Contribuções
aos estudos do sensacionalismo
no jornalismo impresso brasileiro
Rosa
Nívea Pedroso *
1
INTRODUÇÃO
Os
jornais diários brasileiros de prestígio
surgiram no final do século passado, no início
deste século ou a partir de 1950, fase de
consolidação capitalista do país. Aspectos em
comum caracterizam a longa existência dos
títulos de prestígio: o sucesso financeiro e a
modernização da empresa jornalística e a
tradição editorial de credibilidade reconhecida
como séria.
Porém, existe
uma outra espécie de jornais no mercado
editorial brasileiro: são os jornais
popularescos ou sensacionalistas. Geralmente têm
uma vida curta. Quando permanecem circulando por
alguns anos, vão se transformando. Tornam-se
mais sóbrios e começam a apresentar as mesmas
características editoriais dos jornais de
qualidade como: prestígio e credibilidade
(venda, leitura, anúncio publicitário) e
tradição editorial (marca do título) junto ao
mercado leitor e anunciante.
Os procedimentos
técnicos e ideológicos para o aproveitamento
editorial e comercial do valor, do poder e do
status da informação, isto é, transformação
dos acontecimentos em notícia são realizados
tanto pelos jornais de prestígio quanto pelos
jornais popularescos. O que os diferencia é a
forma e o modo de apresentação da notícia que
se reconhece, na recepção, como
sensacionalista:
"O
que vai diferenciar um jornal dito
sensacionalista de outro dito
sério é somente o grau.
Sensacionalismo é apenas o grau mais radical
de mercantilização da informação: tudo o
que se vende é aparência e, na verdade
vende-se aquilo que a informação interna
não irá desenvolver melhor do que a
manchete". (Marcondes Filho, 1985, p.
66).
"(...)
todos os jornais são, uns mais outros menos,
sensacionalistas. Nenhum foge dessa
determinação. Isso porque transformar um
fato em notícia não é o mesmo que
reproduzir singelamente o que ocorreu.
Transformar um fato em notícia é também
alterá-lo, dirigi-lo, mutilá-lo".
(Marcondes Filho, 1985, p. 29).
Interessa-nos
aqui neste artigo é o modo de produção
editorial que transforma um acontecimento em
notícia reconhecida como sensacionalista, como
resultado de uma atividade técnica e ideológica
que manipula, altera e recria a realidade e dá
uma nova dimensão aos acontecimentos. Ao mesmo
tempo, o caráter de sensacionalizar a
informação encontra-se na natureza da
produção do discurso e na natureza comercial do
produto.
2
EM BUSCA DA SINGULARIDADE
Os jornais
popularescos traduzem o cotidiano das grandes
metrópoles, como se o ângulo de observação
fosse do povo, isto é, da população não
organizada que habita a periferia das cidades.
A
interpretação jornalística da realidade (e do
imaginário do povo) produz um conhecimento do
senso comum que se traduz, na página do jornal,
num tratamento avaliativo e preconceituoso dos
acontecimentos e da informação. A
interpretação do que é como é divulgado
define um tipo de discurso, o discurso
popularesco.
O caráter
estilístico (opinativo e avaliador) dos jornais
popularescos diários cria o espaço da dúvida,
da ambivalência, da ambigüidade no jornalismo.
Permite que enfoques essencialmente subjetivos
(opinativos, polêmicos, panfletários,
justiceiros, condenadores, salvadores,
perseguidores, vitimizadores) aflorem no texto
jornalístico sem restrição de ordem editorial.
O jornal
popularesco edita o espetáculo da subjetividade
do trabalho do jornalista. Restrição ou ética
profissional são imperativos do redator que
escolhe aquele enfoque, aquela palavra, aquele
fato, aquela informação, que relata aquelas
opiniões. Faz (ou não) a exortação da
apologia da ordem. Encarrega-se de indicar a
explosividade (o perigo) e a emocionalidade dos
fatos, dos protagonistas e das circunstâncias.
A exacerbação
do caráter singular da notícia superficializada
e desvincula os fatos do contexto cultural,
econômico e político que os origina. A
abordagem apenas do caráter singular da
realidade resulta num espaço discursivo que
apresenta acontecimentos isolados e oportuniza a
reificação de narrativas míticas e místicas
acerca do destino do povo e do indivíduo.
Sobriedade,
seriedade e texto objetivo são características
editoriais de jornais que possuem infra-estrutura
patrimonial e financeira e organização
empresarial. A linguagem reconhecida como
sensacionalista no jornalismo representa uma
forma "...primeira e primária de
comunicação com o leitor". (Dines, 1971,
p. 69).
