O Povo e Correio
Braziliense, processados
Quem
é o réu?
Ana
Márcia Diógenes *
Equilíbrio.
Seriedade. Respeito à história. O tripé -
essencial ao cumprimento da ética e do
jornalismo saudável - foi, mais uma vez, o
único caminho adotado pela equipe do O Povo
na execução da série de matérias sobre
denúncias de torturas que teriam sido praticadas
em 1970, pelo então delegado da Polícia Federal
no Maranhão, João Batista Campelo, contra o
ex-padre católico José Antônio Monteiro.
Nomeado pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso
para a direção-geral da Polícia Federal em
junho deste ano, Campelo chegou a assumir o
cargo, no qual passou menos de 72 horas, e acabou
renunciando, pressionado por denúncias de que
teria comandado sessões de tortura durante o
regime militar.
O Povo,
de posse de documentos da Justiça Militar e de
depoimentos de pessoas que, direta ou
indiretamente, estiveram envolvidas no caso em
que o ex-padre afirma ter sido vítima de
tortura, fez uma série de matérias, inclusive
cadernos especiais, sobre o caso. A própria
sociedade reconheceu a importância da
cobertura. O jornal recebeu inúmeras
correspondências de apoio ao trabalho realizado
e a cobertura foi premiada com o Esso Regional
Nordeste de 1999. Agora, tanto O Povo ,
como o Correio Braziliense e o ex-padre
estão sendo processados em ação ordinária por
danos morais, movida por João Batista Campelo.
Bem, estes são
o lead e o sub-lead. Vamos fazer um exercício de
volta ao passado, que é recente na veiculação
das matérias, e antigo em relação ao tempo dos
fatos.
1.
A indicação
Após três
meses sem definir um nome para ocupar a Direção
da Polícia Federal, o presidente Fernando
Henrique Cardoso indicou o delegado João Batista
Campelo. Para reavivar a memória: a nomeação
aconteceu em meio à disputa política entre o
então ministro da Justiça, Renan Calheiros, que
não admitiria intervenções na área da
Polícia Federal (como combate ao narcotráfico e
o cuidado de estrangeiros no País) e o general
Alberto Cardoso, então Chefe da Casa Militar.
2.
A denúncia
João Batista
Campelo foi denunciado pelo ex-padre José
Antônio Monteiro, que o acusava de
participação em sessões de tortura em 1970,
durante a ditadura militar. Monteiro afirmou que,
naquele período, Campelo teria ajudado os
policiais a colocá-lo num pau-de-arara. Em
entrevista a O Povo, ex-padre disse que,
em 1970, havia sido preso por Campelo em Urbano
Santos, Interior do Maranhão. Relato do
ex-padre: ``Ele (Campelo) queria saber nomes de
pessoas e instituições que me apoiavam e
estavam por trás de minhas ações subversivas,
segundo eles´´. Disse também que não
respondia a essas questões ou o fazia de forma
evasiva e que, nessas ocasiões, era agredido,
recebia bofetões, cotoveladas, murro nas costas
e puxão de cabelo. Contou ter ficado muitas
horas no pau-de-arara, numa situação incômoda,
humilhante, bastante dolorosa e ter recebido
ameaças psicológicas, com pressões à
família, a amigos e outras pessoas. Ao final de
três ou quatro dessas sessões, disse ter sido
obrigado a assinar um documento que não leu, em
que ele se incriminava, reconhecendo e assumindo
que era subversivo.
"Depois de
uns 15 dias, saí da Polícia Federal e fui para
a Polícia Militar. Foi quando a Justiça Militar
se dirigiu de Fortaleza para São Luís e ouviu
meu depoimento. Eu disse que tinha sido preso
pelo cidadão João Batista Campelo, torturado na
presença dele, que via as agressões e não
fazia nada. Depois desse depoimento minha prisão
foi relaxada", destacou o ex-padre na
entrevista. Ao ser abordado se alguma vez João
Batista Campelo o teria torturado pessoalmente,
ele respondeu: ``Psicologicamente, sim. E ele
assistia às agressões que eram feitas e sabia
quando eu era colocado no pau-de-arara. Uma das
vezes, depois que me tiraram do pau-de-arara, ele
voltou e continuou a me interrogar. Eu estava
bastante suado, bastante cansado´´.
