A
antigüidade greco-romana, o lead
e a contemporânea narrativa jornalística
Francisco
José Karam *
A
origem do lead, ao contrário do que
consideram alguns manuais ou discursos, não é
responsabilidade exclusiva do jornalismo
norte-americano ou inglês. Não surge do acaso
ou por um simples arbítrio na articulação do
discurso. Certamente, a linguagem jornalística
valeu-se - e aí entra a tradição inglesa e
norte-americana do discurso jornalístico- da
tradição greco-romana em relação ao uso das
palavras e ao discurso claro e convincente.
Oitenta
anos antes da era cristã
Em Roma,
filósofos retomam a tradição grega da
Retórica, entre eles o exímio orador Marco
Túlio Cícero. Os retores, entre os quais
Platão, Aristóteles e Protágoras (cerca de 400
anos antes da era cristã), na Grécia Antiga,
já haviam consolidado a idéia de que o discurso
deveria ser bem articulado e acessível às
massas. A técnica (technikós) já
representava a habilidade em fazer, a arte
de fazer e, hoje, situa-se como o
"conjunto de regras práticas ou
procedimentos adotados em um ofício de modo a se
obter os resultados visados". A persuasão,
que integra o processo de argumentação
retórica, já envolvia um modelo de
organização do discurso que expunha os fatos,
os demonstrava e concluía. No discurso, para os
filósofos gregos e, posteriormente, para os
filósofos, oradores e juristas romanos antigos,
havia já três qualidades essenciais: a
brevidade, a clareza e a verossimilhança (brevis,
dilucida e verisimilis ou probabilis).
Para que a
exposição fosse completa exigia-se, no entanto,
alguns elementos essenciais. Cícero, em De
Inventione, relacionou os aspectos essenciais
para que o texto se tornasse completo. Para o
famoso orador romano, era preciso responder as
perguntas quem? (quis / persona) o quê? (quid
/ factum) onde? (ubi / locus)
como? (quemadmodum / modus)
quando?(quando / tempus) com que
meios ou instrumentos (quibus adminiculis
/ facultas) e por quê (cur / causa).
As proposições de Cícero, originadas na
Retórica da Antigüidade Grega, foram paradigma
da exposição de acontecimentos nos dois
milênios seguintes. Em diversos momentos, ao
longo de tal período, as circunstâncias
do fato tiveram grande relevância na
constituição de uma ética da palavra,
sendo exemplarmente utilizada no discurso
jurídico e na argumentação filosófica. Com
isso, buscava-se convencer para a validade moral
de um fato e sobre ele emitia-se juízos de
valor.
A separação
entre o sapere e o dicere (o
conhecimento separado de sua representação
verbal) representou uma ruptura negativa na
ordenação discursiva e no conhecimento público
do entorno social, culpa em parte atribuída a
filosófos afastados da intervenção social.
Eles separaram res de verba, a
coisa de sua representação. A recuperação da
retórica contemporânea em sua dimensão
cognitiva permite também separar o discurso
retórico sem bases factuais (a plena
subjetividade) do que tem bases factuais (que
inclui elementos de subjetividade mas objetiva-se
, culmina em determinados acontecimentos,
considerados fatos, e, no discurso jornalístico,
fatos jornalísticos). Assim, a proposição
retórica deve atuar, no jornalismo, por
verossimilhança, recorrendo à arte de dizer,
que desde os gregos antigos cresce e povoa a
história.
A clareza, já
em Aristóteles, e portanto antes mesmo de
Cícero, deveria buscar concentrar e resumir as
coisas, no sentido de torná-la compreensível.
Renato Barilli
lembra que a retórica envolve o docere
(transmissão de noções intelectuais), o movere
(atingir os sentimentos) e o delectare
(manter viva a atenção do auditório, sem se
deixar dominar pelo aborrecimento, pela
indiferença e pela distração). Por isso, a
linguagem deve ter um caráter claramente
acessível, já que "se dirige não a mentes
superiores, a espíritos puros, mas a homens de
carne e osso, sujeitos portanto ao cansaço e ao
tédio, vulneráveis a raciocínios demasiado
difíceis".
Na
imediaticidade em que atua o jornalismo, os
elementos retóricos da antigüidade greco-romana
constituem eixos fundamentais de seu discurso. É
com esta perspectiva, baseada na arte de dizer,
resultado da habilidade em fazer, que se
estrutura o discurso jornalístico. A escola
norte-americana e inglesa de jornalismo tomou o
que havia de melhor na arte de dizer para
imprimir o ritmo da lógica informativa
específica do jornalismo na segunda metade do
século passado e durante o século 20. Por isso,
as atribuições de que a pressa para ler, o
telégrafo que poderia cair, o tempo disponível
de leitura - fatores da incipiente modernidade e
do assoberbado ritmo atual - , quando
consideradas razões primeiras ou exclusivas para
o surgimento e permanência do lead,
desmentem-se pela necessidade de uma arte de
dizer e convencer, no que gregos e romanos
foram mestres.
Profissionais e
pesquisadores da área, quando tratam do lead
e das narrativas, quando falam de linguagens e
ideologia, poderiam perfeitamente buscar, na
antigüidade greco-romana - e não no que alguns
errônea e pejorativamente chamam hoje de
"tecnicismo" - , as bases ontológicas
do surgimento de sua atividade específica; as
bases morais da ética da palavra e da
profissão jornalística, mesmo que a sociedade
de então, por tempo, cultura, ritmo e demais
razões óbvias, sequer pudesse conceber qualquer
vestígio futuro do hoje chamado Jornalismo.
* Francisco
José Karam e
jornalista, Doutor em Comunicação e Semiótica,
Professor do Curso de Jornalismo da Universidade Federal
de Santa Catarina (Brasil)
e autor de Jornalismo,
Ética e Liberdade
(São Paulo: Summus, 1997). Integra, em Santa
Catarina, a comissão do Programa Nacional de
Qualidade de Ensino em Jornalismo da Federação Nacional dos Jornalistas do
Brasil. Esta es su primera
colaboración para Sala de Prensa.
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