Comunicação
virtual e cidadania:
Movimentos sociais e políticos na Internet
Dênis
de Moraes *
I
O
ambiente tendencialmente interativo, cooperativo
e descentralizado da Internet introduz um
componente inesperado e criativo nas lutas
sociais da segunda metade dos anos 90. Partidos,
sindicatos, organizações não-governamentais e
até grupos guerrilheiros, ainda que
eventualmente separados por estratégias e
táticas de ação, descobrem no ciberespaço
possibilidades de difundir suas reivindicações.
E o que é desconcertante: sobrepujando os
filtros ideológicos e as políticas editoriais
da chamada grande mídia. Não se tem a
pretensão de atingir milhões e milhões de
pessoas, privilégio dos que detêm o controle
dos meios de comunicação tradicionais. O que se
busca é promover a disseminação de idéias e o
máximo de intercâmbios. Poder interagir com
quem quer apoiar, criticar, sugerir ou contestar.
Como também driblar o monopólio de
divulgação, permitindo que forças
contra-hegemônicas se expressem com
desenvoltura, enquanto atores sociais empenhados
em alcançar a plenitude da cidadania e a
justiça social. O Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem-Terra (MST), a Central Única dos
Trabalhadores (CUT), a Ação da Cidadania contra
a Fome e a Miséria, a Anistia Internacional,
Confédération Internationale des Syndicats
Libres, o Human Rights Watch, o Greenpeace, a
Rede de Informações do Terceiro Setor (Rits), o
Fórum Nacional pela Democratização dos Meios
de Comunicação, a Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB), a Ordem dos Advogados do
Brasil, o Exército Zapatista de Libertação
Nacional (EZLN), do México, entidades feministas
e partidos políticos inscrevem-se entre as
organizações da sociedade civil que decidiram
apostar na Web.
A militância on
line vem alargar a teia comunicacional
planetária, usufruindo de uma das singularidades
do ciberespaço: a capacidade de disponibilizar,
em qualquer espaço-tempo, variadas atividades,
formas e expressões de vida. A cibercultura
universaliza as visões de mundo mais díspares,
os modos de organização social mais
contrastantes, as ambições mais difusas, sem
favorecer pensamentos únicos ou domínios por
coerção. Trata-se de um âmbito virtual de
conhecimentos múltiplos, que congrega forças,
ímpetos e interesses contraditórios. Com a
peculiaridade fundamental apontada por
Pierre Lévy de universalizar sem
totalizar. O ciberespaço configura-se como um
universal indeterminado, sem controles e
hierarquias aparentes, sem pontos fixos para a
veiculação de informações e saberes. No
ciberuniverso, as partes são fragmentos
não-totalizáveis, isto é, não sujeitas a um
todo uniformizador de linguagens e concentrador
de poderes. As relações entre as partes podem
reinventar-se, em densidade e em extensão, sem
que umas se sobreponham ou subjuguem as demais.
(1)
A cada nó que
se soma à rede em expansão contínua,
incorporam-se novos usuários, os quais se
convertem, potencialmente, em produtores e
emissores de informações novas e
imprevisíveis, em condições de serem
consumidas instantaneamente, sem barreiras
geográficas, sem fusos horários e sem grades de
programação. A dinâmica da Internet como um
sistema universal desprovido de centros fixos de
enunciação e também de significações
unívocas não encontra paralelo nos meios dos
comunicação que conhecemos até hoje. Cabe à
capacidade cognitiva de seus usuários
determinar, por conta própria, como se vão
reorganizar, a todo momento e interativamente, as
partes das conexões globais. (2)
Essa imagem da
Internet como um mega-sistema planetário em
constante mutação e saudável desordem
justifica a sua classificação de Babel cultural
do final do milênio. Ela, de fato, assemelha-se
a um gigantesco mosaico, no qual elementos
paradoxais convivem sem a prevalência de uns
sobre os outros. Quem decide o que deve ser
destacado e aproveitado é o internauta, por
afinidades e conveniências. No ciberespaço, as
contradições não precisam ser silenciadas,
porque é da essência mesma do virtual a
veiculação simultânea e indefinida de
conteúdos, pouco importando as suas
procedências, os seus alinhamentos ideológicos,
as suas armas de confrontação e fascínio. O
princípio básico é disponibilizar, pôr em
andamento e execução, tornar dados, imagens e
sons acessáveis e acessíveis. Em última
análise, são os usuários individuais ou
coletivos que acabam por determinar os
sentidos possíveis para as mensagens.
Vale ressaltar
que não concebemos o ciberespaço como uma
esfera divorciada dos embates sociais concretos.
