Marxismo e
jornalismo no Brasil:
Depoimento sobre os años 68-70
Sebastião
G. Breguêz *
RESUMO:1968, Governador
Valadares (MG). Participando de grupo de amigos,
em 1968, em Governador Valadares, MG, todos
ligados a Igreja Metodista local, fizemos as
primeiras leituras dos clássicos do marxismo. O
grupo se reunia em casa de uma professora, Dorcas
de Castro, casada com um bancário, Tito Lívio.
A dona da casa, Dorcas, era uma espécie de
liderança espontânea do grupo. Tinha as
principais obras de Marx, mas também dos
líderes da rebelião jovem de 68 como Marcuse, a
Escola de Frankfurt e, principalmente, exemplares
da REVISTA
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA e da REVISTA PAZ E TERRA. Também juntávamos
dinheiro para comprar os livros. Cheguei a editar
um jornal mimeografado na igreja Metodista de GV,
o MONUMENTO (o título impresso em
vermelho em tom forte). As discussões eram sobre
as injustiças sociais, a mais valia, a
exploração do homem pelo homem, mas também
sobre a psicologia e as experiências
pedagógicas de Summerhill, na Inglaterra.
Misturava-se também Freud e Reich, com os
estudos sobre a sexualidade. Desse grupo, alguns
foram presos e torturados, pois da teoria saiu a praxis
por um mundo melhor. O grupo marxista da Igreja
Metodista de GV foi alvo de discussões e
polêmicas. Houve intervenção da cúpula
Metodista e um pastor jovem foi enviado para
cuidar do grupo. Mas a casa de uma professora,
metodista, culta, foi o centro de iniciação à
crítica social, de introdução às primeiras
lições do marxismo científico, a filosofia do
Materialismo Dialético, da importância do fator
econômico sobre a história. Desse grupo,
continuaram no jornalismo: Elias Siqueira, José
de Castro, Getúlio Bittencourt, Olavo Fróes e
Sebastião Breguez.
| O
objetivo deste trabalho é mostrar como
que a Igreja Metodista de Governador
Valadares MG, no Vale do Rio Doce,
distante 300 Km de Belo Horizonte, foi
centro de difusão do pensamento marxista
nos anos 68-70. Uma liderança jovem de
comunicadores se formou na cidade, com
base no pensamento social de Karl Marx e
os filósofos do Movimento de 68
(Marcuse e a Escola de Frankfurt), e
partiu para atividades políticas na
região. Este trabalho de difusão do
marxismo, entretanto, não nasceu das
lideranças religiosas (pastores e
religiosos), mas da base da igreja, dos
filhos de classe média, que tinham
acesso às escolas, jornais, revistas e
livros. A circulação de informação
era grande na cidade, onde se encontravam
nas livrarias os livros mais lidos
no país e as bancas de revistas tinham
todos os principais jornais: Correio
da Manhã, O Jornal, Jornal do Brasil,
O Globo, O Estado de S.
Paulo, A Carapuça, O
Pasquim, etc. O que chama a
atenção é porque a Igreja Metodista? O
que tinha ali que provocou a busca do
marxismo? Governador Valadares é
uma cidade que situa-se em uma
confluência espacial importante: está
às margens da rodovia Rio-Bahia, na
metade do caminho entre o Rio e a Bahia,
mas também está às margens de rodovia
que liga a cidade a Belo Horizonte,
capital de Minas Gerais. Portanto, a
comunicação rodoviária é privilegiada
e permite a ida e a vinda de populações
passageiras. Muitos nordestinos, que
migram para o Rio ou São Paulo, acabam
parando ali para descansar, permanecem e
criam raízes com famílias e comércio.
Esta população flutuante, entretanto,
pode ser a causa da fama de cidade
violenta, que a localidade teve, na
década de 1940-60. Foi considerada a
cidade do bangue-bangue, do crime fácil,
sem motivo, onde "se mata por
prazer". Ai criam-se, então,
classes sociais distantes e polarizadas
em uma região onde a terra é o bem mais
importante.
Da terra
saem os ciclos econômicos principais: a
extração da madeira e conseqüente
destruição da mata atlântica nativa,
que desenvolveu as serrarias; o
desenvolvimento da lavoura da cana para
produção de açúcar; a extração da
mica (malacacheta); a extração de
pedras semipreciosas; e, por último, a
criação de gado com fazendas modelos. A
sociedade é polarizada e hierarquizada,
do ponto de vista social: de um lado, os
ricos proprietários rurais, donos de
prósperas fazendas com terras cheias de
pedras preciosas e, de outro, os
recém-chegados, pobres, despossuídos,
que pensavam que tinham encontrado a
Terra Prometida, a Eldorado ou Nova
Jerusalém. Os conflitos sociais se
espalham.
