Imprensa em
Debate
Último artigo de
Aloysio Biondi (1936), falecido no 21-7-2000,
para a revista Bundas nº 56, de 11.07.2000,
da qual era editor de economia. *
Aloysio Biondi é
um icone do periodismo economico brasileiro.
Enquanto a imprensa no Brasil delirava
encantada com as maravilhas do
neo-liberalismo, ele alertava para as falhas
- e são tantas - do sistema. Mostrava, com
números, como as privatizações foram uma
entrega de bandeja das estatais para capitais
privados. É esta indignação que deixa em
seu novo artigo (para não dizer o último).
Uma mensagem às novas gerações, um recado
para mexer na consciência (como anda?) dos
jornalistas pequenos, sócios minoritários
da farra dos vencedores.
Caça às bruxas, uma pinóia
Aloysio
Biondi
Pela
culatra. Há bem uns cinco anos, pega muito bem,
entre os new journalists, fazer charme (e toca a
faturar), representar o gênero do ''desencanto
com o jornalismo'' (e toca a comprar mansão),
dizer que ''quem manda é a empresa
jornalística'' (e toca a faturar), ''o
jornalista é impotente, só obedece'' (e toca a
comprar carrão), ''nossa profissão é uma
merda'' )e toca a freqüentar restaurantes de
luxo, com assessores de governo).
O conformismo, a
falta de indignação, a cumplicidade com o
governo e os interesses econômicos foram a
mensagem constante que, nos últimos cinco anos,
os adeptos do ''novo jornalismo'' transmitiram
às gerações de jovens que escolheram a
imprensa como seu caminho na vida. Desalentados,
os jovens se curvavam à pretensa ''voz da
experiência''. Marginalizados, os mais velhos se
dobravam ao ''realismo dos chefes''.
De repente, nas
últimas semanas, esse panorama sombrio de
submissão, responsável em grande parte pelos
desmandos do governo FHC, foi riscado por alguns
clarões. O estopim, ou a gota d'água, foi a
sórdida manipulação do noticiário contra o
MST e, em São Paulo, contra os professores e
funcionários grevistas.
Há bem cinco
anos, jovens repórteres e estudantes de
jornalismo repetiam a mesma toada conformista,
desalentada, ouvida dos mais velhos. De repente,
pela primeira vez em cinco anos, professores
viram alunos ressuscitarem frases, tomarem
atitudes que eram freqüentes nos tempos do old
journalism, pré-FHC: ''essas matérias são
nojentas... eu não assino uma coisa dessas nem
que me demitam...'' Pela primeira vez em cinco
anos, o não-conformismo, a indignação de
volta.
Pela culatra.
Foi assim o tiro de canhão preparado no Planalto
contra o MST, ou no Palácio dos Bandeirantes
contra os professores e funcionários grevistas
de São Paulo. A reação não se limitou aos
jovens. A indignação e o não-conformismo
descobriram o caminho da Internet. Mensagens
narrando histórias sujas de bastidores sobre a
manipulação contra o MST ou episódios
equivalentes passaram a circular via Internet,
dando nome aos bois, ou melhor, aos jornalistas
carneiros do rebanho do Planalto.
Cinco anos em
que os discordantes se dobraram sob o aparente
triunfo dos adeptos do new journalism,
contaminados eles próprios por uma sensação de
impotência, ''dinossauros'' soterrados por uma
avalanche esmagadora de lagartixas.
Como era
previsível, esse renascer da imprensa já está
dando origem a uma contra-ofensiva dos
''lagartixas'', temerosos de um movimento
organizado, capaz de mobilizar as redações,
unindo estudantes e ''dinossauros'' (cuja idade
não é medida pela data de nascimento, mas sim
pelos seus padrões ditos antiquados de
comportamento ético e crença no jornalismo).
O argumento mais
utilizado nessa contra-ofensiva vem edulcorado
com pretensas preocupações democráticas,
afirmando-se que esse processo de denúncia de
manipulação do material jornalístico, a
serviço do governo e/ou grupos econômicos, traz
o risco de transformar-se em uma ''caça às
bruxas'', com eventuais injustiças contra
''colegas''.
Defende-se a
permanência do silêncio coletivo dos últimos
cinco anos.
Defende-se o
conformismo dos jovens castrados e dos ''velhos
profissionais'' aviltados. Defende-se a
manipulação da opinião pública, as manchetes
distorcidas, as notícias escondidas, o
abafamento dos escândalos que só vêm à tona
quando (e enquanto, e enquanto) interessa a
grupos econômicos ''deixados de lado'' nos
negócios da China, a ocultação dos prejuízos
de 13 bilhões de reais do Banco Central e os 15
bilhões despejados no Banco Nacional, a
vergonhosa entrega dos trilhões de reais do
petróleo brasileiro a multinacionais.
Defende-se o silêncio sobe o genocídio, o
assassinato em massa que vem sendo cometido em
nome do ajuste fiscal. Defende-se o silêncio
enquanto a grande imprensa é cúmplice do saque
sem precedentes que o Brasil vem sofrendo.
''Caça às
bruxas''? ''Colegas''??? O que é isso, cara
pálida?
* Material proporcionado a SdP por Paulo Augusto Queiroz da Silva . La
breve presentación es de Flamínio Araripe.
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