Embora a práxis virtual seja pautada por
especificidades que a distinguem claramente dos
meios convencionais, há uma relação de
complementaridade com o real, que resulta na
progressiva hibridação de recursos
tecnológicos. Os processos não se anulam, eles
se acrescentam e se mesclam. Acabamos por
acumular dados e experiências que, isoladamente,
nenhuma das partes poderia produzir. Marc
Guillaume salienta as confluências possíveis
entre os padrões clássicos de interação
social e as redes eletrônicas: "A rede
social preexistente pode melhorar sua eficácia
através da rede técnica, mas esta última não
pode por si mesma criar uma rede social. Está
claro também que o bom uso das mídias
comutativas passa pelas complementaridade e
hibridações, permitindo combinar automatismos e
inteligência humana, rapidez de informação e
vagar na assimilação e na formação." (3)
A conjunção de
atividades revela-se crucial numa época marcada
por altíssima taxa de expansão de conhecimentos
científicos e de renovação incessante de
métodos produtivos. O rádio não substituiu o
jornal, a TV não acabou com o rádio e a
Internet não vai ocupar o lugar de ninguém. Ela
é uma mídia de novo tipo, na verdade um viveiro
de infomídias interativas, com difusão
ultra-rápida, intermitente, extensiva e
multidimensional. É, pois, viável combinar os
instrumentos de ação político-cultural que o
real e o virtual fornecem, sem perder de vista
que no território físico, socialmente
reconhecido e vivenciado, se tece o imaginário
do futuro.
II
Para além do
correio eletrônico, do entretenimento e das
pesquisas, a Internet projeta-se como fórum on
line capaz de revitalizar lutas e movimentos
civis, na atmosfera de permutas própria da
cultura de redes. Esta é outra dimensão do
imaterial: favorece processos
tecnocomunicacionais de participação política,
que não se confundem com práticas arraigadas de
exercício concentrado de poderes. A abundância
de variedades na Internet contraria a
imaginação dos homens políticos que se
habituaram a um universo regido apenas por
estatísticas, sondagens de opinião e efeitos
televisivos. Eles precisarão considerar o fato
de que a explosão de redes interativas
multimídias requer a geração de planos
específicos de comunicação para um número
cada vez maior de segmentos sociais que migram
para o ciberespaço com ânsia de expressão.
As vozes da
sociedade civil que se somam no ambiente on line
representam grupos de pessoas identificados com
causas e comprometimentos comuns, não importando
o porte das ONGs à que se vinculam. "Na
Internet, até mesmo as pequenas entidades têm
oportunidade de divulgar, a baixo custo, suas
atividades ao conhecimento de segmentos mais
amplos da sociedade. Apesar de que muito
anárquica, a rede é também muito mais
democrática, permitindo que todo mundo se
expresse", opina a diretora do organização
ambientalista Greenpeace na Espanha, María
Peñuelas. (4)
No espaço
virtual, interagem entre si e com outros núcleos
ativistas, numa seqüência de cooperações
societárias que evidencia a articulação de
atores predispostos a explorar os fluxos da
mega-rede. Ilse Scherer-Warren acentua que
"rede torna-se um conceito propositivo dos
movimentos, onde as relações
interorganizacionais deverão se caracterizar
pela não-hierarquização do poder, e onde as
relações entre os atores participantes deverão
ser mais horizontalizadas, complementares,
abertas ao pluralismo de idéias e à diversidade
cultural". (5)
O ciberespaço
parece alicerçar um itinerário comunicacional
enlaçado por uma gama considerável de
organizações progressistas dos quatro
quadrantes. Elas conscientizam-se das vantagens
de curto, médio e longo prazos que a
comunicação on line pode gerar. Desde o
barateamento dos custos até o raio de
abrangência global, passando pela velocidade de
transmissão, circulação e recepção das
mensagens.
O Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem-Terra considera que a
Internet proporciona à campanha pela reforma
agrária "um amplo canal de comunicação
com a sociedade". A sua homepage divulga
objetivos, posicionamentos e comunicados, com
rapidez e economia de recursos financeiros. O
coordenador do MST Neuri Rosseto argumenta:
"O fato de as forças progressistas terem
seus próprios canais de comunicação
possibilita-nos uma maior credibilidade, uma vez
que as notícias neles veiculadas estão sob a
ótica das próprias forças progressistas, sem
filtragem, censura ou deturpação dos fatos. Uma
coisa é ler uma notícia sobre a política de
privatizações em um meio de difusão controlado
ou influenciado pelo governo, que tem todo o
interesse em promovê-las. Outra é ler essa
mesma notícia sob a ótica de quem se opõe a
tal política. Nesse sentido, uma homepage feita
pelas forças progressistas possibilita, e muito,
a divulgação de seus pontos de vista. Os meios
de comunicação massiva funcionam como uma
espécie de filtro entre o que deve ser
noticiado, destacado ou deturpado e ocultado. A
Internet rompe com essa intermediação. Por
isso, pode facilitar que os agentes das notícias
também sejam os agentes que fazem esse
acontecimento chegar até o conhecimento da
sociedade."(6)
Foi com metas
semelhantes que o Exército Zapatista de
Libertação Nacional aderiu à Internet, na
primavera de 1994. Seu líder, o subcomandante
Marcos, usou, sem hesitação, o correio
eletrônico instalado em seu notebook acoplado a
uma linha telefônica para veicular informações
confiáveis sobre a guerrilha na região de
Chiapas, sul do México. Alcançou em segundos
milhões de pessoas.
