Possibilidade
de aplicação do
Jornalismo de Precição no Jornalismo
Científico
Lara
de Lima - Nilson Lage *
Resumo.
Procura-se verificar a aplicabilidade do
Jornalismo de Precisão na prática do jornalismo
científico, utilizando-se a técnica Delfos
junto a um grupo de dez jornalistas científicos
brasileiros selecionados entre profissionais do
mercado e da academia. Estes jornalistas são
questionados sobre fundamentos e procedimentos do
Jornalismo de Precisão identificados no livro
"The New Precision Journalism", de
Philip Meyer.
Palavras-chave:
Jornalismo científico, Jornalismo de
Precisão, Informações científicas e
tecnológicas
1.
INTRODUÇÃO
Buscou-se
compreender melhor a especialidade jornalística
de divulgação de ciência e tecnologia, ou
jornalismo científico, investigando sobre uso ou
recomendabilidade do Jornalismo de Precisão
nesta atividade. Segundo Philip Meyer, Jornalismo
de Precisão é a aplicação de métodos
científicos de investigação social e
comportamental à prática do jornalismo (Meyer,
1993, p. 14). "Consiste em aproximar o
jornalismo do método científico, incorporando
os poderosos instrumentos de que a ciência
dispõe, tanto para a coleta como para análise
de dados, assim como na busca sistematizada de
uma verdade verificável" (Idem, p. 29).De
acordo com José Luis Dader, entre os métodos
referidos por Meyer estão a sondagem ou pesquisa
de opinião, o experimento psicossocial e a
análise de conteúdo (Idem, p. 15).
No ponto de
vista do jornalista espanhol, o Jornalismo de
Precisão excede o campo da sociologia, uma vez
que outras áreas da pesquisa científica - como
a investigação médica ou biológica e estudos
sobre o meio ambiente - foram abordadas com os
seus métodos. A proposta essencial do Jornalismo
de Precisão é a produção de argumentos e/ou
contra-argumentos pelos jornalistas, com base em
pesquisas próprias. A Reportagem Assistida por
Computador (Computer Assisted Reporting),
que prevê a realização de reportagens a partir
de informações de bases de dados, é a variante
do Jornalismo de Precisão que mais cresce entre
as "atuações de precisão" (Idem, p.
13), destaca Luis Dader.
2.
METODOLOGIA
Como o enfoque
desta pesquisa está na apuração de
informações científicas e tecnológicas,
concluiu-se que o melhor meio de realizá-la é
pelo questionamento dos jornalistas da área. A
aplicação da técnica Delfos que
consiste em entrevistas estruturadas com
especialistas via e-mail (Woundenberg,
1991, p. 133) viabilizou a consulta
simultânea a um grupo de jornalistas
científicos dispersos geograficamente no
território brasileiro. Na análise dos
resultados foram considerados os dez jornalistas
que participaram das duas etapas da pesquisa
(primeiro e segundo questionários).
Outros três
profissionais foram descartados porque, além de
não responderem ao segundo questionário, não
confirmaram suas respostas mediante a
apresentação dos argumentos dos colegas a
respeito do primeiro questionário, conforme
prevê a técnica (Idem). Nesta pesquisa, Delfos
foi aplicada com anonimato parcial, uma vez que
quatro dos dez especialistas do painel estão
vinculados ao curso de especialização em
jornalismo científico do Laboratório de Estudos
Avançados em Jornalismo (Labjor), da Unicamp.
Nas análises enviadas aos especialistas, estes
foram identificados com letras (que indicam o
grupo) e números (que identificam o jornalista,
conforme a ordem alfabética), da seguinte
maneira:
Grupo A
(jornalistas do mercado) - A1, A2, A3
e A4;
Grupo B
(alunos do Labjor) - B1, B2, B3
Grupo C (professores
de jornalismo científico) - C1, C2,
C3
Como o presente
trabalho restringe-se à cobertura de temas das
ciências naturais e exatas e dos relativos à
Economia, incluiu-se, entre os procedimentos
propostos por Meyer, Metodologia das Ciências da
Natureza. Assim, a elaboração dos
questionários levou em conta os seguintes
fundamentos e procedimentos: "saber como e
onde encontrar informações" (1),
"saber avaliá-las e selecioná-las"
(2), "saber transmiti-las" (3),
"saber analisá-las" (4)
"tornar-se especialista" (5), "uso
de Internet e base de dados" (6),
"aplicar metodologias das Ciências
Sociais" (7), "aplicar metodologias
científicas" (8) "uso de
estatística" (9) "produzir argumentos
e contra-argumentos" (10).
