Pecados e
deveres da imprensa
Domenico
De Masi *
Eu
acho que os organizadores deste evento são
sadomasoquistas. Especialmente o Demócrito, que
é certamente um sádico. Porque não é
possível organizar uma palestra para pessoas
felizes que estão terminando um encontro, e
depois de haver escutado uma música e de haver
visto uma dança maravilhosa. É fácil entender
que as idéias sempre vêm depois das emoções.
Eu tento falar, e me dou conta que é uma coisa
muito complicada. Vejo que a pessoa que faz a
tradução é obrigada a ficar em pé para ver de
que se trata. Porque acontece poucas vezes de ter
a oportunidade de falar para tantos jornalistas,
isto é, a tantos instrumentos de poder.
Me dou conta que
é sádico falar com vocês nesse momento. Mas
isso compensa ao menos em parte o sadismo com que
os jornalistas às vezes falam com os leitores.
Então, queria dizer para vocês como eu lido com
as coisas e me dou conta que vocês, nestes dias,
falaram de como defender a liberdade de
expressão, de empresas que vão da Patagônia
até o Alaska.
Agora, nós
sabemos que os jornalistas têm liberdade. Junto
com a liberdade, crescem dois outros elementos:
cresce a incerteza e cresce a responsabilidade.
Isto é, sempre a liberdade se junta à incerteza
e à responsabilidade. Como até hoje vocês
falaram dos direitos dos jornais e dos
jornalistas, ao final desta reunião prefiro
falar dos deveres - quais são os deveres dos
jornalistas.
Se acontece que
os jornalistas têm a liberdade de parte do poder
político, de parte do poder econômico, que
liberdade deve ter o leitor? Que espectro de
poder do leitor nós queremos dos jornalistas?
Vou falar primeiro da incerteza. Qual é a
incerteza que consegue a nossa conquista de
liberdade?
Nós
transcorremos 7 mil anos de sociedade rural. Em
algumas partes do mundo, ainda hoje existem
sociedades rurais. A dança que vimos e a música
que escutamos, são próprias do mundo de
civilizações muito belas de caráter rural.
Depois, ao final do Século XVII, por 200 anos,
temos tido uma sociedade industrial e, nestes
últimos 50 anos, uma sociedade pós-industrial.
Em que consiste uma sociedade pós-industrial?
Consiste no fato que, no centro do sistema
social, não há mais a produção em grande
escala de bens materiais como os automóveis, as
geladeiras. Mas há a produção de informação,
a produção de símbolos, a produção de
valores, a produção de estética.
Isso
naturalmente comporta maiores incertezas. Porque
o progresso se tornou muito veloz. Porque nós
estamos assistindo a uma nova divisão
internacional do trabalho. De uns anos para cá,
os países ricos, sobretudo Estados Unidos e
alguns países da Europa e o Japão, estão
reservando para si mesmo o poder de produzir
idéias. Estão empurrando para o Segundo Mundo,
isto é, Brasil, Coréia e Romênia, a produção
de bens materiais, isto é, as fábricas. As
quais poluem, trazem menos riquezas que a
produção de idéias.
Existe também o
Terceiro Mundo, que é condenado a fabricar os
produtos do Primeiro e Segundo Mundo, sem ter o
que dar em troca, que é a própria mão-de-obra,
a própria base militar e a própria
subordinação política. Agora, as situações
da América do Norte e da América do Sul não
são iguais. Enquanto a América do Norte pôde
realizar por completo o seu interesse e por
completo o progresso de produzir idéias, no
Brasil estamos na presença de um Segundo Mundo,
e a mesma coisa na Argentina. Isso quer dizer: a
produção de idéias muito complexas. E os
jornais têm um dever extraordinário que é
acompanhar essa produção de idéias.
Outra fonte de
incertezas está mudando completamente a
relação entre tempo de trabalho e tempo livre.
Hoje, um jovem de 20 anos tem, diante de si, mais
de 500 mil horas de vida, e somente 80 mil horas
passará no trabalho. Todo o resto será, já é,
um tempo livre. Falando disto, estão emergindo
novos valores.
Quais são esses
valores emergentes? São emergentes os valores da
criatividade. É sempre mais importante produzir
idéias novas, fatos novos. Está emergindo o
valor da ética. É sempre mais importante ser
confiável.
