Favela FM
104.5: Uma experiência de
rádio comunitária em Belo Horizonte
Sebastião
Geraldo Breguêz *
Sinopse
O
presente trabalho é resultado de apontamentos de
pesquisa realizado na favela (termo que
designa no Brasil as regiões mais pobres da
cidade, onde as casas e a urbanização são
feitas de qualquer jeito. O traçado urbano não
existe e falta infra-estrutura urbana como água
potável, luz elétrica, rede de esgotos etc.)
Nossa Senhora de Fátima, que integra outras 11
do bairro Serra de Belo Horizonte em meados deste
ano, onde está acontecendo uma das mais
fascinantes experiências de rádio comunitária
no Brasil: a RADIO FAVELA FM 104.5. O autor
acompanhou de perto o trabalho da rádio por
quase dois meses, fez entrevistas com a equipe da
rádio, com moradores da favela e ouvintes de
várias regiões de Belo Horizonte. A Favela FM
já ganhou dois prêmios da ONU, que reconheceu
seu trabalho social contra as drogas, além de
medalhas e comendas estaduais e municipais. Em
agosto último, foi a única rádio brasileira
que participou de Congresso Mundial de Rádios
Comunitárias em Milão, na Itália. O Sindicato
de Jornalistas da Alemanha considera a
experiência da Favela FM como uma revolução na
mídia do Terceiro Mundo.
Trata-se de uma
emissora criada por favelados, em 1981, com a
ajuda da igreja católica e associação de
moradores, com o objetivo de atender as
necessidades da localidade, principalmente, os
problemas de segurança e de drogas. Ela se situa
numa região que é responsável por cerca de 25%
dos homicídios que acontecem em Belo Horizonte e
pela maior taxa de crescimento demográfico, com
grande número de crianças. O sucesso foi grande
e a rádio se transformou na terceira maior
audiência de Belo Horizonte. Com uma
programação musical variada, um jornalismo
realista e com denúncias, a Favela FM conquistou
a confiança dos ouvintes.
1.
Introdução
A mídia sempre
foi porta voz das elites por excelência em toda
a história da humanidade nos quatro cantos do
planeta. Ela molda a consciência dos povos
segundo os interesses políticos e econômicos de
cada época. Ela integra os aparelhos
ideológicos do Estado, daí ser denominada
Quarto Poder ( ao lado do Executivo, Legislativo
e Judiciário ). No Brasil, não podia ser
diferente. País do Terceiro Mundo, que desponta
com um potencial econômico no mundo das grandes
potências, é cheio de contradições e
desníveis sociais, econômicos e culturais. A
mídia brasileira - impressa, radiofônica,
televisiva - enfoca sua produção para os
centros urbanos abastados e tem programação
elitista. Pois os empresários da mídia querem
é faturar e cada vez mais. Os problemas e
carências da classes sociais menos favorecidas
são esquecidos da mídia e do poder. As elites
dominantes, por sua vez, se mostraram
ineficientes na resolução dos grandes problemas
urbanos, como superpopulação, saúde,
habitação, educação, lazer , segurança e
cultura. O presidente Fernando Henrique Cardoso,
em entrevista, no primeiro semestre deste ano,
chegou a dizer que o Estado brasileiro só tem
condições de administrar o país para 40
milhões de habitantes - os outros 120 milhões
estão completamente excluídos.
É neste
contexto econômico, social, cultural e político
que aparecem experiências revolucionárias e
inovadoras na mídia. As classes marginalizadas e
excluídas se organizam por si próprias e criam
a sua própria mídia. É o caso da RÁDIO FAVELA
FM 104.5, criada numa favela de Belo Horizonte,
na década de 80 para ser porta-voz da
população carente do local que vive em
condições precárias de urbanização, saúde,
saneamento, educação, cultura e segurança.
Hoje, com o trabalho da rádio comunitária, as
autoridades passam a investir no local. O autor
deste trabalho presenciou, no mês passado, mês
de eleições no Brasil, como os candidatos
desfilaram bem vestidos e em carros importados
nas estreitas ruas da favela Nossa Senhora de
Fátima a busca de votos. Abraçaram crianças
desnutridas e cheia de vermes (na expressão do
fundador da emissora, Misael Avelino dos Santos,
"crianças com aquário na barriga"),
deram entrevistas na FAVELA FM 104.5 pedindo
votos e prometendo ajudar a população. É desta
experiência que trata este trabalho.