No documento
convocatório do Encontro Intercontinental pela
Humanidade e contra o Neoliberalismo, realizado
em fins de julho de 1996, em Chiapas, os
zapatistas acentuaram a importância das redes
informáticas para os movimentos
contra-hegemônicos: "Aprendamos a ganhar
espaços. As mídias não podem tudo. Busquemos a
tecnologia e o poder: a superestrada da
informação como caminho da liberdade. Máquinas
a favor dos povos (o conhecimento é poder, poder
para nós)." A questão voltaria a ser
abordada na Segunda Declaração pela Humanidade
e contra o Neoliberalismo, aprovada no Encontro:
"Pela humanidade, declaramos: (...) Que
faremos uma rede de comunicação entre todas as
nossas lutas e resistências. Uma rede
intercontinental de resistência, de
comunicação alternativa contra o neoliberalismo
e pela humanidade. Esta rede buscará os canais
para que a palavra caminhe pelos caminhos que
resistem. Será o meio para que se comuniquem
entre si as distintas resistências. Esta rede
não é uma estrutura organizativa, não tem
centro diretor nem decisório, nem comando
central ou hierarquias. A rede somos todos os que
falamos e escutamos."
A exposição da
homepage do EZLN (http://www.ezln.org) não
obedeceu, por certo, ao simples impulso de
experimentar o modismo Internet. Em um primeiro
estágio, é até provável que o subcomandante
Marcos tenha se eletrizado pela comunicação
todos-para-todos. Depois de se adaptar aos nós
da rede e verificar o efeito turbo das mensagens,
provavelmente o líder zapatista concluiu que, de
certa maneira, a sociedade civil mundial
tornava-se crível, e a guerrilha não dependeria
tanto dos humores da mídia global.
Hoje, a página
está consolidada como porta-voz do EZLN e eixo
de convergência da solidariedade internacional
à causa zapatista. Reúne notícias,
pronunciamentos, artigos, denúncias, comunicados
e documentos sobre a realidade sociopolítica e
econômica do México, além de realçar a luta
antineoliberal. Disponibiliza acessos ao website
de seu braço político (a Frente Zapatista de
Libertação Nacional) e aos de organizações de
defesa dos direitos humanos em todo o mundo.
Também por seu intermédio, pode-se consultar
dezenas de páginas pró-EZLN elaboradas por
entidades de diferentes países, continentes e
idiomas. Esses sites se auto-referenciam por
links e mantêm intercâmbios, fóruns e listas
de discussão. Constituem, na verdade, uma
comunidade zapatista desterritorializada, em
condições de disseminar, planetariamente,
conteúdos que sustentam, reforçam e
universalizam as razões do movimento de Chiapas.
(7)
Para tentar
deter os malefícios da globalização econômica
e do neoliberalismo, centrais e federações
sindicais da Europa e dos Estados Unidos têm
recorrido à Web para pressionar empresas
transnacionais e despertar a solidariedade aos
trabalhadores. As cibercampanhas sindicais, ainda
em fase embrionária, partem do entendimento de
que, frente a uma economia globalizada, os meios
de luta igualmente precisam se internacionalizar
e se conectar. Não bastam as greves, as
passeatas e a imprensa sindical. Já se pode
inundar de e-mails as caixas postais dos patrões
e de organismos governamentais; denunciar, em
tempo recorde, demissões e abusos, conclamando
os consumidores a boicotarem produtos das
empresas; e convocar, em tempo real, afiliados
para assembléias conjuntas, manifestações de
rua e piquetes. Iam Graham, porta-voz da
Federação Internacional dos Sindicatos de
Trabalhadores em Indústrias Químicas (Icem),
diz que, sem a Internet, teria sido impossível
mobilizar a opinião pública contra a decisão
do conglomerado japonês Bridgestone-Firestone de
substituir os 2.300 grevistas de suas usinas nos
Estados Unidos por trabalhadores avulsos, em
julho de 1996. Graham declarou ao jornal francês
Libération que a queda-de-braço com a
direção da empresa só começou a surtir efeito
quando as mensagens de protestos abarrotaram os
correios eletrônicos de autoridades
governamentais, de formadores de opinião, de
mídias do mundo inteiro, de entidades civis, do
governo japonês, dos diretores da matriz e das
filiais do grupo Bridgestone, dos bancos que lhe
concediam créditos nos Estados Unidos e no