Os jornais que
não possuem (e pretendem obter) lucro, precisam
recorrer ao sensacionalismo das palavras e dos
significados. E as categorias mais exploradas
são as que se referem à sexualidade e à
violência contra o indivíduo.
Os jornais
popularescos fazem negócios com a divulgação
de escândalos e de crimes. Ao invés de vender
os fatos vestidos, vendem os fatos nus. São
jornais feitos para serem lidos pelo leitor
masculino das classes populares. Manchetes,
títulos, matérias e fotografias são mensagens
pornográficas, reais, violentas e fortes como os
fatos que reproduzem. O impacto da leitura revela
os aspectos insólitos e cruéis da realidade que
o jornalismo de prestígio relega ao campo da
curiosidade e das notas e, assim, delega aos
jornais popularescos a primazia da publicação.
O jornal
popularesco vem a reboque da manchete, que é
capaz de fazer o leitor ler e comprar apenas por
atração, por sensação, por impacto, por
curiosidade despertada.
A manchete capaz
de fazer um jornal um produto exótico porque
pode, flexar o leitor curioso de classe média e
alta que olha para a primeira página, compra o
exemplar e o transforma em um quadro de parede
(pôster), em um objeto de coleção, de
exposição, de admiração. Na recepção, esse
tipo de atitude produz um enunciado do tipo: olha
aqui o que eu trouxe para vocês verem.
Ver o absurdo, o incomunicável no jornalismo. Na
recepção, a manchete faz do jornal um produto
pitoresco.
O discurso
sensacionalista exige do redator criatividade e
percepção do novo no fato, da novidade da
palavra (do palavrão, da gíria) e do
incomunicável do universo popular. O impacto
precisa ser renovado e mantido a cada edição.
Os aspectos do inusitado e do violento se repetem
diariamente, mas o redator precisa transformar a
briga de botequim em guerrilha marginal; precisa
inventar a matéria quando não existem bons
ingredientes para despertar emoções e compor um
escândalo jornalístico. A imaginação recobre
o dia magro em acontecimentos explosivos.
O discurso da
violência não oculta o cadáver. Mas oculta as
razões e as projeções da criminalidade. Oculta
a grandeza da exclusão e da desigualdade social.
Com o seu poder de nominalização
(subjetivação e adjetivação) justiceira,
julga os autores das ações de violência. Uma
vez noticiado, uma vez julgado.
A repetição da
unidade informativa violência (e seu julgamento
impresso) gera um tipo de discurso social
autoritário que contempla a tragédia do impulso
agressivo do homem. Viver é fatal, mata. A
palavra de ordem dos jornais popularescos é a
repetição de que a vida é perigosa e os homens
matam (e os jornais noticiam e, por isso, mostram
os maus). Ao repetir o mesmo enunciado a cada
edição, realiza o culto à grandeza da
violência na sociedade (e ao poder justiceiro do
jornalismo).
3
EM BUSCA DE UM CONCEITO
O jornalista
aparece no texto como enunciador onipresente ao
nível da consciência das fontes. Ele sabe sobre
a cena, o cenário e as personagens dos
acontecimentos. A cumplicidade e a proximidade
com a ficção (efeito de ficcionalização)
elaboram uma narrativa que torna o noticiário
desacreditado entre a produção jornalística em
geral. A intenção do enunciador em chamar a
atenção para a leitura é explícita e direta,
por isso qualifica o modo de fazer jornalístico
como imprensa amarela, marrom, (de cores, de
título com corpo 36) e sem prestígio junto às
elites culturais e econômicas.
Os jornais
popularescos se diferenciam dos jornais pelo modo
de perceber, estruturar e organizar o real. Por
exemplo, a leitura da cadeia semântica
antetítulo (AT), manchete (M), subtítulo (ST),
chamada e título da matéria (TM) permite a
visualização dos graus de importância que o
jornal dedica aos tipos de fatos e conteúdos. Ao
organizar o real, classifica-o. Produz títulos
que anunciam e classificam a notícia,
construindo um discurso de atualidade por alusão
à cultura de classe do leitor.
A cumplicidade
entre jornal e leitor diz respeito à seleção,
hierarquização e supervalorização de
conteúdos considerados adequados à cultura de
classe dos leitores. Sensacionalizar o
noticiário é um modo de comunicação que visa
a chamar a atenção do leitor pela vedetização
do acontecimento e da personagem que se localizam
habitualmente na periferia da ordem instituída.