2.
História
No final do
regime militar, em 1981, o tráfico de drogas
começa a tomar conta das favelas brasileiras,
que normalmente, são situadas em morros. Por
isto são regiões escolhidas pelos traficantes,
que ali se instalam e passam a comandar suas
operações. Por ter traçado urbano irregular,
praticamente sem ruas, e com dificuldades de
acesso, a polícia tem dificuldade de ter acesso
ao local. O que dá segurança à Máfia da
Droga.
A situação
não é diferente em Belo Horizonte. E um dos
locais escolhidos pelo tráfico é o morro da
Serra, onde está a favela Nossa Senhora de
Fátima. Mas lá se encontram um grupo de jovens
que organizam uma cultura de
resistência contra a droga. A missão
deles é difícil: barrar o avanço das drogas
nas vilas e retirar a juventude da marginalidade.
Com os equipamentos usados para tocar música em
fins-de-semana, 50 rapazes criam a 104.5 FM,
Rádio Favela. Hoje, dezessete anos depois, a
rádio continua viva, apesar de várias
tentativas de desarticulação. Abandonou a
imagem de uma rádio de favela para o
imponente nome de Rádio Comunitária.
Alguns dos
fundadores da emissora continuam na equipe até
hoje, lutando pelo resgate da cidadania dos
marginalizados moradores da favela. Comemoram o
sucesso do empreendimento - terceira audiência
numa cidade do porte de Belo Horizonte, capital
do estado de Minas Gerais, onde a população é
universitária, crítica e exigente na escolha de
sua rádio de preferência. Também foi eficaz os
programas anti-drogas e pro-estudo - pois eles
também fazem a distribuição gratuita de
material escolar ( livros, cadernos e lápis )
para os estudantes pobres das favelas.
Este trabalho,
entretanto, não foi só coroado de conquistas,
mas também de perdas. Da turma inicial, poucos
restam. Muitos se envolveram profundamente com o
tráfico de drogas, outros foram assassinados em
brigas, alguns mortos pela polícia ou
simplesmente desapareceram. Hoje, o trabalho
continua e há apoio de sindicatos, sociedades
filantrópicas, empresas e particulares.
3.
Repressão
Embora o regime
militar, com o seu aparelho repressivo, tenha
acabado, existem os problemas com as leis
brasileiras de Telecomunicações. A Rádio
Favela não tem concessão oficial para funcionar
e por isto já foi fechada quatro vezes e seus
diretores espancados pela polícia. Hoje vigora a
Lei 9.612, que entrou em vigor há pouco tempo,
regulamentando as rádios comunitárias, em cujo
estatuto, a Favela FM se enquadra. Mas, mesmo
assim, precisa de aprovação governamental, pois
senão é considerada pirata e ainda
pode sofrer com o Ministério das Comunicações
e com a polícia.
Quando foi ao ar
pela primeira vez, em 1981, a Rádio Favela
funcionava a bateria e pilha, em um cômodo de
terra batida nos morros da Serra, bairro de Belo
Horizonte. Para driblar a fiscalização do
Ministério das Telecomunicações, a rádio só
funcionava à noite ou nos finais de semana,
quando não haveria funcionários para
desativá-la.
Passou por
verdadeira peregrinação de barracos
a barracos do morro para não ser preso pela
polícia. Mas desde 1995, o líder fundador da
emissora, Misael Avelino dos Santos, resolveu
parar de fugir e ter uma sede fixa. Diz ele:
" A nossa rádio é diferente das outras
rádios piratas, pois faz um trabalho
social, cultural e educacional. Nós não
queremos ganhar dinheiro, não somos
empresários, só queremos ajudar a população
pobre e marginalizada dos morros. Portanto, a
nossa rádio tem uma vocação social, é rádio
comunitária por excelência. Trabalhamos pela
dignidade e pela reconhecimento da cidadania dos
moradores dos morros. Lutamos contra o tráfico
de drogas. Não podem nos prender como ladrões
ou traficantes". A partir daí e com o
crescimento da audiência e do reconhecimento do
trabalho deles, a repressão foi diminuindo.