Japão, de seus fornecedores e de seus clientes
espalhados pelo globo. Todos os endereços
eletrônicos haviam sido catalogados previamente
pela Icem e foram disponibilizados pelo site da
Federação no dia em que se a empresa anunciou o
afastamento dos grevistas. Qualquer pessoa,
poderia endossar o abaixo-assinado virtual e, com
um clique do mouse, remetê-lo aos destinatários
escolhidos. Graham aponta outro diferencial da
Internet: "Se tivéssemos enviado faxes para
todas as pessoas incluídas em nossa lista,
seriam necessárias de duas a três horas, a um
custo elevadíssimo. Um minuto foi o tempo
suficiente para convocarmos pela Web as 150
organizações afiliadas à Icem a entrarem em
nosso site e dispararem e-mails para a relação
de pessoas que havíamos selecionado. Em poucos
minutos, as caixas postais de todas elas estavam
entupidas com as nossas mensagens. Os telejornais
da noite e os jornais do dia seguinte, inclusive
de países europeus e do Japão, noticiaram com
destaque o fato, obrigando a empresa a vir a
público se explicar e, logo depois, rever a
medida contra os trabalhadores." (8)
No Brasil, a
Internet tem sido cada vez mais acionada para
difundir campanhas e causas, sobretudo através
do correio eletrônico. "Não há dúvidas
de que o e-mail mudou o modo de comunicação
entre as ONGs; a articulação entre as
instituições se tornou mais dinâmica",
avalia Roberto Pereira, diretor-geral do Centro
de Educação Sexual (Cedus), completando:
"É mais fácil organizar as passeatas e os
encontros. Antes, fazíamos isso por telefone,
fax ou até mesmo carta, quando tínhamos que
falar com grupos de outros estados. Até algumas
decisões podem ser tomadas pela Internet".
(9)
Existem centrais
virtuais de denúncias de violações dos
direitos humanos (podem ser enviados, por e-mail,
relatos à Anistia Internacional, ao Human Rights
Watch e à Ordem dos Advogados do Brasil). Os
denunciantes não precisam, necessariamente, se
identificar. Mas, se o fazem, o sigilo é
assegurado. Os registros são encaminhados aos
setores encarregados de averiguá-los e, se
preciso, complementá-los. Constatada a
veracidade da denúncia, o usuário recebe
comunicação sobre as providências tomadas.
Fundada em 1º
de maio de 1995, em Natal, Rio Grande do Norte, a
DHnet Rede Telemática de Direitos Humanos
(http://www.dhnet.org.br) adota como estratégia
comunicacional diversificar ao máximo os
espaços de conscientização, orientação,
participação, integração e mobilização.
Observando-se a árvore de links, percebe-se a
variedade de possibilidades de navegação
abertas ao usuário. Ainda não se consegue fazer
denúncias diretamente pela página, mas a DHnet
informa os endereços eletrônicos de entidades,
órgãos governamentais e Igrejas que acolhem
queixas. Há chats e listas de discussão sobre
direitos econômicos, sociais e culturais; fórum
para comunicação dos internautas com o
ombudsman; cursos virtuais de cidadania; livro de
visitas, onde as pessoas consignam opiniões,
críticas e sugestões; textos e manifestos sobre
a inserção dos movimentos sociais na Internet e
também sobre a trajetória dos direitos humanos
no mundo; legislações brasileira e a
internacional sobre o tema, códigos de ética e
de conduta; animações multimídias em Web TV e
Rádio TV; a Onda de Sonhos apresenta textos
libertários de autores como Thomas Morus,
Glauber Rocha, Karl Marx, Charlie Chaplin,
Ernesto Che Guevara, Carlos Marighela, Antônio
Conselheiro e Antonin Artaud. Para intensificar a
convergência virtual de esforços, a DHnet
hospeda duas dezenas de sites afins, como os do
Movimento Nacional de Direitos Humanos, o
Conselho Estadual de Defesa do Homem e do
Cidadão, da Paraíba, o Centro de Estudos,
Documentação e Articulação da Cultura Negra e
o Dossiê de Mortos e Desaparecidos. Os pedidos
de parceria com a DHnet são apreciados por um
conselho de avaliação. A hospedagem é
gratuita. Interessante notar como as redes
virtuais se interpenetram e se retroalimentam. A
DHnet hospeda e ao mesmo tempo faz parte da Rede
Brasileira de Educação em Direitos Humanos, que
é um espaço de encontro, apoio, intercâmbio,
articulação e coordenação de organizações
que desenvolvem trabalhos sistemáticos na área.