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Contexto
necesario
Nilson Lage
*
No
início da década de 60, forças
econômicas e políticas
mobilizaram-se, no Brasil, com
apoio dos interesses europeus e
norte-americanos, para depor o
presidente constitucional, João
Marques Belchior Goulart. Dado o
golpe, em 1964, as primeiras
vítimas foram a estrutura
sindical e as hierarquias
militares, sujeitas a vigoroso
expurgo. Destruída a estrutura
de gestão colegiada da
Previdência Social, submetidos
à intervenção sindicatos e
federações, pensava-se ter
quebrado a espinha dorsal do
esquerdismo no País.
A
classe média e o estamento
político mantiveram-se alheios a
esse processo. A primeira, embora
constrangida aqui e ali,
prosseguiu com seus hábitos de
consumo; o segundo continuou
sonhando com eleições com as
quais restabeleceria os poderes
tradicionais, sem o incômodo das
ligas camponesas ou das
reivindicações operárias.
Data, no entanto, dessa época,
as primeiras manifestações de
inconformismo do baixo clero
católico, mobilizado pelas
proposições ambíguas do
concílio Vaticano II.
Foi
só em 1968, quando segmentos da
própria classe média
estudantes, pessoal de
escritórios, advogados, outros
profissionais liberais
saíram às ruas, nas grandes
cidades brasileiras, e foram
reprimidos pelos militares, que a
revolução deixou de ser
considerada por todos benigna:
segmentos de prestígio entraram
a contestá-la, por palavras e
atos. Adveio o Ato Institucional
número 5 e o fechamento do
regime naquilo que é evidente:
liberdade de imprensa, liberdade
de ir-e-vir, esperança de
eleições - digamos,
democráticas.
É
a essa época que se reporta o
texto de Sebastião Breguez.
Trata-se do relato do que ocorreu
então na cidade de Governador
Valadares, no Norte do Estado de
Minas Gerais hoje com
cerca de 300 mil habitantes. Lá,
ao contrário do que ocorria em
outras partes do Brasil e em
outros países da América
Latina, a Teologia da
Libertação não tinha espaço
na Igreja Católica, firmemente
associada aos fazendeiros.
Fundada
há 30 anos, Governador Valadares
sofrera a influência dos
americanos que construíram a
ferrovia do minério, que conduz
ao porto de Vitória, no
Espírito Santo (nos anos 80 e
90, ela seria conhecida pelo
número de pessoas que emigraram
para os Estados Unidos. Era um
centro rural e mineiro, onde a
Igreja Metodista tinha grande
importância. Nela, e não nas
paróquias católicas,
começou-se a estudar a sério a
literatura revolucionária dos
Séculos XIX e XX: Marx, Freud, a
Escola de Frankfurt.
O
mundo parecia transformar-se: nos
Estados Unidos, os Panteras
Negras e Woodstock. Na França, o
Chienlit. Em Governador
Valadares, uma esperança que se
construía esta estranha costura
latino-americana da dialética
materialista com o subjetivismo
freudiano e o idealismo
religioso.
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O
que é importante ressaltar, no primeiro momento,
é que a Igreja Metodista sempre esteve presente
no desenvolvimento cultural, social e econômico
de Governador Valadares. Foi importante para a
criação e urbanização da cidade nos anos
1930-40, sendo que o templo metodista foi um dos
primeiros edifícios que se construíram ali.
Teve papel social importante ao dar abrigo a
populações pobres com trabalho de
alfabetização e difusão do Evangelho. Os
índios Krenak, por exemplo, foram acolhidos ali
e tiveram ajuda para se integrar à sociedade
oficial, sendo alfabetizados e recebendo as
primeiras letras. Eles tiveram suas terras
apropriadas pelos fazendeiros, foram tirados da
vida natural em que viviam, e se transformaram em
uma espécie de 'novos pobres' da sociedade
local. O público, assim, da Igreja Metodista era
formado pelas populações pobres e despossuídos
da localidade. Pode-se dizer que as classes
sociais se dividiam em termos de participação
religiosa. Os ricos e prósperos fazendeiros
pertenciam à Igreja Católica, os pobres e
despossuídos na Igreja Metodista (e igrejas
protestantes da cidade).
Governador
Valadares é um caso especial, que chama a
atenção, pois, desde o início de sua
formação, também teve a presença estrangeira,
principalmente, norte-americana. Foram os
engenheiros norte-americanos que projetaram
a Estrada de Ferro Vitória a Minas, da
Companhia Vale do Rio Doce. Foram eles também
que descobriram as riquezas minerais da
cidade. Primeiro, a mica, malacacheta, que era
importante na indústria eletrônica mundial e
foi muito usada na indústria bélica na Iiª
Guerra Mundial. Segundo as pedras semipreciosas,
que intensificaram o comércio Brasil-EUA nesta
área, inclusive, fazendo desenvolver ali um
importante artesanato de pedras semipreciosas
para exportação. Este ciclo, entretanto,
terminou no princípio da década de
1990, devido à dolarização da moeda
brasileira. GV foi sempre uma cidade
que teve jornais e um desenvolvimento cultural
grande.
