O cimiento da pirâmide:
Ultrapassando
a forma para chegar
à lógica do método jornalístico
Marcelo
Soares *
"As
pessoas tendem a colocar palavras onde faltam
idéias"
Goethe, citado na Carta Capital de 10/11/99
O
jornalismo tem sido percebido, criticado e
pesquisado, década após década, como um
fenômeno da linguagem. Esta, por sua vez, é o
material que dá forma ao conteúdo
jornalístico. Os críticos da imprensa costumam
condenar o conteúdo que ela veicula, é claro.
Mas o fazem de certa maneira julgando apenas a
forma do texto jornalístico, e o fazem tendo
como padrão certa literatura da qual o
jornalismo, por não ter status de arte na
forma, é considerado um subproduto.
Florestas de
papel e rios de tinta foram gastos em análises
do jornalismo até hoje. Poucas tentaram
ultrapassar a forma e compreender os fundamentos
do jornalismo. Mais uma vez, os teóricos ditos
críticos entenderam mal o que o filósofo
alemão Karl Marx quis dizer quando escreveu que
os filósofos preocupam-se muito em entender o
mundo quando o importante é transformá-lo. As
teorias da conspração de vertente
frankfurtiana, semiologizadora ou pós-moderna
perdem tempo criticando a forma do jornalismo,
quando poderiam procurar entender sua lógica
para que aí, sim, seja possível transformá-lo.
As críticas ao lead
são um caso clássico disto. Um professor do
Instituto de Letras da Ufrgs costumava afirmar
que "texto jornalístico é um formulário
que a gente preenche" para alunos do
primeiro semestre da faculdade de jornalismo. Em
uma lista de discussão de estudantes de
jornalismo, na Internet, uma estudante carioca
escreveu: "meu professor diz que o lead foi
feito para os preguiçosos não terem acesso às
informações mais importantes". Enquanto
isso, outro professor costumava desafiar os
estudantes na primeira aula de redação
jornalística. Dizia ele que aceitava que um
aluno fosse contra o lead. Mas o ônus da
prova ficaria nas mãos do acusador, que deveria
apresentar algo melhor para colocar no lugar.
Adelmo Genro
Filho, em "O Segredo da Pirâmide",
virou a pirâmide invertida de cabeça para cima
e, ao expor a lógica por trás do lead,
expôs a ingenuidade das críticas então
vigentes em relação ao texto jornalístico. O
importante e fundamental para o jornalismo como
é conhecido hoje uma forma de
conhecimento social a partir da singularidade dos
eventos é exatamente a lógica de partir
da singularidade e depois ir particularizando.
Quer dizer: antes de ser uma forma esquemática
de texto, o lead é a expressão formal de
um raciocínio lógico que dá base à forma de
conhecimento própria do jornalismo. O próprio
Genro reconhece que, por ser um pressuposto
filosófico, o lead não precisa estar na
forma
"Fulano-disse-isto-ontem-em-tal-lugar"
e nem estar no começo do texto. Mesmo assim não
recomenda nada, não dá fórmulas pré-prontas,
não dá margem à crítica formal. O ônus da
prova ainda fica com quem inventar um jeito
melhor de fazer.
A questão da
objetividade é outro ponto em que todos têm
opinião formada, ninguém se entende e não
existe a possibilidade de erro. Proponha o tema a
uma roda de jornalistas ou estudantes de
jornalismo e veja se a maioria não será contra
antes de ouvir qualquer argumento.
O Novo
Jornalismo, como foi chamado o trabalho de
jornalistas como Gay Talese e Norman Mailer, é
considerado por muitos como a mais importante
crítica já feita à objetividade jornalística.
Esses jornalistas aproximaram o relato de fatos
reais ao modo de escrever próprio da literatura,
permitindo artifícios narrativos como monólogo
interior. Everett E.Dennis afirmava, nos anos 70,
que esta modalidade de jornalismo seria melhor
descrita como "a nova não-ficção".
Devido a suas próprias dificuldades de
apuração e redação, a não-ficção ao estilo
do Novo Jornalismo foi deixada um pouco de lado
mais recentemente.
