todos os veículos de comunicação
e, nestes, a hierarquia é de tal forma perfeita
que nada se publica sem que o dono, ou os
diretores, tenham aprovado; que as linguagens
são arbitrariamente escolhidas, de modo que
bastaria veicular discursos eruditos, músicas
clássicas e filmes de arte para que o povo se
tornasse rapidamente erudito, melômano e
cinéfilo.
1.
Da direita maníaca à esquerda depressiva
Pode-se datar o
surgimento da bolha ideológica de 1895, quando
Gustave Le Bon escreveu o livro Psychologie
des Foules. A obra, várias vezes reeditada,
iria inspirar tanto Joseph Gobbels, Ministro da
Propaganda do estado nazista, quanto os teóricos
americanos que, como Walter Lippman, já
pretendiam, na década de 1920, usar a propaganda
explícita ou disfarçada como noticiário
para "fabricar o consentimento"
do público para o progresso, o desenvolvimento
etc..
Antes de Le Bon,
que era psiquiatra, o sociólogo italiano Scipio
Sighele havia publicado, em 1891, A massa
criminosa, ensaio de psicologia coletiva.
Atribuía greves operárias e outras
manifestações coletivas a líderes que
hipnotizam multidões. Numa nova edição revista
pelo autor, em 1901, a visão do jornalismo é
estritamente publicística: os jornalistas são
retratados como agitadores e seu público como
"o gesso molhado sobre o qual a mão
deposita sua marca" (MATTELART, 1999:23)
Le Bon
acrescenta à interpretação de Sighele alta
dose de etnocentrismo. Para ele, a raça teria
sido fator decisivo na história das
civilizações. Povos inferiores
impulsivos, não racionais conseguiriam
influir no mundo civilizado através de seus
indivíduos mais vulneráveis, as crianças e as
mulheres. A idéia de uma hierarquia entre povos,
alguns superiores aos outros, é lugar comum no
início do século aparece no
pangermanismo tanto quanto no sionismo - e
persiste, depois, na tese de que qualquer nação
que se desenvolva deverá assemelhar-se aos
países capitalistas mais poderosos ou ricos. Já
a inferioridade feminina só começaria ser
contestada quando, no contexto da Segunda Guerra
Mundial, foi necessário mobilizar as mulheres
como exército de reserva de trabalhadores e logo
se constatou que, com tal mobilização,
elevava-se a produção reduzindo os salários
antes calculados para a sobrevivência das
famílias isto é, aumentava-se o produto
mantendo a mesma massa salarial.
É interessante
observar como as teses fascistas de Le Bon, que
inspiraram Goebbels (REUTH, 1994) e se aparentam
com a pregação de Hitler, sobreviveriam ao
longo dos anos, mais visíveis à direita, com
algum disfarce no centro bem pensante
conservador ou liberal e discretamente
incorporada em linhas de pensamento que foram,
por todo o século XX, consideradas "de
esquerda".
O jornalismo
aparece não diferenciado da propaganda nos
textos de Harold Lasswell, o autor que copiou de
Marco Tulio Cícero o aforismo "quem diz o
que por que canal e com que efeito"(KARAM,
web). Trata-se da "gestão governamental das
opiniões", coisa que não lhe parece
conflitar com o conceito de democracia. A
mensagem midiática suscitaria a adesão popular
com menor custo do que a violência, a
corrupção e técnicas similares. Os meios de
comunicação disporiam de algo comparável a uma
agulha hipodérmica, injetando nas pessoas,
indiferentemente, venenos ou remédios.
Pelo menos um
grupo importante de filósofos ditos marxistas
a Escola de Frankfurt concorda
tacitamente com essa visão: sustentou e, por
seus discípulos, ainda sustenta, que a mídia
fabrica uma "falsa realidade" que
oculta dos homens as suas reais condições de
vida. Para isso foi necessário contrariar dois
pontos fundamentais da obra de Marx: a natureza
revolucionária da classe operária
substituída pela passividade da
"massa", conceito que se origina no
Império Romano; e o objetivo de superação
revolucionária do capitalismo
substituído aos poucos pelo conceito de
"sociedade industrial", particularmente
pelos frankfurtianos que, como Herbert Marcuse,
sobreviveram como professores em instituições
americanas durante os anos da Guerra Fria.