Está emergindo
o valor da estética. Nós apreciamos sobretudo
as coisas belas. Ontem à noite, nós vimos uma
coisa belíssima, aquele desfile de moda [de Lino
Vilaventura]. Hoje, vimos e escutamos uma coisa
belíssima, esta música. A sociedade
pós-industrial é baseada nessas coisas, sobre a
produção de bens imateriais, isto é, da
estética.
Outro valor
emergente é a subjetividade. Nós sentimos
sempre menos necessidade de trabalhar sozinho, de
viver em solidão, de ter silêncio, de ter
introspecção, de ter privacidade. O outro valor
emergente é a feminilização. Isto é, sempre
mais as mulheres estão resgatando aquela parte
de trabalho que os homens subtraíram das
mulheres. E que as mulheres estão se mostrando
plenamente capazes de fazer. O jornalismo é uma
demonstração disto.
E, ao final, um
valor importantíssimo, o valor da qualidade de
vida. Isto é, nós sabemos que se vive somente
uma vez. Isto é seguro. Pode ser que exista
outra vida. Porém, não se entende por que essa
outra vida deve ser paga com a infelicidade da
vida mortal. A qualidade de vida se torna um
valor fundamental. E um outro valor fundamental
é o valor da globalização.
Ora, todos esses
elementos que nos trazem incerteza, fazem bem ou
fazem mal. No transcurso da história da
filosofia, e na história da sociologia, se vê
em contraste três posições. Existem alguns
autores como Daniel Bell e outros, que entendem
que este é o melhor dos mundos que existiu até
agora. Pela primeira vez, segundo esses autores,
para a massa dos cidadãos pode finalmente
existir o Estado. Pela primeira vez, é possível
também às mulheres, aos velhos e às crianças,
serem respeitados nos seus direitos. Pela
primeira vez, nos liberamos da escravidão da
escassez e da pobreza, da escravidão da
tradição excessiva, da escravidão do
autoritarismo.
Existem outros
autores que entendem que esse mundo não é o
melhor dos mundos que existiu até agora. Porque
existe um excesso de democracia e esses autores
são taxados de direita, isto é, idiotas. Para
Ortega y Gasset este mundo parece uma democracia
mas sua substância não é democrática. A
substância é de rebelião das massas, é de
prevalência da quantidade sobre a qualidade.
Há, ao final,
um terceiro grupo de pensadores, segundo os quais
o mundo em que nos encontramos vivendo é um
mundo onde a democracia é fingida, porque
existem os mass media. E é o grande ato
de acusação contra os jornais, a televisão e
contra o rádio. Segundo esses autores, tais
instrumentos eliminam completamente a liberdade,
mediante uma liberdade fingida, mediante a
manipulação.
É claro que
devemos escolher entre essas três situações.
Os mass media são um meio
de liberação do mundo, são um meio de excesso
de democracia, são um meio de falta de
democracia. São esses os problemas que vocês
têm diante do trabalho de vocês. Tudo isso cria
incerteza, mas também cria responsabilidade. A
liberdade de imprensa é garantia para a empresa
diante do abuso dos políticos, mas não é
garantia para os leitores diante do abuso dos mass
media. Uma sociedade justa é uma sociedade
em que os mass media são
livres, os jornais são livres, mas os leitores
são respeitados.
Eu acho que nós
podemos individualizar ao menos sete pecados
capitais dos mass media] e dos jornais. O
primeiro pecado capital se dá quando se ignora
um fato real. Por exemplo, neste momento na
França, se está introduzindo a redução da
jornada de trabalho, obtendo grandes resultados.
Mas os jornais de economia de todo o mundo, do Financial
Times ao Sola 24 Horas, não falam
nada.
O segundo pecado
capital é atenuar um fato. Por exemplo, na
Itália houve um assassinato no Vaticano. Mas os
jornais atenuaram tudo. Por que nunca se fala mal
do Vaticano?
O terceiro
pecado capital é enfatizar, enfatizar os fatos.
A mim, muitas vezes me fazem entrevistas. Me
telefonam os jornalistas e pedem meu parecer
sobre alguma coisa. E muitas vezes é para
enfatizar algum fato. Por exemplo, faz duas
semanas, na Itália, uma jovem matou sua mãe.
Foi um episódio muito grave. Me telefonou uma
jovem jornalistas e me perguntou:
"Professor, frente a essa onda de
matricídios, o que você pensa?" Pronto, um
delito se tornou uma onda de matricídios.
Um outro pecado
capital consiste em dar excesso emotivo a um
fato. Transmitir excesso de emotividade, no lugar
da racionalidade.