III
As formas
participativas e dialógicas que irrompem no
ciberespaço começam a pôr em xeque a renitente
metáfora do Big Brother, que por décadas
dominou a teoria crítica no campo da
comunicação. A mídia sempre encarnou e
ainda encarna aquela sinistra figura, dado
o seu poder quase absoluto de divulgar as
informações que julga relevantes. A supremacia
dos meios de comunicação persiste e
provavelmente persistirá, porém não há como
negar que conteúdos contrários à lógica
dominante podem ser veiculados pela Internet, sem
ingerência de governos e corporações
empresariais ou militares. No cenário que
parecia um manjar dos deuses para os raciocínios
lúgubres e derrotistas, podemos agora discernir
um componente imprevisto de oxigenação. Tomo
como minhas as palavras do jornalista e deputado
federal Milton Temer (PT-RJ): "Dependendo de
nós, a Internet poderá se constituir em um
instrumento que escape à imbecilização
unidirecional da mídia eletrônica. Quanto mais
vierem para a rede, mais espaços teremos para a
divulgação do combate pelas utopias. Se
disputarmos tais espaços com o objetivo de
transformar a Internet numa espécie de Ágora do
terceiro milênio, ela será um excelente
instrumento de organização social." (10)
Na práxis
virtual, as mobilizações podem efetivar-se com
maior rapidez de resultados. Há três anos, a
Web era vista com certa desconfiança pelo
Greenpeace, conhecido por sua aversão aos
efeitos colaterais das tecnologias. Hoje,
denúncias de crimes contra o meio ambiente, em
qualquer parte do globo terrestre, em minutos
ganham ressonância pela rede mundial de
computadores. "Não podemos prescindir do
efeito imediato da Internet", salienta
María Peñuelas. (11) A Anistia Internacional
uma das primeiras organizações
não-governamentais a aderir à Web tem um
triplo propósito com sua página: a) mundializar
as denúncias e o acompanhamento de
investigações sobre desrespeitos aos direitos
humanos; b) interconectar as suas seções
espalhadas pelos Continentes; c) agilizar o envio
de comunicados sobre novas violações e as
conseqüentes providências. (12) A Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil interligou pela
Internet todas as Dioceses, o que facilitou o
planejamento, a implementação e a avaliação
das ações pastorais em todo o território
nacional. O Cedus recorreu ao correio eletrônico
para articular o apoio de organizações de
várias cidades às manifestações pelo Dia
Mundial de Luta contra a AIDS, em 1º de dezembro
de 1999. Com a criação de sua homepage no ano
passado, o Cedus passou a receber e-mails de
adolescentes, principalmente, com dúvidas sobre
sexualidade, doenças sexualmente transmissíveis
e gravidez. (13)
A página da
Federação de Órgãos para Assistência Social
e Educacional (Fase) traduz bem a estratégia
político-cultural-ideológica que norteia a
circularidade informativa nas redes
contra-hegemônicas. A Fase funciona como uma
espécie de centro de articulação de 70
organizações não-governamentais do Brasil e do
exterior vinculadas à defesa dos direitos
humanos, do meio ambiente, da reforma agrária e
da educação. Permite acessos instantâneos aos
sites de entidades filiadas. Na página da Fase,
as ONGs dispõem de uma base de consulta comum,
com informações atualizadas sobre ações em
prol da cidadania (reivindicações, protestos,
campanhas, etc.), e de uma agenda de eventos
ligados aos movimentos sociais, dentro e fora da
Internet. Há também fóruns e debates on line.
Já foram promovidas conferências eletrônicas
sobre reforma agrária na América Latina e
agricultura familiar. Os usuários cadastrados
podem opinar livremente sobre os temas abordados.
A Fase divulga na Web suas campanhas de
conscientização popular. Eis um trecho da
apresentação da campanha "Olho vivo nestas
eleições!": "Para fortalecer e
ampliar a luta pela defesa da cidadania para
todos, da justiça social e da recuperação da
solidariedade; pelo fim da impunidade e
implementação de mecanismos de controle e
fiscalização que combatam o clientelismo e a
corrupção é que recomendamos OLHO VIVO
NESSAS ELEIÇÕES!!!." O chamado à
participação caracteriza outras iniciativas de
ONGs vinculadas à Fase, entre as quais
destacamos a marcha global contra o trabalho
infantil e as mobilizações pela reforma
agrária, contra a pedofilia na Internet e em
defesa da Amazônia (em parceria com o
Greenpeace).