Todos os estudos
já feitos até hoje, tanto lingüísticos quanto
psicológicos, com maior ou menor rigor,
demonstram que não há como escrever um texto
objetivo. Isto é: um texto que possa ser
percebido globalmente como a expressão da
verdade. "Um jornalismo que fosse a um só
tempo imparcial, objetivo e verdadeiro excluiria
qualquer outra forma de conhecimento, crianto o
objeto mitológico da verdade absoluta",
escreveu Nilson Lage em "Ideologia e
Técnica da Notícia".
Estudos que
contestem a noção de objetividade são louvados
e apoiados pelos teóricos pós-modernos, que
afirmam que a realidade é uma falácia. Para
eles, a percepção individual de cada um,
condicionada por preconceitos e outros
psicologismos, molda as concepções que cada
qual tem sobre o mundo. A realidade, assim, seria
transformada pelas descrições que se faz dela.
Na carona do vale-tudo pós-modernoso, grupos de
pressão assediam os jornalistas exigindo que
deficientes físicos sejam chamados de pessoas
portadoras de deficiência física e que doentes
de aids sejam chamados de soropositivos (tal como
os ratos que transmitem a leptospirose). Ao
receber um release do Hospital Psiquiátrico São
Pedro falando sobre as atividades desenvolvidas
não por seus internos ou pacientes, mas por seus
"moradores", o chefe de reportagem do
Correio do Povo ironizou: "só falta
começarem a cobrar taxa de condomínio e imposto
predial dos louquinhos".
Gaye Tuchman, no
artigo "A objetividade como um ritual
estratégico", mostra os artifícios
textuais que os jornalistas usam para poder dizer
que o que escreveram é objetivo. Boa parte do
trabalho da autora baseia-se na análise da
influência das relações interorganizacionais
sobre o trabalho jornalístico. Em seu estudo
sobre as noções de objetividade dos
jornalistas, Tuchman levou em conta três
fatores: a forma (artifícios textuais como aspas
e verbos dicendi), o conteúdo (que ela entende
por idéias prévias subconscientes do
jornalista) e as relações interorganizacionais
que são o cerne de seu trabalho. A autora
compara estes artifícios a rituais, porque seu
uso tem pouca importância, ou importância
marginal, no resultado a que se chega. Gaye
Tuchman não propõe um conceito de objetividade
que resolva essa dissonância, mas isto é
perdoável se levarmos em conta que seu trabalho
foi feito com base apenas nas noções de
objetividade dos jornalistas entrevistados por
ela. O trabalho é particularmente importante
principalmente se considerarmos os estudos do
professor norte-americano David Mindich. Em um
livro publicado em 1999, ele analisa a história
da imprensa dos Estados Unidos e demonstra que o
conceito de objetividade foi fundamental no
desenvolvimento do jornalismo daquele país.
A análise de
Gaye Tuchman é considerada por muitos a prova
cabal de que a objetividade jornalística é um
mito, um ritual de pouca importância. Sem
dúvida, é um texto importantíssimo. Mas e se
ele não for o epitáfio da noção de
objetividade? Tuchman analisou os procedimentos formais
que os jornalistas apontam quando reclamam de
seu trabalho, como o uso de aspas em citações e
igualdade de ênfase e de espaço. Este tipo de
estratégia para clamar objetividade tem sido
duramente criticado de todos os ângulos
possíveis pelo menos durante os últimos
quarenta anos. Assim, pode-se considerar que a
análise de Tuchman é uma das provas mais
consistentes de que a objetividade formal é
facilmente forjável portanto, duvidosa.
Mas então, pode-se perguntar, vale tudo no
jornalismo? Os jornalistas sentam em frente de
seus computadores e inventam a realidade? Não é
bem assim.
Philip Meyer,
que defende e comprova em "The New Precision
Journalism" a possibilidade do uso do
método científico para impulsionar o trabalho
do jornalista, analisa em um artigo de 1995 as
várias teorias ditas críticas, principalmente
as de vertente habermasiana, que negam a
possibilidade da objetividade no jornalismo. Para
Meyer, a objetividade que elas criticam é
"de fato, objetividade de resultado,
definindo a objetividade não pelo modo como
fazemos nosso trabalho de obter e interpretar os
fatos, mas pela forma como os colocamos no papel.
Inclusive se pode medir: tantas linhas para este
grupo, tantas para aquele. Em um esforço para
sermos honestos, polvilhamos nossas fontes para
produzir tantos efeitos quantos possamos". A
crítica de Meyer converge com o ritual
estratégico apontado por Tuchman.