O Jornalismo de
Precisão, cujo conceito ainda é pouco difundido
no país, não foi mencionado junto aos
entrevistados: tomou-se esta decisão por
perceber que esta omissão não traria qualquer
prejuízo à sondagem.
3.
RESULTADOS
3.1. Primeira
Parte
Segue a análise
das questões da modalidade "Considerando a
realidade brasileira, pode-se afirmar que, de
maneira geral, os jornalistas e editores de
ciência e tecnologia":
- Sabem onde
e como encontrar informações de modo a
produzir ou complementar suas pautas?
- Têm o
conhecimento necessário para avaliar o
interesse jornalístico de pesquisas e
descobertas científicas e selecionar as
de maior interesse público?
- Sabem de
que forma transmitir as notícias de
ciência e tecnologia para que atinjam o
público interessado?
- Utilizam
métodos científicos (amostragem,
tabulação etc.) para analisar e
interpretar informações sobre ciência
e tecnologia?
- Têm perfil
de especialista?
- Utilizam
Internet e bancos de dados para coletar
dados complementares em suas matérias?
Os jornalistas
do mercado (grupo A) foram unânimes em responder
afirmativamente à questão 1, conforme mostra a
Figura 1 Na avaliação dos especialistas deste
grupo, isto significa que os jornalistas
brasileiros que se dedicam exclusivamente à
área de ciência e tecnologia têm bons contatos
com pesquisadores e assessorias. Conforme
ressalva um deles, as pautas nem sempre são
boas.

Figura 1 (freqüência
por grupo das respostas afirmativas à questão
1do primeiro questionário)
A maior parte
dos professores de jornalismo científico (66,6%,
dois em três) compartilha das opiniões do grupo
A, e respondeu positivamente à questão. Mesmo
favorável à afirmativa, contudo, o grupo dos
professores pondera que as universidades e
centros de pesquisa são subutilizados. Para o
único professor que discorda da maioria,
assinalando negativamente a afirmativa, a falta
de preparo da comunidade científica no
atendimento à imprensa dificulta o acesso às
fontes para a grande maioria dos jornalistas
científicos.
Entre os alunos
do curso do Labjor a opinião de que os
jornalistas brasileiros da área de ciência e
tecnologia dispõem de tais habilidades é
reiterada por apenas um dos três integrantes do
grupo (33,3%). Ao avaliar o estágio atual do
jornalismo científico do país, a maioria dos
integrantes do grupo B conclui que, de forma
geral, os profissionais da especialidade dependem
muito dos mecanismos de distribuição de
informações científicas e tecnológicas. Dois
dos alunos concordam com as ponderações dos
professores: argumentam que os jornalistas
científicos não especializados desconhecem
pesquisas de institutos científicos e de
empresas privadas e, por isso, procuram fontes
não especializadas.
Também para o
grupo B o "saber como e onde encontrar
informações" está relacionado ao cultivo
das relações com os cientistas. No entanto,
para este grupo de especialistas, o background
dos jornalistas científicos é outro fator
que influencia a maior ou menor habilidade na
busca de informações.
A maioria dos
especialistas do mercado (75%, três em quatro)
entende que os jornalistas científicos em geral
têm conhecimento necessário para selecionar as
notícias científicas de maior interesse,
conforme mostra a Figura 2. Para o grupo A, este
é um dos pré-requisitos para se fazer boas
publicações de jornalismo científico. A
afirmativa também ganhou a adesão de dois dos
três professores de jornalismo, que representam
66,6% dos jornalistas do grupo C.

Figura 2
(freqüência por grupo das respostas afirmativas
à questão 2 do primeiro questionário)
Os argumentos
discordantes são bastante semelhantes nos três
grupos do painel. O grupo B, que lidera as
opiniões contrárias à afirmativa, avalia que
os meios de comunicação divulgam pouco a
ciência brasileira, restringindo-se a publicar
notas estrangeiras de forma sensacionalista.
Atribui isso à falta de conhecimento dos
profissionais. Tanto o discordante do grupo A
quanto o do grupo C argumentam que, devido ao
preparo insuficiente e à baixa cultura
científica, a produção jornalística fica
limitada ao que a comunidade científica repassa.
O grupo B
também avalia que, de forma geral, a imprensa
dá preferência a assuntos curiosos, que atraem
a atenção pública, em detrimento de outros
mais importantes, como saúde preventiva. Para os
alunos do Labjor, embora as notícias de ciência
atualmente difundidas tenham importância, muitas
pesquisas interessantes ficam de fora,
principalmente entre as desenvolvidas por
pesquisadores brasileiros. Falta utilizar o
jornalismo investigativo para decifrar, nos
projetos de pesquisa da área, o interesse
público. Nesta última avaliação, referem-se
diretamente ao gênero jornalístico que mais se
aproxima do Jornalismo de Precisão.