4.
Trabalho educacional
No mesmo local
da rádio, funciona um trabalho de reforço
escolar, que atende cerca de 70 crianças
carentes de condição sócio-econômica
precária. O objetivo não é só proporcionar
uma melhor qualidade de ensino às crianças,
evitando, assim, a repetência. O grande desafio
é preparar os menores para ter uma outra visão
de mundo e escapar das seduções das ruas
da cidade como as drogas, o alcoolismo, a
marginalidade e a prostituição.
Como a Rádio
Favela foi criada para ser um espaço de luta
pela cidadania dos marginalizados e também
contra a droga, ela desenvolve programações
culturais e de denúncia. O patrocínio começa a
chegar, assim também como as doações de
empresas para tal fim. Embora a rádio seja
ilegal porque não tem concessão
aprovada pelo governo federal, a eficácia de seu
trabalho social já é sentido e passa a ser a
sua credencial. Daí o respeito que hoje ela tem
das autoridades municipais, como o Prefeito
Célio de Castro e sua equipe, o governador
Eduardo Azeredo, além de vereadores e deputados.
Também há um trabalho realizado, há dezenas de
anos, pelos comerciantes de Belo Horizonte para
tentar resolver a questão dos menores de
rua, aquelas crianças que, sem pai e sem
mãe, descem das favelas para matar e roubar nos
centros urbanos. E a Favela FM vem, justamente,
preencher este espaço que faltava na cidade para
resolver o problema na origem: dar condições
às crianças dos morros, através de um trabalho
educacional e cultural, para que tenham uma vida
digna e não caiam na marginalidade. Ai está a
razão da emissora não ter sido mais vítima da
repressão policial e do Ministério das
Comunicações. Embora não tenha a concessão, e
assim esteja na ilegalidade, ela é
aceita em função de seus resultados sociais.
Mas a audiência
da Favela FM não se restringe aos l60 mil
habitantes das 11 vilas do Aglomerado Serra . No
estúdio, um pequeno cômodo de uma casa, chegam
cartas de ouvintes de toda a região
Metropolitana de Belo Horizonte. A maioria dos
fãs da rádio são pessoas de baixa renda, mas
também há muitos ouvintes da classe média e
alta da cidade. Por sua programação nada
formal, com denúncias a todo instante, mas com
uma programação musical com os últimos
sucessos, ela está agora entre a terceira e
quarta audiência de Belo Horizonte, segundo o
IBOPE, instituto de pesquisas que mede a
audiência da mídia em todo o Brasil. Também
qualquer um pode ser locutor, DJ, apresentador ou
produtor. Quando não está chovendo, cerca de 80
jovens se ocupam da programação. O número
diminui quando chove porque os jovens se dividem
para ajudar nos desabamentos e inundações que
assolam a região.
5.
Da programação
O conteúdo das
programações é marcado pela irreverência, com
exceção do "Rosa Choque", voltado
para as mulheres e comandado por Dona Mariquinha,
de 70 anos. Um dos programas também de grande
audiência é o Som Rap, animado pelo
filho do diretor da rádio, o Misaelzinho, de
apenas 10 anos. A rádio funciona de portas
abertas e os moradores da favela podem, a
qualquer momento, ocupar sua freqüência com
reivindicações e recados. Assim, recebe
diariamente cerca de 700 telefonemas. Depois de
17 anos no ar, a emissora já possui sua grade de
programação própria, das 5hs da manhã até a
1h da madrugada, graças ao revezamento de uma
equipe hoje com 30 membros. O Sindicato dos
Jornalistas da Alemanha considerou a experiência
da rádio como uma revolução na mídia do
Terceiro Mundo. E o diretor, Misael Avelino
dos Santos, diz que isto é devido a sua
programação aberta e com uma comunicação para
todos os tipos de pessoas. "Não
distinguimos raça, sexo, cor, nada", diz.
* Sebastião
Geraldo Breguêz es
colaborador de Sala de Prensa. Doutor pela Universidade de
Estrasburgo (França) e
professor do Curso de Comunicação Social da Universidade Vale do Rio
Doce (Univale).
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