"Sociedade industrial", naturalmente,
incluía a União Soviética.
A condenação
da "sociedade industrial" abre o
caminho a um reacionarismo profundo que dormitava
desde os movimentos românticos: a idealização
da vida primitiva, a denúncia da civilização,
o temor da ciência. Um tanto de Rousseau (o
homem nasce bom ...), ecos de Virgílio (a
evocação dos pastores na Roma dos Césares), a
exaltação medieval do romance histórico
estudado por Georg Lukács (1972) e, na América,
por adaptação, o indigenismo de José de
Alencar.
A tese de que o
homem é uma criatura racional (o homo sapiens),
capaz de orientar-se para a verdade, foi
defendida pelos filósofos iluministas no Século
XVIII. Ao longo do Século XIX e no Século XX,
ela seria substituída pela convicção de que
ele é um ser simbólico. Foi imenso o choque
provocado por essa constatação sobre todo o
universo teórico em que se assentavam os ideais
de democracia como participação igualitária
dos cidadãos na gestão do Estado. Isso talvez
explique, em parte, o reducionismo que preside a
compreensão das relações entre os meios de
comunicação e o público.
A crítica ao
iluminismo atinge a máxima radicalidade na
"Dialética do Esclarecimento", de
Adorno e Horkheimer texto seminal dos
frankfurtianos, escrito em 1932: lá, ela recua
até o pensamento grego e põe em xeque os
fundamentos da cultura ocidental (se é que se
pode falar de uma "cultura ocidental")
e das ciências.
Outra
justificativa para a atribuição de superpoderes
à mídia poderá ser buscada no próprio
interesse dos empresários de comunicação que
vêem nesse suposto domínio do público um
instrumento de seu próprio prestígio e
importância. Ou na estratégia de, reduzindo a
responsabilidade pela informação pública aos
jornalistas, ocultar as verdadeiras origens dos
fatos e idéias que a imprensa veicula: os
centros de poder políticos, econômicos e
acadêmicos. Como bem observava Roland Barthes
(BARTHES, 1980: 158), o poder real se oculta de
modo que, embora existam no mundo dezenas de
partidos conservadores, liberais, trabalhistas,
radicais, revolucionários, islâmicos etc.. não
existe nenhum partido burguês.
2.
A realidade condiciona o discurso, e não o
contrário
No entanto, se
os veículos de comunicação e o jornalismo em
particular tivessem tal poder de direção das
"massas" se existissem tais
"massas" passivas, inertes, indefesas
diante do veneno das mensagens midiáticas,
então poderíamos dispensar a História e negar
aos eventos qualquer outra causalidade. Não
importaria, por exemplo, quando se estuda a
ascensão de Hitler na década de 1930,
considerar a fragilidade da República de Weimar,
o peso da inflação sobre a economia dos
cidadãos alemães, a pressão do desemprego
crescente, a cobrança da imensa dívida da
Primeira Guerra Mundial, a invasão franco-belga
do Vale do Rhur; bastaria exaltar a competência
de Goebbels como publicista. O mesmo se aplicaria
à Revolução Russa: pouco importariam a guerra,
a fome, a incompetência do estado, o anacronismo
das instituições; tudo adviria da habilidade de
Lênine e de Trotsky em seus textos
doutrinários, convocações e palavras-de-ordem
na Pravda ou na Iskra.