O grupo de
professores considera que a qualidade das
notícias de ciência e tecnologia divulgadas
pela imprensa varia muito de um veículo para o
outro: Algumas revistas, jornais de circulação
nacional e alguns programas de televisão que se
destacam neste sentido têm dado destaque para
assuntos relacionados à alimentação,
informática, astronomia, genética e ecologia.
Na opinião de um deles, os meios de
comunicação não estão contribuindo com a
formação de uma cultura favorável ao
jornalismo científico no país, na medida em que
não costumam relacionar as descobertas
científicas e tecnológicas às condições de
vida das pessoas.
Ao comparar-se
as opiniões dos especialistas em relação aos
dois primeiros fundamentos analisados,
verifica-se que as respostas coletivas repetem-se
quase que integralmente. A semelhança entre as
opiniões dos grupos A e C pode ser visualizada
nas figuras 1 e 2. Enquanto os jornalistas
do mercado e os professores de jornalismo tendem
a assumir posicionamentos parecidos quando
questionados objetivamente sobre os fundamentos
do Jornalismo de Precisão, pendendo fortemente
para uma avaliação positiva do jornalismo
científico brasileiro, os especialistas do grupo
B são mais propensos a enxergar imperfeições
na prática dessa especialidade. Há que se
observar , nos argumentos dos especialistas, uma
proximidade entre as razões expressas pelos
alunos do Labjor e as ressalvas feitas pelo grupo
C, que tem entre os seus integrantes um professor
do Labjor.
Em relação ao
terceiro fundamento avaliado, que se refere à
transmissão de informações, o quadro das
opiniões já traz algumas variações: "De
maneira geral, os jornalistas e editores de
ciência e tecnologia sabem de que forma
transmitir as notícias para que atinjam o
público interessado?" Nas respostas a esta
pergunta, chamam a atenção as opiniões do
grupo B: embora tenha sido o mais crítico em
relação à prática da especialidade no Brasil,
neste quesito foi o mais otimista. Para dois dos
três alunos do Labjor (66,6%), os jornalistas
dominam esta habilidade (Figura 3).
No entanto, o
grupo ressalva que ocorrem falhas na tradução
da jargão científico para a linguagem coloquial
e nas tentativas de abordar os fatos pelos
aspectos que os vinculam à realidade dos
leitores, ouvintes e telespectadores.
Em relação à
transmissão de informações, a opinião
majoritária do grupo C manteve-se a mesma das
avaliações anteriores. De acordo com as
opiniões de dois dos três professores de
jornalismo científico (66,6%), no Brasil os
profissionais dessa especialidade sabem como
transmitir notícias científicas e tecnológicas
de forma acessível ao público não
especializado. No ponto de vista deles, esses
profissionais entendem tanto da transmissão dos
assuntos científicos e tecnológicos quanto os
jornalistas de outras editorias sabem como
transmitir as notícias das áreas
correspondentes.
Se para o grupo
B a transmissão de informações é o fundamento
melhor assimilado pelos jornalistas científicos
brasileiros - entre os já avaliados -, os
jornalistas do mercado ficaram equilibradamente
divididos a este respeito. Do primeiro para o
segundo fundamento, as opiniões do grupo A
deixaram de ser consensuais e, na análise da
transmissão de informações, suas respostas
afirmativas ficaram restritas à metade dos
especialistas. Tanto os que persistiram no
"sim" quanto os que assinalaram
"não" avaliam que a transmissão de
informações é a tarefa mais difícil do
jornalismo científico: colocar a informação
científica apurada em termos claros, acessíveis
e interessantes ao grande público. No
modo de ver dos que responderam negativamente à
questão, contudo, os jornalistas não dispendem
esforços suficientes para transmitir bem as
informações por subestimar o interesse do
público por notícias científicas e
tecnológicas.

Figura 3
(freqüência por grupo das respostas afirmativas
à questão 3 do primeiro questionário)
O fundamento que
recebeu o menor grau de confirmação do painel
de especialistas - em relação à sua
incorporação na prática corrente do jornalismo
- foi a análise de informações científicas e
tecnológicas com o uso de métodos científicos.