O discurso dos
jornais popularescos apresenta-se como adequado
às condições culturais e econômicas das
classes populares. A adequação refere-se à
repetição da temática da violência. A
violência vista como um conteúdo próprio do
cotidiano das classes de baixa renda familiar e
baixo nível cultural.
Os jornais
popularescos veiculam notícias reconhecidas como
desacreditadas e sensacionalistas porque exploram
e supervalorizam a violência pessoal. Isto não
significa que esses jornais não veiculem
acontecimentos políticos, econômicos e
culturais. Tratamos aqui especificamente do
trabalho que os editores realizam para que o
jornal assuma características popularescas,
recorrendo aos apelos gráficos, visuais e
lingüísticos da primeira página.
O caráter
sensacional da linguagem jornalística revela um
vínculo instável de comunicação entre jornal
e leitor devido às carências culturais e
econômicas das classes populares.
A comunicação
entre jornal e leitor é sempre estabelecida a
partir da manchete, por estabelecer uma forma de
comunicação emocional, perde o impacto inicial
após a leitura, isto é, perde o vínculo com os
motivos da leitura (compra). E o trabalho de
manipulação do noticiário precisa continuar na
próxima edição, apresentando, novamente, o
singular numa embalagem espetacular, capaz de
provocar sensações, medos, ansiedades,
curiosidades, fantasias, projeções,
identificações. E as sensações são
desprovidas de um sentimento estético, pois não
estabelecem uma relação com o senso crítico do
leitor.
O discurso
sensacionalista é uma forma de comunicação
enfática e apelativa com o povo. E uma forma
mitificada de tratamento do povo. Os editores
supõem que o modelo da oralidade, da repetição
(de falar alto, devagar, soletrando) é o mais
adequado às classes populares e que o povo é
atraído pelas letras grandes (pelos sons altos).
Essa suposição dos editores é uma convenção
que estabelece o sensacionalismo como uma forma
verborativa de comunicação com o povo.
A notícia
sensacionalista é um grito escrito (sonoro e
visual) que difunde valores, conceitos,
sentimentos e imagens do lado perverso da cultura
e estabelece "o primeiro contato da camada
inculta com um meio de comunicação
cultural" (Dines, 1971, p. 69).
A primeira etapa
do processo de comunicação do jornal com o
leitor é resultado de um esforço de oferecer e
provocar sentimentos de aceitação e rejeição
de notícias que fundem imaginação e realidade
como uma crônica do cotidiano, onde a violência
"...se integra nas condições de
normalidade" (Portão, 1980, p. 59).
O discurso
sensacionalista é elaborado a partir da
informação total, excepcional, insignificante e
sem contexto entendida como "fait
divers"(1). Essa informação
excepcional (sobre a morte, o mal, a violência)
legítima, no espaço jornalístico, a explosão
do impulso agressivo do povo (e do leitor, na
leitura).
O efeito da
notícia sensacional toma contornos visuais,
estilísticos e ideológicos no imaginário do
leitor: a cidade está violenta. O leitor elabora
um outro discurso que exclama, contempla e
comenta o cotidiano: o discurso reflexo que dota
a violência de um poder fantasma que pode estar
em toda parte.
O jornalismo
sensacionalista libera a fala contida dos
excluídos e a fisionomia própria dos temores e
desejos sociais de liberdade e agressividade como
se a expulsão/explosão (divulgação) da fala
recalcada fosse um dos deveres sociais da
imprensa: o caráter brutal do cotidiano precisa
ser propalado para ser contido. Porque a
violação da lei acaba mal; liberdade e
agressividade têm limites e o crime não
compensa.
Mas o
noticiário sensacionalista permite o acesso ao
mundo da liberdade total pela exploração
repetitiva de ações (temática) agressivas,
homicidas e aventureiras que não podendo
realizar-se no cotidiano, tendem a realizar-se
projetivamente no espaço jornalístico.
A liberdade
explorada no sensacionalismo é a que se realiza
abaixo da lei, no submundo, com os seus
protagonistas que são identificados pelas suas
identidades marginais e estigmatizadas. Esses
protagonistas ousam obedecer aos seus impulsos e
desejos. A ousadia e a experiência da liberdade
total (isto é, a morte) expõem o estigma do
protagonista maldito e interdito: é capaz de
matar.
O que, então,
os jornais popularescos fazem? Exploram o
fascínio pelo extraordinário, pela aventura,
que é suposto só existir nas classes populares.
Aproximam do cotidiano, o tabu, o trágico, o
sádico. Essa representação (ou
supervalorização) da transgressão cria o
sentimento de expectativa. Isto explicaria, em
parte, porque é a manchete que vende o jornal.