Um outro pecado
consiste em falsear um fato. Por exemplo, a
Itália é um dos países mais seguros do mundo.
Mas neste momento, na Itália existem muitos
jornais que falam de insegurança. Falam da
Itália como se lá ninguém pudesse estar
seguro. Pensem que a cidade de New York sozinha
tem tantos homicídios como toda a Itália junta.
No entanto, esses jornais estão fazendo a
Itália aparecer como um país muito inseguro.
Aconteceu comigo
outro dia. Fiz uma conferência para os gerentes
do Rio, e disse que na vida acontece muito
erotismo, entendo muita vitalidade. E esse jornal
escreveu, dizendo que eu disse que "acontece
muita pornografia". Pronto, este é um caso
de falso real.
Enfim, o sétimo
pecado dos jornais pode ser aquele de induzir um
fato que sozinho não existiria. Por exemplo,
neste período na Itália estamos preparando as
eleições políticas. E todos jornais dizem que
vai vencer Berlusconi. Isto quer dizer que
Berlusconi vai vencer. Porque as profecias, como
vocês sabem, se auto-realizam. Quando se repetem
continuamente, as pessoas se convencem.
Mas eu acho que
o pecado mais forte da mídia dos mass media
é aquilo de que nós devemos nos defender muito
mais, e vocês são o instrumento principal para
nos defender desse problema: é a difusão que se
está realizando no mundo todo de um modelo que,
talvez por comodidade, chamam de modelo
americano, mas que na realidade é um efeito
pós-industrial. Extremamente perigoso. Esse
modelo é baseado num liberalismo exasperado.
Esse modelo é baseado na competitividade
destrutiva e excessiva. Esse modelo comporta que
a economia está destruindo a política. Este
modelo comporta que as finanças estão
destruindo a economia. Este modelo comporta que a
velocidade está destruindo a vagareza.
Eu estive, outro
dia, numa praia maravilhosa a 300 quilômetros de
Fortaleza, onde tudo era maravilhoso. Tudo era
deserto, mas havia uns loucos que corriam com
automóveis pela praia como se estivessem
correndo na Fórmula 1. Sabe por quê?
Simplesmente, para ser doentes, inúteis, e
estúpida velocidade. Depois, vocês sabem melhor
que eu, esse modelo inclui o divinismo, isso é,
o excesso de importância que se dá às pessoas,
inclusive pessoas medíocres que se vêem
divinizadas.
E ainda esse
modelo inclui o consumismo. Um consumo excessivo,
sobretudo em países pobres. Meu grande amigo,
Oscar Niemeyer, disse: "eu teria vergonha
se, no Brasil, fosse um homem rico. Porque não
é possível ser muito rico em países onde há
uma forte pobreza".
Um dos perigos,
que eu chamo do modelo americano, é a perda da
alegria e da sensualidade. Repito: sensualidade,
e não pornografia. Não tem nada a ver com
pornografia. O problema é da vitalidade. E a
exasperação do medo. Eu acho que os jornais
são uma grande universidade. Como eu disse. Mas
podem ser muito perigosos. E um grande perigo é
transformar a esperança em medo. E é uma
felicidade e uma grande alegria, que transforma
um medo em esperança.
Vou dar a vocês
alguns exemplos. Nesse momento, existe no mundo
um medo da demografia. Temos medo do fato de que
somos tantas pessoas, e ter tantas bocas para
matar a fome. Mas um jornal otimista pode fazer
notar que tantas bocas para matar a fome
correspondem a tantas cabeças que pensam. Cada
dia, 6 bilhões de pessoas acordam e pensam. O
pensar é sempre um grande valor.
Ainda temos medo
do desemprego, mas os jornais poderiam lutar para
que se reduza o horário de trabalho e todos
possam trabalhar um pouco. Diferente de hoje, em
que os pais trabalham 12 horas por dia e os
filhos estão completamente desocupados.
Ainda temos medo
da guerra. Mas os jornais poderiam fazer notar
que nós aprendemos a fazer existir a paz. E
aprendemos a manter sob controle as armas
nucleares.
Ainda temos medo
da morte. Mas os jornais poderiam fazer notar que
a vida é cada vez mais comprida. Graças à
biotecnologia, ficará mais comprida ainda.
Temos medo do
autoritarismo. Mas os jornais poderiam fazer
notar que, com a contra-informação, o
autoritarismo pode ser vencido.