Apenas um dos dez especialistas consultados
considera que os jornalistas científicos do
país utilizam métodos científicos (amostragem,
tabulação etc.) para analisar e interpretar
informações do universo científico (Figura
4). À exceção deste professor de jornalismo
científico - que inclusive faz referência ao
Jornalismo de Precisão -, todos os jornalistas
que responderam a esta questão (apenas um dos
jornalistas a deixou em branco) avaliam que a
utilização de tais métodos não é comum na
prática atual da especialidade.

Figura 4 (freqüência
por grupo das respostas afirmativas à questão 4
do primeiro questionário)
Questionados
sobre o perfil geral dos jornalistas científicos
brasileiros, sete dos dez especialistas
responderam que tais profissionais não são
especialistas (Figura 5). No contexto desta
pesquisa, especialistas são os jornalistas que
atuam na área de ciência e tecnologia e se
dedicam a especializar-se nesta especialidade,
objetivando melhorar seu desempenho por meio da
prática, do cultivo das fontes, da atualização
constante e do estudo, formal ou informal, dos
conhecimentos que o auxiliam na profissão.
Conforme mostra a figura abaixo, somente um
especialista de cada grupo avalia que os
jornalistas brasileiros da área de ciência e
tecnologia têm este perfil.

Figura 5
(freqüência por grupo das respostas afirmativas
à questão 7 do primeiro questionário).
Para cada grupo
do painel, a resposta afirmativa de um único
componente tem representatividade diferente:
enquanto para os grupos B e C tal opinião
significa 33,3% do total, no grupo A essa
dissidência representa 25% das avaliações dos
especialistas.
A utilização
de Internet foi confirmada por 90% dos
especialistas, enquanto o uso de bancos recebeu
confirmação de 100% (entre os nove
especialistas que responderam à questão). Tanto
o jornalista que não respondeu ao item bancos de
dados quanto o que respondeu negativamente ao uso
de Internet são do grupo B, de alunos do Labjor.
3.2. Segunda
Parte
No entanto,
essas foram as avaliações da situação
presente. Ao traçar perspectivas para o futuro
da prática do jornalismo científico, o painel
recomenda a aplicação dos fundamentos e dos
procedimentos do Jornalismo de Precisão. Todos
os especialistas consideram importante que os
jornalistas científicos brasileiros "saibam
como e onde encontrar informações" e
"assumam postura analítica em relação aos
assuntos de ciência e tecnologia". Nove
deles vêem importância no esforço dos
jornalistas científicos em "tornar-se
especialistas" (o jornalista dissidente é
do grupo A) e sete acham importante que
"produzam argumentos e
contra-argumentos" (dois dos dissidentes
são do grupo A e o outro do grupo C).
Para comparar os
níveis de importância indicados pelo painel a
cada um estes fundamentos, atribuíram-se os
valores de 5, 3 e zero às respostas "muito
importante", "importante" e
"sem importância", respectivamente.
Assim, os fundamentos avaliados tiveram a
seguinte ordem de importância:
1 - Os
jornalistas científicos devem saber como e onde
encontrar informações (48 pontos)
2 - Os
jornalistas científicos devem tornar-se
especialistas (41 pontos)
3 - Os
jornalistas científicos devem assumir postura
analítica diante dos fatos científicos e
tecnológicos (38 pontos)
4 - Os
jornalistas científicos devem produzir seus
próprios argumentos e contra-argumentos (23
pontos)
Procurou-se
comparar o fundamento que representa a essência
do Jornalismo de Precisão, - "produção de
argumentos e contra-argumentos" - com outros
cuja importância já é bastante reconhecida no
meio jornalístico. Ficou confirmada à sua menor
recomendabilidade em relação aos outros
requisitos, os quais são amplamente discutidos
em relação jornalismo científico.
Quanto aos
procedimentos do Jornalismo de Precisão,
Metodologia das Ciências da Natureza e
Estatística receberam adesão de 90% (ambos os
itens receberam uma resposta "sem
importância" do grupo C). Já Metodologia
das Ciências Sociais obteve 80% de
recomendabilidade (um membro do grupo A e um do
grupo C consideram este item "sem
importância"). Atribuindo-se os mesmos
valores usados na comparação dos fundamentos,
obteve a seguinte ordem de importância desses
procedimentos: Metodologia das Ciências da
Natureza (33 pontos); Metodologia das Ciências
Sociais (30 pontos) e Estatística (27pontos).
4.