A meta da
Central Única dos Trabalhadores na Internet é
viabilizar uma "rede nacional de
comunicação, potencializando recursos internos
previamente levantados (boletins, revistas,
jornais, páginas na Internet, programas de
rádio e TV, jornalistas, dirigentes, formadores
de opinião etc.), que, com rapidez e eficácia,
possam externar as políticas de nossa Central e
suas ações na conjuntura, de modo a influenciar
a agenda nacional, inclusive pautando na grande
mídia o que a classe trabalhadora entender como
essencial". Por meio da Internet, a CUT
incrementa intercâmbio de informações e
experiências com outras entidades nacionais e/ou
internacionais. Entre os planos imediatos da
Central, estão a criação de um boletim
informativo eletrônico, a ser distribuído às
instâncias sindicais, e a consolidação, a
médio prazo, da comunicação via Internet, com
a construção de uma Intranet (rede interna),
capaz de assegurar a interconexão de todos os
órgãos filiados. (14)
Entre os
partidos brasileiros presentes na Web, deve ser
mencionado o pioneirismo do Partido dos
Trabalhadores ao pôr no ar, em 1996, o PTnet
(http://www.pt.org.br). Atualizado diariamente,
desdobra-se em links para organismos como Ação
da Cidadania contra a Fome e a Miséria, CUT,
Anistia Internacional, MST, sindicatos, Conselho
Indigenista Missionário, Comissão Pastoral da
Terra, Instituto da Cidadania, associações
ambientalistas e de defesa do consumidor,
partidos e organizações de esquerda do Brasil e
do exterior (aí incluídos a Internacional
Socialista, os zapatistas mexicanos, a CubaWeb, o
The Marx/Engels Archives).
A integração
por links proporciona uma maior aproximação da
instância partidária com seus filiados e
simpatizantes. Acessando com freqüência a
página, os militantes podem consultar
comunicados e documentos, conhecer os pontos de
vista assumidos pela agremiação a respeito de
questões relevantes da vida nacional, participar
de chats com dirigentes e personalidades,
intervir nos debates internos através de listas
de discussão, avaliar o desempenho das bancadas
do partido no Congresso, nas Assembléias
Legislativas e Câmaras Municipais, manter-se
informado sobre eventos e campanhas, comentar o
que leu na correspondência eletrônica. Ou seja,
os usuários têm ao seu dispor um volume de
informações que lhes permite uma avaliação
abrangente sobre o desempenho partidário em
diversos níveis, sem falar na hipótese concreta
de formar juízos e interferir, a seu modo, no
encaminhamento e no desdobramento de
proposições.
IV
O quadro de
expectativas e esperanças aqui delineado não
deve, entretanto, alimentar ilusões fáceis. Em
primeiro lugar, porque a cibermilitância
necessita aprofundar experiências de
comunicação eletrônica, em sintonia com
expectativas e demandas de público-alvo. Em
segundo, porque nos deparamos com um fenômeno ao
mesmo tempo hiperveloz (graças à expansão
tecnológica) e lento (por conta de hábitos
culturais e políticos nem sempre fáceis de
atualizar). Em terceiro, porque precisam ser
aprimorados e popularizados os sistemas de busca
e localização das homepages na vastidão da
Web, como explica o coordenador da Fase, Luiz
Antônio Correia de Carvalho: "A Internet
para nós é fundamental, mas tem tantos sites
que você pode navegar a vida inteira e não
saber que existe determinada página. O difícil
é dizer às pessoas onde está a informação, a
interação, a discussão, o debate". (15)
Não se trata de
transformar a Internet em apanágio de todas as
virtudes. Muito menos de imaginar um Eldorado
digital, habilitado a suplantar o poderio de
veiculação dos megagrupos o que seria,
além de tolice, desconhecer o indiscutível
predomínio dos conglomerados multimídias no
atual cenário de transnacionalização dos
mercados de informação e entretenimento.
Quisemos ressaltar, sim, a emergência de
potencialidades no âmbito virtual, fundadas em
práticas comunicacionais interativas,
descentralizadas e não submetidas aos mecanismos
habituais de seleção e hierarquização
adotados pela grande mídia. As entidades civis
valem-se da Internet enquanto esfera pública de
comunicação, livre de regulamentações e
controles externos, para veicular informações e
análises quase sempre orientadas para o
fortalecimento da cidadania e para o
questionamento de hegemonias constituídas.
Significa
apontar e valorizar espaços alternativos e
promissores de difusão de conteúdos
contra-hegemônicos, sob inspiração das
plataformas reivindicantes de organismos sociais
e políticos que se opõem à lógica perversa de
reprodução do capital. A propósito, Manuel
Castells sublinha a importância estratégica de
"se utilizar o enorme potencial da Internet,
por exemplo, para reviver a democracia, não
enquanto substituição da democracia
representativa por meio do voto, e sim para
organizar grupos de conversação, plebiscitos
indicativos e consultas sobre distintos temas,
disseminando informações na sociedade".