A apresentação
chocante dos fatos expõe aquilo que estava
oculto, o não dito, mas que está próximo, por
isto obsceno, "fora de cena"(2). O modo
de comunicação do que está fora de cena
precisa atrair (pelo olhar na manchete) o leitor
que deseja e teme realidades e situações
incomuns. O conflito básico explorado está
entre necessidade e satisfação, desejo e lei.
Elaborar um
conceito de jornalismo sensacionalista é uma
tarefa redundante porque o estudo da natureza da
atividade jornalística implica em dizer que
"a própria produção da notícia significa
a adaptação do fato social a alguma coisa mais
rentável" (Marcondes filho, 1985, p. 29). O
fato torna-se mais atrativo: transforma-se em
manchete, em fotografia, em reportagem.
O jornalismo é
reconhecido como sensacionalista devido à forma
escolhida de reproduzir o real, a que é sugerida
como adequada à realidade cultural, política e
econômica das populações periféricas.
O jornalismo
sensacionalista é uma atividade de
identificação e exacerbação do caráter
singular dos acontecimentos através do destaque,
acréscimo ou subtração de elementos
lingüísticos, visuais (sonoros) e ideológicos
e através da repetição de temáticas que
contêm conceitos e valores que se referem à
violência, à morte e à desigualdade social.
4
AS CONDIÇÕES DE CONSTRUÇÃO DO DISCURSO
O texto
jornalístico, amparado em sujeitos enunciadores,
é constituído pela articulação entre
produção e consumo de significados e de feitos.
A análise de construção do noticiário
impresso inicia com o estudo dos títulos que
não privilegia apenas as manchetes (ou títulos
fortes) mas também os antetítulos e subtítulos
(como linha de apoio ou olho) e os títulos das
matérias (que se localizam nas páginas internas
do jornal). E também as chamadas e texto-chamada
que funcionam como uma narração ampliada dos
antetítulos e manchetes e se constituem em um
recurso gráfico e textual que mantém a
curiosidade do leitor, encaminhando-o para a
leitura da matéria.
Como as chamadas
nem sempre resumem o conteúdo da matéria,
funcionam também como um texto redundante entre
os títulos da primeira página e o título da
matéria, formando com o conjunto de títulos, o
início da cadeia narrativa que precede o texto
da matéria.
As variações
da combinação (e/ou) antetítulo, manchete,
subtítulo, título da matéria servem para
completar, ampliar ou restringir aspectos do
acontecimento selecionado para publicação do
acontecimento selecionado para publicação. O
conjunto dos títulos além de enunciar,
classificam a notícia e iniciam a cadeia
significativa produzindo sentenças autônomas,
de caráter restritivo ou explicativo do fato.
A combinação
ou desdobramento dos títulos em antetítulo
(AT), manchete (M), subtítulo (ST) e título da
matéria (TM) resulta em repetição ou
ambigüidade de significados. As estruturas
repetitivas revelam as categorias ideológicas,
lingüísticas e temáticas valorizadas.
A análise da
sintaxe e do léxico do jornal indica as
restrições e as escolhas lingüísticas,
ideológicas e editoriais (seleção, destaque e
omissão), isto é, descreve o modo de produção
e circulação do produto jornal. O modo
repetitivo de construção discursiva no
jornalismo sensacionalista permite a
elaboração, digamos, de uma gramática que
traduz uma concepção ideológica da sociedade.
De acordo com um
estudo que realizamos sobre o jornal Luta(3),
os sujeitos do discurso jornalístico são
representados por dois termos dominantes mulher e
homem que colocam em circulação outros termos
referentes ao corpo biológico e cultural que
possuem e que os situam em modos diferentes de
representação e reconhecimento social.
O sujeito
mulher, na análise em questão, aparece referido
na gramática discursiva do jornal como: órgão
sexual, que ambiguamente também a designa como
pessoa; objeto de prazer sexual masculino; corpo
físico valorizado, estabelecendo uma relação
entre passividade, juventude e beleza; corpo
físico desprestigiado, quando abandona a postura
passiva de vítima social ou de objeto de desejo
do homem; identidade paradoxal, quando inverte o
comportamento sexual natural no que diz respeito
à manifestação da sexualidade.
O sujeito homem,
ainda na mesma análise, aparece referido no
discurso jornalístico como: representante da lei
e da ordem ; corpo viril; representante do sexo
masculino; pessoa capaz de praticar ações
perigosas e ousadas;identidade paradoxal,
através da manifestação do comportamento
sexual pervertido e transgressor; ser possuidor
de órgão sexual visível, através da
representação como símbolo agressivo.