CONCLUSÕES
Os fundamentos e
procedimentos do Jornalismo de Precisão
alcançaram altos índices de recomendabilidade
entre os especialistas. Mesmo o mais polêmico
deles, "produção de argumentos e
contra-argumentos" teve a sua importância
reconhecida por 70% deles. A aceitação desta
proposta pelos jornalistas científicos
brasileiros deve aumentar na medida em que se
amplie a divulgação do Jornalismo de Precisão
no país. Mesmo não constando da proposta
original do Jornalismo de Precisão, Metodologia
das Ciências da Natureza mostrou ser ainda mais
importante que Metodologia das Ciências Sociais,
recebendo três pontos a mais, e que
Estatística, em relação a qual obteve mais
seis pontos.
A avaliação
dos especialistas mostra que os jornalistas que
cobrem ciência e tecnologia no Brasil encontram
obstáculos para incorporar à pratica da
especialidade os fundamentos e procedimentos
considerados. Em relação a "saber como e
onde encontrar informações", o maior deles
é a dificuldade de acesso às informações,
relacionada à falta de preparo da comunidade
científica no atendimento à imprensa; ao
desconhecimento dos jornalistas científicos a
respeito de pesquisas desenvolvidas em
instituições e empresas e a subutilização das
universidades e de outros centros de pesquisa
como fontes de informação.
Aplicar os
fundamentos e usar os instrumentos do Jornalismo
de Precisão é uma maneira de enfrentar as
dificuldades citadas na medida em que os
profissionais das assessorias de imprensa e dos
meios estarão melhor capacitados para
identificar pesquisas importantes. Quanto à
falta de preparo da comunidade científica, esta
poderia ser compensada com serviços eficientes
de suas assessorias.
Apesar de a
maioria dos grupos A (75%) e C (66,6%)
considerarem que os jornalistas científicos
brasileiros sabem avaliar o interesse
jornalístico de pesquisas científicas de modo a
escolher aqueles de maior interesse público, a
cobertura jornalística de ciência e tecnologia
não é satisfatória. Conforme apontam os
especialistas de todos os grupos, mesmo o de
professores e o de jornalistas do mercado, a
prática do jornalismo científico apresenta
deficiências, algumas possíveis de se combater
com o Jornalismo de Precisão. Como sugere o
próprio painel, é preciso investigar o que é
de interesse público nas pesquisas científicas,
especialmente as desenvolvidas nacionalmente.
Se abordarem as
pesquisas partindo de modelos teóricos, como
propõe o Jornalismo de Precisão, os jornalistas
científicos terão maiores possibilidades de
produzir notícias e reportagens que dêem aos
leitores e espectadores e ouvintes versões mais
completas dos fatos científicos e tecnológicos.
Na medida em que procurarem evidenciar o
significado das investigações científicas, em
seus esquemas teóricos, a cobertura
jornalística será menos fragmentada e
sensacionalista. A destreza em selecionar as
notícias de interesse público, que segundo a
maioria dos especialistas qualifica os
jornalistas científicos brasileiros em geral,
pode ser aguçada com o uso das ferramentas do
Jornalismo de Precisão. A partir de então,
informações importantes para a vida das pessoas
vão competir com os assuntos curiosos.
Embora a maioria
dos especialistas (60%) considere que os
jornalistas científicos sabem como transmitir as
informações científicas, todos concordam que
esta é a tarefa mais difícil do jornalismo
científico. Partindo do princípio de que o
aperfeiçoamento do trabalho de apuração tem
reflexos na emissão de informações, aplicando
o Jornalismo de Precisão os profissionais
avançarão nesta tarefa.
Na avaliação
da grande maioria dos especialistas, os
jornalistas científicos brasileiros já utilizam
bancos de dados (100%) e Internet (90%).
Entretanto, não se investigou a respeito da
forma de utilização destes recursos e sobre a
sua importância na elaboração das matérias.
Seria preciso uma pesquisa mais detalhada para
verificar se a Reportagem Assistida por
Computador (CAR), variante do Jornalismo de
Precisão, é usada por jornalistas científicos.
Neste caso não se consideraria os jornalistas
científicos em geral - que certamente não se
utilizam deste recurso - mas se procuraria
identificar condutas isoladas com este perfil.
Ainda assim, a utilização de Internet e de
bancos de dados na busca de informações já
representa um primeiro passo para a aplicação
da CAR.
5.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MEYER, P. Periodismo de
precision. Barcelona, Bosch, 1993. Tradução
José Luis Dader, 329 p.
WOUNDENBERG, F. An evaluation
of Delphi. Tecnological Forecasting and Social
Hange, New York, v. 40, n. 2, pp. 131-150, 1991.
* Lara
Viviane Silva de Lima - Nilson Lemos Lage. Programa de Pós-Graduação em
Engenharia de Produção, Área de Mídia e
Conhecimento. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil. Ambos son
colaboradores de Sala de Prensa.
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