Os fatos se
acumulam mostrando (a) o quanto pode ser relativa
a atribuição de poder aos discursos de
convencimento e àqueles que os produzem; (b) o
quanto é discutível sua eficiência para
contestar valores ou interesses objetivos de
classe ou cultura; (c) o quanto esses discursos
dependem para ser eficazes do contexto social de
sua fruição, isto é, da experiência objetiva
dos receptores, do hic et nunc, tempo e
lugar; e, finalmente, (c) o quanto o efeito deles
independe da tecnologia envolvida, cujo papel
parece ser o de acelerar e ampliar a circulação
das mensagens, sem que isso garanta serem elas
mais eficazes, particularmente no caso de
decisões não momentâneas:
- o consumo
de drogas e a compra de mercadoria
contrabandeada (em regra, de Ciudad del
Este) cresceu no Brasil apesar da quase
nenhuma propaganda ou da intensa
propaganda contrária;
- fenômenos
sociais, como o racismo nos Estados
Unidos e na Europa, parecem responder
diretamente a condições objetivas, tais
como a disputa de empregos, moradia etc.,
resistindo à campanha contrária,
ostensiva e subliminar, dos bancos
escolares à dramaturgia televisiva;
- apesar da
intensa propaganda do hedonismo, da
liberação sexual etc., grandes
contingentes da população,
principalmente segmentos populares,
recorre, na América Latina, a
confissões religiosas comprometidas com
comportamentos conservadores e
ultraconservadores e que, pelo menos
originalmente, dispõem de meios de
difusão limitados à mídia presencial
ou a pequenos veículos locais;
- eventos
históricos de convencimento de
populações ocorreram quando não
existiam meios de comunicação
desenvolvidos: a campanha romana contra
Cartago, as cruzadas etc.;
- independentemente
do discurso do mercado, formas
artísticas e culturais são preservadas
ao longo do tempo e evoluem segundo
lógica própria.
A equação
deve, portanto, ser repensada. Emissores de
mensagens não são os únicos dispositivos
inteligentes; os receptores também são. Pouca
gente compra jornal ou revista, liga a televisão
ou o rádio para ser convencido, persuadido,
levado a consentir ou chegar a um consenso. As
pessoas, em geral, procuram informação,
entretenimento e conhecimento; se não encontram,
deixam de comprar, mudam de canal ou vão fazer
outra coisa.
Mas, então,
como explicar os chamados fenômenos de massa
os Beattles, Madona, Aírton Sena? Em
primeiro lugar, as perspectivas publicitária e
social são diferentes: se Madona vendeu cinco
milhões de discos, significa que pelo menos cem
milhões de compradores potenciais ou habituais
de discos não compraram os discos de Madona. Em
segundo lugar, em cada caso desses, há uma
demanda simbólica a que o produto atende, em
determinado tempo e espaço: juventudes sem
bandeiras, sociedades repressivas, povos de que
se sonegam os heróis, fetiches da sociedade de
consumo, gente excluída e desesperada. O
controle de opinião envolve o aproveitamento de
uma realidade ou sua construção, o que, na
essência, era o que Brzezinski pretendia com sua
"engenharia social" (BRZEZINSKI, 1970).
Em suma, como escreveu Freud, "se o
indivíduo isolado na multidão abandona sua
singularidade e se deixa sugestionar pelos
outros, age assim porque tem necessidade de estar
de acordo com eles"(FREUD, 1973: 2593).
Os estudos
funcionalistas das décadas de 1930, 40 e 50,
conduzidos por Lazarsfeld e Merton,
principalmente, esclarecem a formação da
opinião pública em diferentes instâncias,
quando se trata de decisões momentâneas, como
numa eleição ou numa decisão de compra:
mostram que se trata de conformação e
integração a grupos, sob a influência de
lideranças verticais, de autoridade reconhecida,
ou horizontais, cujas opiniões são
consideradas. Os processos de mudança de
opinião foram exaustivamente estudados com
métodos estatísticos; como suas conclusões
contrariavam os dogmas, colocou-se o próprio
método sob suspeita o que foi, sem
dúvida, uma atitude obscurantista.
Mas o passo
decisivo para a superação da bolha ideológica,
segundo a qual o jornalismo é um estelionato e
os jornalistas deturpam sistematicamente os fatos
para servir à dominação de classe, viria mais
adiante, a partir da década de 60, com as
pesquisas voltadas para os processos de
cognição a investigação científica de
como o homem pensa e formula suas decisões.
A primeira
conclusão relevante é que a mente não é uma tabula
rasa em que se inscrevem proposições.