(16)
A maioria das
ONGs pesquisadas se mostra consciente das
vantagens de curto, médio e longo prazos da
comunicação virtual: barateamento dos custos;
abrangência global; velocidade de transmissão;
autonomia frente às diretivas ideológicas e
mercadológicas dos impérios de comunicação.
Elas elaboram e disponibilizam, simultaneamente,
uma gama de recursos interativos publicações,
murais, fóruns e grupos de discussão
eletrônicos. Com isso, seguem a diretriz central
de multiplicar os espaços de conhecimento,
interlocução e participação, em um mesmo
site.
As ferramentas
da WEB podem propiciar aos movimentos sociais uma
intervenção ágil em assuntos específicos,
acentuando-lhes a visibilidade pública. Outro
fator positivo é a constituição de comunidades
virtuais por afinidades eletivas. Formam-se,
assim, coletivos em rede, por aproximações
temáticas, anseios e práticas comuns de
cidadania. Eles compartilham ações
sociopolíticas, tendo em vista o fortalecimento
dos laços comunitários e de uma ética por
interações, assentada em princípios de
diálogo, de cooperação e de participação.
(17) "Tanto a Internet quanto as ONGs têm a
tendência de formar comunidades, assim como
defender a liberdade é uma característica
marcante dos dois sistemas", observa Sérgio
Góes, diretor-executivo da Rede de Informações
do Terceiro Setor, instituição privada,
autônoma e sem finalidade lucrativa, mantida com
o apoio financeiro de agências privadas e
públicas, nacionais e internacionais. (18)
No ambiente
virtual desde a sua criação, em 1997, a Rits
fornece informações, serviços e apoio em
tecnologias de comunicação e informação, com
o objetivo de modernizar as formas de gestão de
organismos da sociedade civil. Sérgio Góes
ressalva que "ainda falta muito para que as
organizações conquistem um grande espaço no
mundo virtual." Para ele, "a Internet
tem enorme potencial para a mobilização, mas
não podemos deixar de levar em consideração
que apenas 2% da população brasileira têm
acesso a ela". (19) Para melhorar esse
quadro, a Rits e a Ongnet, primeiro provedor do
Terceiro Setor, de Minas Gerais, estão
organizando e fomentando o desenvolvimento de
novas redes, integrando as organizações e
potencializando o uso de novas tecnologias e
serviços.
Com efeito, pelo
menos dois quesitos desafiam o pleno
aproveitamento da Internet pelos movimentos
progressistas: 1) a necessidade de políticas
competentes de comunicação eletrônica, capazes
de ampliar o raio de difusão dos sites, ainda
restrito; 2) a exigência de se ampliar
substancialmente o número de usuários plugados,
o que pressupõe a superação de obstáculos
econômico-financeiros (custos de computadores,
modems, linhas e tarifas telefônicas, provedores
de acesso) e a simplificação dos procedimentos
informáticos para se acessar a rede.
Tornar as
páginas mais conhecidas dos internautas implica
expandir redes, parcerias e intercâmbios;
divulgar sistematicamente os sites junto a
setores da sociedade civil, tanto pelos meios
tradicionais, como por boletins e eventos
eletrônicos; e promover chats, conferências e
seminários voltados à discussão de
estratégias comunicacionais para a Internet.
Isto é decisivo para fazer sobressair as
reivindicações no oceano virtual. (20)
Desejo, por fim,
endossar a reflexão do filósofo italiano
Antonio Negri. Com serena lucidez, ele não vê
esplendor nas tecnologias de comunicação, e sim
a virtualidade de mudanças que nos convidam a
imaginar horizontes, "quer de um
desenvolvimento da informática no sentido de uma
nova e mais poderosa barbárie, quer de uma nova
tomada de consciência da resistência e da
possibilidade de retomarmos nas mãos da
multidão o desenho do futuro". Nenhum
catastrofismo, assinala Negri, mas um empenho de
luta, conscientes de que as transformações que
se processam no âmago das redes podem facultar
à inteligência humana novos meios de
revolução. (21)
_______
NOTAS
(1) Pierre Lévy. Cyberculture.
Rapport au Conseil de lEurope. Paris: Odile
Jacob, 1997, p. 129-149. Consultar também:
Derrick de Kerckhove. Connected intelligence: the
arrival of the Web society. Toronto: Somerville
House Publishing, 1997.
(2) Ver Dênis de Moraes.
"Novos paradigmas éticos na comunicação
virtual", em Z Revista eletrônica do
Programa Avançado de Cultura Contemporânea da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, nº 1,
julho de 1999. Disponível em: www.ufrj.br/pacc/z
(3) Marc Guillaume.
Lempire des réseaux. Paris: Descartes
& Cie, 1999, p. 72.
(4) María Peñuelas, citada em
"El ciberactivismo despega en la rede",
El País, 7 de novembro de 1999.
(5) Ilse Scherer-Warren.