Meyer, no texto
mencionado, diz que a objetividade de método
(não a formal ou ritual) é o que falta ao
jornalismo. Ele chegou ao cerne da questão, à
lógica do conceito. Seu exemplo no livro "A
Ética no Jornalismo" é claro: a
objetividade formal, demonstrada por Gaye Tuchman
e comparada a um ritual estratégico, dá o mesmo
peso às declarações da indústria do cigarro e
às do Ministério da Saúde ao dar-lhes o mesmo
espaço para que defendam seus argumentos.
Na objetividade
de método proposta por Meyer, as declarações
são testadas com a realidade, com os fatos. Para
ele, os jornalistas podem e devem valer-se do
método científico para melhorar a qualidade de
boa parte de seu trabalho. Por método
científico, aqui, entende-se o processo que vai
da observação à conclusão passando necessariamente
pela formulação e teste de hipóteses com
os dados da realidade. Não contente, o velho
repórter e professor da Universidade da Carolina
do Norte em Chapel Hill diz que o jornalista deve
deixar claro em seu trabalho qual foi o caminho
que seguiu para chegar às suas conclusões
ou, como queiram, ao seu lead.
Assim, quem quisesse questionar a validade do
trabalho do jornalista ou acusá-lo de má
intenção tem no próprio texto todo o mapa do
caminho feito pelo jornalista, que poderia ser
refeito e, de preferência, levando às mesmas
conclusões. Na ciência, este princípio
chama-se "replicabilidade".
As aspas
estratégicas de Gaye Tuchman são importantes.
Elas fazem parte da linguagem já codificada do
jornalismo impresso, tanto quanto o corte e a
fusão fazem parte da linguagem codificada do
cinema. Mas não é objetivo deste artigo
discutir linguagem, discutir forma do texto
jornalístico. Existem centenas de livros
escritos sobre isso. O objetivo aqui é
compreender um dos fundamentos da forma de
conhecimento social própria do jornalismo. E
para chegar a este nível de debate, é preciso
ultrapassar a forma.
Que tal se
substituíssemos a noção de objetividade por
algo com a mesma lógica mas um nome diferente
para retirar o ranço histórico do termo? O
especialista em política internacional Dani
Rodrik, em entrevista à revista CartaCapital,
afirmou o seguinte sobre o termo
"globalização": "ou você o ama
ou o odeia; uma vez que um termo se torna
escorregadio numa discussão, o discurso racional
tende a desaparecer". Rodrik propõe, para
manter a discussão em um nível civilizado, que
se fale em "internacionalização" para
não cutucar ânimos acirrados.
Yves Mamou,
editor de economia do Le Monde, escreveu certa
vez que "o problema da imprensa não é de
objetividade, e sim de exatidão". A frase
é bastante verdadeira e a idéia parece fechar
até certo ponto com a objetividade de método de
Philip Meyer.
Apenas com uma
discussão racional sobre a objetividade de
método, ou exatidão jornalística, poderemos
chegar perto de compreender parte dos fundamentos
lógicos do jornalismo para que se possa
analisá-lo com mais propriedade. O parâmetro
aqui é o que fez Adelmo Genro Filho para
compreender a lógica do lead: chutou com
força as amarras formais da pirâmide invertida
para, colocando-a de pé, descobrir o segredo da
pirâmide.
Descobrindo a
lógica do método jornalístico, poderemos
chegar perto de ver o cimento da pirâmide.
_________
Bibliografía
GENRO FILHO, Adelmo. O Segredo
da Pirâmide. Porto Alegre, Tchê, 1988.
LAGE, Nilson. Ideologia e
Técnica da Notícia, 3ª edição. 1998.
MEYER, Philip. A Ética no
Jornalismo. 1987 (ed.bras. Rio de Janeiro:
Forense,1991)
____________. The New Precision
Journalism. EUA: Indiana University Press,1991
____________. Public Journalism
and the problem of objectivity. 1995
TUCHMAN, Gaye. A Objetividade
como um ritual estratégico. 1972
_______________. La producción
de la noticia. 1978
*
Marcelo Soares é
o responsável pelas pesquisas na Internet na
redação do jornal Correio do Povo e aluno do curso de jornalismo na
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Esta
es su primera colaboración para Sala de Prensa.
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