Criaturas humanas, independente de raça, sexo,
credo ou idade (excluídos, naturalmente, os
bebês) raciocinam segundo padrões lógicos a
partir de suposições que consideram as mais
prováveis, convenientes ou exeqüíveis,
chegando a conclusões também prováveis, que
podem conduzir à aceitação ou rejeição,
simpatia ou antipatia, engajamento ou
indiferença. Nesse processo, concebem mundos
possíveis - por exemplo, como seria viver em
um estado socialista, chegar no estacionamento da
fábrica dirigindo um Mercedes classe A ou perder
o emprego por participar de uma greve. Avaliam
probabilidades e valorizam conceitos com base em
sua experiência prévia seu mundo real.
Transformam fatos ou relações funcionais
o amor, a morte, o crime, a fuga, o golpe, a
autoridade, a miséria em entidades ou
argumentos sobre os quais formulam juízos de
valor.
Nenhuma
informação é simplesmente decodificada; ela
ganha sentido no contexto, isto é, no que vem
antes e no que vem depois no enunciado; nas
circunstâncias da enunciação e naquilo que o
receptor guarda na memória o repertório
de suas experiências, valores e conhecimentos
(SPERBER-WILSON, 1995). Essa é uma questão
importante: diferentes segmentos da sociedade
têm diferentes demandas de informação e se
postula que, como regra, tenham o mesmo direito
de ser informados. Por outro lado, a mente humana
procura o máximo de informação com o mínimo
de esforço: assim, a mensagem que não se pode
contextualizar, que não se reporta a
informações já disponíveis na memória, é
simplesmente ignorada; e a fórmula simplória e
que explica muita coisa, economizando esforço e
angústia, tende a ser mais facilmente aceita.
O problema da
qualidade da informação jornalística
insere-se, pois, em um quadro complexo:
- A
informação deve reportar-se à
realidade isto é, aos fatos e
idéias situados em seu tempo e espaço;
- Não há a
menor possibilidade de se codificar
simplesmente a realidade objetiva porque
o processo mental envolve percepção,
portanto seleção, avaliação,
contextualização e lógica modal ou
probabilística o que implica
certa margem de erro: se vejo um corpo
caído no asfalto, coberto com plástico
preto, cercado de velas e um automóvel
com o pára-lama dianteiro amassado,
concluo que houve um atropelamento,
embora tudo isso possa ser o ensaio de
uma cena de novela, a coincidência de
alguém ter morrido de mal súbito perto
de um carro que se dirigia à funilaria
para reparar a frente danificada etc.;
- Não há
como desconsiderar, também, a
informação disponível sobre o público
a que a mensagem se destina. Se escrevo
para jovens, devo imaginar que um
acontecimento da década de 1970 é
histórico isto é, está numa
categoria próxima à Segunda Guerra
Mundial, às guerras napoleônicas ou às
cruzadas. A cena (no seriado de TV New
York undercover)de um pai negro
aconselhando o filho adolescente a não
namorar meninas brancas pode ser natural
e até progressista nos Estados Unidos
ou para os que macaqueiam o
cotidiano americano mas é
surpreendente e antipática para a
maioria do povo brasileiro;
- Finalmente
há a subjetividade do repórter. Ele é
treinado para suprimi-la sempre que
possível, mas é fato que um mesmo
incidente será descrito com diferentes
palavras ou diferentes
ordenações de sentenças por
jornalistas de culturas diferentes, por
mais honestos e bem preparados que sejam,
já que o percebem de maneira diferente.
Concluir daí
que não existe a objetividade jornalística é o
mesmo que supor que, se não é possível obter
medidas exatas por mais aperfeiçoados que sejam
os aparelhos de medição, então nenhum avião
é capaz de voar, nenhum trem de correr sobre
trilhos e esse prédio deve a qualquer momento
desabar sobre nossas cabeças. A objetividade, em
jornalismo, é meta que se traduz numa série de
técnicas de apuração, redação e edição; na
busca de enunciados intimamente adequados à
realidade e em sua tradução para diferentes
públicos e veículos.
3.
A informação não controla a sociedade, mas é
essencial
Há, portanto,
quantidade enorme de lixo teórico a remover se
pretendemos formar bons jornalistas. Precisamos,
antes de mais nada, estar atentos às mudanças
sociais e tecnológicas que ocorrem, alterando
profundamente o quadro em que se exerce a
profissão. A globalização reproduz, em escala
planetária, o clima recessivo do fim do século
XIX europeu, a que nos reportamos no início
desta palestra; a desproporção de forças e de
riquezas torna anacrônico é até certo ponto
ridículo o ritual do relacionamento entre os
estados; os discursos do poder são, na
aparência, unânimes e, na essência,
hipócritas.