Os sujeitos
homem e mulher são denominados, ainda pela mesma
análise, por um vocabulário predicativo que se
refere ao corpo físico e cultural, (erotismo) e
à violência. As denominações do erotismo
referem-se à representação e ao uso do corpo,
isto é: ação do corpo, qualificação do
corpo, partes do corpo, indumentária do corpo,
modo de utilização do corpo, lugares onde o
corpo exercita alguma função. E a violência é
designada por um vocabulário que se refere à
agressão contra o corpo. Os conflitos
fundamentais explorados são a tensão entre
sexo, violência e morte.
Os principais
processos expressivos, identificados pela mesma
análise, utilizados pelo jornalismo para
produzir sensações e reforçar preconceitos
são a ambigüidade, omissão, oposição e
simetria de palavras e expressões.
A ambigüidade e
a ambivalência dos significados no conjunto dos
títulos (AT, M, ST, TM) produzem o efeito
reconhecido como erótico pela criação do
impacto (intensidade da informação), da
sugestão (insinuação de outros conteúdos e
significados), da cumplicidade e da desconfiança
(anúncio do tudo é possível e do absurdo), da
fetichização da violência e do sexo
(encenação do proibido-e-do-consentimento do
próximo-e-do distante, do inalcançável-e-do
oferecido, do tudo sugerido e do pouco mostrado).
A omissão, a
oposição e a simetria de significados produzem
o efeito de curiosidade sobre o acontecimento.
Esses processos expressivos também revelam
proximidade com a cultura oral que são
identificados no jogo lingüístico produzido
através de rimas internas e externas e da
repetição da substituição de significados.
Podemos dizer
que o efeito sensacional sugere, substitui e
repete enunciados mas não esclarece. Diríamos
que não é próprio da prática sensacionalista
a crítica e a interpretação dos fatos. Mas sim
a denúncia da transferência de sentimentos
agressivos da sociedade sobre o indivíduo (a
personagem do fato) e do sentimento de medo e
impotência do indivíduo (leitor) diante da
sociedade que gera miséria, poluição,
desigualdade e, por conseguinte, violência.
As atuais
manchetes policiais (e as que se referem a fait
divers) do jornal Notícias Populares de
podem ser analisadas utilizando-se os resultados
obtidos com o estudo das manchetes do jornal
Luta.
5
O SUPERINVESTIMENTO DE EFEITOS
No estudo de
jornais popularescos, a manchete merece atenção
especial por constituir-se no principal elemento
do sistema produtivo do discurso, onde os efeitos
discursivos estão concentrados. O
superinvestimento de efeitos na manchete a
responsabiliza pelo consumo do jornal e pelo
primeiro contato de comunicação com o leitor.
A manchete
também tem outras funções, como a de
estabelecer a primeira forma de classificação
do fato na organização do espaço gráfico. Se
considerarmos que o jornal não especifica a
editoria a que se refere o fato, a manchete,
além de anunciar e classificar o fato,
estabelece a primeira cumplicidade do jornal com
o leitor pela não nomeação de acontecimento
que o jornal está valorizando. daí explica-se,
em parte, o caráter repetitivo dos jornais
popularescos: é como se dissesse que o leitor
sabe que na sociedade existem crimes, ele não
sabe, porém, é que hoje aconteceu um novo
crime. A cumplicidade entre jornal e leitor (e
temática) advém dessa identificação não dita
mas que é percebida como uma notícia do setor
policial, por exemplo.
A observação
sistemática dos principais jornais
sensacionalistas do Brasil(4) nos tem
levado a constatar que as manchetes privilegiam
os acontecimentos da editoria de polícia. E esse
privilégio aparece caracterizado pelo emprego
regular de sujeitos indefinidos e que remetem a
aspectos realçados de acontecimentos também
singulares.
A manchete
mostra uma atualidade que não pressupõe que o
leitor conheça. Os acontecimentos são
anunciados pela sua singularidade e não pelo
contexto a que se referem. As manchetes, assim,
caracterizam-se pelo aspecto informativo pois
procuram apresentar ou destacar o que de original
e surpreendente existe no acontecimento. Trazem
muita surpresa e frustração (depois da leitura
do texto) e impacto, com palavras que destacam o
aspecto mais sugestivo do acontecimento. Assim, a
omissão ou a ambigüidade das palavras servem
para despertar o interesse do leitor.