Temos medo da
globalização. Mas os jornais poderiam fazer
notar que, ao lado da globalização, vem a
identidade. É isso que é necessário. Melhorar
e muito, não só a dimensão pessoal, mas a
dimensão universal do homem.
Naturalmente,
tudo isso pede grande empenho por parte dos
jornais, sobretudo dos proprietários dos
jornais. Acontece uma extraordinária formação
de profissionais, permanente. Não basta uma
formação de uma vez por todas. O jornalista
deve ter tempo para sua própria formação.
Doutro modo, termina sendo um instrumento incapaz
na mão de diretores, que usam esse instrumento e
depois o descartam quando não serve mais.
Acontece a
ética dos dados. Jornalistas devem partir de
dados sérios e concretos. Não se pode inventar
estatísticas. Deve-se partir de dados seguros.
Deve-se se transformar a redação do jornal em
grupos criativos, em grupos nos quais convivam
fantasias e as coisas concretas, o entusiasmo e a
liberdade.
Por outro lado,
deve-se defender profundamente a liberdade e a
identidade de todos os países. O Brasil tem
direito à sua própria identidade, assim como a
Itália tem direito à sua identidade.
Um outro valor
fundamental é o da estética. Os jornais devem
ser bonitos de modo a difundir para a humanidade
o sentido da beleza. A estética é a coisa que
mais se encarrega da nossa felicidade. Vocês
viram quanta felicidade nos deram estas
personagens que estiveram antes de mim, neste
palco. Vocês viram quanta felicidade nos deu o
desfile de modas ontem à noite.
Acontece ainda o
que eu chamo de o ócio criativo. Não é a
preguiça. Não significa não fazer nada. Não
significa a inércia. Significa a capacidade de
transformar o trabalho numa brincadeira; o
trabalho, em estudo. Significa a capacidade de
brincar, trabalhar, estudar, contemporaneamente.
Ainda outras
duas virtudes que acontecem para os jornalistas.
Uma é a modéstia. Muitas vezes, o jornalista é
enfermo do delírio de onipotência. Ao invés de
uma grande modéstia. Uma das pessoas mais
geniais do Brasil, Oscar Niemeyer, um grande
arquiteto, escreveu no seu estúdio: "A
arquitetura não é tudo. A única coisa que
conta são os amigos e este mundo injusto que
devemos modificar". Então, isso mesmo se
pode dizer do jornalismo, ou da sociologia. Isto
é, não conta somente o jornalismo, a
sociologia, mas a vida, os amigos e esse mundo
injusto que devemos modificar.
Uma última
recomendação que farei aos jornalistas - e os
jornalistas brasileiros são muito bons nisso -
é valorizar extremamente o humor, a ironia. A
ironia é a forma mais sutil e maior da
inteligência. No Brasil, temos os grandes
autores de humor. E para concluir com humor, mas
lembrando o jornalismo, queria concluir lendo os
títulos de um grande jornal francês, L'
Humanité.
Títulos de 9 a
22 de março de 1815:
9 de março:
"O tigre se mostra como se fosse um gato. As
tropas estão avançando de todas as partes para
parar a sua caminhada. Ele terminará a sua
miserável aventura atrás das montanhas".
12 de março, o
título era: "O monstro avançou até
Grenoble".
13 de março, o
título era: "O tirano está agora com os
leões. O terror comove todos os seus
companheiros".
18 de março, o
título era: "O usurpador está a
avizinhar-se até 69 horas da capital".
19 de março,
era: "Bonaparte avança a etapas forçadas,
mas é difícil que alcance Paris".
20 de março, o
título era: "Napoleão chegará até os
muros de Paris".
O 21 de março,
o título era: "O imperador Napoleão em
Fontainebleau".
O 22 de março,
o título era: "Ontem à noite, sua
majestade, o Imperador, fez seu ingresso público
e chegou às Tulherias. Nada pode superar a
alegria universal".
* Domenico
De Masi é professor da
Universidade
la Sapienza de Roma, autor
dos livros Desenvolvimento sem Trabalho, A
Emoção e a Regra e O Ócio Criativo,
editor da revista Next - Strumenti per l'innovazione <http://www.nextonline.it>.
Transcrição da palestra com base na tradução
de Mário
Teran sobre a gravação
original em italiano da fita cedida pela
jornalista Ariadne
Araújo, do O Povo, aos quais somos gratos. Esta es su
primera colaboración para Sala de Prensa.
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