3.
A defesa
No mesmo caderno
em que publicou a entrevista/denúncia do
ex-padre, O Povo divulgou entrevista com
o acusado João Batista. Ele admitiu ao repórter
ter presidido um inquérito na década de 70,
envolvendo o ex-padre José Antônio de
Magalhães Monteiro e o atual bispo de Viana
(Maranhão), Xavier Gilles de Maupeaou
d´Ableiges, mas que, nas investigações, a
tortura não foi usada como método para obter
confissões. Ele argumentou que Monteiro ``é
louco´´ e o acusou de estar preparando algum
tipo de chantagem. Quando o repórter disse a ele
que o ex-padre ``não acusa o senhor de ter
torturado, mas de ter assistido às torturas´´,
Campelo respondeu que ``Não torturei e nem
assisti a torturas. Não houve sessão de tortura
ou coisas dessa natureza. Nunca houve. É a
palavra dele, entendeu, ao vento, que ele está
jogando´´.
Na entrevista
Campelo observa ainda que o Grupo Tortura Nunca
Mais, de Pernambuco, mandou um fax a ele dizendo
que o nome dele não constava na lista de 20 mil
torturadores. ``Não está nem como torturador,
nem como assistente de tortura, nem como
suspeito. Meu nome está limpíssimo. Nos livros,
nos arquivos da Igreja, está tudo limpo´´,
destacou ele, salientando que nunca havia sido
acusado de tortura, a não ser pelo ex-padre
Monteiro.
4.
Os documentos
A mesma
publicação do dia 12 de junho trouxe, com
exclusividade, documentos da Justiça Militar,
que indicavam ligação do então diretor-geral
da Polícia Federal com o caso. O material
publicado teve como base três documentos que
estavam nos arquivos do advogado cearense Pádua
Barroso, que defendeu os dois religiosos (o
ex-padre e Dom Xavier) no processo por subversão
movido pelo Governo Militar. Nós, do O Povo,
tivemos acesso à cópia de um laudo de exame de
corpo de delito, do inquérito policial assinado
pelo então delegado da Polícia Federal do
Maranhão, João Batista Campelo, e a sentença
do processo na qual os juízes militares mandam
investigar possíveis práticas de abusos contra
o ex-padre. Os documentos apontam indícios de
que Campelo esteve envolvido em algum tipo de
violência praticada contra Monteiro.
Além dos
documentos, várias testemunhas, como Dom Xavier
e o bispo cearense Dom Edmilson Cruz, reafirmaram
a violência contra o ex-padre. Eles disseram ter
visto as marcas no corpo de Monteiro. Ainda na
sua missão de investigar e informar, O Povo
foi ouvir o juiz-auditor militar Ângelo
Rattacaso Júnior, que lembrou detalhes do
processo e disse não só ter estranhado as
circunstâncias da prisão dos religiosos, como
admitiu que uma questão semântica pode ter
disfarçado o que, de fato, houve na época -
tortura. Ele disse que tortura é uma palavra que
veio muito depois, ou seja, não era utilizada
especialmente em épocas de repressão. O termo,
no caso, era coação física e moral. O juiz foi
explícito num dos trechos da entrevista, no dia
15 de junho, ao ser perguntado ``Qual o seu
sentimento, a sua convicção? Houve o mau
trato?´´. ``Claro, se não eu não teria sido
um dos juízes da unanimidade. Foram quatro
militares e um togado, que no caso era a minha
pessoa. Se dissemos tudo isso era porque
estávamos convencidos, dentre outras coisas, que
tinha havido coação física e moral´´.
5.
Investigação ``in loco´´
Para aprofundar
o material jornalístico O Povo enviou
uma equipe de reportagem a Urbano Santos,
cenário dos episódios de 1970, quando o
ex-padre foi preso. Lá, ouviu dos moradores a
confirmação da tortura e outros relatos de
barbaridades que teriam sido cometidas por
Campelo. O material foi publicado em outro
caderno especial, em 19 de junho, um dia após o
então novo diretor-geral da PF pedir demissão.