Outro aspecto a
ser considerado é uso de gírias na manchete, o
que vem marcar a originalidade (criatividade) e a
identificação do jornal com as classes
populares. Muitos jornais popularescos procuram
legitimidade de representação das populações
periféricas através do uso coloquial da
linguagem, do emprego do palavrão e da gíria,
como se esse uso caracterizasse o seu engajamento
com os interesses, gostos e expectativas
populares.
O estudo das
matérias anunciadas pela manchete nos tem
demonstrado que os jornais popularescos
privilegiam as crônicas de acontecimentos, uma
categoria de matéria muito próxima daquela que
Barthes descreveu como "fait-divers",
matérias desprovidas de contexto e
caracterizadas pela exacerbação do caráter
singular. As manchetes também aparecem
combinadas a outros atrativos da primeira
página, como o uso de cores e fotografias.
6
OS EFEITOS DA ONISCIÊNCIA
A narrativa
jornalística caracteriza-se por revelar traços
da participação do jornalista no texto, como
mediador entre leitor e acontecimento. O
jornalista quando enunciador institucionalizado
(quando não assina as matérias) manifesta-se no
texto através da descrição daquilo que o
jornalista viu, da descrição daquilo que
recolheu como declaração de outras pessoas (na
forma do discurso direto e/ou indireto), dos
comentários sem informação e da utilização
de adjetivos e construções adverbiais e da
estruturação do texto em seqüências
temporais.
É a
onisciência do enunciador que diferencia e
caracteriza o texto sensacionalista porque cria o
efeito de suspense (a manchete promete espantos e
a estruturação (temporal cronológica da
matéria não causa surpresa); o efeito de
frustração (a expectativa em torno das
promessas de revelação da manchete é maior que
o oferecimento do texto da matéria) e o efeito
de desconfiança (a matéria, ao ludibriar e
subestimar o leitor a cada edição, cria os
efeitos de cumplicidade, reconhecimento e
brincadeira pela utilização constante de
comparações e suposições). A produção
desses efeitos de recepção denunciam o modo
como o jornal percebe o leitor.
Consideramos o
efeito de ficcionalização como o mais signativo
porque ele vai caracterizar as narrativas
policiais. O enunciador onisciente produz uma
narrativa que se refere a uma cultura de classe e
nessa referência produz o efeito de
familiaridade ou de reconhecimento do fato
criminoso, mórbido, aventureiro, pornográfico,
grotesco e insólito como próprio do ambiente
das classes populares.
Verón define o
efeito de ficcionalização como
"ubigüidade" (Verón, 1980, p. 29),
como relato que reproduz ao mesmo tempo vários
acontecimentos localizados em lugares diferentes
e que são interligados na redação do texto.
As marcas do
enunciador onipresente nos jornais popularescos
pode ser um dos indicadores de que o jornal pode
inventar matéria quando não existem fatos
suficientemente violentos e insólitos para serem
noticiados. Nesse caso, o efeito de
ficcionalização é acompanhado do efeito de
desconfiança pois a narrativa não convence
devido ao excesso de marcas da presença do
auto-redator.
Os efeitos de
recepção aqui descritos de uma forma ou de
outra indicam que os jornais popularescos
segregam simbolicamente as classes populares
porque aparecem sempre representadas como
perigosas, estigmatizadas, estereotipadas e
violentas. Cabe aos jornais nomear e fotografar
os indivíduos perigosos que por vingança ou
desespero farão jus ao que lhes é atribuído. O
início ou o prosseguimento de trajetórias
pessoais sem retorno à ordem é um dos filões
explorados pelo jornalismo, "na medida em
que exacerba a importância do crime e dos
criminosos e os afunda cada vez mais na vida do
crime" (Ramalho, 1979, p. 118).
O jornalismo
como testemunha (participante) de fatos violentos
ou insólitos funciona como mediador ou porta-voz
das classes perigosas e do mundo dos absurdos,
onde tudo pode acontecer e repetir-se. A
estrutura repetitiva do discurso cria o espaço
da desconfiança (ou da dúvida) no jornalismo,
pois a cada edição situações violentas e
insólitas poderão repetir-se.
Narração e
títulos igualmente se utilizam do deslocamento
de significados referentes ao desvio da ordem. A
exploração constante e repetitiva do trágico e
do grotesco é que permite a permanência da
atração do leitor pela novidade (observe-se que
os jornais popularescos sobrevivem da venda
avulsa dos exemplares em bancas).
O escondido mas
próximo (a perversão sexual, a desordem e o
crime) exposto pela narrativa é recuperado no
mesmo espaço por um discurso moralizante que se
refere sempre à existência da autoridade
policial.