No entanto, a
sociedade depende muito do fluxo de informação,
mais do que em qualquer outra época da
História. Sem informação jornalística
e pouco importa se ela o agrada ou desagrada, se
lhe motiva paixão ou repulsa , o homem
contemporâneo não consegue orientar-se na vida
civil, profissional e mesmo afetiva; os mercados
regridem em dinamismo e agilidade; numa era de
especialidades, especialistas e tribos, é pelo
jornalismo que se consegue ter contato com o que
pensam os outros, isto é, aqueles que têm
outras especialidades, circulam em outros meios,
preferem outras coisas. As tecnologias já
existentes e as em final de gestação a
fusão da televisão e do rádio com a Internet;
os agentes inteligentes para seleção e busca de
dados; a edição digital e não-linear, mais
acessível e de custo muito mais baixo; a
veiculação planetária com a velocidade da luz,
a independência em relação à impressão e
distribuição de produtos gráficos, a
aceleração da investigação científica
tudo isso indica que a posse de canais deixará
de ser relevante como instrumento de controle..
Críticos
remanescentes da bolha ideológica do Século XX
acham que a informação será tanta que se
anulará, superando qualquer capacidade de
processamento; ou prenunciam que, como a
produção e veiculação de mensagens estará ao
alcance de todos, profissões como a de
jornalistas tendem a desaparecer.
É claro que a
especulação é livre. Mas nada indica que
alguém tentará a missão impossível de
palmilhar toda a Internet, da mesma forma que
ninguém jamais tentou ler todos os textos da
Biblioteca do Congresso americana, da Biblioteca
Nacional ou, mesmo, de qualquer biblioteca
universitária. A prática tem mostrado que,
entre as informações de origem duvidosa, os
produtos de vaidade, os delírios paranóicos, as
mais estranhas pregações e mentiras, o
internauta procura a informação profissional
competente, seja ela didática, jornalística,
estética, erótica ou qualquer outra. Isso não
é novo: embora câmaras fotográficas de alta
qualidade existam, há décadas, ao alcance de
pessoas de salário médio, os fotógrafos
profissionais não desapareceram porque é outra
sua relação com o equipamento e, de modo geral,
com o tema retratado.
4.
Maior aproximação entre jornalismo e ciência
O Século XX nos
empurrou o conceito de comunicação goela
abaixo, como parte do discurso da Guerra Fria.
Sua base inicial era o estruturalismo, que
pareceu em dado momento ser a alternativa viável
para a análise marxista; com a decadência do
estruturalismo, tornou-se refúgio de uma
corrente de teóricos delirantes e enfezados,
capazes de denunciar a matemática como machista,
defender os pernilongos do extermínio ou
condenar Romeu por assédio sexual a sua amada
Julieta isto sem falar, naturalmente, em
Otelo, que certamente seria incluído no índex
pela censura politicamente correta.
Ao que tudo
indica, os cursos de jornalismo devem caminhar no
Brasil por trilhas definidas e seguras:
incorporar, adaptar-se e contribuir para
- desenvolver
e viabilizar tecnologias de menor custo e
maior eficiência, capazes de permitir a
difusão do jornalismo pelos países do
Terceiro Mundo, incluídos os da África,
e sua interiorização, em nações como
a nossa;
- cuidar que
isso ocorra em padrões técnicos
elevados, de modo a possibilitar o
consumo e apreciação universal das
mensagens;
- preservar a
língua nacional, buscando aliar os
registros formal e coloquial de
linguagem, bem como a comunicabilidade e
qualidade estética dos produtos;
- perseguir
uma noção de ética que, além de
destacar a responsabilidade dos veículos
de comunicação diante de direitos
humanos individuais, atente às
responsabilidades sociais;
- desenvolver
estreita vinculação com a pesquisa
científica, instrumento das
transformações que poderão superar os
impasses do momento presente;
- aprender a
lidar com dados primários utilizando as
técnicas estatísticas recomendadas pelo
Professor Philip Meyer (em The new
precision journalism) (MEYER, 1993),
de modo a criar alternativas de
informação para as fontes
institucionais, públicas e privadas, o
que significa libertar-se da ditadura do press
release e das versões interesseiras
agregadas à informação;
- usar esses
recursos e a reportagem investigativa
para expor problemas reais,
principalmente aqueles que estruturas de
poder procuram esconder ou minimizar;
- dispor das
noções necessárias para a gestão dos
recursos humanos e técnicos envolvidos
na produção de informação, em
organizações de todo tipo, desde
sindicatos e indústrias a veículos,
principalmente produtoras locais,
regionais ou independentes;
- estudar e
pesquisar a história recente, em seus
aspectos políticos e econômicos,
centrando-se nos fatos e nas idéias
relevantes não apenas aquelas que
agradam, mas as que, afinal, tiveram e
têm importância.
