Este
estranho culto à Internet
Philippe
Breton *
O
movimento da contracultura iria desaparecer,
enquanto tal, na década de 70. Mas os valores
que defendia espalharam-se e ainda influenciam a
maneira de ser no mundo de muitos
adultos.
A contracultura
englobou a herança beat, o movimento de
contestação estudantil, os hippies e depois se
ramificou em movimentos alternativos.
A prática da
contracultura passava pela vida em comunidade,
pelo desejo de igualdade, pela influência
libertária, pela proximidade com a natureza.
Muitas
descrições dos jovens internautas de hoje os
apresentam de uma forma tocante, tal como os
mendigos celestiais de que falava
Kerouac.
A articulação
desse novo culto da Internet também se fez com
os valores de um liberalismo desconhecido da
contracultura da década de 60.
A contracultura
nunca rompeu por completo com o modelo liberal.
Isso poderia explicar por que o culto da Internet
integrou tão facilmente os seus valores.
O culto da
Internet é jovem, de jovens e para jovens. É
concebido como uma revolução
permanente, onde os jovens determinam a
direção do movimento.
É difícil não
encontrar pontos em comum entre o novo culto (à
Internet) e o amplo movimento de contracultura
que se tornou um fenômeno de massa na década de
60 nos Estados Unidos, e, sob formas variadas, em
inúmeros países ocidentais.
É bom lembrar
que a chamada contracultura
supondo uma homogeneidade maior do que a
realidade foi uma vasta corrente
englobando a herança da geração
beat, o movimento de contestação da
juventude (que acabaria desembocando nas grandes
revoltas estudantis) e o movimento hippie, além
das inúmeras ramificações nascidas dessa
nebulosa, como os movimentos
alternativos.
O movimento da
contracultura iria desaparecer, enquanto tal, na
década de 70. Mas os valores que defendia
espalharam-se e ainda influenciam a maneira de
ser no mundo de muitos adultos.
Nos Estados
Unidos, alguns nomes célebres continuam
vinculados ao brilho que assinalou toda uma
época como Allen Ginsberg, Jack Kerouac,
Alan Watts, Ken Kesey, Timothy Leary, Gary
Snyder, Neal Cassady ou Bob Dylan , sem se
falar em inúmeros grupos musicais e algumas
revistas. São Francisco e a Costa Oeste iriam
constituir o local privilegiado dessa
revolução de costumes. (...)
Concretamente,
as práticas da contracultura passam pela ruptura
com o mundo (o drop out), pela viagem de
iniciação que, tal como monges mendigos
budistas, se encontravam normalmente na Índia,
mas também nas estradas norte-americanas e
européias , pela vida em comunidade, pelo
desejo profundo de igualdade, pela influência
libertária, pelo engajamento (por influência de
Gandhi) na cultura da não-violência, pela
proximidade com a natureza e por um certo
misticismo tingido de influências orientais,
principalmente budista (nessa época, muitos
artistas se converteram ao zen budismo, ou
aderiram a seitas influenciadas pelo
orientalismo).
A sociedade era
concebida como uma comunidade pacífica, com o
amor e o altruísmo ocupando um lugar importante.
Inúmeras redes de vida, que produziam música,
literatura, lazer, educação, alimentação ou
medicamentos específicos, acabam formando um
vasto universo underground que, na época,
envolvia centenas de milhares de pessoas.
| Essa idéia de um
mundo novo tem muitos pontos em comum com
o movimento contemporâneo em torno da
Internet, que também mobiliza centenas
de milhares de jovens, principalmente em
busca de uma sociedade mais fraterna,
mais comunicativa, mais
pacífica. A continuidade dos temas é
flagrante: à sua maneira, o mundo da
Internet também é underground, um
underground atual, o vínculo que permite
sair do mundo normal. Quem atualmente
dedica o seu tempo à Internet, realiza o
drop out dos dias de hoje, e muitas
descrições dos jovens internautas,
completamente absortos por este novo
culto, apresenta-os de uma forma tocante,
tal como os mendigos
celestiais de que falava Kerouac.
Se, na
década de 50, era comum pegar a
estrada para dar outro sentido à
vida, numa perspectiva espiritual, hoje
em dia se navega pelas rodovias da
comunicação. As analogias são
muitas e, através desta continuidade,
voltamos sempre ao período do
pós-guerra que nos fala de uma espécie
de estabilidade que não consegue
esconder a renovação das formas. Como
se a nossa sociedade tivesse ficado
ancorada naquela época, e nós
retomássemos, com outros hábitos, o
mesmo roteiro.