7
A CARA DOS VILÕES
O universo
marginal tipificado pelo jornal reconstrói a
biografia dos estereótipos sociais. O jornal ao
tipificar pessoas e grupos de comportamento
transgressor, exacerba e valoriza a violência de
e sobre habitantes localizados em espaços
naturalizados como turbulentos.
O jornalismo que
explora o cotidiano das periferias urbanas
caracteriza os habitantes pela ocupação, pela
perversão, pela desordem, pela criminalidade,
pela adesão a seitas e pela brutalidade dos atos
que cometem.
O modelo
discursivo de realce da negatividade dos
atributos das classes perigosas pressupõe a
omissão de questões sociais, políticas e
econômicas e, por conseguinte, a omissão da
cultura da pobreza, das condições da pobreza e
da acumulação de misérias sociais.
O modelo
repetitivo da narrativa sobre a violência
estimula formas generalizadas de reconhecimento
da realidade. Os indícios de marginalidade e
desvio das classes com baixo poder de consumo
são realçados de forma trágica, erótica ou
pitoresca. O culto da violência transparece nas
páginas do jornal motivado pelo excesso, isto
é, pelo passionalismo, pela vingança, pelo
sadismo, pela concorrência, pelo fanatismo,
chacinas, assaltos, crueldades, etc. Como disse
Dom Adriano Hipólito, quando "as estruturas
sociais falham, qualquer tipo de marginalidade
tem toda a liberdade de ação" (Meinel,
1982, p. 18).
O modo marginal,
feroz, ilegítimo e infrator de sobreviver diante
da miséria e da exclusão compõe o status
desviante das classes perigosas, reconhecido pela
prática do ferimento e pela experiência de
negação da ordem social.
A liberdade de
ação cultuada pelo jornalismo (crime, sexo e
morte) traduz-se nos objetivos de construção da
notícia enquanto fato selecionado pelo interesse
humano, curiosidade, impacto, raridade, etc.
O efeito
sensacional do fato atrai o leitor pelo olhar na
manchete que anuncia um acontecimento singular. A
exploração da atenção do leitor permite a
instauração do absurdo no jornalismo enquanto
texto sugestivo que visa a chocar ao invés de
informar, por isso, pessoas são estereotipadas e
ações são rotuladas.
A prática da
rotulação do cotidiano visa ao destaque e à
ocultação de significados e elabora um modelo
informativo que supervaloriza os conceitos de
norma e desvio e estabelece e caracteriza uma
forma motivada de comunicação com as classes
populares. O real exagerado estimula emoções no
leitor através de um texto produzido pelo uso de
sinônimos, antônimos, metáforas e metonímias.
O real excepcional obscurece o cotidiano da
marginalidade e dos contrastes sociais. O
tratamento atraente dos fatos explora as
interdições sociais com o objetivo de produzir
o efeito de curiosidade.
8
CONCLUSÃO
O modo de
produção do discurso informativo reconhecido
como sensacionalista resume-se nos seguintes
pressupostos: variedade na apresentação
gráfica; exploração de estereótipos sociais;
valorização da emoção em detrimento da
informação; exploração do caráter
extraordinário vulgar dos acontecimentos;
adequação ideológica às condições
culturais, políticas e econômicas das classes
populares; exploração exacerbada do caráter
singular dos acontecimentos; destaque do aspecto
insignificante e duvidoso dos acontecimentos;
omissão de aspectos dos acontecimentos;
acréscimo de aspectos dos acontecimentos;
discurso repetitivo, motivador, despolitizador e
avaliativo; discurso informativo de jornais em
fase de consolidação econômica e empresarial;
modelo informativo o que torna difusos os limites
entre o rela e o imaginário.
_______
NOTAS
(1) Expressão
utilizada por Roland Barthes (BARTHES, 1982, p.
59).
(2) Expressão
utilizada por Teixeira Coelho Neto (FERREIRA,
1983, p. 177).
(3) Análise de 25
edições do jornal popularesco Luta, do
Rio de Janeiro, no período de 01 a 30 de junho
de 1981. Dissertação de Mestrado em
Comunicação na ECO/UFRJ.
(4) Análise dos
jornais Luta Democrática e Luta (em 1981), dos
jornais O Dia e Última Hora (no período de 1980
a 1989), do jornal O Povo (do Rio de Janeiro, no
ano de 1990) e do jornal Notícias Populares (no
período de janeiro de 1990 a agosto de 1993).