Parte
substancial do ensino de jornalismo se faz,
portanto, em laboratório, em pequenas turmas,
entre computadores e periféricos: impressoras,
câmaras de vídeo e foto, Internet e banco de
dados. É nele que se podem experimentar novas
técnicas e desenvolver pesquisas pioneiras. Mas
um programa desses pressupõe a pós-graduação
específica, a existência de linhas de
financiamento que não estejam sob controle dos
grupelhos que atualmente partilham entre si as
verbas públicas. Pressupõe também relações
com a indústria da informação, por suas
instituições empresariais, corporativas e
sindicais.
Como disse o
veterano repórter Joel Silveira numa entrevista
à Globonews, jornalista não é aquele
que toca trombone na banda, mas o que vê a banda
passar. Ele conta o que vê, e deve fazê-lo da
maneira mais honesta e com a melhor das
intenções possíveis no quadro da luta pela
sobrevivência a que estão condenados todos os
trabalhadores.
__________
Bibliografia:
- BARTHES, Roland. Mitologias,
tradução de Riva Buongermino e Pedro de Souza.
São Paulo, Difel, 1980, 4a ed.
- BRZEZINSKI, Zbigniew. Between two ages.
Peguin Books, 1970.
- FREUD, Sigmund. "Psicologia de las masas y
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tradução de Luis Lopez-Ballesteros y de Torres.
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Lourenço. Lisboa, Fundação Calouste Gulbekian,
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*
Nilson Lage es
miembro del Consejo Editorial de Sala de Prensa. Jornalista profissional registro
DRT/RJ 10 460/52, de 1961. Professor titular da Universidade Federal de
Santa Catarina desde 1992;
do curso de graduação em Jornalismo, do
programa de pós-graduação em
Letras/Lingüística (área de Semântica) e do
programa de pós-graduação em Engenharia de
Produção e de Sistemas (área de Mídia e
Conhecimento). Doutor em Lingüística (UFRJ,
1986), mestre em Comunicação (UFRJ, 1975),
bacharel em Letras (UFRJ, 1973), curso incompleto
de Medicina (UDF, 1956-1960). Como jornalista,
trabalhou no Diário Carioca
(1956), Jornal
do Brasil, Jornal dos Sports, Última
Hora, O Globo, Manchete, Fatos
& Fotos, O Jornal, Televisão
Educativa do Rio de Janeiro;
em assessorias de comunicação da Estrada de
Ferro Central do Brasil, Caixa Econômica Federal
e Eletrobrás. Como free lancer, prestou
serviços a dezenas de outras empresas e
instituições. Professor (1970/1990) da Universidade Federal
Fluminense e Universidade Federal do
Rio de Janeiro, além de
instituições privadas. Autor dos livros
técnicos Ideologia e técnica da notícia
(Vozes, Petrópolis, 1979, 1982), Estrutura
da notícia (Ática, SP, 1985, 1987, 1990,
1992, 1995, 1997), Linguagem jornalística
(Ática, 1985, 1987, 1989, 1990, 1991, 1993,
1995,1997), Estructura de la noticia
(Union de Periodistas, La Habana, 1986), Controle
de opinião pública (Vozes, Petrópolis,
1998).
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