"Redes e espaços virtuais (para a pesquisa
de ações coletivas na era da
informação)", Cadernos de Pesquisa do
Programa de Pós-Graduação em Sociologia
Política da Universidade Federal de Santa
Catarina, nº 11, julho de 1997.
(6) Entrevista de Neuri Rosseto
a Dênis de Moraes para o projeto de pesquisa
"Estratégias de mídia na era
tecnológica". CNPq/Faperj/UFF, 13 de agosto
de 1998. O site do MST é http://www.mst.org.br
(7) Para acessar as páginas
pró-zapatistas, basta digitar:
http://www.ezln.org/links.html. Sobre a ação
comunicacional do EZLN na Internet, consultar o
ensaio de Harry Cleaver, The Zapatista Effect:
The Internet and the Rise of an Alternative
Political Fabric, disponível em
www.uff.br/mestcii/cleaver.htm. Harry Cleaver,
professor da Universidade do Texas em Austin,
edita o Zapatistas in Cyberspace
(http://www.eco.utexas.edu/faculty/Cleaver/zapsincyber.html),
o mais completo guia de sites, artigos,
comunicados, documentos e fotos sobre os
zapatistas.
(8) Iam Graham, citado por
Nicole Penicaut e Emmanuele Peyret,
"Travailleurs de tous les pays
connectez-vous", Libération, 25 de abril de
1997.
(9) Roberto Pereira, citado por
Elisa Travalloni, "Exercício da cidadania
cresce com a rede", Jornal do Brasil, 15 de
dezembro de 1999. O site do Cedus é
http://www.cedus.org.br
(10) Entrevista de Milton Temer
a Danielle Abreu Alonso, bolsista PIBIC/CNPq no
projeto de pesquisa "Estratégias de mídia
na era tecnológica", CNPq/Faperj/UFF, 20 de
maio de 1998.
(11) María Peñuelas, citada
em "El ciberactivismo despega en la
rede", El País, 7 de novembro de 1999.
(12) O site da Anistia
Internacional é http://www.amnesty.org; o da
CNBB, http://www.cnbb.org.br; o do Cedus,
http://www.cedus.org.br
(13) Com sede no Rio de
Janeiro, a Fase é patrocinada por um consórcio
de 12 agências internacionais da Holanda, da
Grã-Bretanha e da Alemanha. Seu site é
http://www.fase.org.br
(14) O site da CUT é
http://www.cut.org.br
(15) Entrevista de Luiz
Antônio Correia de Carvalho a Olívia Bandeira
de Melo Carvalho, bolsista PIBIC/CNPq no projeto
de pesquisa "A cibermilitância:
perspectivas para movimentos sociais e políticos
na Internet", em 24 de julho de 2000.
(16) Manuel Castells. "La
izquierda tiene una actitud retrógada respecto a
las tecnologías de la información", em
Enredando, Barcelona, 21 de outubro de 1997,
disponível em
http://enredando.com/entrevistas3.html. Ver ainda
a entrevista de Castells a René Lefort, "El
nuevo papel del ciudadano ante la revolución de
Internet", Correio da Unesco (versão
espanhola), outubro de 1999.
(17) Ver Dênis de Moraes.
"Novos paradigmas éticos na comunicação
virtual", ob. cit.
(18) O site da Rits é
http://www.rits.org.br
(19) Sérgio Góes, citado por
Elisa Travalloni, "Exercício da cidadania
cresce com a rede", Jornal do Brasil, 15 de
dezembro de 1999.
(20) A Rits tem planos de criar
o Portal da Cidadania, justamente para reunir, em
um único site, informações de um abrangente
conjunto de ONGs filiadas, evitando a dispersão
por muitas páginas. Os usuários encontrariam
dados sobre uma série de temas relacionados às
entidades filiadas. Desejando aprofundar-se em
determinado assunto, o internauta seria
instruído a pesquisar na homepage da
instituição correspondente. Entrevista de Paulo
Henrique Lima, editor da Revista do Terceiro
Setor, da Rits, a Olívia Bandeira de Melo
Carvalho, bolsista PIBIC/CNPq no projeto de
pesquisa "A cibermilitância: perspectivas
para movimentos sociais e políticos na
Internet", em 25 de julho de 2000.
(21) Antonio Negri, "A
melancolia dos catastrofistas: novos modos de
revolução ainda podem surgir com as mudanças
da informática", Folha de S. Paulo (Mais!),
24 de novembro de 1996.
*
Dênis de Moraes,
doutor em Comunicação pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro, é
professor do Programa de Pós-Graduação em
Comunicação, Imagem e Informação da Universidade Federal
Fluminense, do Brasil. Este
artigo resulta de pesquisa apoiada pelo Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Es colaborador de Sala de Prensa.
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