______________________________
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1 BARTHES, Roland. Estrutura da
notícia: ___. Crítica e verdade. São
Paulo: Perspectiva, 1982. p. 57-67
2 BERGER, Peter L., LUCKMANN,
Thomas. A construção da realidade.
Petrópolis: Vozes, 1979.
3 DINES, Alberto.
Sensacionalismo na imprensa. Comunicações
& Artes. São Paulo: ECA/USP, V.4, p.
67-75, 1971.
4 FERREIRA, Jerusa Pires &
MILANESI, Luís. Jornadas impertinentes: o
obsceno. São Paulo: Hucitec/Intercom, 1983.
5 GENRO FILHO, Adelmo; ROLIM,
Marcos; WEIGERT, Sérgio. Hora do Povo uma
vertente para o fascismo. São Paulo: Brasil
Debates, 1981.
6 GENRO FILHO, Adelmo. O
segredo da pirâmide: para uma teoria
marxista do jornalismo. Porto Alegre: Tchê!,
1987.
7 GOFFMAN, Erving. Estigma:
notas sobre a manipulação da identidade
deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1980.
8 GUIMARÃES, Alberto Passos. As
classes perigosas: banditismo urbano e rural.
Rio de Janeiro: Graal, 1981.
9 LAGE, Nilson. Ideologia e
técnica da notícia. Petrópolis: Vozes,
1979.
10 LEITÃO, Eliane
Vasconcellos. A mulher na língua do povo.
Rio de Janeiro: Achiamé, 1981.
11 LIMA, Sandra Amêndola
Barbosa. A participação social no cotidiano.
São Paulo: Cortez, 1980.
12 MARCONDES FILHO, Ciro. O
capital da notícia: o jornalismo como
produção social da segunda natureza. São
Paulo: Ática, 1985.
13 MEDINA, Cremilda de Araújo.
Notícia: um produto à venda; jornalismo
na sociedade urbana e industrial. São Paulo:
Alfa Omega, 1978.
14 MEINEL, Valério. Violência
não surpreende mais a Baixada Fluminense.
Folha de São Paulo, São Paulo, 6 jun., 1982, p.
18, c. 5-6.
15 MELO, José Marques de.
Estudo comparativo da violência no jornalismo
brasileiro. In: ____. Estudos de jornalismo
comparado. São Paulo: Pioneira, 1972. p.
173-260.
16 MORAIS, Regis de. O que
é violência urbana. São Paulo:
Brasiliense, 1981.
17 PEDROSO, Rosa Nívea. A
produção do discurso de informação num jornal
sensacionalista. Rio de Janeiro: ECO/UFRJ,
1983. Dissertação (Mestrado em Comunicação)
Escola de Comunicação, Universidade
Federal do Rio de Janeiro.
18 PORTÃO, Ramão Gomes. Criminologia
da comunicação. Santos: Traço, 1980.
19 RAMALHO, José Ricardo. Mundo
do crime a ordem pelo avesso. Rio de Janeiro:
Graal, 1979.
20 SERRA, Antonio A. O
desvio nosso de cada dia: a representação
do cotidiano num jornal popular. Rio de Janeiro:
Achiamé, 1980.
21 SILVA, Carlos Eduardo Lins
da, coord. Comunicação, hegemonia e
contra-informação. São Paulo:
Cortez/Intercom, 1982.
22 SODRÉ, Nelson Werneck. História
da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Graal,
1977.
23 SODRÉ, Muniz. A
comunicação do grotesco: introdução à
cultura de massa brasileira. Petrópolis: Vozes,
1980.
24 TORQUATO, Gaudêncio. O
jornalismo e as funções da linguagem. Comunicação
e Sociedade. São Paulo: Cortez/IMS, V.3, n1,
p. 75-85 jul, 1980.
25 VELHO, Gilberto, org. Desvio
e divergência uma crítica da patologia
social. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
26 VERON, Eliseo. Lespace
du soupçon. Mimeo.
27.______. Dictionnaire des
non reçues. Mimeo.
28.______. Le hibou. Communications.
Paris, n.28, p. 69-125, 1977.
29.______. A produção de
sentido. São Paulo: Cultrix, 1980.
30.______. Construire
lévénement; les médias et
laccident de Three Mile Island. Paris: Les
éditions de minuit, 1981.
*
Rosa Nívea Pedroso. Professora Adjunta do Curso de
Jornalismo do Departamento de Comunicação da UFRGS. Mestre em Comunicação pela ECO/UFRJ. Artigo originalmente publicado na
Revista
Comunicación y Sociedad. N. 21, 1994, Universidad de
Guadalajara, México. Primeira colaboração ao SdP.
|