Os movimentos
agrários, camponeses, também se desenvolveram
muito na região na década de 1950-60, exigindo
a reforma agrária. O Sindicato Camponês era
forte na região com uma grande capacidade de
mobilização, que amedrontava os fazendeiros,
que tinham medo de terem suas fazendas invadidas
de forma violenta. Junto da mobilização
sindical e de esquerda, surgem, na cidade,
jornais de esquerda, principalmente, O COMBATE,
dirigido pelo comunista Carlos Olavo, que
estampava títulos em vermelho e combatia a elite
agrária de fazendeiros prósperos, reunidos no
Sindicato Rural. Para neutralizar o jornal, foi
criado o DIÁRIO DO RIO DOCE (1960), financiado
pela elite agrárias e comerciantes, reunidos na
Associação Comerciais local. Seu primeiro
Editor foi o jornalista Mauro Santayana, por
paradoxo do destino, ele era militante de
esquerda...O movimento esquerda/direita polarizou
a cidade e a região, principalmente, os
conflitos no campo. O banditismo também cresceu
e criou figuras lendárias como o Cabo Antônio
Augusto e o Capitão Pedro que caçavam os
bandidos.
Com o golpe
militar de 1964, os movimentos de esquerda foram
aniquilados pelos militares em Governador
Valadares. As lideranças foram presas, alguns se
exilaram, outros sumiram ou foram mortos. Mas a
formação de novas lideranças acontece a partir
dos 1968-70. Desta vez, não mais nos sindicatos
camponeses ou em grandes jornais, mas dentro da
Igreja Metodista. Por que ? Ora, sabemos que
durante os 20 anos de República Militar
(1964-1984) houve duas grandes instituições
nacionais que foram importantes. Uma foi o
Exército (as Forças Armadas), que controlou o
sistema político; e a outra foi a Igreja. Aqui
entende-se a igreja (católica ou protestante)
como instituição religiosa, de difusão de fé
e valores cristãos. A Igreja é espaço
inviolável no Brasil, mesmo até pelas forças
de repressão política. Por isto, pode-se
estudar marxismo e conspirar dentro das igrejas
sem que a polícia política se aperceba. Foi o
que aconteceu na localidade. Mas, ao contrário
da maioria de casos no Brasil, a nova esquerda, a
esquerda jovem, surgiu em Valadares na Igreja
Metodista e não na Igreja Católica. Pois, ali a
instituição católica era aliada da elite
agrária dominante, os grandes fazendeiros do
Vale do Rio Doce.
Em meu trabalho
de pesquisa, ainda em andamento, estou
entrevistando pessoas que fizeram parte do
movimento jovem de esquerda da Igreja Metodista
de Valadares como: Alen Boechat (hoje engenheiro
civil em GV), Elias Siqueira (jornalista,
atualmente, morando em Boston, EUA), Sueli
Siqueira (socióloga, professora da Univale, em
GV), Olavo Fróes (jornalista, vive em Belo
Horizonte), Suelio Siqueira (engenheiro, mora em
BH), Dorcas de Castro (professora, mora em
Brasília), Neemias de Castro (doutor em
Bioquímica, mora em SP), José de Castro
(jornalista, mora em Recife), Mauro Santayana
(jornalista, mora em Brasília), além de outros.
Enfim, estas
são as primeiras anotações que tenho da
pesquisa ora apresentada. Para concluir, posso
dizer que a Igreja Metodista de Governador
Valadares teve papel importante na construção
de um pensamento comunicacional marxista na
região do Vale do Rio Doce nos anos 1968-70. Ela
propiciou a criação de um grupo de jovens, sob
a liderança da professora Dorcas de Oliveira. As
primeiras leituras marxistas, os primeiros
debates, a discussão em torno dos problemas
sociais, no campo e nas cidades, os debates sobre
as contradições do capitalismo, a exploração
do homem pelo homem, as injustiças sociais, a
concentração de renda e a dominação política
da sociedade por uma privilegiada e minoritária
classe burguesa, que é proprietária dos meios
de produção. Deste grupo, alguns partiram para
a luta armada contra o regime militar, outros
foram estudar em Juiz de Fora, Rio de Janeiro ou
Belo Horizonte. Mas o ideal permaneceu: o de ver
a sociedade mais justa, mais humana e com as
mesmas oportunidades para todas as classes
sociais.
Belo
Horizonte, maio de 2001.
* Prof. Dr.
Sebastião G. Breguêz es colaborador de Sala de Prensa. Coordenador do Curso de Comunicação
do UNIS-Centro
Universitário do Sul de Minas (Varginha). Texto do trabalho
apresentado no CELACOM 2001.
Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação e
Desenvolvimento Regional, S. Bernardo do Campo,
maio, 2001. O GRUPO MARXISTA DA IGREJA
METODISTA DE GOVERNADOR VALADARES (MG)
Marxismo e Cristianismo protestante
nos anos 68.
* Nilson
Lagees miembro del
Consejo Editorial de Sala de Prensa. Periodista, doctor en Lingüística y
profesor titular de la Universidade Federal de
Santa Catarina desde 1992.
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