A
articulação desse novo culto também se
fez com os valores de um liberalismo
desconhecido da contracultura da década
de 60. Das duas grandes utopias da
segunda metade do século XX a
utopia revolucionária e a utopia da
contracultura , somente a segunda
sobreviveu e, de certa maneira se
reencarnou no novo culto da Internet.
Embora hostil ao grande capital e à
sociedade de consumo e também
marcada por uma tradição libertária
, a contracultura nunca rompeu
completamente com o modelo liberal. Isso
poderia explicar por que o culto da
Internet integrou tão facilmente os seus
valores.
O quadro
dos valores e correntes de pensamento em
que se apóia o culto da Internet para a
sua divulgação seria incompleto se não
fosse mencionado um valor
secundário (com relação
aos grandes princípios que acabamos de
citar), porém não menos importante: a
juvenilidade, ou seja, a
tendência a exaltar a juventude, os seus
valores, tornando-a modelo obrigatório
de qualquer tipo de comportamento.
|
|
PARIS - É nesse
ambiente de juvenilidade que se
encontra a apologia sistemática
da rapidez, a ponto
de se ter tornado uma crença:
quanto mais rápido, mais
próximo do mundo espiritual. É
a rapidez que nos libera do corpo
e nos aproxima constantemente dos
outros. A realidade da
informação, diz Paul
Virilio, está totalmente
contida na velocidade de sua
propagação . Comentando,
com firmeza, o processo contra
José Bové e seus companheiros
que ocorria na cidade de Millau,
em julho de 2000, Alain Madelin,
aficionado liberal da Internet,
afirmava: Na realidade, o
novo mundo que chega traz uma
oportunidade formidável para que
renasça uma sociedade de
estatura humana, e, nesse mundo
novo, não são os grandes que
triunfam sobre os pequenos, mas
os rápidos contra os lentos
.
Lendo alguns artigos e ouvindo
algumas declarações, cabe
perguntar-se que lugar terão,
nesse mundo novo, os
velhos (com mais de 35 anos). Um
estudo encomendado pela Caixa
Nacional de Pensões, da França,
revelou a existência de um
verdadeiro discurso de exclusão
dos idosos na área das novas das
novas tecnologias da informação
essencialmente devido à
juvenilidade que serve de apoio a
esse setor.
tecnologias da informação
essencialmente devido à
juvenilidade que serve de apoio a
esse setor. |
|
O
culto da Internet é um culto jovem, de jovens e
para jovens. É concebido como uma espécie de
processo de revolução permanente,
onde são os jovens quem determina a direção do
movimento. Nicolas Negroponte é o escritor que
mais aprofundou o papel dessa
juvenilidade: Eu vejo essa
mesma mentalidade de descentralização, que
opera na nossa sociedade, sob o impulso da
juventude do mundo digital. A tradicional
concepção centralizadora vai se tornar coisa do
passado. A noção de Estado também vai passar
por uma mutação radical. (...) Enquanto os
políticos se debatem com a herança da
História, uma nova geração, libertada dos
velhos preconceitos, surge da paisagem digital.
(...) A tecnologia digital pode ser uma força da
natureza atraindo as pessoas para uma grande
harmonia mundial".
Negroponte
ressalta o papel que teve a juventude na
criação de uma contracultura face ao
establishment da informática. (...) O nosso
cimento não era a disciplina, mas a crença de
que os computadores modificariam e transformariam
a qualidade de vida de forma espetacular, devido
à sua ubiqüidade não apenas na
ciência, mas em todos os aspectos do
cotidiano. Ele é um dos vários defensores
da idéia segundo a qual as crianças seriam,
naturalmente, aptas à informática.
Quer se trate da população da Internet,
da manipulação de jogos Nintendo ou Sega, ou da
invasão de micro-computadores, o importante não
será mais pertencer a esta ou aquela categoria
social, racial ou econômica, mas à geração
certa. Os ricos, hoje, são os jovens; e os
pobres são os velhos.
Como se vê, uma
certa demagogia acompanha a juvenilidade. Mas, de
qualquer jeito, é nas camadas mais jovens da
população que se apóia o culto da Internet. A
Microsoft que vem tentando negociar uma
virada que a aproxime do mundo da Internet
não hesita em contratar pessoas muito jovens
para orientar sua estratégia. A
empresa, explicam, avalia que esses
jovens ficarão plugados quase permanentemente à
rede. (...) Foi em função disso que a empresa
encarregou dois adolescentes de explicar a alguns
de seus diretores de idade média a sua nova
filosofia de trabalho e de lazer . Um deles
explicou que os períodos de aulas, de
trabalho ou de recreio, que antes eram distintos
e se sucediam, hoje em dia se misturam.
* Le
Monde Diplomatique,
versão brasileira. Versão disponibilizada por Último Segundo/iG, 21 de outubro de 2000.
|