O lavrador José
Martins, 61 anos, confirmou na ocasião que o
ex-padre teria sido torturado pela equipe do
policial federal João Batista Campelo. Além
disso, ele denunciou que também foi ameaçado de
morte pelo próprio Campelo, ao prestar
depoimento sobre a prisão de Monteiro. José
Martins era um dos líderes comunitários que
trabalhava na organização das Comunidades
Eclesiais de Base (CEBs) em Urbano Santos, a 260
quilômetros de São Luís, capital do Maranhão.
Na entrevista, o
lavrador se emocionou ao lembrar de detalhes da
prisão que, segundo ele, aconteceu no meio da
rua. Após a prisão, o então padre teria sido
levado para um matagal na área rural:
``Torturaram ele, inclusive o Campelo estava
presente. Tiraram a roupa dele no mato. Eu achei
a cueca e o calção e um galho no local´´.
Luiz Martins garantiu que além de ter sido
ameaçado de morte em Urbano Santos, foi vítima
de coação moral outra vezes. ``Ainda tive que
depor três vezes em São Luis e lá eles botaram
um revólver na minha boca, me apontaram uma
metralhadora e uma faca´´. Ao comparecer à
sede da PF, em São Luis, ele diz ter encontrado
o padre deformado e pálido numa cela.
6.
A Posse e a Renúncia
Apesar de todas
as denúncias, o presidente Fernando Henrique
Cardoso empossou João Batista Campelo, e, ao
mesmo tempo, determinou que o ministro-chefe da
Casa Militar, general Alberto Cardoso,
verificasse se seriam procedentes as
acusações contra o novo diretor-geral da PF.
Três dias após a posse, João Batista Campelo
renunciou ao cargo de diretor-geral da Polícia
Federal. Ele anunciou, na ocasião, que a
renúncia seria seu presente de aniversário a
Fernando Henrique e que estava saindo de cabeça
erguida.
7.
O processo
``Em toda
função jornalística, a preocupação ética
há de ser dominante. Ela é o centro aglutinador
dos demais conceitos afins - Justiça,
Imparcialidade e Lealdade´´. Este é o texto do
item Ética, da Carta de Princípios do O
Povo, elaborada e tornada pública há dez
anos. No seu dever de informar, o jornal
tomou todos os cuidados necessários para
que tanto acusação quanto defesa utilizassem o
espaço democrático para suas argumentações.
É isso que faz um jornalismo ético.
Na primeira
semana de dezembro, fomos surpreendidos pelo
processo que João Batista Campelo move contra o
ex-padre José Antônio Monteiro, o Correio
Braziliense e o Jornal O Povo. A
ação pede: a) Citação dos réus para,
querendo, contestar a presente, sob pena de
confesso; b) A condenação dos réus pelos
intensos danos morais provocados, a serem
apurados em liquidação de sentença; c) Sejam o
segundo e o terceiro réus condenados a divulgar
em seus periódicos, na mesma seção em que
publicaram as matérias ofensivas ao autor, e
pelo número de vezes que essas matérias foram
veiculadas, o inteiro teor da sentença que
acolha a presente ação em qualquer de seus
pedidos; d) A condenação dos réus ao pagamento
de custas processuais e honorários advocatícios
de 20%.
8)
Os questionamentos
Quem é o réu
nesse caso? O ex-padre, em favor de quem as
testemunhas da mais alta credibilidade
confirmaram ter sido ele vítima de violência, e
cujos documentos indicam indícios de tortura? O
ex-diretor-geral da PF, João Batista Campelo,
que diz na ação que a ``notícia veiculada não
é verdadeira, nem foi feita qualquer
investigação de seus elementos, tudo revelando
o intenso dolo de denegrir a honra e a
reputação do autor?´´ Ou a Imprensa, que no
seu dever de informar, garimpou dos baús da
história documentos até então inéditos,
entrevistou todos os envolvidos, ouviu até juiz
auditor militar da época e levantou opinião de
legistas, na certeza de que estava contribuindo
para o pleno exercício da democracia no nosso
País, tão duramente massacrada nos duros anos
do Regime Militar?
À Justiça
caberá o veredito final e aos leitores estão
lançadas as informações para que tracem seu
próprio juízo.
* Ana
Márcia Diógenes,
36 anos, é jornalista e Diretora de Redação do
O Povo. (Este texto fue solicitado por Sala de Prensa a la autora.)
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